Seguidores

terça-feira, 6 de março de 2012

Texto: "Rita Baiana" - "O Cortiço" - Aluísio Azevedo

RITA BAIANA

Segue a excepcional descrição de Rita Baiana, presente no capítulo VII de “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo.



        Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. 
       Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade. 

       E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dançaram, mas o português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos braços do amigo. Piedade, a cabecear de sono, chamara-o várias vezes para se recolherem; ele respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da mulher. 
       Passaram-se horas, e ele também não deu pelas horas que fugiram. 
       O circulo do pagode aumentou: vieram de lá defronte a Isaura e a Leonor, o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, quiseram dar fé da patuscada um instante antes de caírem na cama; a família do Miranda pusera-se à janela, divertindo-se com a gentalha da estalagem; reunira povo lá fora na rua; mas Jerônimo nada vira de tudo isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espírito: a mulata ofegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo. 
       Só deu por si, quando, já pela madrugada, se calaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu à casa. 
       E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela cintura. 
       Jerônimo ficou sozinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silêncio na sua viagem misteriosa. As janelas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao longe, por detrás da última parede do cortiço, erguia-se como um monstro iluminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pirilampos na sombra das hortas e dos jardins, e os murmúrios das árvores que sonhavam. 
       Mas Jerônimo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquela música embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas, que lhe iam devorar o coração. 

       E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céu, que ele nunca vira senão depois de sete horas de sono, que era já quase ocasião de entrar para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar de pé.

(Aluísio Azevedo, in "O Cortiço")

Leia também:

Pedro Kilkerry - Poemas
"A viajante" - Rubem Braga
"Persona" - Clarice Lispector
Cassiano Ricardo 


Conheça as apostilas do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.















PREPARE-SE PARA OS PRINCIPAIS VESTIBULARES DO PAÍS. ADQUIRA AGORA MESMO O PROGRAMA 500 TEMAS DE REDAÇÃO!





sexta-feira, 2 de março de 2012

REGÊNCIA VERBAL – I

REGÊNCIA VERBAL – I

Regência é o nome que se dá ao estudo das relações entre o verbo e seu complemento ou entre o nome e seu complemento. Regência verbal quando se referir ao verbo, e regência nominal quando se referir ao nome (substantivos, adjetivos e advérbios). O termo que pede o complemento é chamado de regente ou subordinante, enquanto o termo que completa o regente é chamado de regido ou subordinado.

Observe a tirinha abaixo.


O personagem Calvin utilizou o verbo “assistir” de acordo com a norma culta, usando-o como verbo transitivo indireto no sentido de “ver, observar”.

Lembre-se da nomenclatura utilizada quanto à transitividade verbal:

V.T.D. – Verbo Transitivo Direto
V.T.I. – Verbo Transitivo Indireto
V.T.D.I. – Verbo Transitivo Direto e Indireto
V.L. – Verbo de Ligação
V.I.– Verbo Intransitivo

Vejamos alguns verbos cujas regências costumam confundir bastante o aluno.

1 – Assistir

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Ver, Observar
Você assistiu ao jogo ontem?
VTI
Caber, pertencer
É um direito que assiste a todos os contribuintes.
VTD
Prestar assistência, ajudar
Os enfermeiros assistiram o doente.
VI
Morar, residir
Luís assiste atualmente em Maceió.

2 – Pagar, Perdoar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Quando se refere a pessoas.
Não paguei aos credores.
Deus perdoa aos pecadores.
VTD
Quando se refere a coisas.
Paguei o débito do carro.
Deus perdoa os seus pecados.

Na verdade, esses dois verbos serão sempre VTDI, mas é bastante comum que um dos objetos fique subentendido.

3 – Simpatizar, Antipatizar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Não podem ser usados como pronominais.
Eu simpatizo com você.
Eu antipatizo com a minha sogra.


É comum encontrarmos os dois verbos sendo usados como pronominais, forma inadequada de acordo com a norma culta:

Eu me simpatizo com você.
Eu me antipatizei com ela.

Nos dois casos acima não se usa o pronome oblíquo átono me.

4 – Visar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Almejar, pretender
Todos visam a uma vida de paz.
VTD
Mirar, pôr visto
O gerente visou todos os cheques.

5 – Implicar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Ter implicância
Ela sempre implicava com o professor.
VTD
Acarretar, causar
Deixar o carro na calçada implica multa.

É bastante comum o uso do verbo implicar, no sentido de acarretar, como VTI com a preposição em, (“Deixar o carro na calçada implica em multa”), mas não é adequado segundo a norma culta.

6 – Agradar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Ser agradável, satisfazer
A decisão do diretor agradou aos alunos.
VTD
Acariciar
A mulher agradou o marido.

7 – Aspirar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Almejar, pretender
Ela aspirava a uma promoção na empresa.
VTD
Sorver, cheirar
Gosto de aspirar o ar puro do campo.

8 – Ensinar

Na tirinha abaixo há o uso do verbo ensinar como bitransitivo, conforme rege a norma padrão.


Transitividade
Sentido
Exemplo
VI
Doutrinar
André decidiu ensinar somente na faculdade.
VTD
Educar
Os pais também devem ensinar os filhos.
VTDI
Instruir, fazer conhecer
Pode ser usado no sentido de:
Ensinar algo a alguém
Ensinar alguém a fazer algo

Ensinei-lhe as capitais dos estados.
Ensinei-o a dirigir.

9 – Chamar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Invocar
A mãe chamava pelo filho.
VTD
Convocar, fazer vir
Chamem todos para a prova.

O verbo chamar pode ser VTD ou VTI no sentido de apelidar, qualificar, denominar (acrescido do predicativo do objeto) e admite quatro formações:

Chamei-o arrogante.
Chamei-o de arrogante.
Chamei-lhe arrogante.
Chamei-lhe de arrogante.

10 – Obedecer, desobedecer

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Exigem a preposição “a”
Sempre obedeço ao professor.
O réu desobedeceu à ordem judicial.

11 – Chegar, ir

Transitividade
Sentido
Exemplo
VI
Exigem a preposição “a” para lugar
Chegamos a Florianópolis.
Vamos ao estádio do Morumbi.

Caso haja a ideia de permanência no local de destino, o verbo "ir" é usado com a preposição "para".

Iremos para Porto Alegre em busca de novos ares.

12 – Preferir

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTDI
Escolher entre duas ou mais coisas
Prefiro o teatro ao cinema.

Segundo a gramática normativa, não se deve usar o verbo preferir reforçado com as palavras “menos” ou “mais”.


por Prof. Maurício Fernandes da Cunha - www.veredasdalingua.blogspot.com.br

FAÇA OS EXERCÍCIOS SOBRE REGÊNCIA VERBAL


Prof. Maurício Fernandes da Cunha

Leia também:

REGÊNCIA VERBAL - II
Erros Comuns da Língua Portuguesa - II
Processos de Formação de Palavras II - Composição e Outros Processos
Processos de Formação de Palavras II - Derivação
Plural dos Substantivos Compostos




Conheça as apostilas de gramática do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.














ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO