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domingo, 1 de abril de 2012

Texto - "Receita padrão de adultério" - Carlos Heitor Cony

Receita padrão de adultério


Fique sabendo que nenhuma mulher nasce adúltera, como os poetas que nascem poetas.

NÃO SUPORTOU mais e foi procurar o amigo escritor. Era amizade antiga, mas distante. De há muito o considerava um péssimo caráter, capaz de cometer qualquer miséria desde que tivesse lucro com uma mulher ou com um assunto que lhe desse inspiração. Aproveitava-lhe a sabedoria, mas evitava contagiar-se com a devassidão de sua vida abominável.
Ele desejava mudar o nome do prédio onde morava (Babilônia), aconselhara-se com o amigo, haveria uma reunião de condomínio e o escritor incentivou-o, que fosse formidando ao fazer a proposta.
– Formidando? Quê que é isso?
– Uma expressão clássica, Raul Pompeia usava muito em "O Ateneu", o professor Aristarco era formidando. Significa formidável, feroz, tonitruante.
– É isso aí! Serei formidando!
A reunião foi numa sexta-feira, à noite, nada teve de formidanda. No sábado, ele voltou ao amigo.
– Como é? Você foi formidando?
– Formidando uma ova! Foi um desastre!
– Mas por que diabo você quer mudar o nome do prédio?
"Retrato de uma jovem mulher" (La Fornarina)
Óleo. 1518-1519. Rafael
Abriu-se. Pela primeira vez na vida, abria-se.
Tinha medo de ser traído. Sabia que as mulheres depois de certa idade sofriam crises, as tentações eram muitas. Ele achava que o nome "Babilônia" era um péssimo agouro. Mas reconhecia que não adiantava mudar o nome do prédio.
– É. Não resolve mesmo, admitiu o amigo.
– Você seria capaz de dar em cima da minha mulher?
A pergunta, à queima-roupa, desorientou o escritor, que apesar de cínico não estava preparado para ela.
– Não. Ela é muito magra.
– Era. Agora engordou um pouco.
Para ser fiel ao papel de cínico, o amigo novamente admitiu:
– Bem, se está no ponto, por que não?
– Você gosta de mulher gorda?
– Nada disso. Mas mulher magra foi uma impostura dos costureiros, dos modistas. São, em geral, pederastas. Odeiam a mulher. Querem os homens todos para eles e o melhor modo de eliminar a concorrência é obrigar a mulher a ficar ossuda, sem carnes. As idiotas fazem regime, ficam com as pernas que parecem palitos, a bunda vira uma tábua. Não é à toa que os homossexuais terminam levando vantagens. Agora, veja, as fêmeas bíblicas, a mulher das Escrituras, as mulheres de Renoir, de Rubens, as madonas, a "Fornarina" de Rafael...
– Bem, eu não entendo muito disso, mas acho que você tem razão.
– Uma porrada de razão! Os homens gostam e se casam com mulheres magras para a exibição, o jogo social. Na hora de rebolar na cama, preferem as gordinhas, as falsas magras...Todas as amantes dos meus amigos são assim...
– Eu não tenho amantes, Otávia me basta.
O amigo ia dizer qualquer coisa, freou-se a tempo.
– Você acha que sua mulher seria capaz de um adultério?
– Sei lá.
– Bom, em princípio todas as mulheres são capazes disso. Elas têm a matéria-prima do adultério: o sexo e o marido. Falta apenas o beneficiamento, que é o terceiro elemento, o amante, que não é difícil de encontrar. Mas fique sabendo, nenhuma mulher nasce adúltera, como os poetas que nascem poetas. Ela se faz, como os oradores. Ou melhor, o marido é que a faz adúltera.
– Você já cometeu adultério?
O amigo fingiu que não ouvira bem, mesmo assim tirou o corpo fora:
– Eu sou solteiro!
– Não é isso que quero dizer. Pergunto se você já cometeu adultério com alguma mulher casada?
– Que eu saiba, não. Não gosto de adultérios. Eles precisam de hotéis sórdidos, exigem códigos ridículos, praticam ritos abomináveis, dificilmente se comete adultério em paz de espírito.
– Isso é necessário? Essa paz de espírito?
– Tanta mulher no mundo, porque escolher uma que pode dar problema?
– O problema pode compensar.
Calaram-se por um tempo. O escritor ofereceu um uísque.
– Bem, por hoje chega. Aprendi bastante. Outro dia apareço.
 Você tem lido meus livros? -a pergunta foi também à queima-roupa.
– Não. Otávia acha-os indecentes e eu termino escondendo-os. Na última mudança, sumiram.
– Ainda bem. Qualquer que seja a solução do seu caso, mantenha-me informado. Você pode me dar bom assunto.

(Carlos Heitor Cony, crônica adaptada para o jornal “Folha de São Paulo”, em 29/02/2008; a história completa está em seu livro “O burguês e o crime e outros contos”)

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