Seguidores

domingo, 18 de setembro de 2011

Thiago de Mello - Os Estatutos do Homem

Os Estatutos do Homem  (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony 


Thiago de Mello
Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV


Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


     Parágrafo único:

     O homem, confiará no homem
     como um menino confia em outro menino.


Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


     Parágrafo único:

     Só uma coisa fica proibida:
     amar sem amor.


Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


(Thiago de Mello, Santiago do Chile, abril de 1964)


www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

Manoel de Barros - Fragmentos
"Infância" - Graciliano Ramos
Machado de Assis - Poemas
"Memórias de um sargento de milícias" - Manuel Antônio de Almeida

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Conheça as apostilas do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.















PREPARE-SE PARA OS PRINCIPAIS VESTIBULARES DO PAÍS. ADQUIRA AGORA MESMO O PROGRAMA 500 TEMAS DE REDAÇÃO!



terça-feira, 13 de setembro de 2011

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO - 20 QUESTÕES COMENTADAS

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO - 20 QUESTÕES COMENTADAS

                                              Nasce um escritor 

      “O primeiro dever passado pelo novo professor de português foi uma descrição tendo o mar como tema. A classe inspirou-se, toda ela, nos encapelados mares de Camões, aqueles nunca dantes navegados; o episódio do Adamastor foi reescrito pela meninada. Prisioneiro no internato, eu vivia na saudade das praias do Pontal onde conhecera a liberdade e o sonho. O mar de Ilhéus foi o tema de minha descrição. Padre Cabral levara os deveres para corrigir em sua cela. 
Jorge Amado
    Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Pediu que escutassem com atenção o dever que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios. Eu acabara de completar onze anos. 
     Passei a ser uma personalidade, segundo os cânones do colégio, ao lado dos futebolistas, dos campeões de matemática e de religião, dos que obtinham medalhas. Fui admitido numa espécie de Círculo Literário onde brilhavam alunos mais velhos. Nem assim deixei de me sentir prisioneiro, sensação permanente durante os dois anos em que estudei no colégio dos jesuítas. 
    Houve, porém, sensível mudança na limitada vida do aluno interno: o padre Cabral tomou-me sob sua proteção e colocou em minhas mãos livros de sua estante. Primeiro "As Viagens de Gulliver", depois clássicos portugueses, traduções de ficcionistas ingleses e franceses. 
     Data dessa época minha paixão por Charles Dickens. Demoraria ainda a conhecer Mark Twain, o norte-americano não figurava entre os prediletos do padre Cabral. Recordo com carinho a figura do jesuíta português erudito e amável. 
     Menos por me haver anunciado escritor, sobretudo por me haver dado o amor aos livros, por me haver revelado o mundo da criação literária. Ajudou-me a suportar aqueles dois anos de internato, a fazer mais leve a minha prisão, minha primeira prisão”.

(Jorge Amado)

1. Padre Cabral, numa determinada passagem do texto, ordena que os alunos:

a) Façam uma descrição sobre o mar;
b) Descrevam os mares encapelados de Camões;
c) Reescrevam o episódio do Gigante Adamastor;.
d) Façam uma descrição dos mares nunca dantes navegados;
e) Retirem de Camões inspiração para descrever o mar.

2. Segundo o texto, para executar o dever imposto por Padre Cabral, a classe toda usou de um certo:

a) Conhecimento extraído de "As viagens de Gulliver";
b) Assunto extraído de traduções de ficcionistas ingleses e franceses;
c) Amor por Charles Dickens;
d) Mar descrito por Mark Twain;
e) Saber já feito, já explorado por célebre autor.

3. Apenas o narrador foi diferente, porque:

a) Lia Camões;
b) Se baseou na própria vivência;
c) Conhecia os ficcionistas ingleses e franceses;
d) Tinha conhecimento das obras de Mark Twain;
e) Sua descrição não foi corrigida na cela de Padre Cabral.

4. O narrador confessa que no internato lhe faltava:

a) A leitura de Os Lusíadas;
b) O episódio do Adamastor;
c) Liberdade e sonho;
d) Vocação autêntica de escritor;
e) Respeitável personalidade.

5. Todos os alunos apresentaram seus trabalhos, mas só foi um elogiado, porque revelava:

a) Liberdade; b) Sonho; c) Imparcialidade; d) Originalidade; e) Resignação.

6. Por ter executado um trabalho de qualidade literária superior, o narrador adquiriu um direito que lhe agradou muito:

a) Ler livros da estante de Padre Cabral;
b) Rever as praias do Pontal;
c) Ler sonetos camonianos;
d) Conhecer mares nunca dantes navegados;
e) Conhecer a cela de Padre Cabral.

7. Contudo, a felicidade alcançada pelo narrador não era plena. Havia uma pedra em seu caminho:

a) Os colegas do internato;    b) A cela do Padre Cabral;
c) A prisão do internato;        d) O mar de Ilhéus;               e) As praias do Pontal.

8. Conclui-se, da leitura do texto, que:

a) O professor valorizou o trabalho dos alunos pelo esforço com que o realizaram;
b) O professor mostrou-se satisfeito porque um aluno escreveu sobre o mar de Ilhéus;
c) O professor ficou satisfeito ao ver que um de seus alunos demonstrava gosto pela leitura dos clássicos portugueses;
d) A competência de saber escrever conferia, no colégio, tanto destaque quanto a competência de ser bom atleta ou bom em matemática;
e) Graças à amizade que passou a ter com Padre Cabral, o narrador do texto passou a ser uma personalidade no colégio dos jesuítas.

9. “O primeiro dever foi uma descrição...”, contudo nesse texto predomina a:

a) Narração; b) Dissertação; c) Descrição; d) Linguagem poética; e) Linguagem epistolar.

10. Por isso a maioria dos verbos do texto encontra-se no:

a) Presente do indicativo;
b) Pretérito imperfeito do indicativo;
c) Pretérito perfeito do indicativo;
d) Pretérito mais que perfeito do indicativo;
e) Futuro do indicativo.

www.veredasdalingua.blogspot.com.br
O ENCONTRO

Em redor, o vasto campo. Mergulhado em névoa branda, o verde era pálido e opaco. Contra o céu, erguiam-se os negros penhascos tão retos que pareciam recortados a faca. Espetado na ponta da pedra mais alta, o sol espiava atrás de uma nuvem.
“Onde, meu Deus?! – perguntava a mim mesma – Onde vi esta mesma paisagem, numa tarde assim igual?”
Lygia Fagundes Telles
Era a primeira vez que eu pisava naquele lugar. Nas minhas andanças pelas redondezas, jamais fora além do vale. Mas nesse dia, sem nenhum cansaço, transpus a colina e cheguei ao campo. Que calma! E que desolação. Tudo aquilo – disso estava bem certa – era completamente inédito pra mim. Mas por que então o quadro se identificava, em todas as minúcias, a uma imagem semelhante lá nas profundezas da minha memória? Voltei-me para o bosque que se estendia à minha direita. Esse bosque eu também já conhecera com sua folhagem cor de brasa dentro de uma névoa dourada. “Já vi tudo isto, já vi... Mas onde? E quando?”
Fui andando em direção aos penhascos. Atravessei o campo. E cheguei à boca do abismo cavado entre as pedras. Um vapor denso subia como um hálito daquela garganta de cujo fundo insondável vinha um remotíssimo som de água corrente. Aquele som eu também conhecia. Fechei os olhos. “Mas se nunca estive aqui! Sonhei, foi isso? Percorri em sonho estes lugares e agora os encontro palpáveis, reais? Por uma dessas extraordinárias coincidências teria eu antecipado aquele passeio enquanto dormia?”
Sacudi a cabeça, não, a lembrança – tão antiga quanto viva – escapava da inconsciência de um simples sonho.

(Lygia Fagundes Telles, in "Oito contos de amor")

11. A frase “Já vi tudo isso, já vi... Mas onde?” O uso das reticências sugere:

a) Impaciência;  b) Impossibilidade;  c) Incerteza;  d) Irritação;   e) Inquietação.

12. Podemos inferir que o trecho enquadra-se como sendo:

a) Descritivo;  b) Narrativo;  c) Científico;  d) Dissertativo;  e) Jornalístico. 

13. “O Sol espiava atrás de uma nuvem...” Neste trecho a autora faz uso de uma figura de linguagem muito comum nos textos descritivos. Trata-se de uma

a) Hipérbato;  b) Assonância;  c) Metáfora;  d) Catacrese;  e) Prosopopeia.

Nel Mezzo Del Camin

Cheguei, Chegaste, Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada.
E a alma de sonhos povoada eu tinha.

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


(Olavo Bilac)

14. À ordem alterada, que o autor elabora no texto, em busca da eufonia e ritmo, dá-se o nome de:

a) Paradoxo;  b) Metonímia;  c) Hipérbato;  d) Polissíndeto;  e) Assonância.

15. “E a alma de sonhos povoada eu tinha”. Na ordem direta fica:

a) E a alma povoada de sonhos eu tinha.
b) E povoada de sonhos a alma eu tinha.
c) E eu tinha povoada de sonhos a alma.
d) E eu tinha a alma povoada de sonhos.
e) E eu tinha a alma de sonhos povoados.

16. Predominam na primeira estrofe as orações:

a) Substantivas;  b) Adverbiais;  c) Coordenadas;  d) Adjetivas;  e) Subjetivas.

17. Na segunda estrofe, o termo "presa" refere-se a:

a) Estrada;  b) Vida;  c) Minha mão;  d) Tua mão;  e) Vista.

O LOBO E O CORDEIRO

Um cordeiro a sede matava
nas águas limpas de um regato.
Eis que se avista um lobo que por lá passava
em forçado jejum, aventureiro inato,
e lhe diz irritado: - "Que ousadia
a tua, de turvar, em pleno dia,
a água que bebo! Hei de castigar-te!"
- "Majestade, permiti-me um aparte" -
diz o cordeiro. - "Vede
que estou matando a sede
água a jusante,
bem uns vinte passos adiante
de onde vos encontrais. Assim, por conseguinte,
para mim seria impossível
cometer tão grosseiro acinte."
- "Mas turvas, e ainda mais horrível
foi que falaste mal de mim no ano passado.
- "Mas como poderia" - pergunta assustado
o cordeiro -, "se eu não era nascido?"
- "Ah, não? Então deve ter sido
teu irmão." - "Peço-vos perdão
mais uma vez, mas deve ser engano,
pois eu não tenho mano."
- "Então, algum parente: teus tios, teus pais. . .
Cordeiros, cães, pastores, vós não me poupais;
por isso, hei de vingar-me" - e o leva até o recesso
da mata, onde o esquarteja e come sem processo.

(La Fontaine, in “Fábulas”)

18. Podemos inferir do texto:


a) Trata-se de uma prosa-poética narrada em 1º pessoa
b) Texto dissertativo com narrador onisciente
c) Texto descritivo com predominância do discurso indireto livre
d) É uma fábula com foco narrativo em 3º pessoa
e) Texto científico-jornalístico com narrador observador

19. “Vede que estou matando a sede...” caso o verbo ver fosse trocado por observar, a forma correta ficaria:


a) Observa   b) Observeis   c) Observe   d) Observes   e) Observai

20. Qual figura de linguagem geralmente aparece nesse tipo de texto?


a) Metáfora   b) Metonímia   c) Personificação   d) Assonância   e) Hipérbato

por Prof. Maurício Fernandes da Cunha - www.veredasdalingua.blogspot.com.br


GABARITO COMENTADO

1 – RESPOSTA: A
Comentário:
A leitura atenta do texto demonstra a resposta já no primeiro parágrafo: “tendo o mar como tema”.

2 – RESPOSTA: E
Comentário:
O autor explica que a turma se inspirou nos mares de Camões, ou seja, em sua famosa obra Os Lusíadas, o que constitui um saber pré-existente, baseado no célebre autor.

3 – RESPOSTA: B
Comentário:
O autor elaborou a descrição a partir de experiências próprias: sua meninice em Ilhéus.

4 – RESPOSTA: C
Comentário:
O trecho que explicita o pensamento do autor é a afirmação “Prisioneiro no Internato”.

5 – RESPOSTA: D
Comentário:
Apesar de não dizer explicitamente, é evidente que a originalidade é o requisito principal de um bom escritor, fato que ocasionou o encantamento do padre.

6 – RESPOSTA: A
Comentário:
Após a leitura da redação, o Padre decidiu ajudar o aluno e o agraciou com os livros de sua estante.

7 – RESPOSTA: C
Comentário:
Mesmo após as regalias, o autor não se sentia com liberdade, como demonstra no trecho “Nem assim deixei de me sentir prisioneiro

8 – RESPOSTA: D
Comentário:
 Há de se ter cuidado nessa questão. Não foi por causa da amizade que ele passou a ser uma personalidade no colégio, mas sim por saber escrever bem, fato que lhe conferia tanto destaque quanto os atletas.

9 – RESPOSTA: A
Comentário:
Todos os elementos básicos estão presentes no texto: o foco narrativo em 1º pessoa, as personagens apresentadas, o enredo, etc.

10 – RESPOSTA: C
Comentário:
É muito comum encontrarmos na narração os verbos no modo do pretérito perfeito do indicativo. Vários são os exemplos do texto: inspirou-se, foi, anunciou, pediu, afirmou, regateou, passei, etc.
www.veredasdalingua.blogspot.com.br
11 – RESPOSTA: C
Comentário:
O uso das reticências dá ideia das dúvidas da autora, demonstrando incerteza sobre o local.

12 – RESPOSTA: A
Comentário:
A autora detém-se em vários aspectos descritivos do ambiente, fato comprovado pelo grande número de adjetivos e locuções adjetivas.

13 – RESPOSTA: E
Comentário:
A prosopopeia, também chamada de personificação, consiste na atribuição de características humanas a animais ou seres inanimados, caso em que a expressão se enquadra.

14 – RESPOSTA: C
Comentário:
É fundamental que ao fazer uma prova o aluno saiba reconhecer aspectos gramaticais, sintáticos e estilísticos presentes no texto. Hipérbato é a figura de linguagem que corresponde a uma inversão da frase.

15 – RESPOSTA: D
Comentário:
Na ordem direta, cada termo permanece em sua ordem considerada natural: sujeito – verbo – complemento.

16 – RESPOSTA: C
Comentário:
O uso repetitivo da conjunção aditiva “e” configura a predominância das coordenadas.

17 – RESPOSTA: D
Comentário:
Outra frase sendo usada na ordem indireta. Na ordem direta ficaria: “A tua mão presa à minha”.

18 – RESPOSTA: D
Comentário:
É uma fábula narrada em 3º pessoa. Lembre-se de que a fábula é um tipo de texto no qual há animais como personagens principais e uma moral ao final.

19 – RESPOSTA: E
Comentário:
O verbo ver está conjugado na 2º pessoa do plural do modo imperativo afirmativo. A forma correspondente do verbo observar é observai.

20 – RESPOSTA: C
Comentário:
A personificação, também chamada de prosopopeia, é a figura de linguagem predominante nas fábulas. Consiste em atribuir características humanas a animais ou seres inanimados.

Prof. Maurício Fernandes da Cunha

Leia também:

FIGURAS DE LINGUAGEM
HIPERÔNIMOS E HIPÔNIMOS
QUESTÕES COM QUADRINHOS - 10 TESTES COMENTADOS
Questões de concursos e vestibulares IV - Processos de Formação de Palavras
Processos de Formação de Palavras - Composição e outros processos
Processos de Formação de Palavras - Derivação
Erros Comuns na Língua Portuguesa - Parte II


Conheça as apostilas do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.















PREPARE-SE PARA OS PRINCIPAIS VESTIBULARES DO PAÍS. ADQUIRA AGORA MESMO O PROGRAMA 500 TEMAS DE REDAÇÃO!





domingo, 11 de setembro de 2011

Manoel de Barros - Poemas

Manoel de Barros


Canção do ver

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. 

E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.

(Manoel de Barros)

"Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito."

(Manoel de Barros)



"Futebol". Portinari.
''Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. (...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos (...).''

(Manoel de Barros , in "Memórias Inventadas: A Infância")

“Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
— Dormir, talvez chorar.”


(Manoel de Barros)


"Entrar na Academia já entrei

mas ninguém me explica por que que essa torneira
aberta
neste silêncio de noite
parece poesia jorrando…
Sou bugre mesmo
me explica mesmo
me ensina modos de gente
me ensina a acompanhar um enterro de cabeça baixa
me explica por que que um olhar de piedade
cravado na condição humana
não brilha mais que anúncio luminoso?
Qual, sou bugre mesmo
só sei pensar na hora ruim
na hora do azar que espanta até a ave da saudade
Sou bugre mesmo
me explica mesmo:
se eu não sei parar o sangue, que que adianta
não ser imbecil ou borboleta?
Me explica porque penso naqueles moleques
como nos peixes
que deixava escapar do anzol
com o queixo arrebentado?
Qual, antes melhor fechar essa torneira, bugre velho…"

(Manoel de Barros)

Banksy.
"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."  

(Manoel de Barros) 

"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando."

(Manoel de Barros)

"E agora o que fazer com essa manhã desabrochada a pássaros?"

(Manoel de Barros)

O professor de agramática

"Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito
saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática."

(Manoel de Barros) 

"Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas."

(Manoel de Barros)

No descomeço era o verbo

"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio."

(Manoel de Barros)


Poema

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

(Manoel de Barros, in “Tratado geral das grandezas do ínfimo”)

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.
(Manoel de Barros)

"No ordinary love bust". Camila Derrico
O provedor

Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes frequentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves e os lírios do campo.

(Manoel de Barros)


Na língua dos pássaros uma expressão tinge
a seguinte.
Se é vermelha tinge a outra de vermelho.
Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.
É língua muito transitiva a dos pássaros.
Não carece de conjunções nem de abotoaduras.
Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições
A linguagem dos pássaros
Só produz gorjeios.

(Manoel de Barros, in "Retrato do artista quando coisa")

O  Fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotogafei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

(Manoel de Barros)

Gorjeio

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está namorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

(Manoel de Barros, in "Ensaios Fotográficos")

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

"Infância" - Graciliano Ramos
Machado de Assis - Poemas
Álvares de Azevedo
Thiago de Mello - Os Estatutos do Homem


Solicite as apostilas do blog Veredas da Língua pelo e-mail mau_fernandes1@yahoo.com.br















PREPARE-SE PARA OS PRINCIPAIS VESTIBULARES DO PAÍS. ADQUIRA AGORA MESMO O PROGRAMA 500 TEMAS DE REDAÇÃO!



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Texto - "Infância" - Graciliano Ramos

Segue abaixo um capítulo de "Infância", um dos melhores livros de Graciliano Ramos.

Os astrônomos


             Aos nove anos, eu era quase analfabeto. E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construído de maneira diversa. Esses garotos, felizes, para mim eram perfeitos: andavam limpos, riam alto, frequentavam escola decente e possuíam máquinas que rodavam na calçada como trens. Eu vestia roupas ordinárias, usava tamancos, enlameava-me no quintal, engenhando bonecos de barro, falava pouco.
Na minha escola de ponta de rua, alguns desgraçadinhos cochilavam em bancos estreitos e sem encosto, que às vezes se raspavam e lavavam. Nesses dias nós nos sentávamos na madeira molhada. A professora tinha mãe e filha. A mãe, caduca, fazia renda, batendo os bilros, com a almofada entre as pernas. A filha, mulata sarará enjoada e enxerida, nos ensinava as lições, mas ensinava de tal forma que percebemos nela tanta ignorância como em nós. Perto da mesa havia uma esteira, onde as mulheres se agachavam, cortavam panos e cosiam.
D. Agnelina rezingava com a filha por questões de namoro e, em caso de necessidade, administrava-lhe corretivos. Uma vez discutiram a respeito da palavra auréola, que surgiu na minha seleta. A moça acertou, mas D. Agnelina, debruando um vestido, julgou auréola equivalente a debrum, estirou o beiço e, depois de hesitar, misturando baixinho auréola com ourela recomendou-me que, para evitar dúvidas, dissesse aureóla.
O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: cinco horas de suplício, uma crucificação. Certo dia vi moscas na cara de um, roendo o canto do olho, entrando no olho. E o olho sem se mexer, como se o menino estivesse morto. Não há prisão pior que uma escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos e as auréolas, não deixei que as moscas me comessem. Assim, aos nove anos ainda não sabia ler.
Ora, uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama. Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido o café, beijava-lhe a mão, porque isto era praxe, mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no quarto, peguei com repugnância o antipático objeto e voltei à sala de jantar. Aí recebi ordem para me sentar e abrir o volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de que uma visita me interrompesse. Ninguém nos visitou naquela noite extraordinária.
Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.
Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo.
Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.
Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio à escola, aos brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques, vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.
À noite meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações.
Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso.
E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo. Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar.
Findas, porém, as manifestações secretas de mágoa, refleti, achei que o mal tinha remédio e expliquei o negócio a Emília, minha excelente prima. O rosto sereno, largos olhos pretos, um ar de seriedade — linda moça. A irmã, brincalhona e rabugenta, ora pelos pés, ora pela cabeça, ria como doida e logo explodia em acessos de cólera. Mas Emília não era deste mundo. Só se zangou comigo uma vez, no dia em que, tuberculosa, me viu beber água no copo dela. Um anjo.
Confessei, pois, a Emília o meu desgosto e propus-lhe que me dirigisse a leitura. Esforcei-me por interessá-la contando-lhe a escuridão na mata, os lobos, os meninos apavorados, a conversa em casa do lenhador, o aparecimento de uma sujeita que se chamava Águeda.
Passado algum tempo, essa Águeda me serviu muito. Eusébio doido pegou o volume na loja, entrou a declamá-lo e, topando o nome da personagem, pronunciou Aguéda. Isto me deu satisfação: apesar de maduro, Eusébio doido era mais atrasado que eu.
Quando falei a Emília, porém, ignorava que houvesse pessoas tão rudes quanto Eusébio e admitia facilmente as aureólas da professora. Em conformidade com a opinião de minha mãe, considerava-me uma besta. Assim, era necessário que a priminha lesse comigo o romance e me auxiliasse na decifração dele.
Emília respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que não me arriscava a tentar a leitura sozinho?
Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era bruto em demasia, todos me achavam bruto em demasia.
Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrônomos conheciam perfeitamente. Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, porque não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?
Matutei na lembrança de Emília. Eu, os astrônomos, que doidice! Ler as coisas do céu, quem havia de supor?
E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente.
Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes.

(Graciliano Ramos, in "Infância")

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

Machado de Assis - Poemas
Álvares de Azevedo
"Negócio de menino" - Rubem Braga
Manoel de Barros - Fragmentos

www.veredasdalingua.blogspot.com.br