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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Paulo Leminski - Poemas

PAULO LEMINSKI - POEMAS

Enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo 

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima
de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito
pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito
que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar
tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade
o pau na vida
o vinagre
vinho suave
pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

(Paulo Leminski)

Pariso
Novayorquizo
Moscoviteio 
Sem sair do bar
Só não levanto e vou embora
Porque tem países
Que eu nem chego a Madagascar

(Paulo Leminski)

Pra que cara feia?
Na vida ninguém paga meia.

(Paulo Leminski)

Acordei bemol
Tudo estava sustenido.
Sol fazia
Só não fazia sentido.

(Paulo Leminski)

Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

(Paulo Leminski)

“Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga.

Ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.”

(Paulo Leminski)

"Red". Lauri Blank.

Eu tão isósceles 
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão

Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

(Paulo Leminski)

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

(Paulo Leminski)

Por favor não crie clima,
Se o buraco é mais embaixo,
Nosso astral é mais em cima.


(Paulo Leminski)


amarga mágoa
o pobre pranto tem
por que cargas-d'água
chove tanto
e você não vem? 


(Paulo Leminski)

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

(Paulo Leminski)

parem 
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta

(Paulo Leminski)

quero a vitória
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão 

(Paulo Leminski)

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

(Paulo Leminski)

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