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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Texto: "O carnaval e o menino" — Carlos Heitor Cony

O carnaval e o menino

            "No grande teatro da vida/ vão levar mais uma vez/ a revista colossal:/ pierrô, arlequim, colombina/ vão a preços populares/ repetir o carnaval." Taí a quadrinha de antiga, eu era menino e esperava o carnaval com certo temor, medo dos mascarados e, ao mesmo tempo, vontade de ser um deles.
"Arlequim e Colombina". Damião Martins.
            Até que fui -e não apenas durante o carnaval. Grudei na cara várias máscaras -e se não obtive poder e glória, ao menos sobrevivi no meu canto, fazendo um tipo de carnaval a meu modo, véspera de cinzas. 
            Já encarei de tudo. Desde os retiros espirituais no seminário (segundo as santas regras de Santo Afonso Maria de Ligório), até o retiro forçado na cela da Polícia Especial.
Também fui a outros folguedos. Para opróbrio dos meus descendentes, saí de morcego assustando outras crianças em Paquetá. Minha mãe havia feito complicada fantasia de chinês (ou japonês, dava na mesma), cuja atração era o chapéu de cartolina, em óbvio feitio de chapéu de chinês.
           Tomaram meu silêncio como aprovação. Suei frio ao me imaginar com aquele chapéu, mas aí o meu irmão virou a mesa, ele ia sair de reles marinheiro americano, não era bem uma fantasia mas um quebra-galho carnavalesco, urinou em cima do meu chapéu chinês.
           Não havia tempo para a fabricação de um artefato elaborado como aquele. O pai deu-lhe safanões por conta do chapéu e de outras patifarias genéricas e acumuladas. Minha mãe foi ao armarinho, comprou pano preto, a horrível máscara que cheirava a papelão e a cola -e assim passei e passeei os três dias pelas ruas cheias de sol de Paquetá, dando susto nas crianças que conhecia e evitando aquelas que não conhecia, podiam ser mais fortes do que eu e aí o sovado seria eu.
          Quando a tarde caía, botava a máscara para trás da cabeça, sentindo-me amaldiçoado, perguntando-me sem resposta: quem foi o cretino que inventou essas coisas? Em casa, queriam saber se eu havia gostado. Respondia que sim.
             No rádio, tocavam as músicas do ano, o grande teatro da vida, o pierrô, o arlequim, a colombina a preços populares -o pai não achava os preços tão populares assim. E numa madrugada ele me acordou e me levou até a ponte onde chegava a última barca trazendo os escombros, mutilados pedaços de um rancho que voltava do Rio. Os fogos-de-bengala, ainda vivos e esverdeados, iluminavam as espumas que vinham morrer na praia dos Tamoios. As lanternas de vidro colorido refletiam-se nas cabeleiras empoadas dos mestre-salas.
            Ao pisar terra firme, o rancho renascia de seu cansaço e se arrastava uma vez mais na marcha-hino que louva a ilha, "Paquetá é um céu profundo/ que começa neste mundo/ mas não sabe onde acabar". O ritmo era mais lento e as luzes ficavam mais tristes dentro da madrugada. Longe, o faroleiro do Xeréu apagava seu facho vermelho: era outro dia.
              Vestia o morcego outra vez, a máscara com cheiro de papelão e cola, e eu sozinho, eu-morcego, batendo as ruas cheias de sol, encontrava outros morcegos, era uma espécie de fantasia oficial dos meninos de Paquetá.
            E sentia frio na espinha quando esbarrava com uma caveira, de camisola branca e encardida, a cruz preta nas costas, devia ser um garoto igual a mim, mas nunca se sabe, e esta dúvida me perseguia a tarde inteira, por que botam caveiras nas ruas do carnaval?
           E eu não entendia o grande teatro da vida (tampouco o entendo agora) nem o pierrô com seu branco rosto banhado de luar. E quando tirava a máscara, ela estava molhada de suor, um suor tão salgado e meu que parecia lágrima.

(Carlos Heitor Cony, Folha de S. Paulo, 24.02.1998)


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