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domingo, 9 de outubro de 2011

Vicente de Carvalho - Poemas

Vicente de Carvalho - Poemas

Velho Tema – I

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

(Vicente de Carvalho)

Velho Tema – III

Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.

Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...

Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.

(Vicente de Carvalho)

Velho Tema – IV

Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades de sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.

(Vicente de Carvalho)

A um poeta moço

Desanimado, entregas-te, sem norte,
Sem relutância, à vida; e aceitas dessa
Torrente que te arrasta — a só promessa
De ir lentamente desaguar na morte.

Que pode haver, em suma, que te impeça
De seguir o teu rumo contra a sorte?
Sonha! e a sonhar, e assim armado e forte,
Vida e mágoas, incólume, atravessa.

Ouve: da minha extinta mocidade
Eu, que já vou fitando céus desertos,
Trouxe a consolação, trouxe a saudade,

Trouxe a certeza, enfim, (se há sonhos certos)
De ter vivido em plena claridade
Dos sonhos que sonhei de olhos abertos.

(Vicente de Carvalho)

Dona Flor

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso 
Vago como os crepúsculos do estio, 
Treme a ternura, como sobre um rio 
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria, 
A sua boca úmida floresce, 
Naquele rosto angelical parece 
Que é primavera, e que amanhece o dia. 

Um rosto de anjo, límpido, radiante... 
Mas, ai! sob esse angélico semblante 
Mora e se esconde uma alma de mulher 

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo 
- Como atirando ao vento fugitivo 
As folhas sem valor de um malmequer...

(Vicente de Carvalho)

Soneto da defensiva

Enganei-me supondo que, de altiva,
Desdenhosa, tu vias sem receio
Desabrochar de um simples galanteio
A agreste flor desta paixão tão viva.

Era segredo teu? Adivinhei-o;
Hoje sei tudo: alerta, em defensiva,
O coração que eu tento e se me esquiva
Treme, treme de susto no teu seio.

Errou quem disse que as paixões são cegas;
Veem... Deixam-se ver... Debalde insistes;
Que mais defendes, se tu'alma entregas?

Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes)
Que tu, negando o amor que em vão me negas,
Mais a ti mesma do que a mim resistes.

(Vicente de Carvalho)

Leia também:

"Camelos também choram" - Affonso Romano de Sant´Anna
"Pato Selvagem" - Rubem Alves
Alberto de Oliveira - Poemas
"ABC" - Luis Fernando Verissimo


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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Texto: "Camelos também choram" - Affonso Romano de Sant´Anna

Camelos também choram

Eu tinha lido que, lá na Índia, elefantes olhando o crepúsculo, às vezes, choram.
Mas agora está aí esse filme "Camelos também choram".
A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos soltam gemidos e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha, no interior, nunca relatou ter visto lágrimas nos olhos delas.
Contudo, esse filme feito sobre uma comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que os camelos choram, mas choram não diante da morte, mas em certa circunstância que faria chorar qualquer ser humano. E, na plateia, eu vi, os não camelos também choravam. 
Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza do asfalto e a indiferença dos muros e vitrines; para nós que perdemos o diálogo com plantas e animais, e, por consequência, conosco mesmos, testemunhar com aquela bela família de mongóis o nascimento de um filhote de camelo e sua relação com a mãe, é uma forma de reencontrar a nossa própria e destroçada humanidade.
É isto: eles vivem num deserto. Terra árida, pedregosa. Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e desmontadas. Lá fora um vento permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão. E as ovelhas e carneiros ali em torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos humanos.
Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil de um camelinho. Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem. A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o filho. Em vão.
“Só há uma solução”, diz alguém da família: “mandar chamar o músico!". Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.
Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.
O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna.
Chega. E, ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento.
A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.
A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas.
E o filhote, antes rejeitado e infeliz, vem e mama, mama, mama desesperadamente feliz!... E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra em primeiro plano que lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num todo amoroso os apartados elementos.
Nós, humanos, na plateia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados! Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria.
E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria, e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível - um ré bemol - e que a palavra só surgiria mais tarde.
Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que o universo era uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também.
Mas nós, os pós-modernos, cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.
Haja professor de música para consertar isto.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Affonso Romano de Sant´Anna

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

PUC – SP – 2010 – 2 º Semestre – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA – PUC-SP  2010

Composição da letra do Hino Nacional completa 100 anos

Em 2009, além do centenário desse importante símbolo nacional, foi aprovada lei que define como obrigatória a execução do Hino ao menos uma vez por semana em escolas públicas e particulares de ensino fundamental. Leia este conjunto de textos, quase todos adaptados, que fazem várias referências ao Hino Nacional. 

TEXTO 1

Pátria amada, mãe gentil?

Como lembrava o arcebispo Desmond Tutu, incansável na luta pelos direitos civis: “Se ficarmos neutros numa situação de injustiça, teremos escolhido o lado do opressor”. Presidente, principalmente você, que tem história para ser o exemplo, pode atender ao grito ensurdecedor de tantos filhos da nação.
Assumindo o combate sem limites ao grupo de predadores assentados no poder.  Exigindo que a Justiça faça das leis instrumentos verdadeiros de defesa dos direitos, e não objetos de proteção aos ímprobos e poderosos.
E, tomado por compaixão,  adotando ações genuínas para reduzir os efeitos da desigualdade e para resgatar a condição humana ddesses brasileiros. Só assim, perfilado no dia da pátria, você conseguirá, marejado, declamar com a multidão: “Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil”.

Miguel Srougi, In: Folha de S. Paulo, 06/09/2009.

TEXTO 2

Nossa pátria mãe gentil

Preserve a Amazônia, mãe gentil
Com sua beleza sem igual
Ela é o tesouro do Brasil
Com suas riquezas naturai

Estão vendendo nossa nação
Estão entregando nosso quinhão
A gente tem que gritar
Não vamos nos acomodar
Pois isso aqui é nossa terra

Esses homens vão ter que entender
Que isto aqui é o nosso Brasil
Nosso chão, nossa vida, nossa pátria mãe gentil
Isso um dia vai ter que mudar
A justiça vai ter que acordar
E a igualdade um dia vai raia

Intérprete: Beth Carvalho
Composição: Vaguinho / Boneco, In: Pagode de mesa ao vivo – vol. 2

TEXTO 3

PAINEL DO LEITOR

Mãe gentil

“O artigo do doutor Miguel Srougi de domingo ("Pátria amada, mãe gentil?", “Tendências/Debates') é um grande alento, principalmente por tratar-se de alguém que, sendo um dos nossos mais ilustres e respeitados profissionais da medicina, optou por não se omitir, colocando sua liderança e credibilidade a serviço da cidadania ativa e da justiça social.
Sua voz qualificada renova as esperanças de que o Estado brasileiro, sistematicamente saqueado ao longo de sua história por vorazes minorias públicas e privadas, que o manipulam em benefício próprio, venha a tornar-se, um dia, a mãe gentil de todos os brasileiros.”

JOSÉ BENJAMIM DE LIMA, promotor de Justiça aposentado, (Assis, SP) - In: FOLHA  de S. Paulo. Opinião, 08/09/2009

1. Em relação a cada um dos três textos, indique: [a] o gênero a que pertencem; [b] o propósito comunicativo; [c] em que o(s) autor(es) se baseia(m) para apontar o propósito comunicativo e/ou o que o(s) motivou a manifestá-lo.

A) Texto 1: [a] artigo de opinião; [b] o autor apresenta por que o presidente tem de exigir justiça; [c] desfaçatez dos criminosos que ficam impunes.
     Texto 2: [a] poema épico; [b] os autores incitam os brasileiros a protestarem com veemência contra impunidade; [c] devastação que todo o Brasil, especialmente a Amazônia, vem sofrendo.
     Texto 3: [a] carta de leitor; [b] o aposentado manifesta sua esperança de que o país consiga ser justo igualmente a todos os brasileiros; [c] o texto do médico, publicado dois dias antes.
B) Texto 1: [a] artigo de opinião; [b] o autor propõe ações que o presidente poderia realizar para tornar o Brasil um país mais justo; [c] impunidade aos que cometem crimes, mas continuam no poder.
     Texto 2: [a] canção; [b] os autores incitam os brasileiros a protestarem com veemência; [c] devastação que a Amazônia vem sofrendo.
     Texto 3: [a] carta de leitor; [b] o aposentado manifesta sua esperança de que o país seja justo para todos seus cidadãos; [c] o texto do médico, publicado dois dias antes.
C) Texto 1: [a] artigo de opinião; [b] o autor relembra os dizeres do arcebispo Desmond Tutu; [c] impunidade aos que cometem crimes, mas continuam no poder.
     Texto 2: [a] canção; [b] os autores incitam os brasileiros a protestarem com veemência; [c] devastação que a Amazônia vem sofrendo.
     Texto 3: [a] carta de leitor; [b] o aposentado concorda com o que o médico defende; [c] a necessidade de mudar o país.
D) Texto 1: [a] notícia; [b] o autor questiona se o Brasil é realmente o país justo e acolhedor a que o Hino se refere; [c] a permanência no poder dos que cometem crimes, mas ficam impunes.
     Texto 2: [a] canção; [b] os autores incitam os brasileiros a protestarem com veemência; [c] devastação que a Amazônia vem sofrendo.
     Texto 3: [a] artigo de opinião; [b] o aposentado se manifesta confiantemente quanto ao país ser justo para com todos seus cidadãos; [c] a concordância com o texto do médico, manifestada dois dias antes.
E) Texto 1: [a] artigo de opinião; [b] o autor questiona se o Brasil é realmente o país justo e acolhedor a que o Hino se refere; [c] impunidade aos que cometem crimes, mas continuam no poder.
     Texto 2: [a] poema épico; [b] os autores incitam os brasileiros a protestarem com veemência; [c] devastação que a Amazônia vem sofrendo.
     Texto 3: [a] carta ao leitor; [b] o aposentado aposta numa justiça equilibrada para todos os cidadãos brasileiros; [c] a esperança de que o país se recupere em benefício próprio

2. No texto 1, o autor dirige-se ao presidente para pedir que ele atenda “ao grito ensurdecedor de tantos filhos da nação”. O gerúndio (em negrito) é empregado em três passagens para expressar ideia de:

A) concessão.
B) comparação.
C) oposição.
D) condição.
E) causa.

3. No texto 2, os versos “A gente tem que gritar / Não vamos nos acomodar”, há mistura de pessoas verbais: a gente (3ª pessoa do singular) e nós (1ª pessoa do plural). Trata-se de:

A) uma característica da linguagem coloquial e, considerando a situação comunicativa, não configura erro.
B) um erro, pois, ainda que se trate de um samba, deve seguir o que prescreve a norma culta.
C) um acerto, pois em sambas tem de haver essa mistura.
D) uma característica da linguagem coloquial e, considerando a situação comunicativa, configura erro.
E) uma característica da linguagem coloquial, cujo alto grau de formalidade está adequado para o contexto em que circula.

4. Relacione os trechos da Coluna A aos recursos de linguagem presentes na Coluna B:

COLUNA A

1   Ela é o tesouro do Brasil [texto 2]
2   A justiça vai ter que acordar [texto 2]
3   Sua voz qualificada renova as esperanças [texto 3]
4   vorazes minorias públicas e privadas [texto 3]
5   Benefício próprio [texto 3]

COLUNA B

(  ) Metonímia,  por designar o todo pela parte.
(  ) Eufemismo como recurso intencional para suavizar a carga conotativa de roubalheira.
(  ) Hipérbole como recurso intencional para aumentar a carga expressiva de outra palavra.
(  ) Metáfora para qualificar designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto.
(  ) Personificação, por atribuir características humanas a algo. 

A) 3 – 4 – 2 – 1 – 5
B) 5 – 3 – 2 – 1 – 4
C) 1 – 4 – 2 – 5 – 3
D) 3 – 5 – 2 – 1 – 4
E) 3 – 5 – 4 – 1 – 2

5. Para a construção do título Pátria amada, mãe gentil? (texto 1), o autor se vale de uma pergunta, entendida como recurso estratégico:

A) para desencadear uma reflexão sobre algo que não se questiona, além de estimular uma resposta imediata do presidente, ou seja, fazer com que ele responda ao jornal.
B) que exige uma resposta dos leitores, isto é, que eles se dirijam ao presidente com um discurso ornamentado com figuras de linguagem.
C) sem a intenção de obter resposta, mas que tem como efeito de sentido despertar o interesse do leitor e levá-lo a refletir sobre algo que é inquestionável; no caso, mostrar que o presidente pode atender ao que necessitam muitos brasileiros.
D) sem intenção de obter resposta, mas com vistas a introduzir um apelo à leitura e impor uma resposta imediata do presidente, que deverá atender ao que necessitam muitos brasileiros.
E) que apresenta um questionamento ao leitor, cuja intenção é tornar o discurso mais dinâmico e estimulá-lo a pensar na melhor resposta a ser dada ao presidente.

6. “E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... que a terra lhes seja leve!”

O trecho acima integra o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, cujo personagem Bentinho considera o comportamento de Capitu, marcado por procedimentos negativos, como dissimulação, astúcia, arte de fingir, mobilização pelo interesse, falsidade e traição. Assim, a condenação do marido quanto à presumida conduta adulterina da mulher apoia-se em dados factuais. Todos os fatos relacionados abaixo alimentam a suspeita dele, exceto um. Indique-o.

A) Bentinho vai ao teatro sozinho, já que a esposa está adoentada, volta antes de a peça terminar e surpreende Escobar em sua casa, a pretexto de tratar de "embargos de terceiros".
B) A ajuda que Escobar presta a Capitu na conversão em libras esterlinas de algumas economias, fato que contrariava Bentinho.
C) A semelhança física entre o filho Ezequiel e Escobar, percebida no hábito que tinha o menino de imitar as pessoas.
D) Os olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada, capazes de arrastar para dentro como a vaga que se retira da praia.
E) Reação de Capitu no enterro de Escobar, seu choro e o olhar que dirige ao morto.

7. “E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

O trecho acima caracteriza o espaço germinal de O Cortiço, obra de Aluísio Azevedo. No romance, descrevem-se dois grandes conjuntos: o cortiço São Romão e o sobrado de Miranda, que mantêm entre si um restrito e controlado regime de trocas. 
Sobre o romance NÃO é permitido afirmar que:

A) no cortiço, do ponto de vista racial, a grande maioria da população é de negros e mestiços e, do ponto de vista social, todos são empregados e assalariados, nivelam-se pela miséria e pobreza e identificam-se mais pelas semelhanças que pelas diferenças.
B) há no cortiço, enquanto espaço físico, um nítido movimento de expansão que compreende várias etapas progressivas como a da Taverna, a da venda, a da quitanda, a da casa de pasto, a do bazar, a do grande armazém, a da estalagem, a do sobrado e finalmente, a da Avenida São Romão.
C) no cortiço de João Romão verifica-se o predomínio do instinto, revelando o lado mais animal do homem, vivendo em espaço horizontal e solucionando seus conflitos pela violência.
D) no sobrado de Miranda há a dominância da razão, indiciando um homem posto mais ao lado da cultura, vivendo em espaço vertical e solucionando seus conflitos por via de trocas e de interesses.
E) a construção do muro que divide as propriedades de João Romão e as do Miranda simboliza o conflito entre eles e denuncia a impossibilidade de qualquer sistema de alianças de que ambos poderiam auferir alguma vantagem.

8. Leia os trechos abaixo.

Trecho A

A Mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são o relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
(...)

Trecho B

A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente ...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se m udando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados ...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Considerando a obra poética de Vinicius de Moraes e a comparação entre os dois poemas acima, indique a alternativa cujo enunciado está correto.

A) Em A, há a visão idealizada da mulher, resultado da influência da fase religiosa e mística do poeta; em B, a realista, sensual e erótica.
B) Em B, há a exaltação do amor sensual e a descrição voluptuosa de uma experiência.
C) Em A, a mulher é vista não de uma forma idealizada, mas como elemento provocador do sensualismo erótico, o que explicita uma das partes da obra poética de Vinícius, na caracterização da figura feminina.
D) Em ambos, a construção poética se faz pelo largo uso das figuras de linguagem, em que se destacam as metáforas e as antíteses.
E) Em ambos, a proeminência dos elementos da natureza materializa a forma feminina e a revela como objeto sensual de desejo.

9. “Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi dessa época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.”

O trecho acima é do romance Capitães da Areia que, escrito em 1937, se inscreve entre os “romances proletários” de Jorge Amado.
Considerando-o como um todo, é correto afirmar que:

A) destaca e exalta o tema da infância abandonada e delinquente, incentivada pelos interesses da imprensa local e admitida pelas autoridades policiais, caracterizando um cotidiano de ações marginais capazes de transtornar a sociedade baiana da época.
B) consubstancia o percurso de aprendizagem do herói que supera a condição de origem e eleva o protagonista ao plano histórico do confronto social e político.
C) a mãe de santo e o padre progressista, personagens do romance, ainda que pudessem representar a convergência sincrética de forças protetoras e elementos capazes de minimizar a orfandade dos Capitães, nada conseguem porque não têm influência sobre o bando.
D) a prisão e a tortura de Pedro Bala no reformatório, confinado no cubículo escuro da cafua, apenas intensificam seu instinto de violência e a necessidade de vingança contra a sociedade.
E) Pedro Bala, líder dos Capitães, ao final, vê-se derrotado no intento de realizar seu sonho de transformação social e é literalmente abandonado pelos demais porque Volta Seca  junta-se ao bando de Lampião, Professor vai ser artista na capital, Pirulito ingressa na vida religiosa, Boa Vida  torna-se sambista e o Gato adere à marginalidade em Ilhéus.

10. “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
      Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
      Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a  frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
      – Você é um bicho, Fabiano.”

O trecho acima é da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos.  No texto em questão:

A) o narrador interioriza-se no personagem Fabiano e auxilia-o em sua expressão, visto que ele se comunica com muita dificuldade.
B) há exclusividade do discurso direto, presente em: "– Fabiano, você é um homem" e "– Você é um bicho, Fabiano".
C) desaparece o uso do discurso indireto livre, embora o personagem se mostre aturdido e com o pensamento fragmentado.
D) há uma relação de oposição entre homem e bicho, circunscrita no uso apenas do discurso indireto livre.
E) o procedimento narrativo é a base do texto, inexistindo qualquer outra forma de descrição.
GABARITO

1 - B    2 - D    3 - A    4 - E     5 - C 6 - D    7 - E    8 - C    9 - B   10 - A

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