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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Texto: "O pôr-do-sol no Peloponeso" - Affonso Romano de Sant´Anna

O pôr-do-sol no Peloponeso

               Agora que as férias acabaram e todo mundo está voltando com as malas cheias de narrativas fantásticas, devo advertir que é necessário desconfiar. Desconfiar sempre, como dizem em Minas. Porque se há um lado de revelação e encantamento, a viagem é quando o ser humano entra em total desamparo. Fica tão exposto e frágil quanto um recém-nascido. Por isto, toda vez que vejo um turista com aquele olhar de santo paspalhão pedindo socorro e informações, tenho ímpetos de acolhê-lo em minha casa, dar-lhe sopa quente, cobertor e cantar-lhe uma canção de ninar. 
"Amanhecer". 1944. Juan Miró.
               E eu que tenho falado tão bem de viagens, devo confessar: há viagens que são um equívoco total. Já nem falo de ser roubado, o hotel não ter feito reserva, perder avião. Falo de desamparo mesmo. Como aquele casal que estava saindo num táxi depois de horas agradáveis numa boate no Egito e, de repente, vê o chofer parar o carro, furioso pegar uma espada e partir para cima deles, que começaram a correr em volta do carro, como num filme de comédia, até se escafederem por uma rua, assustadíssimos, sem entenderem nada. É que homens e mulheres não podiam se beijar na lua cheia, segundo a religião do motorista, e por isto o casal brasileiro quase foi degolado no Cairo.
               Por exemplo: seu eu dissesse que vi o pôr-do-sol no Peloponeso as pessoas iam ficar imediatamente mortas de inveja. Ah, o pôr-do-sol no Peloponeso! Ah, a Grécia! Os mitos! Uma lua-de-mel entre ilhas mágicas! Um Peloponeso na minha vida, era tudo o que eu precisava!
               Mentira. Eu lhes digo o que é um pôr-do-sol no Peloponeso.
               Primeiro alguém lhe conta num belíssima cartão-postal vindo da Grécia  que está num navio indo da Itália para a Grécia. E descreve tantas e tais maravilhas, que você já não quer mais nada, senão vender terreno e ações, fazer dívida e pegar aquele navio com a pessoa amada.
               Foi o que fiz. A companhia de turismo nos dizia que desceríamos de trem em Brindisi, sul da Itália, e a estação era em frente ao cais. Não era. E chovia. E até descermos as malas os taxias acabaram. Andando na chuva com malas consegui um.
               Chegamos ao porto. Não se entrava logo no navio. Subíamos e descíamos prédios carregando malas, carimbando passaportes, até chegar na escada do navio. Chovia. E havia uma fila. E chovia. E havia três andares para subir de escadas. Nenhum funcionário para subir as malas. Ao contrário. A fila não andava. Porque em cada andar havia um funcionário com uma mesinha para recarimbar documentos.
               Enfim, chega-se ao convés. E toda a procurar a cabine. Acho que tinha dois metros quadrados. Se um abrisse a mala ou o armário, o outro tinha que sair da cabine. Mas o que é isto para quem vai ver o pôr-do-sol no Peloponeso? Enfrenta-se tudo e uma enorme fila no restaurante-bandejão, porque o pequeno restaurante, que é melhor, tem horário certo e já fechou.
               Mas o peloponeso, Delfos, Atenas, Corinto, Homero, Macedônia e Beócio nos esperam. Beócios estamos nós vendo o tombadilho coalhado de estudantes dormindo pelo chão. E, como chovia, se amontoavam como num navio de imigrantes. Mesmo assim, apagamos. Mas não se sabe por que, às cinco da manhã marinheiros aflitos batem
em nossa porta, anunciando ilhas, que nenhum sonolento quer ver.
        Até depois do almoço não há novidades no front. Mas começam a avisar por alto-falante que todos os passageiros tinham que se dirigir às três da tarde para o convés esquerdo para o desembarque. E como exigem que evacuemos a cabine começamos a subir e descer escada com malas até chegar ao convés. Ia-se desembarcar em Patras. A multidão que ali estava acumulada com mochilas e malas parecia estar filmando o desembarque do Exodus na Palestina. E ali permanecemos, como sardinhas, para nada, duas horas em pé, sem poder voltar para dentro do navio, sem poder descer.
        E começa o entardecer no Peloponeso. Lá pelas seis apenas descemos ao trambolhões com malas. Andaremos quinhentos metros, com malas, atravessando todo
o cais. E como a fila para trocar moedas gregas é grande, e passam os turistas em grupo na frente, perderemos o trem para Atenas. E como não há mais táxi, andaremos um quilômetro. Agora sei que são a Maratona e os Doze Trabalhos de Hércules. Enfim, famintos e desolados, descolamos um ônibus tardiamente para Atenas. Aí um grego gentil me promete um belíssimo hotel, que era tudo o que precisávamos. Claro, em Antenas o chofer nos levou para uma pocilga, pois ganhava para isto. E às duas da manhã mudei para uma pocilga melhor, até poder no dia seguinte começar uma viagem realmente encantatória, inigualável, inesquecível.
        Mas por enquanto estou com a mulher no convés do navio olhando para o porto de Patras, num vento frio safado. Eu, desoladíssimo, olho para ela, magnânima, compreensiva e generosa aponta para o horizonte e diz irônica: "Olha, o pôr-do-sol no Peloponeso!".
        Olhei e vi. Era realmente o pôr-do-sol no Peloponeso.

(Affonso Romano de Sant´Anna, in "Porta de colégio e outras histórias")

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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