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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Miguel Torga - Poeta Imenso, Imenso Poeta!

Miguel Torga - Poeta Imenso, Imenso Poeta!

Um dos meus poetas favoritos. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que tive o grande prazer da descoberta dos poemas de Miguel Torga. Daquele dia em diante, a fascinação só aumentou. Dono de uma precisão absurda, poeta de autenticidade absoluta, faz uso primoroso do léxico para criar pequenas obras-primas da língua. Espero que vocês se deleitem com a grandeza ímpar desse mestre. Seguem o perfil e alguns poemas.

- Nasceu em São Martinho de Anta, Portugal, em 1907 e faleceu em Coimbra, em 1995.
- Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra.
- É considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX.
- Obra de grande caráter humanista.
- Escreveu em prosa os “Diários”, que fizeram grande sucesso literário.
- Temas principais de sua poesia: angústia e desespero do mundo, drama da criação poética e a problemática religiosa.
- Poesia telúrica; poeta extremamente apegado a sua terra e a seu povo natal.
- Poesia social, inquieta, reflexiva e libertadora.

Um poema

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

(Miguel Torga, in “Diário XIII”)

“Canta, poeta, canta
Violenta o silêncio conformado
Cega com outra luz a luz do dia
Desassossega o mundo sossegado
Ensina a cada alma a sua rebeldia”

(Miguel Torga)


“Por que não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.”

(Miguel Torga)


Letreiro

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuizo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

(Miguel Torga)

Perenidade

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

(Miguel Torga)


Idílio

Lírica, a tarde cai
Com secura nas folhas;
Lírica, a minha vista vai
A olhar o que tu olhas…

Oliveiras de sonho
A ver nascer a lua…
Liricamente ponho
A minha mão na tua.

(Miguel Torga, in Diário I - 1941)


Ditirambo
"Les amourex de Normandie". Claude Theberge.

“É o amor que me inspira 
Amo a vida, esta bela prostituta. 
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante.

Amo-a, e canto esse gosto renovado
De uma grande paixão sobressaltada.
De um leito de soluços e suspiros
Misturados,
Ergo a voz e celebro
Os sublimados deuses
Que, divinos, me deram
O bem humano que nunca tiveram.”

(Miguel Torga)

"Gosto do mar desesperado
a bramir e a lutar
E gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar."

(Miguel Torga)

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

(Miguel Torga)

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Pedagogia

Brinca enquanto souberes! 
"Meninos pulando carniça". Portinari.

Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

(Miguel Torga)

Parque infantil

Joga a bola, menino!
Dá pontapés certeiros
Na empanturrada imagem
Deste mundo.
Traça no firmamento
Órbitas arbitrárias
Onde os astros fingidos
Percam a majestade.
Brinca, na eterna idade
Que eu já tive
E perdi,
Quando, por imprudência,
Saltei o risco branco da inocência
E cresci.

(Miguel Torga, in Diário VII -1956)


Contemplação

Num berço de granito,
Com a manta do céu
A cobrir-lhe a nudez,
A minha infância dorme.
Nem bruxas, nem fadas
A velar-lhe o sono.
No mais puro abandono
Do passado,
Respira docemente,
Enquanto eu, inútil enviado
Do presente,
Sobre ela me debruço,
E soluço.

(Miguel Torga, in Diário VIII -1959)


Fado

Não dou paz, nem a tenho.
Os outros vão, e eu venho
Das ilusões...
No meu adeus mais puro transparece
O logro e o tédio do caminho andado...
E o sol dos corações
Arrefece
A cada encontro
Desencontrado.

(Miguel Torga, in Penas do Purgatório -1954)


Confidencial

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

(Miguel Torga)

Exortação

“Em nome do teu nome,
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade  
— Homem, lembra-te bem —!
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;

Leva, dourado,
O sol da consciência
Às íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar...”

(Miguel Torga)

Guerra Civil

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

(Miguel Torga)


Rendição

Vem, camarada, vem
Render-me neste sonho de beleza! 
"Two Men". Caspar. D. Friedrich

Vem olhar doutro modo a natureza
E cantá-la também!

Ergue o teu coração como ninguém;
Fala doutro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!

Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei
E cobri-a de versos e de espanto.

Mas, se o facho é maior na tua mão,
Vem, camarada irmão,
Erguer sobre os meus versos o teu canto.

(Miguel Torga)

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Leia também:

"O Amor de Tumitinha" - Mário Prata
Guilherme de Almeida - Poemas
"A Velhinha Contrabandista" - Stanislaw Ponte Preta
Cecília Meireles - Poemas

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Texto - "O Amor de Tumitinha" - Mário Prata

O Amor de Tumitinha

   Você também deve ter alguma palavra que aprendeu na infância, que tinha um certo significado e aquilo ficou impregnado na sua cabeça para sempre. Só anos depois veio a descobrir que a palavra não era bem aquela e nem significava aquilo. E, assim, existem várias palavras. Por exemplo:
Mário Prata

 Pé de Cachimbo - A frase "hoje é domingo, pé de cachimbo". Na verdade, não é pé de cachimbo, mas sim pede (do verbo pedir) cachimbo. Ou seja, pede paz, tranquilidade, moleza.. E a gente sempre a imaginar um pé de cachimbo no quintal, todo florido, com cachimbos pendurados, soltando fumaça.

  Nabucodonosor - Eu sempre achei que o babilônico Nabuco fosse um país chamado Nosor. Era Nabuco do Nosor. Achava que devia ser na África, perto do Quênia, por ali. Hoje já sei que Nabuco é um bar na Villaboim.

  Álibi - Quando eu era garoto, tarado por filmes de bandido e mocinho, sempre achei que Álibi era o amigo do Mocinho. Claro, o Mocinho sempre tinha um Álibi e o bandido não. O Álibi, nos filmes geralmente, era um velhinho. Mas resolvia.

  Atalibálago - Esta é do escritor Fernando Moraes. Quando era garoto, em Minas, viu um nome escrito com cal numa enorme parede de pedra: Atalibálogo. Adorou o nome, chegou até a comentar com o pai e nunca se esqueceu da esquisitice. Era pequeno, achava quer era um palavrão. Xingava as pessoas: seu atalibálago! Filho de uma atalibálaga! Só anos depois mais tarde, veio a descobrir que, na verdade, era um candidato a deputado que um dia acabou se elegendo e se chamava, na verdade, Ataliba Lago.

   Margarida - Esta está até em uma peça. A personagem pensava: Do que a terra... Margarida...

   Sulfechando - Meu primo, um dia perguntou ao pai dele o que significava o verdo Sulfechar. O pai alegou que esse verbo não existia e teve que provar com dicionário e tudo. Como o garoto insistia em conjugar o verbo, o pai perguntou onde ele tinha ouvido tal disparate. E ele disse e cantorolou aquela música do Tom Jobim: são as águas de mar sulfechando o verão...

  Ventre Jesus - Aprendi a rezar Ave-Maria ainda analfabeto, com três ou quatro anos. E sempre achei que Ventre era o primeiro nome do Homem, quando dizia do nosso Ventre Jesus. Aliás, achava um belo nome para Deus: Ventre Jesus!

   Tumitinha - Todo mundo conhece a música Ciranda-Cirandinha. A Adriana, uma amiga, me confessou que durante anos e anos, entendia um verso completamente diferente. Quando a letra fala o amor que tu me tinha era pouco e se acabou, ela achava que era o amor de Tumitinha era pouco e se acabou. Tumitinha era um menino, coitado. Ficava com dó do Tumitinha toda cez que cantava a música, porque o amor dele tinha se acabado. E mais, achava que Tumitinha era um japonesinho. Devia se chamar, na verdade, Tumita. Quando ela descobriu que o Tumitinha não existia, sofreu muito. Faz análise até hoje.

(Mário Prata, crônica para o jornal “O Estado de São Paulo”)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uso de “se não” e “senão”

Uso de “se não” e “senão”

Muitos se confundem quanto ao uso dessas duas formas. As seguintes regras podem ser usadas para diferenciá-las:

Senão equivale a “caso contrário”, “do contrário”, “a não ser”.

Exemplos:

Melhor sairmos cedo, senão pegaremos muito trânsito.
(Melhor sairmos cedo, caso contrário pegaremos muito trânsito)

Estude bastante para a prova, senão não passará.
(Estude bastante para a prova, caso contrário não passará).

Não lhe restou alternativa, senão aceitar a proposta.
(Não lhe restou alternativa, a não ser aceitar a proposta).

Ninguém vem ao Pai senão por mim.
(Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.)

A palavra “senão” também pode vir substantivada e, nesse caso, equivale a “defeito”, “falha”.

Não houve um senão em sua redação.
(Não houve uma única falha em sua redação)

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“Se não” equivale a “caso não”,  “quando não”. Trata-se de uma conjunção condicional acrescentada do advérbio de negação “não”.

Se não chover, iremos para a praia.
(Caso não chova, iremos para a praia)

Se não fosse o absurdo trânsito de São Paulo, teria chegado em tempo.
(Caso não fosse o absurdo trânsito de São Paulo, teria chegado em tempo.)

Há ainda o caso em que o “se” é uma conjunção integrante introduzindo uma oração subordinada substantiva direta e pode vir seguido de não.

Perguntei ao meu irmão se não queria assistir ao jogo comigo.
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Exercícios – Complete com “senão” ou “se não”

1.Ninguém, ______ o meu tio, entendeu a piada.
2.  _______ fizer toda a lição, não poderá jogar bola.
3.  ________ for possível irmos hoje, viajaremos amanhã.
4.  _______ não chover, teremos um belo jogo.
5.  Anote o meu telefone, _________ não poderá falar comigo.
6.  __________ fosse a intervenção do professor, poderia ter saído uma briga.
7. Não encontrei um _________ em sua prova.
8. Faça todas as lições, _______ ficará de castigo.
9.  _________ quiser chegar atrasado, durma cedo.



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quarta-feira, 4 de maio de 2011

GUILHERME DE ALMEIDA - POEMAS

GUILHERME DE ALMEIDA - POEMAS

NÓS, I

O pequenino livro, em que me atrevo
a mudar numa trêmula cantiga
todo o nosso romance, ó minha amiga,
Guilherme de Almeida
será, mais tarde, nosso eterno enlevo.

Tudo o que fui, tudo o que foste eu devo 
dizer-te: e tu consentirás que o diga,
que te relembre a nossa vida antiga,
nos dolorosos versos que te escrevo.

Quando, velhos e tristes, na memória
rebuscarmos a triste e velha história
dos nossos pobres corações defuntos,

que estes versos, nas horas de saudade,
prolonguem numa doce eternidade
os poucos meses que vivemos juntos.

(Guilherme de Almeida)

NÓS, III

Estas e muitas outras cousas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.

(Guilherme de Almeida)

NÓS, XV

Falam muito de nós. Quanta maldade,
quanta maledicência, quanta intriga!
"É um pobre sonho de felicidade..."
"É um romance de amor à moda antiga!"

"Isso não passa de uma história, que há de
acabar como todas..." E há quem diga:
"Já são muito mal vistos na cidade
aquele moço e aquela rapariga!"

Diz-se... E eu sinto, num trêmulo alvoroço,
que vou ficando cada vez mais moço,
que vais ficando cada vez mais bela...

Nosso mundo (fale o outro: pouco importa!)
fica todo entre o quadro de uma porta
e o retângulo azul de uma janela.

(Guilherme de Almeida)

NÓS, XXII

Tu senhora, eu senhor, ambos senhores
de um pequenino mundo. No caminho,
nunca vi flores em que houvesse espinho,
nunca vi pedras que não fossem flores.

Naquele quarto andar, longe das dores
e tão perto dos céus, com que carinho,
com quanto zelo edificaste o ninho
do mais feliz de todos os amores!

Tudo passou. Um dia, triste e mudo,
deixaste-me sozinho. Hoje tens tudo:
és rica, és invejada, és conhecida...

E eu tenho apenas, desgraçado e louco,
daquele amor que te custou tão pouco
esta saudade que me custa a vida!

(Guilherme de Almeida)

NÓS, XXVII

Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado
passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo, esquecido de teu olhar — coitado!
Vais — coitada! — esquecida de que existo:
como se nunca tu me houvesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado!

Se às vezes, sem querer, nos entrevemos;
se, quando passo, o teu olhar me alcança,
se os meus olhos te alcançam, quando vais,

— ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos! —
volta-nos sempre a pálida lembrança
daqueles tempos que não voltam mais!

(Guilherme de Almeida)

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Leia também:

"A Velhinha Contrabandista" - Stanislaw Ponte Preta
"O  Amor de Tumitinha" - Mário Prata

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