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domingo, 31 de agosto de 2014

Texto: "O remo" - António Carneiro Gonçalves

O remo

— Faz-me perguntas — pediu. Encontrava-o todas as tardes à porta do mesmo bar. Normalmente entrávamos, bebíamos um copo e íamos para casa. Conversávamos pouco. Nestes últimos dias andava esquisito.
— Que espécie de perguntas?
— Sei lá . . . Pergunta-me se sonhei, por exemplo.
Eu estava sério. Estudava-lhe o aborrecimento, aquele desapego sem medida por todas as coisas.
"Portrait of two women". Diego Rivera.
— Sonhaste?
— Sonhei.
Ficamos calados, Pôs-se a olhar para mim e insistiu:
— Então? 
— Então o quê?
— Pergunta com quem sonhei.
E eu:
— Com quem sonhaste?
— Com duas mulheres.
Ficamos calados. Voltou a insistir:
— Então?
— Então o quê?
— Pergunta mais coisas. Pergunta tudo o que se pode perguntar acerca de um sonho. Já sabes que sonhei com duas mulheres. O resto é fácil, não te parece?
— Claro. Vou perguntar-te tudo o que é possível perguntar acerca de um sonho.Ora ouve:
— Conhecias as mulheres do sonho?
Não me parecia mais perturbado que de costume.
— Conheço sempre as mulheres com quem sonho.
— Isso é mau. Devíamos sonhar com as outras.
E ele, rápido:
— Deixa-te de considerações e faz perguntas.
— Que te aconteceu no sonho?
— Essa pergunta é para mais daqui a um bocado. Pergunta onde passamos a noite.
Perguntei.
— No meu quarto. Não em minha casa, mas no meu quarto. Sabes que há tipos com sorte, casam com mulheres giras, bonequinhas, uma coisa compensa a outra e a
vida leva-se. Agora a mim calhou-me cá um estafermo... como querias que fosse em minha casa?
— Então de quem era o quarto?
— Era meu.
— Tens algum apartamento?
Riu com suavidade.
— Não é isso. Era meu no sonho. Não tenho apartamento, não tenho automóveis. Tenho todos os requerimentos da Repartição, montanhas de papéis. Tiranos polidos, ditadores intratáveis, fazem-me um cerco de estratégias.
— Também tens um filho.
Falei-lhe nele porque era preciso dizer alguma coisa. O seu aborrecimento era contagioso e suspicaz: via em cada palavra um retiro, açoitava-se à claridade amiga das coisas mais simples.
— Tenho. Digo-lhe a todos os almoços que não deve comer com as mãos. Mas o tipo insiste e eu qualquer dia desisto. Passamos todos a comer com as mãos e pronto.
— Já posso perguntar o que aconteceu no sonho?
— Ainda não. Pergunta primeiro quem eram as mulheres.
Perguntei.
— As mesmas — retorquiu — que encontro aqui várias vezes quando estamos a beber um copo.
— Ah sim?
Deu de ombros. Ficamos calados. E ele, de novo:
— Já podes fazer aquela pergunta.
— Que te aconteceu no sonho?
— Estávamos nus e foi o diabo. Sentia no corpo a contensão que inquieta os touros nos curros. Um garanhão incisivo. Incisivo e com um fôlego de se lhe tirar o chapéu, sabes o que isso é? O fôlego dava as mãos à imaginação e depois de fazermos muitas coisas lembro-me de ter agredido com os calcanhares a cauda de um cometa.
— Bravo. E isso durou toda a noite?
— A noite toda.
Ficou calado. A seguir.
— Pergunta o que aconteceu quando o sonho acabou?
— Que aconteceu?
Não respondeu. Deixei passar alguns momentos e repeti a pergunta.
— Que aconteceu quando o sonho acabou?
— Aborreci-me. À tarde vim até aqui beber um copo. Foi naquele dia em que adoeceste.
Mal entrei encontrei as duas. Riam ao balcão.
— Quais duas?
— As duas mulheres do sonho, ora quem havia de ser.
— Ah sim?
— Agora não faças perguntas. Estavam as duas e disseram-me ao mesmo tempo: "Olha, esta noite sonhamos contigo." Desatei a rir. E elas, sempre as duas "Onde é que está a piada? O que tem graça, disseram ainda, foi termos na mesma noite sonhado as duas contigo; estávamos, quando entraste, a contar o sonho uma à outra". Eu disse-lhes que também tinha sonhado com elas. Curioso como acreditaram logo. Podes continuar a perguntar.
— E depois?
— Depois o quê?
— A história acaba aí?
— Claro que não.
— que fizeram depois?
— Convidei-as para a minha mesa e combinamos transferir o sonho para o quarto de uma delas. Concordaram. Mas antes disso, talvez para comemorar, mandamos vir bacalhau e umas tantas garrafas de vinho.
— E depois?
— Depois o quê?
— Comeram o bacalhau?
— Comemos e bebemos muito. As coisas embrulharam-se porque elas beberam bastante. Fomos conforme pudemos para o quarto e ainda não nos tínhamos despido totalmente já estávamos a dormir. Quando acordei havia nódoas de vinho por todo o lado, não era possível fazer fosse o que fosse. Sabes que estou casado com um estafermo e lembrei-me disso. Mas fazer ali alguma coisa era como desovar num barril. Aqueles diabos até o vinho conseguiram prostituir: descia-lhes pelos seios, metia-se-lhes pelas coxas.
— E depois?
— Vesti-me e vim para a rua.
— E agora?
— Acaba lá com as perguntas. Sabes o que me apetece? Qualquer dia pego num remo e fujo. Mato adiante, só paro quando tropeçar na primeira aldeia. Logo que veja um homem: "Sabes o que é isto?", e mostro-lhe o remo. Se ele disser que é um remo continuo a fugir. Juro-te que ninguém me agarra. Fugirei até desentranhar nova aldeia, até que ela me surja, por entre as franjas das árvores mais altas da floresta, limpa como no princípio do mundo. E logo que veja o primeiro homem pergunto: "Sabes o que é isto?" E se mesmo assim ele disser que é um remo, continuarei a fugir. Quando enfim encontrar o homem que for capaz de dizer que aquilo é uma pá de moinho, espeto o remo no chão, instalo-me e recomeço a viver.

(António Carneiro Gonçalves, in “Contos e lendas”)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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