Seguidores

domingo, 27 de maio de 2012

Texto "O pavão" - Rubem Braga

O Pavão


       Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
       Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
       Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

(Rubem Braga)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

Ivan Junqueira- Poemas
“Você tem que me ler” – Fabrício Carpinejar
António Nobre - Poemas


Conheça as apostilas de literatura do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.














ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Prova de Língua Portuguesa – Mackenzie – 2011 – 2º Semestre – Processos de transferência interna e transferência externa

Universidade Mackenzie – Processos de transferência interna e transferência externa

Prova de Língua Portuguesa - 2º Semestre de 2011

Texto para as questões de 01 a 04

         Na década de vinte a maneira mais útil de abordar o cinema, para a criação ou a reflexão, era considerá-lo arte autônoma. É possível que a tese da especificidade cinematográfica ainda venha no futuro a produzir frutos práticos e teóricos. Atualmente, porém, os melhores filmes e as melhores ideias sobre cinema decorrem implicitamente de sua total aceitação como algo esteticamente equívoco, ambíguo, impuro. O cinema é tributário de todas as linguagens, artísticas ou não, e mal pode prescindir desses apoios que eventualmente digere. Fundamentalmente arte de personagens e situações que se projetam no tempo, é sobretudo ao teatro e ao romance que o cinema se vincula. A história da arte cinematográfica poderia limitar-se, sem correr o risco de deformação fatal, ao tratamento de dois temas, a saber, o que o cinema deve ao teatro e o que deve à literatura. O filme só escapa a esses grilhões quando desistimos de encará-lo como obra-de-arte e ele começa a nos interessar como fenômeno. Não é na estética, mas na sociologia que refulge a originalidade do cinema como arte viva do século.

(Antonio Candido et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1970.)

Questão nº 01 - Compreende-se corretamente do excerto que

a) a originalidade do cinema está no fato de ser uma arte ambígua.
b) a arte que marcou o século XX deve ser entendida apenas como um fenômeno social.
c) o cinema é concebido como uma conjunção de diferentes linguagens.
d) um bom filme será sempre adaptação de uma obra literária ou de uma obra teatral.
e) talvez no futuro a crítica compreenda melhor a qualidade estética dos filmes
.
Questão nº 02 - Considerado o contexto, assinale a alternativa que traduz adequadamente o sentido da palavra em destaque.

a) refulge: sobressai.          b) fatal: que destrói.            c) prescindir: necessitar. 
d) tributário: oneroso.        e) equívoco: defeituoso.

Questão nº 03 - Assinale a alternativa correta.

a) Na linha 01, “para” introduz ideia de consequência. 
b) Na linha 06, a palavra “mal” está corretamente grafada, assim como em “Este é um mal exemplo para as crianças”.
c) Na linha 09, a oração “sem correr o risco de deformação fatal” exprime ideia de concessão.
d) Na linha 07, a forma “se projetam” pode ser corretamente substituída por “são projetadas”.
e) Nas linhas 11 e 12, a palavra “como”, em ambos os casos, tem a mesma função e sentido presentes em “Fez a tarefa como determinamos”.

Questão nº 04 - Considere as seguintes afirmações:

I. Por se tratar de um texto acadêmico, ele tem autonomia de sentido e, portanto, não há necessidade de relativizá-lo levando em conta as suas condições de produção.
II. Por ter caráter didático-pedagógico, e ter sido escrito há mais de quarenta anos, o texto torna-se inócuo como base de reflexão para os dias atuais.
III. Já que trata de um tema vinculado à arte, o texto afasta-se da linha de reflexão científica e, por isso, pode ser contestado nos dias de hoje.

Assinale:
a) se apenas I estiver correta.                               b) se apenas II estiver correta.
c) se apenas II e III estiverem corretas.               d) se todas as afirmações estiverem corretas.
e) se nenhuma afirmação estiver correta.

Texto para as questões de 05 a 08

Churrasco em enterro

          As festanças são atividades sociais importantes. Pessoas se juntam e preparam uma grande refeição para comemorar um evento. Pode ser um nascimento, um casamento, a vitória em uma batalha, o sucesso de uma caçada ou mesmo, em algumas culturas, a morte de um ente querido. Mas quando esse hábito surgiu entre os humanos?
         Até recentemente, a evidência mais antiga de grandes festas comunais datava do Neolítico, entre 11 mil e 8 mil anos atrás, depois do surgimento da agricultura e das primeiras cidades.  Agora, arqueólogos, escavando uma gruta em Israel, descobriram evidências de festanças que ocorreram há cerca de 12 mil anos. No fundo dessa caverna foram encontrados diversos buracos. Cada buraco estava coberto por um grande pedaço de pedra. Debaixo da pedra foram encontrados esqueletos humanos e muitos ossos de animais. Esses ossos apresentavam marcas indicando que a carne fora totalmente retirada e, além disso, tinham marcas de queimaduras.
         Os arqueólogos acreditam que provavelmente houve uma festança, na qual foi consumida uma grande quantidade de carne. Em seguida, os restos foram enterrados com o corpo da mulher. Tudo indica que o mais antigo churrasco descoberto até agora foi organizado como parte de um enterro.

(Adaptado de Fernando Reinach)

Questão nº 05 - Depreende-se da leitura do texto que

a) arqueólogos estão essencialmente preocupados em descobrir hábitos alimentares em torno de enterros.
b) atividades que parecem produto da civilização moderna podem ser, na verdade, costumes que estão nas raízes da formação dos hábitos da espécie humana.
c) civilizações antigas não tinham hábitos de higiene, uma vez que enterravam mortos com restos de comida.
d) a descoberta de esqueletos humanos e ossos de animais evidenciam que a civilização que habitou a gruta descoberta apresentava hábitos canibais.
e) grandes festas eram o fator motivador para que grupos humanos de antigas civilizações enterrassem seus mortos.

Questão nº 06 - Assinale a alternativa correta.

a) O texto constrói uma paisagem visual daquela hipotética situação da antiga civilização, por meio de uma organização textual descritiva em sua totalidade.
b) A descoberta da gruta é relatada em texto narrativo, construído em torno de um enredo com forte clímax em seu final.
c) A linguagem clara e objetiva nos possibilita a percepção de um texto de divulgação científica com teor próximo ao de um texto jornalístico.
d) A construção rigorosa da progressão temática, ao lado da apresentação de pontos de vista contraditórios, evidencia o caráter acadêmico do texto.
e) O texto caracteriza-se como um relato pessoal construído a partir da experiência do próprio narrador em pesquisa de campo.

Questão nº 07 - Considere as seguintes afirmações:

I. Predomina no texto tempo verbal presente, uma vez que é necessária a presentificação das ações por meio de um relato pessoal.
II. Há no texto emprego da língua formal padrão, adequada aos objetivos a que o autor se propõe.
III. A linguagem apresenta conceitos e terminologia científica, que se articulam paradoxalmente à defesa de um ponto de vista.

Assinale:
a)  se todas as afirmações estiverem corretas.              b)  se nenhuma afirmação estiver correta.
c)  se apenas as afirmações I e II estiverem corretas.   d)  se apenas a afirmação I estiver correta.
e)  se apenas a afirmação II estiver correta.

Questão nº 08 - Assinale a alternativa correta.

a) O trecho “fora totalmente retirada” poderia ser reescrito, sem prejuízo para o sentido, assim: “havia sido totalmente retirada”.
b) A forma plural de “houve uma festança” está corretamente grafada assim: “houveram festanças”.
c) O sufixo de “festança” apresenta mesmo sentido que o presente em “criança”.
d) De acordo com a norma culta, o trecho “há cerca de 12 mil anos” poderia também ser escrito da seguinte forma: “acerca de 12 mil anos atrás”.
e) Assim como temos a grafia “em cima”, a palavra “debaixo”, de acordo com a norma culta, poderia apresentar a grafia “de baixo”, sem que isso provocasse alteração no sentido da palavra.

Textos para as questões 09 e 10

Texto I

Quino, Toda Mafalda, Martins Fontes, p. 6.

Texto II

 
Quino, Toda Mafalda, Martins Fontes, p. 323.

Questão nº 09 - Assinale a alternativa correta.

a) A leitura das tiras prescinde de maiores informações de seu contexto de produção, uma vez o efeito de humor é resultado do efeito sincrético do texto.
b) O conhecimento de mundo é elemento importante para a compreensão do humor nas tiras, uma vez que ele é resultante de informações implícitas.
c) Há uma transmissão de efeito moral nas tiras, que apresentam como objetivo fundamental contribuir para o processo de educação das crianças.
d) As tiras caracterizam-se como exemplo perfeito do tipo de relação que os pais devem ter com os filhos, pois demonstram que a educação não deve ser repressiva.
e) A representação visual das personagens das tiras é elemento de menor importância para a formação dos sentidos.

Questão nº 10 - Assinale a alternativa INCORRETA sobre as tiras.

a) Há, na primeira tira, uma crítica ao comportamento de determinados políticos, que pouco fazem pela população que os elegeu.
b) A segunda tira incorpora, em sua construção, outro gênero textual, por meio da representação de um verbete de dicionário.
c) A ausência de enunciados verbais nos três últimos quadrinhos da segunda tira dificulta a compreensão dos sentidos, por isso é mais complexa que a primeira.
d) O efeito de humor da segunda tira é obtido exclusivamente por meio da exploração da linguagem visual e dos conhecimentos de mundo do leitor.
e) Um dos elementos inusitados da primeira tira relaciona-se com a forma escolhida pelas crianças para sua brincadeira.

GABARITO

1 - C     2 - A     3 - D     4 - E     5 - B     6 - C     7 - E     8 - A     9 - B     10 - D

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ivan Junqueira - Poemas

Ivan Junqueira - Poemas

"Falls of love", Óleo sobre tela. Fattah Hallah Abdel
E se eu disser

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?

E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?

E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?

Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.

(Ivan Junqueira)

Cinco movimentos - I

Que amor é esse que, desperto, dorme
e quando acorda faz-se ambíguo sonho,
transfigurando o belo no medonho
e em noite espessa a vida multiforme?

Então amor é só o que suponho,
o que não digo por ser tão informe
que fôrma alguma lhe é jamais conforme
como este molde em que teimoso o ponho?

Será amor o que se esquiva à fala
ou à linguagem que o pretende claro?
E o que seria esse tremor mais raro
que ao aflorar parece que se cala?

Amor oblíquo que olha de soslaio,
mas que ilumina e queima como raio...

(Ivan Junqueira, in “De Cinco Movimentos”)


Esse punhado de ossos

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.

Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.

Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.

E ali, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.

(Ivan Junqueira)



O Poema

Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?

Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que algema?

(Ivan Junqueira, in “A Sagração dos Ossos”)


Quase uma sonata

É música o rigor com que te moves
à fluida superfície do mistério,
os pés quase suspensos, a aérea
partitura do corpo, seus acordes.

Espaço e tempo são teu solo. E colhem,
não tanto a luz que entornas, mas o pólen
com que ela cinge e arroja as coisas mortas
além da espessa morte que as enrola.

E música o silêncio que te cobre
quando lampeja à noite tua nudez,
em franjas derramada sobre o leito

das águas, onde as algas te incendeiam
porque semelhas, mais que o mar profundo,
o intemporal princípio e fim de tudo.

(Ivan Junqueira, in “De Opus Descontínuo”)


Vai tudo em mim
Remedios Varo.
  
Vai tudo em mim, enfim, se despedindo
neste pomar sem ramos ou maçãs,
sem sol, sem hera ou relva, sem manhãs
que me recordem o que foi e é findo.

Tudo se faz sombrio, e as sombras vãs
do que eu não fui agora vão cobrindo
os ermos epitáfios, indo e vindo
entre as hermas e as lápides mais chãs.

Tudo se esvai num remoinho infindo
de atávicas moléculas malsãs:
essas do avô, do pai e das irmãs
que o sangue foi à alma transmitindo.


Tudo o que eu fui em mim de mim fugindo
em meu encalço vem me perseguindo.

(Ivan Junqueira, in “O outro lado”)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

"Você tem que me ler" - Fabrício Carpinejar
Cora Coralina
"A profecia" - Werner Zotz
"O pavão" - Rubem Braga


Conheça as apostilas de literatura do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.














ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO

sábado, 12 de maio de 2012

Texto: "Você tem que me ler" - Fabrício Carpinejar

Você tem que me ler

"Duality" - Arthur Brahinskiy. Óleo sobre tela.

            É antropológico: mulher odeia ser mandada. São séculos e séculos de opressão. Não dê corda, que já cheira a forca. Vale, inclusive, para a masoquista. Gosta de firmeza, não que alguém diga o que ela deve ou não fazer. Não seja autoritário. O feminismo não é conversa de sapatão.
Que aconselhe, não emplaque uma ordem. Que ofereça um palpite, este é despretensioso como um assobio, é soprar uma melodia e permitir espaço para que ela complete a letra. Finja que está no chuveiro – menor o risco de se afogar. Fale cantado. Quem canta nunca será um ditador.
Posso estar plenamente equivocado, sou tão bonito quanto carro de eletricista, mas mulher aprecia é sentir saudade. Quando o homem desaparece e ela corre para procurá-lo. São coisas do cotidiano. Fui percebendo que a conversa com a minha namorada estragava sempre do mesmo jeito. Havia um método no erro. Uma insistência de minha parte. Uma frase morse que truncava o entendimento. Depois que pronunciava aquilo, nada mais funcionava. Da calmaria, ela migrava para um estado nervoso e impaciente. A transformação de sua atitude me baqueava: O que foi? Será que perdi algo? Retrocedia para caçar uma gafe. Cansei até captar o sinal. O homem ainda tenta melhorar sua imagem com o bombril na antena.
Eu dizia “você tem que” a cada início de diálogo. Impositivo, não agia por mal, era um hábito, buscava convencer com “você tem que”. Parecia que tinha a solução dos problemas do mundo. Persuasão é a sedução para quem não tem paciência. Meu caso; não cuidava da linguagem e depois estranhava o silêncio dela. “Você tem que” é um mandado de segurança. É atestar que ela não desfruta de condições de conduzir a própria vida. Virava um segundo pai, determinando suas atitudes. Fugia da cumplicidade, vinha com os mandamentos e as condicionais de comportamento para que merecesse a mesada.
O homem não botou na cabeça que a fragilidade da mulher não é dependência. Ela não precisa ser protegida, e sim respeitada. Existe uma diferença aguda no tratamento. Depois que ela fica braba não adianta remendar. Emerge um pânico das cavernas, o receio de ser puxada pelos cabelos e pelas palavras. Igual é chamá-la de louca no meio de uma discussão.
Quem não encheu o pulmão para desabafar “você está louca!”, com aquele grito catártico, que serve como elevador para todo o prédio? Eu confesso, mais de uma vez. É novamente afirmar que ela não tem domínio, que nem sabe o que está falando e menosprezar sua opinião. Pode até ser louca, mas não chame de louca, senão ela não vai recuperar o juízo. Na história do pensamento, quantas mulheres foram enviadas para o hospício devido a sua autonomia? Quantas receberam eletrochoque ou sofreram lobotomia em função da independência de estilo? Significa um joanete ancestral, um calo antiquíssimo, não pise.
Joana D’Arc não foi uma bruxa. Assim como vassoura não é para voar, é para varrer qualquer sujeira machista dentro de casa.


(Fabrício Carpinejar, crônica publicada no jornal “Zero Hora”, em 04/10/2010)


www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

Cora Coralina
"A profecia" - Werner Zotz
"David Mourão-Ferreira" - Poemas
Ivan Junqueira - Poemas


Conheça as apostilas de literatura do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.














ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO

terça-feira, 8 de maio de 2012

FATEC 2005 - 1º Semestre - Prova de Língua Portuguesa

FATEC - Prova de Língua Portuguesa - 1º Semestre - 2005


Leia o texto para responder às questões de números 43 a 45.

Capítulo CC

Poucos dias depois, [Rubião] morreu... Não morreu súbdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa. Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou séria porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.

Capitulo CCI

Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá titulo ao livro, e por que antes um que outro, questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.

(Machado de Assis. Quincas Borba.)

Questão 43 - Depreende-se do texto que

a) ao narrar a agonia de Rubião, o narrador deixa implícito que aquele merecia as honrarias de um rei.
b) a ambigüidade no título do romance,  Quincas Borba, justifica-se pelo fato de o autor não conseguir definir-se por homenagear o filósofo ou seu cão.
c) a afirmação que encerra o capítulo CC revela um traço machadiano característico: a ironia.
d) a declaração de que Sofia não quis fitar o Cruzeiro revela a indiferença como matriz do estilo do autor.
e) a linguagem empregada para descrever a morte de Quincas Borba revela tendência do narrador a dar mais importância ao cão do que Rubião.

Questão 44 - Reescritas de acordo com a norma culta, na 3ª  pessoa do plural, as formas verbais destacadas na frase “Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te!” poderão, conservando o sentido original, dar lugar respectivamente a

a) chorem – possuem – possuem – riem-se.
b) choram – há – há – riem-se.
c) choram – têem – têem – riam-se.
d) chorem – têm – têm – riam-se.
e) choram – houverem – houverem – riam-se.

Questão 45 - “... só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes.”

No contexto, as expressões em negrito exprimem, respectivamente, ideia de:

a) causa e causa.    b) causa e instrumento.
c) matéria e meio.  d) modo e modo.           e) Intensidade e intensidade.

Leia o texto para responder às questões de números 46 a 48.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. A palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz, que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E por quê?  Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar quem os não pica.  
Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana  mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra.  
E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza, nasce nas pedras.

(Padre Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima . Texto editado.)

Questão 46 - Considere as afirmações seguintes sobre o texto de Vieira.

I. Trata-se de texto predominantemente argumentativo, no qual Vieira emprega as
metáforas do espinho e da pedra para referir-se àqueles em que a palavra de Deus não prospera.
II. Nota-se no texto a metalinguagem, pois o sermão trata da própria arte da pregação
religiosa.
III. À vista da construção essencialmente fundada no jogo de idéias, fazendo progredir o tema pelo raciocínio, pela lógica, o texto caracteriza-se como conceptista.
IV. Efeito da Revolução Industrial, que reforçou a perspectiva capitalista e o individualismo, esse texto traduz a busca da natureza (pedras, espinhos, .....) como refúgio para o eu lírico religioso.
V. Vincula-se ao Barroco, movimento estético entre cujos traços destaca-se a oscilação entre o clássico (de matriz pagã) e o medieval (de matriz cristã), a qual se traduz em estados de conflito religioso.

Estão corretas apenas as afirmações

a) I, II e III. b) I, III e V. c) II, III e IV. d) II, III, IV e V. e) I, II, III e V.

Questão 47 - “Contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais.”

Assinale a alternativa em que o sentido dessa frase está adequadamente expresso.

a) A agudeza não se vale das vontades endurecidas contra elas, dana-se.
b) As vontades endurecidas não aproveitam nada; antes delas, tudo é pior.
c) Nada se aproveita da agudeza contra vontades endurecidas: piora mais ainda.
d) Só uma coisa se aproveita contra vontades endurecidas: a agudeza, que antes dana mais.
e) A agudeza de nada vale contra vontades endurecidas  só piora.

Questão 48 - “... é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos.”

O valor sintático da frase em negrito, no enunciado acima, reflete-se na oração destacada na alternativa:

a) ... se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus.
b) ... lançada nos espinhos não frutificou, mas nasceu até nos espinhos.
c) ... são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas.
d) ... se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito.
e) ... a palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muitos frutos.

GABARITO

43 C – 44 D – 45 A – 46 E – 47 E – 48 D 

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Conheça as apostilas de gramática do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.













ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO



Leia também: