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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Texto - "A aldeia que nunca mais foi a mesma" - Rubem Alves

A aldeia que nunca mais foi a mesma

     Era uma aldeia de pescadores de onde a alegria fugira, e os dias e as noites se sucediam numa monotonia sem fim, das mesmas coisas que aconteciam, das mesmas  coisas que se diziam, dos mesmos gestos que se faziam, e os olhares eram tristes, baços  peixes que já nada procuravam, por saberem inútil procurar qualquer coisa, os rostos vazios de sorrisos e de surpresas, a morte prematura morando no enfado, só as  intermináveis rotinas do dia a dia, prisão daqueles que se haviam condenado a si mesmos, sem esperanças, nenhuma outra praia pra onde navegar...
"Noite estrelada", Van Gogh.
     Até que o mar, quebrando um mundo, anunciou de longe que trazia nas suas ondas coisa nova, desconhecida, forma disforme que flutuava, e todos vieram à praia, na espera... E ali ficaram, até que o mar, sem se apressar, trouxe a coisa e a depositou na praia, surpresa triste, um homem morto...
     E o que é que se pode fazer com um morto, se não enterrá-lo? Tomaram-no então para os preparativos de funeral, que naquela aldeia ficavam a cargo das mulheres; às vezes é mais grato preparar os mortos para a sepultura que acompanhar os vivos na morte em que se perderam ao viver. Foi levado para uma casa, os homens de fora, olhando...

     No corpo morto as algas, os líquens, as coisas verdes do mar, testemunhas de funduras e distâncias, mistérios escondidos para sempre no silêncio de sua boca sem palavras...
      As mãos começaram o trabalho, e nada se dizia, só os rostos tristes... Até que uma delas, um leve tremor no canto dos lábios, balbuciou:
     – “É, se tivesse vivido entre nós teria de se ter curvado sempre para entrar em nossas casas. É muito alto...”
     E todas assentiram com o silêncio.
     – “Fico a pensar em como teria sido a sua voz”, disse uma outra. “Teria sido como o quebrar das ondas? Como a brisa nas folhas? Será que ele conhecia a magia das palavras que, uma vez ditas, fazem uma mulher colher uma flor e a colocar nos cabelos?”
     As outras sorriram, surpresas de memórias que começavam a surgir de profundezas, como bolhas que sobem de espaços submarinos, desejos há muito esquecidos.
     Foi então que uma outra, olhando aquelas mãos enormes, inertes, disse as saudades que arrepiavam a sua pele:
    – “Estas mãos... que terão feito? Terão tomado no seu vazio um rosto de mulher? Terão sido ternas? Terão sabido amar?”
   E elas sentiram que coisas belas e sorridentes, há muito esquecidas, passadas por mortas, nas suas funduras, saíam do ouvido e vinham, mansas, se dizer no silêncio do morto. A vida renascia na morte graciosa de um morto desconhecido e que, por isto mesmo, por ser desconhecido, deixava que pusessem no seu colo os desejos que a morte em vida proibira...
    E os homens, do lado de fora, perceberam que algo estranho acontecia: os rostos das mulheres, maçãs em fogo, os olhos brilhantes, os lábios úmidos, o sorriso selvagem, e compreenderam o milagre: vida que voltava, ressurreição de mortos... E tiveram ciúmes do afogado... Olharam para si mesmos, se acharam pequenos e domesticados, e perguntaram se aquele homem teria feito gestos nobres (que eles não mais faziam) e pensaram que ele teria travado batalhas bonitas (onde a sua coragem?), e o viram brincando com crianças (mas lhes faltava a leveza...), e o invejaram amando como nenhum outro (mas onde se escondera o seu próprio amor?)...
     Termina a estória dizendo que eles, finalmente, o enterraram.
     Mas a aldeia nunca mais foi a mesma...
    Não, não é à toa que conto esta estória. Foi quando soube da morte – ela cresceu dentro de mim. Claro que eu já suspeitava: os cavalos de guerra odeiam crianças; e o bronze das armas odeia canções, especialmente quando falam das flores, e não se ouve o ruflar lúgubre dos tambores da morte. Foi naquele dia, fim de abril, o mês do céu azul e do vento manso. Eu sabia da morte, mas havia em mim um riso teimoso, mais forte que o carrasco, esperança, visão de coisas que eu não sabia vivas. Foi então que me lembrei da história. Não, foi ela que se lembrou de mim, e  veio para dar nome aos meus sentimentos e se contou de novo. Só que agora os rostos anônimos viraram rostos que eu vira, caminhando e cantando, seguindo a canção, risos que corriam para ver a banda passar contando coisas de amor, os rojões, as buzinas, as panelas, sinfonia que se tocava sobre a desculpa de um morto...
     Mas não era isto, não era o morto: era o desejo que jorrava, vida, mar que saía de funduras reprimidas e se espraiava como onda, espumas e conchinhas, mansa e brincalhona...
     Ah! O povo se descobrira, tão bonito como nunca suspeitara...
     Não era raiva.
     Não era azia.
     Nem mesmo fome ou desemprego.
     O bonito foi isto mesmo: que de tantos golpes, de tanta dor, tenham surgido canções, tenha brotado uma flor.
     Lembra-se? Aconteceu na estação da Páscoa...
     A Vida ressurge da Morte.
     Três dias, vinte anos, um século... Não importa...
    Por favor: conte para alguém a estória da aldeia que, depois de enterrar um morto, nunca mais foi a mesma.. Nós...

P.S.: Quase me esqueci de dizer. A estória é de Gabriel Garcia Marquez. Eu só a recontei do meu jeito...

(Rubem Alves, crônica para o jornal “Folha de São Paulo”, em 19/05/1984)


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domingo, 15 de abril de 2012

CPTM - Concurso público - cargo: Agente Operacional - 2005

CPTM - Concurso público - cargo: Agente Operacional - 2005

Prova de Língua Portuguesa

Mendigo

Eu estava diante duma banca de jornais na avenida, quando a mão de um mendigo se estendeu. Dei-lhe uma nota tão suja e tão amassada quanto ele. Guardou-a no bolso, agradeceu com um seco obrigado e começou a ler as manchetes dos vespertinos. Depois me disse:
- Não acredito um pingo em jornalistas. São muito mentirosos. Mas tá certo: mentem para ganhar a vida. O importante é o homem ganhar a vida, o resto é besteira.
Calou-se e continuou a ler as notícias eleitorais:
O Brasil ainda não teve um governo que prestasse. Nem rei, nem presidente. Tudo uma cambada só.
Reconheceu algumas qualidades nessa ou naquela figura (aliás, com invulgar pertinência para um mendigo), mas isso, a seu ver, não queria dizer nada:
- O problema é o fundo da coisa: o caso é que o homem não presta. Ora, se o homem não presta, todos os futuros presidentes também serão ruínas. A natureza humana é que é de barro ordinário. Meu pai, por exemplo, foi um homem bastante bom. Mas não deu certo ser bom durante muito tempo: então ele virou ruim.
Suspeitando de que eu não estivesse da __________ sua teoria, passou a demonstrar para mim que também ele era um  __________ ordinário como os outros:
- O senhor não vê? Estou aqui pedindo esmola, quando poderia estar trabalhando. Eu não tenho defeito __________  nenhum e até que não posso me queixar da saúde.
Tirei do bolso uma nota de cinqüenta e lhe ofereci pela sua franqueza.
- Muito obrigado, moço, mas não vá pensar que eu vou tirar o senhor da minha teoria. Vai me desculpar, mas o senhor também no fundo é igualzinho aos outros. Aliás, quer saber de uma coisa?
Houve um homem de fato bom, cem por cento bom. Chamava-se Jesus Cristo. Mas o senhor viu o que fizeram com ele?!

(CAMPOS, Paulo Mendes. Mendigo. In: Para gostar de ler. Vol. 2. Crônicas. São Paulo: Ática: 1978.)

1. Assinale a afirmativa que completa corretamente as lacunas do texto.

a) convensido – sujeito – fízico
b) convencido – sujeito – físico
c) convensido – sugeito – físico
d) convencido – sugeito – fízico
e) convensido – sujeito – físico

2. Em “Tirei do bolso uma nota de cinquenta e lhe ofereci pela sua franqueza.”, a palavra em destaque pode ser substituída, sem prejuízo do sentido da frase, por

a) astúcia.
b) generosidade.
c) sinceridade.
d) propriedade.
e) dissimulação.

3. O mendigo disse ao homem que lhe dera uma esmola que não acreditava em jornalistas, pois

a) percebeu que o homem era um deles.
b) estava completamente bêbado.
c) achou-o parecido com o pai.
d) era deficiente físico.
e) havia lido as manchetes dos vespertinos.

4. Para o mendigo, o Brasil não teve, nem teria, governo que prestasse pois

a) assim como seu pai, todo homem bom, por um tempo, vira ruim.
b) a natureza humana não convence ninguém.
c) fariam com ele o que fizeram com Jesus Cristo.
d) o ser humano não presta.
e) todos mentem para ganhar a vida.

5. Após a leitura do texto, pode-se concluir que

a) o autor ficou surpreso com a perspicácia do mendigo.
b) o mendigo era uma pessoa afável.
c) o mendigo não acreditava na bondade do pai,
d) o autor ficou ofendido porque o mendigo o comparou aos homens feitos “de barro ordinário”.
e) o mendigo usou a expressão “cambada” como sinônimo de humanidade.

6. Sobre as formas verbais do texto, são feitas as seguintes afirmações:

1. Na primeira frase os verbos estão empregados, respectivamente, no Pretérito Perfeito e no Pretérito Imperfeito do Indicativo.
2. Em “...não vá pensar...”, o verbo está no Modo Imperativo Negativo.
3. Os verbos disse, prestasse e estivesse estão no Pretérito Imperfeito do Subjuntivo.

Qual(is) está(ão) correta(s)?

a) Apenas a 1.
b) Apenas a 2.
c) Apenas 1 e 3.
d) Apenas 1 e 2.
e) 1, 2 e 3.

7. Assim como palavra manchete é grafada com ch, também o deve ser

a) en__oval
b) en__ame
c) en__erto
d) en__ada
e) en__ente

8. Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas da oração abaixo.

“Aquele jogador é um ______ perdedor, mas, ______ disso, seu time saiu ______ .

a) mau – apesar – campeão
b) mal – a pesar – campião
c) mau – apezar – campião
d) mal – a pezar – campeão
e) mal – apesar – campeão

9. Abaixo, há uma ou mais palavras incorretamente grafadas, exceto na alternativa

a) paralisado – cervejinha – expectro
b) campanhia – papelzinho – suavidade
c) pretensioso – chinesinha – estupro
d) admissão – incensível – esperteza
e) descanço – excessão – assessórios

10. A alternativa que contém uma palavra com erro de grafia é

a) depredar – através – esplendor
b) heureca – analizar – expectador
c) acensorista – mixto – impecilho
d) exêntricos – anjelical – hortência
e) gorjeta – ginete – catequese

11. Observando a correlação temporal, assinale a alternativa que completa corretamente a frase

“Era provável que eles _______ hoje.”

a) virão
b) saíam
c) saíram
d) chegam
e) viessem

12. Assinale a alternativa que completa corretamente a seguinte frase.

“Quando _______  mais aperfeiçoados, os aviões, certamente, _______ maior conforto e segurança em qualquer viagem.”

a) estivessem – proporcionariam
b) estiverem – proporcionarão
c) estejam – proporcionam
d) estão – proporcionariam
e) estivessem – proporcionarem

13. Assinale a alternativa que completa, corretamente, as lacunas da frase abaixo.

“_______ a vida com as verdades que tu tens e serás feliz.”

a) Constróis
b) Constrói
c) Construí
d) Construa
e) Construas

14. Transpondo para a voz passiva a frase “Eu estava revendo, naquele momento, velhas fotos da minha infância.”, a forma verbal correta deverá ser

a) estava sendo revisto
b) comecei a rever
c) seriam revistos
d) estavam sendo revistas
e) ia revendo

15. A alternativa em que todas as palavras estão corretamente acentuadas é:

a) inglês – cafézinho – útil – Sergípe – canôa
b) saúde – geléia – Tatuí – armazém – caráter
c) Itú – advérbio – amendoím – fluído – heroísmo
d) órgão – bambú – útil – sofá – Tietê
e) Alagôas – gratuíto – melancía – estrêla – cipó

16. A alternativa cuja palavra, quando colocada no plural perde o acento gráfico, é

a) álbum.
b) bebê.
c) revólver.
d) útil.
e) número.

17. Com relação à concordância verbal, assinale a alternativa incorreta.

a) A felicidade, você e eu caminharemos juntos.
b) As paredes pareciam tremer.
c) Desconfiavam-se de algumas pessoas.
d) O treinador foi um dos que não faltou.
e) Mais de um atleta desistiu da prova.

18. Assinale a alternativa com concordância nominal incorreta.

a) Ela sempre pareceu meia assustada.
b) Elas mesmas assim o queriam.
c) A árvore de cujas folhas e frutos lhe falei, é essa.
d) Envio-lhe anexa a certidão de casamento.
e) Estava com bolsos e mãos cheias de pedras.

19. Assinale a alternativa que completa, corretamente, a lacuna da frase abaixo.

“_______ três meses que ele não aparecia por aqui.”

a) Faziam
b) Fizeram
c) Fazia
d) Fariam
e) Fizessem

20. Assinale a frase correta.

a) Por que você preferiu vir aqui do que me esperar?
b) Porque você preferiu vir aqui que me esperar?
c) Porque você preferiu mais vir aqui antes do que me procurar?
d) Por que você preferiu vir aqui a me esperar?
e) Por que você preferiu mais vir aqui a que me esperar?

21. “Oitenta por cento dos acidentes de trânsito são devidos  ____ falhas humanas, quinze por cento  ____  deficiências de estradas e apenas cinco por cento   ____ defeitos dos veículos.”

A alternativa que completa corretamente a frase acima, é

a) há – à – a
b) à – à – à
c) a – à – a
d) a – a – a
e) à – há – há

22. Considere as frases seguintes.

1. Chegamos cedo na reunião.
2. Tua atitude implicará em contrariedades futuras.
3. Pretendo assistir à inauguração da nova sede.

Está(ão) correta(s)

a) apenas a 1.
b) apenas a 2.
c) apenas a 3.
d) apenas a 1 e a 2.
e) 1, 2 e 3.

23. Assinale a alternativa corretamente pontuada.

a) O Ministro do Planejamento, fará uma visita, às nossas dependências.
b) Comunicamos, a todos os funcionários, que os testes, foram adiados.
c) Os legítimos meios de adquirir patrimônio são três: trabalho, ordem e economia.
d) O próximo ônibus sairá amanhã aliás, depois de amanhã.
e) Gostaria de dizer-lhes meus amigos, que nada fiz, para merecer isso.

24. Assinale a alternativa que apresenta o plural correto.

a) sultão – sultães
b) balcão – balcães
c) cirurgião – cirurgiãos
d) corrimão – corrimões
e) cidadão – cidadões

25. Em “Se eu recuperar todo o dinheiro roubado, tentarei concluir o projeto.”, se passarmos para o plural a palavra destacada, quantas outras alterações se farão necessárias?

a) Uma.
b) Duas.
c) Três.
d) Quatro.
e) Cinco.

1 – B
2 – C
3 – E
4 –D
5 – A
6 – B
7 – E
8 – A
9 – C
10 – B
11 – E
12 – B
13 – B
14 – D
15 – B
16 – N
17 – N
18 – A
19 – C
20 – D
21 – D
22 – C
23 – C
24 – N
25 – B



ps. Foram anuladas as questões números 16, 17 e 24.


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