Seguidores

sábado, 26 de novembro de 2011

FUVEST 2010 – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA – COM GABARITO

FUVEST 2010 – 1º Fase – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA  


ps. Foi mantida a numeração original da prova.


Texto para as questões 20 e 21

Belo Horizonte, 28 de julho de 1942.

      Meu caro Mário,

      Estou te escrevendo rapidamente, se bem que haja muitíssima coisa que eu quero te falar (a respeito da Conferência, que acabei de ler agora). Vem-me uma vontade imensa de desabafar com você tudo o que ela me fez sentir. Mas é longo, não tenho o direito de tomar seu tempo e te chatear.

(Fernando Sabino)

20 – Neste trecho de uma carta de Fernando Sabino a Mário de Andrade, o emprego de linguagem informal é bem evidente em

a) “se bem que haja”.
b) “que acabei de ler agora”.
c) “Vem-me uma vontade”.
d) “tudo o que ela me fez sentir”.
e) “tomar seu tempo e te chatear”.

21 – No texto, o conectivo “se bem que” estabelece relação de

a) conformidade.
b) condição.
c) concessão.
d) alternância.
e) consequência.

Texto para as questões de 22 a 25

Desde pequeno, tive tendência para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!” Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças!
Ia pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor Público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição. E já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana-Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do Brasil e Argentina. Era como um alojamento de quartel, com breve espaço entre as camas e todas as portas e janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e duvidosos encantos de uma coletividade democrática.
Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei-me estremunhado* e olhei atônito para um tipo de chiru*, ali parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos. Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida calma:
– Pois é! Não vê que eu sou o sereno...

(Mário Quintana, As cem melhores crônicas brasileiras)

*Glossário:
estremunhado: mal acordado.
chiru: que ou aquele que tem pele morena, traços acaboclados (regionalismo: Sul do Brasil).

22 – No início do texto, o autor declara sua “tendência para personificar as coisas”. Tal tendência se manifesta na personificação dos seguintes elementos:

a) Tia Tula, Justo e Getúlio.
b) mormaço, clamor público, sereno.
c) magro, arquejante, preto.
d) colegas, jornalistas, presidentes.
e) vulto, chiru, crianças

23 – A caracterização ambivalente da “coletividade democrática” (L. 20 e 21), feita com humor pelo cronista, ocorre também na seguinte frase relativa à democracia:

a) Meu ideal político é a democracia, para que todo homem seja respeitado como indivíduo, e nenhum, venerado. (A. Einstein)
b) A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. (W. Churchill)
c) A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes. (B. Shaw)
d) É uma coisa santa a democracia praticada honestamente, regularmente, sinceramente. (Machado de Assis)
e) A democracia se estabelece quando os pobres, tendo vencido seus inimigos, massacram alguns, banem os outros e partilham igualmente com os restantes o governo e as magistraturas. (Platão)

24 – Considerando que “silepse é a concordância que se faz não com a forma gramatical das palavras, mas com seu sentido, com a ideia que elas representam”, indique o fragmento em que essa figura de linguagem se manifesta.

a) “olha o mormaço”.
b) “pois devia contar uns trinta anos”.
c) “fomos alojados os do meu grupo”.
d) “com os demais jornalistas do Brasil”.  
e) “pala pendente e chapéu descido sobre os olhos”.

25 – No contexto em que ocorre, a frase “estava devidamente grandezinho, pois  devia contar uns trinta anos” (L. 11 e 12 ) constitui

a) recurso expressivo que produz incoerência, uma vez que não se usa o adjetivo “grande” no diminutivo.
b) exemplo de linguagem regional, que se manifesta também em outras partes do texto, como na palavra “brandindo”.
c) expressão de  nonsense (linguagem surreal, ilógica), que, por sinal, ocorre também quando o autor afirma ouvir o M maiúsculo de “mormaço”.
d) manifestação de humor irônico, o qual, aliás, corresponde ao tom predominante no texto.
e) parte do sonho que está sendo narrado e que é revelado apenas no final do texto, principalmente no trecho “em meu entredormir”.

Texto para as questões 26 e 27

Leia esta notícia científica:

Há 1,5 milhão de anos, ancestrais do homem moderno deixaram pegadas quando atravessaram um campo lamacento nas proximidades do  Ileret, no norte do Quênia. Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu essas marcas recentemente e mostrou que elas são muito parecidas com as do “Homo sapiens”: o arco do pé é alongado, os dedos são curtos, arqueados e alinhados. Também, o tamanho, a profundidade das pegadas e o espaçamento entre elas refletem a altura, o peso e o modo de caminhar atual. Anteriormente,  houve outras descobertas arqueológicas, como, por exemplo, as feitas na Tanzânia, em 1978, que revelaram pegadas de 3,7 milhões de anos, mas com uma anatomia semelhante à de macacos. Os pesquisadores acreditam que as marcas recém-descobertas pertenceram ao “Homo erectus”. 

Revista FAPESP, nº 157, março de 2009. Adaptado.

26 – No texto, a sequência temporal é estabelecida principalmente pelas expressões:

a) “Há 1,5 milhão de anos”; “recentemente”; “anteriormente”.
b) “ancestrais”; “moderno”; “proximidades”.
c) “quando atravessaram”; “norte do Quênia”; “houve outras descobertas”.
d) “marcas recém-descobertas”; “em 1978”; “descobertas arqueológicas”. 
e) “descobriu”; “mostrou”; “acreditam”.

27 – No trecho “semelhante à de macacos”, fica subentendida uma palavra já empregada na mesma frase. Um recurso linguístico desse tipo também está presente no trecho assinalado em:

a) A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo às futuras gerações.
b) Recorrer à exploração da miséria humana, infelizmente, está longe de ser um novo ingrediente no cardápio da tevê aberta à moda brasileira.
c) Ainda há quem julgue que os recursos que a natureza oferece à humanidade são, de certo modo, inesgotáveis.
d) A prática do patrimonialismo acaba nos levando à cultura da tolerância à corrupção.
e) Já está provado que a concentração de poluentes em área para não fumantes é muito superior à recomendada pela OMS. 

Texto para as questões 28 e 29

[José Dias] Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. “Esta é a melhor apólice”, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família,
certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A roupa durava-lhe muito; ao
contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos
efeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.

(Machado de Assis, Dom Casmurro.)

28 – No texto, o narrador diz que José Dias “sabia opinar obedecendo”. Considerada no contexto da obra, essa característica da personagem é motivada, principalmente, pelo fato de José Dias ser

a) um homem culto, porém autodidata.
b) homeopata, mas usuário da alopatia.
c) pessoa de opiniões inflexíveis, mas também um homem naturalmente cortês.
d) um homem livre, mas dependente da família proprietária.
e) católico praticante e devoto, porém perverso
.
29 – Considerado o contexto, qual das expressões sublinhadas foi empregada em sentido metafórico?

a) “Teve um pequeno legado”.
b) “Esta é a melhor apólice”.
c) “certa audiência, ao menos”. 
d) “ao cabo, era amigo”.
e) “o bastante para divertir”.

30 – Por caminhos diferentes, tanto Pedro Bala (de Capitães da areia, de Jorge Amado) quanto o operário (do conhecido poema “O operário em construção”, de Vinícius de Moraes) passam por processos de “aquisição de uma consciência política” (expressão do próprio Vinícius). O contexto dessas obras indica também que essa conscientização leva ambos à

a) exclusão social, que arruína precocemente suas promissoras carreiras profissionais.
b) sublimação intelectual do ímpeto revolucionário, motivada pelo contato com estudantes.
c) condição de meros títeres, manipulados por partidos políticos oportunistas.
d) luta, em associação com seus pares de grupo ou de classe social, contra a ordem vigente.
e) cumplicidade com criminosos comuns, com o fito de atacar as legítimas forças de repressão.

31 – “(...) É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo...”

(Eça de Queirós, A cidade e as serras.)

Neste excerto, o julgamento expresso por Jacinto, ao falar de um casal que o serve em sua quinta de Tormes, manifesta um ponto de vista semelhante ao do 

a) Major Vidigal, de  Memórias de um sargento de milícias, ao se referir aos  desocupados cariocas do tempo do rei.
b) narrador de Iracema, em particular quando se refere a tribos inimigas e a franceses.
c) narrador de  Vidas secas, principalmente quando ele enfoca as relações sexuais de Fabiano e Sinha Vitória.
d) Anjo, do  Auto da barca do inferno, ao condenar os pecados da carne cometidos pelos humanos.
e) narrador de  O cortiço, especialmente quando se refere a personagens de classes sociais inferiores.

32 – Inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão quando se fizer preciso.

(Jorge Amado, Capitães da areia.)

O tipo cujo perfil se traça, em linhas gerais, neste excerto, aparece em romances como Memórias de um sargento de milícias, O cortiço, além de Capitães de areia. Essa recorrência indica que

a) certas estruturas e tipos sociais originários do período colonial foram repostos  durante muito tempo, nos processos de transformação da sociedade brasileira.
b) o atraso relativo das regiões Norte e Nordeste atraiu para elas a migração de tipos sociais que o progresso expulsara do Sul/Sudeste.
c) os romancistas brasileiros, embora críticos da sociedade, militaram com patriotismo na defesa de nossas personagens mais típicas e mais queridas.
d) certas ideologias exóticas influenciaram negativamente os romancistas brasileiros, fazendo-os representar, em suas obras, tipos sociais já extintos quando elas foram escritas.
e) a criança abandonada, personagem central dos três livros, torna-se, na idade adulta, um elemento nocivo à sociedade dos homens de bem.

33 – Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
        Uma quentura, um querer bem, um bem
        Um “libertas quae sera tamen”*
        Que um dia traduzi num exame escrito:
        “Liberta que serás também”
        E repito!

(Vinícius de Moraes, “Pátria minha”, Antologia poética.)

*A frase em latim traduz-se, comumente, por “liberdade ainda que tardia”.

Considere as seguintes afirmações:

I.  O diálogo com outros textos (intertextualidade) é procedimento central na composição da estrofe.
II.  O espírito de contradição manifesto nos versos indica que o amor da pátria que eles expressam não é oficial nem conformista.
III.  O apego do eu lírico à tradição da poesia clássica patenteia-se na escolha de um verso latino como núcleo da estrofe.

Está correto o que se afirma em

a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) I e II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.

34 – Em qual destas frases a vírgula foi empregada para marcar a omissão do verbo?

a) Ter um apartamento no térreo é ter as vantagens de uma casa, além de poder desfrutar de um jardim.
b) Compre sem susto: a loja é virtual; os direitos, reais.
c) Para quem não conhece o mercado financeiro, procuramos usar uma linguagem livre do economês.
d) A sensação é de estar perdido: você não vai encontrar ninguém no Jalapão, mas vai ver a natureza intocada.
e) Esta é a informação mais importante para a preservação da água: sabendo usar, não vai faltar.

35 – A única frase que segue as normas da língua escrita padrão é:

a) A janela propiciava uma vista para cuja beleza muito contribuía a mata no alto do morro.
b) Em pouco tempo e gratuitamente, prepare-se para a universidade que você se inscreveu.
c) Apesar do rigor da disciplina, militares se mobilizam no sentido de voltar a cujos postos estavam antes de se licenciarem.
d) Sem pretender passar por herói, aproveito para contar coisas as quais fui testemunha nos idos de 1968 e que hoje tanto se fala.
e) Sem muito sacrifício, adotou um modo de vida a qual o permitia fazer o regime recomendado  pelo médico.


GABARITO

20 – E     21 – C     22 – B     23 – B     24 – C     25 – D  
26 – A     27 – E     28 – D     29 – B     30 – D     31 – E
32 – A     33 – C     34 – B     35 – A

3 comentários:

  1. Muito bacana teu blog! Material excelente! FAli
    (fali.no.comunidades.net)

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelo elogio, Fátima! Já vi que você é companheira de profissão. E que sobrenome poderoso você carrega, hein, rs... o do Mestre Said Ali! Fique à vontade para navegar pelo blog e pode entrar em contato quando quiser. Grande abraço!

    ResponderExcluir
  3. A questão 20 me deixou uma duvida é certo dizer acabei de ler agora ? Se eu acabei de ler é agora ... A palavra agora é momentânea no momento.

    ResponderExcluir