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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fagundes Varela

Fagundes Varela

- Nasceu em Rio Claro (RJ), em 1841, e faleceu em Niterói (RJ), em 1875.
- É o patrono da cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras.
- Cursou Direito em São Paulo e em Recife, sem, no entanto, concluir o curso.
- Pertenceu à segunda geração do Romantismo brasileiro, chamada de geração ultrarromântica, ou ainda geração mal do século, embora em sua poesia já apareçam muitos elementos da terceira geração, caracterizada pela poesia social, sendo por isso considerado por alguns críticos como um poeta de transição entre as duas gerações.
- Poeta que levou uma vida boêmia e desregrada, vindo a falecer aos 34 anos de idade.
- Entre seus temas favoritos figuram a angústia, a solidão, a melancolia, a saudade da pátria, a infância, a abolição da escravatura, a religiosidade.
- Seu poema mais famoso é “O Cântico do Calvário”, feito em homenagem ao filho que morreu com apenas três meses.


"Pensava em ti nas horas de tristeza,
Quando estes versos pálidos compus,
Cercavam-me planícies sem beleza,
Pesava-me na fronte um céu sem luz.

Ergue este ramo solto no caminho.
Sei que em teu seio asilo encontrará.
Só tu conheces o secreto espinho
Que dentro d’alma me pungindo está."


(Fagundes Varela)

Cântico do Calvário

À Memória de Meu Filho, morto a l l de Dezembro de 1863.

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!

(...)

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela,
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.


(Fagundes Varela)

SONETO - Desponta a estrela d’alva, a noite morre


Desponta a estrela d’alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh’alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!

(Fagundes Varela)


"Night". 1903. Edward Okun.
Juvenília VII

Ah! quando face a face te contemplo,
E me queimo na luz de teu olhar,
E no mar de tua alma afogo a minha,
E escuto-te falar;

Quando bebo no teu hálito mais puro
Que o bafejo inefável das esferas,
E miro os róseos lábios que aviventam
Imortais primaveras,

Tenho medo de ti!... Sim, tenho medo
Porque pressinto as garras da loucura,
E me arrefeço aos gelos do ateísmo,
Soberba criatura!

Oh! eu te adoro como a noite
Por alto mar, sem luz, sem claridade,
Entre as refegas do tufão bravio
Vingando a imensidade!

Como adoro as florestas primitivas,
Que aos céus levantam perenais folhagens,
Onde se embalam nos coqueiros presas
As redes dos selvagens!

Como adoro os desertos e as tormentas,
O mistério do abismo e a paz dos ermos,
E a poeira de mundos que prateia
A abóbada sem termos! ...

Como tudo o que é vasto, eterno e belo;
Tudo o que traz de Deus o nome escrito!
Como a vida sem fim que além me espera
No seio do infinito.


(Fagundes Varela)

“Eu amo a noite quando deixa os montes
Bela, mas bela de um horror sublime,
E sobre a face dos desertos quedos
Seu régio selo de mistério imprime.”


(Fagundes Varela)


"A Maja vestida". Francisco Goya.
Estâncias

O que eu adoro em ti não são teus olhos,
Teus lindos olhos cheios de mistérios,
Por cujo brilho os homens deixariam
Da terra inteira o mais soberbo império.

O que eu adoro em ti não são teus lábios,
Onde perpétua juventude mora,
E encerram mais perfumes do que os vales
Por entre as pompas festivais da aurora.

O que eu adoro em ti não é teu rosto,
Perante o qual o mármor descorara,
E ao contemplar a esplêndida harmonia,
Fídias, o mestre, seu cinzel quebrara.

O que eu adoro em ti não é teu colo,
Mais belo que o da esposa israelita,
Torre de graças, encantado asilo,
Aonde o gênio das paixões habita.

O que eu adoro em ti não são teus seios,
Alvas pombinhas que dormindo gemem,
E do indiscreto vôo duma abelha
Cheias de medo em seu abrigo tremem..

O que eu adoro em ti, ouve, é tu'alma,
Pura como o sorrir de uma criança,
Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos,
Rica de crenças, rica de esperança.

São as palavras de bondade infinda
Que sabes murmurar aos que padecem,
Os carinhos ingênuos de teus olhos,
Onde celestes gozos transparecem!…

Um não sei quê de grande, imaculado,
Que faz-me estremecer quando tu falas,
E eleva-me o pensar além dos mundos,
Quando, abaixando as pálpebras, te calas,

E por isso em meus sonhos sempre vi-te
Entre nuvens de incenso em aras santas,
E das turbas solícitas no meio
Também contrito hei-te beijado as plantas.

E como és linda assim! Chamas divinas
Cercam-te as faces plácidas e belas;
Um longo manto pende-te dos ombros
Salpicado de nítidas estrelas!

Na doida pira de um amor terrestre
Pensei sagrar-te o coração demente…
Mas ao mirar-te, deslumbrou-me o raio…
Tinhas nos olhos o perdão somente!


(Fagundes Varela)


Soneto - Eu passava na vida errante e vago

Eu passava na vida errante e vago 

Elzbieta Brozek.
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,

Beijava a onda, num soluço mago,
Das moles plumas a brilhante alvura,
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te; e nas chamas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade
Esqueci de mim, de Deus, do mundo ! ...

Mas ai! Cedo Fugiste ! ... da saudade,
Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!


(Fagundes Varela)


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Leia também:
Caio Fernando Abreu - Fragmentos
“Os diferentes estilos” – Paulo Mendes Campos
“A disciplina do amor” – Lygia Fagundes Telles


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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Texto: "Fim do mundo" - Carlos Drummond de Andrade

Fim do mundo

       Não se sabe ainda se o mundo acabou realmente no sábado, como fora anunciado. Pode ser que sim, e não seria a primeira vez que isso acontece. A falta de sinais estrondosos e visíveis não é prova bastante da continuação. Muitas vezes o mundo acaba em silêncio, ou fazendo um barulho leve de folha. Tempos depois é que se percebe, mas já então vivemos em outro mundo com sua estrutura e seus regulamentos próprios, e ninguém leva lenço aos olhos pelo falecido.
      O mundo primitivo dos répteis, o mundo neolítico, o egípcio, o persa, o grego, o romano, o maia... todos esses acabaram, e muitos outros ainda. A história é cemitério de mundos, notando-se que uns tantos acabaram de morte tão acabada que nem sequer figuram lá com uma tabuleta; não se sabe que fim levaram as cinzas.
       Pessoas que aí estão vivas assistiram à morte do mundo em 1.º de agosto de 1914, mas estavam lendo jornal e não compreenderam no momento. Era apenas mais uma guerra na Europa, mas acabou com a belle époque, a douceur de vivre, a respeitabilidade vitoriana, o franco, a supremacia da libra, os suspensórios, o rapé, os conceitos econômicos, políticos e éticos do século XIX – mundo que parecia eterno. Pedaços dele andam por aí, vagando, como o colonialismo, a pressão de grupos financeiros, a servidão civil da mulher, mas pertencem a um contexto liquidado, rabo de lagartixa vibrando depois que o corpo foi abatido. 
       É possível que a previsão dos astrólogos indianos não tivesse base, e que o mundo atual dure muitos anos. Acredito mesmo que é cedo para ele morrer, se apenas está nascendo, e nem sabe ao certo como é ou será. 
       Aos sete anos de idade imaginei que ia presenciar a morte do mundo, ou antes, que morreria com ele. Um cometa mal-humorado visitava o espaço. Em certo dia de 1910, sua cauda tocaria a Terra; não haveria mais aulas de aritmética, nem missa de domingo, nem obediência aos mais velhos. Essas perspectivas eram boas. Mas também não haveria mais geleia, Tico-Tico, a árvore de moedas que um padrinho surrealista preparava para o afilhado que ia visitá-lo. Ideias que aborreciam. Havia ainda a angústia da morte, o tranco final, com a cidade inteira (e a cidade, para o menino, era o mundo) se despedaçando – mas isso, afinal, seria um espetáculo. Preparei-me para morrer, com terror e curiosidade.

       O que aconteceu à noite foi maravilhoso. O cometa de Halley apareceu mais nítido, mais denso de luz e airosamente deslizou sobre nossas cabeças sem dar confiança de exterminar-nos. No ar frio, o véu dourado baixou ao vale, tornando irreal o contorno dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saíamos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte, que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo. O rabo dele media... Como posso referir em escala métrica as proporções de uma escultura de luz, esguia e estelar, que fosforeja sobre a infância inteira? No dia seguinte, todos se cumprimentavam satisfeitos, a passagem do cometa fizera a vida mais bonita. Havíamos armazenado uma lembrança para gerações vindouras que não teriam a felicidade de conhecer o Halley, pois ele se dá ao luxo de aparecer só uma vez a cada 76 anos. 
    Nem todas as concepções de fim material do mundo terão a magnificência desta que liga a desintegração da Terra ao choque com a cabeleira luminosa de um astro. Concepção antiquada, concordo. Admitia a liquidação do nosso planeta como uma tragédia cósmica que o homem não tinha poder de evitar. Hoje, o excitante é imaginar a possibilidade dessa destruição por obra e graça do homem. A Terra e os cometas devem ter medo de nós. 

(Carlos Drummond de Andrade)

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“Os diferentes estilos” – Paulo Mendes Campos
Murilo Mendes
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quinta-feira, 21 de junho de 2012

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA — ESPM — 2º Semestre de 2011

ESPM – 2011 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa



Texto para as questões de 1 a 8

A pizza e o strogonoff



     EM BRASÍLIA, o clima tem sido denso de fofocas, expressão popular que os comentaristas políticos, sérios, conspícuos¹, traduzem por “tensão”. E aqui entre nós, as
tensões têm sido muitas e graves: quebra de sigilo na Receita Federal, escândalos na Casa Civil, longuíssima e inútil discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a lei da
Ficha Limpa, nepotismo diversificado e, menos recente, o mensalão envolvendo parlamentares, prisão de políticos, desentupido tráfico de influência, corrupção em várias modalidades e por aí vai.
     Como se não bastassem as tensões brasílicas, fatos e versões vindos de outras praças fazem o rei, o clero e o povo ficarem assanhados: previdência social deficitária, restri-
ções à liberdade de imprensa, possibilidade de um segundo turno, Tiririca garantindo que terá 1 milhão de votos, o último debate na TV seria sangrento e decisivo, o diabo.
     O mais interessante é que, em Brasília, todo mundo é bem-informado. E ninguém fica realmente alarmado. Sou do tempo em que o Rio era a capital federal, e uma fofoca na rua do Ouvidor, um incidente no Golden Room do Copacabana Palace ou uma dor de barriga mais virulenta no líder do governo faziam o país estremecer, os tanques desciam da Vila Militar, o líder da oposição subia à tribuna no grande expediente e declarava, aos berros ou em prantos, que o país estava à beira do caos, a pátria finalmente precipitada no abismo.
                     (...)
     Em Brasília não tem nada disso. O clima é tenso, a dívida é alta, os juros altíssimos, ninguém sabe onde está a saída - e parece que ninguém quer sair de lugar nenhum. Mas, à noite, vão todos aos coquetéis, às recepções e às homenagens a isso ou àquilo. A capital federal é, de longe, a cidade que mais importância dá a essas reuniões provincianas, onde depois dos discursos e canapés com palito espetando as azeitonas, serve-se um jantar dançante à base de “Moonlight Serenade”, o foco de luz multicolorido passeando pelo salão para dar clima de musical da Metro dos anos 50.
     Não se trata de saudosismo nem de patriotismo deficiente. Mas prefiro os tempos das crises mais cruas, que traziam o Regimento Sampaio para acampar na praça da República, faziam os rádios tocar os dobrados militares de praxe, os jornais vendiam mais e tudo terminava deixando no ar a necessidade de uma nova crise para consertar as coisas.
     Nada se resolvia, todos permaneciam nas posições em que estavam. Não é necessário citar “O Leopardo” de Lampedusa: é preciso de vez em quando agitar as coisas para
que tudo continue como sempre.
     Naquele tempo, a pizza ainda não havia entrado no mercado, de maneira que tudo terminava em strogonoff, iguaria então recente e que estava em moda. Era, segundo se dizia na época, de particular estima das esposas dos oficiais do Estado-Maior.
     Havia até mesmo uma teoria sociológica para explicar o apego dos militares pelos cargos públicos: provado uma vez, o strogonoff subia ao patamar de símbolo do poder.
Rasgavam a Constituição para terem direito permanente ao prato que só era servido na boate Vogue, trazido para nossas plagas² pelo barão von Stuckart, barão não sei de onde, acho que do império austríaco.

(Carlos Heitor Cony, Folha de S. Paulo - 01/10/2010)

  ¹Conspícuo: sério, grave, respeitável
  ²Plaga: região, país

QUESTÃO 01 - Dentre outras ideias, o texto procura:

a) Estabelecer as divergências ideológicas entre a sociedade brasiliense do presente e a sociedade carioca do passado, elogiando a abundância de informação.
b) Associar as variações do modo de encarar os problemas sociais com as variações culinárias de uma época para outra.
c) Contrapor a bem informada sociedade brasiliense de hoje com a pouca informada sociedade carioca de outrora.
d) Ressaltar as diferentes reações no passado e no presente ante as tensões sociais e políticas do país.
e) Criticar a indiferença da população de Brasília e a preocupação exagerada da população do Rio ante as tensões sociais.

QUESTÃO 02 - A frase do autor: “O mais interessante é que, em Brasília, todo mundo é bem-informado” (3o parágrafo) revela:

a) Surpresa, ao perceber que há uma riqueza de informações no presente, fato não constatado na época em que a capital federal era no Rio.
b) Ironia, ao constatar que na capital federal há ciência dos escândalos e, no entanto, há também uma apatia ou negligência ante esses mesmos fatos.
c) Lamentação, ao verificar que Brasília se preocupa bastante com o “clima denso de fofocas”, preocupação essa inexistente no Rio de outrora.
d) Sarcasmo, ao destacar que há supremacia de conhecimentos na capital federal em relação às demais capitais do país.
e) Tristeza, ao descobrir que em Brasília a profusão de informações não é devidamente aproveitada para a solução dos problemas sociais e políticos do país.

QUESTÃO 03 - “Em Brasília não tem nada disso” (4o parágrafo). O termo em destaque faz referência:

a) ao grande alvoroço gerado por escândalos na política.
b) à vasta repercussão social causada por graves tensões.
c) ao enorme estardalhaço provocado por fatos banais ou insignificantes.
d) à solene indiferença ante o clima tenso da nação.
e) ao alarmismo devido à dívida alta e juros altíssimos.

QUESTÃO 04 - Contrapondo-se ao clima tenso, as noites brasilienses são para o autor:

a) Fúteis e desprovidas de importância.
b) Glamourosas e com muito requinte.
c) Saudosistas e com certo luxo.
d) Charmosas e disputadas pela elite.
e) Movimentadas e com aspectos hollywodianos.

QUESTÃO 05 - Com a frase “tudo terminava em strogonoff”, conclui-se do texto que:

a) Embora haja semelhanças de atitude no passado (Rio) e no presente (Brasília), os problemas graves eram resolvidos em ambos os momentos.
b) Embora haja semelhanças de atitude no passado (Rio) e no presente (Brasília), as tensões não eram resolvidas em ambos os momentos.
c) Embora haja diferenças de atitude no passado (Rio) e no presente (Brasília), as crises eram resolvidas pelos militares.
d) Embora haja diferenças de atitude no passado (Rio) e no presente (Brasília), os conflitos sociais terminavam numa grande festança.
e) Embora haja diferenças de atitude no passado (Rio) e no presente (Brasília), as tensões não eram resolvidas, não davam em nada.

QUESTÃO 06 - Ao lado de uma linguagem formal, o autor lança mão de uma linguagem coloquial. Assinale o item em que NÃO há traços de coloquialidade:

a) “expressão popular que os comentaristas políticos, sérios, conspícuos, traduzem por ‘tensão’.”
b)  “corrupção em várias modalidades e por aí vai.”
c) “o último debate na TV seria sangrento e decisivo, o diabo.”
d) “uma dor de barriga mais virulenta no líder do governo”
e) “trazido para nossas plagas pelo barão von Stuckart, barão não sei de onde, acho que do império austríaco.”

QUESTÃO 07 - Na oração: “Como se não bastassem as tensões brasílicas” (2o parágrafo), o segmento em destaque estabelece com a oração seguinte a ideia de:

a) Causa   b) Conclusão   c) Adição   d) Oposição   e) Consequência

QUESTÃO 08 - A frase: “...ninguém sabe onde está a saída - e parece que ninguém quer sair de lugar nenhum” só NÃO revela:

a) Apatia   b) Comodismo   c) Negligência   d) Indolência   e) Nepotismo

QUESTÃO 09 - Em todos os itens ocorre uma distorção semântica ou ambiguidade no título da matéria em relação ao corpo noticioso, exceto em um deles. Assinale-o:

a) Garoto é abandonado em rodovia por ônibus escolar após mau comportamento em SP. Um garoto de dez anos foi deixado no meio de uma rodovia, em Boituva (121 km de SP), a cerca de 2 km da escola, pelo transporte escolar, como punição por mau comportamento, nesta terça-feira ((7).
b) Bombardeio na Líbia foi intenso na segunda noite de ataque das forças de coalizão. A coalizão militar internacional que impôs uma zona de exclusão aérea na Líbia disparou entre 10 a 12 mísseis contra alvos durante a noite, segundo informações do porta-voz do Comando da áfrica, Vince Crawley.
c) SP registra 32% de chuva mensal esperada em um dia, segundo Centro de Gerenciamento de Emergências. O CGE registrou um volume de 65 milímetros de chuva, em média, na cidade de São Paulo na segundafeira (13). Este número representa 32% do volume esperado para o mês de dezembro (201 milímetros).
d) PF prende procuradora acusada de corrupção no DF. A promotora Deborah Guerner foi presa pela Polícia Federal na manhã desta quarta-feira em Brasília. Ela é investigada por suspeita de tráfico de influência na operação Caixa de Pandora de 2009, que apura esquema de coleta e distribuição de propina.
e) Andres Iniesta e David Villa viram estátua de cera na Espanha. O Museu de Cera de Madri inaugurou nesta terça-feira as estátuas de David Villa e Andres Iniesta, jogadores de futebol da seleção espanhola.

QUESTÃO 10 - Assinale a afirmação INCORRETA sobre a propaganda:

a) O texto trabalha com uma aparente contradição, ao relacionar a expressão “inesquecível” à expressão de proximidade semântica “não lembra”.
b) O segmento “a que você não lembra de nada” é ambíguo, pois em princípio teria uma conotação pejorativa e no texto deixou de tê-la.
c) A imagem da chama, além de reforçar o nome do produto, sugere a ideia de potencializar as energias.
d) O texto busca associar a positividade de uma noite prazerosa à negatividade de possíveis acontecimentos desagradáveis.
e) Comum na linguagem coloquial, o texto apresenta uma transgressão, segundo os preceitos gramaticais, de regência verbal.

QUESTÃO 11 - Nas frases abaixo, as ocorrências do vocábulo “NÃO” estão isentas de valor negativo, exceto em uma. Assinale-a:

a) Atendendo ao cliente, o balconista da loja disse: “Pois não!”
b) A sociedade deve saber dar um basta, um grande não a todas as formas de opressão e preconceito.
c) O que a opinião pública não vai dizer quando souber que policiais rodoviários estavam envolvidos em seqüestro de motoristas de caminhões?
d) Quantas tramas políticas não deve haver nas intervenções militares dos americanos!
e) A partir do momento em que assumir o cargo de deputado estadual, João Beltrão, 56, não pode ser preso preventivamente. Só em flagrante.

QUESTÃO 12 - Nas frases abaixo, retiradas do romance “Tieta do Agreste” de Jorge Amado, o pronome “LHE” exerce a função de possessivo, exceto em uma. Assinale-a:

a) “o reflexo do sol cega-lhe os olhos”
b) “a deslumbrante imensidão da cama de noiva que lhe coube.”
c) “o vento corta-lhe a pele”
d) “O desafio bate na face... ergue-lhe as forças, ...”
e) “sente a mão pesada segurar-lhe o braço...”


Bocage (1765-1805)
Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores.
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores;
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

(Bocage)

Que: porque
Ponderai: considerai
Fortuna: destino
Sentimento: pesar, tristeza, desgosto, mágoa
Festival: entusiástico

QUESTÃO 13 - Bocage foi um dos maiores sonetistas da Literatura Portuguesa e o poema acima um dos mais conhecidos de sua obra. Assinale a afirmação NÃO pertinente:

a) Dirigindo-se aos leitores, o poeta avalia com desprezo e desfaçatez a própria obra poética (“incultas produções”).
b) O poeta declara que seus textos não merecem louvores porque seus sentimentos não foram verdadeiros.
c) Numa postura humilde, o poeta pede aos impiedosos leitores compaixão para seus escritos.
d) Nos versos 5 e 6, o poeta pede para levar em conta os acasos do destino presentes em seus “suspiros, lágrimas e amores”.
e) O poeta pede também para perceber o disparate, proporcionado pelo destino, entre os benefícios - poucos e curtos - e os males - abundantes.

QUESTÃO 14 - Assinale a afirmação NÃO pertinente:

a) O poeta confessa ter recorrido à violência para escrever seus versos.
b) A expressão “mão do Fingimento” indica o caráter falso e artificial de seus poemas.
c) A expressão “voz da Dependência” sugere o fato de o poeta estar preso a um modismo literário (no caso, o Arcadismo).
d) Fingimento e artificialismo são recorrentes na poesia árcade, à qual o poeta se filia.
e) Possíveis versos de contentamento seriam só de aparência, não verdadeiros.

QUESTÃO 15 - Muito comum na poesia, embora não no período literário a que Bocage pertence, a figura de linguagem chamada hipérbato aparece em várias passagens desse poema. Além disso, constatam-se alguns casos de zeugma. Encontre essas figuras de linguagem respectivamente no 1o e no 2o versos de um dos pares abaixo.

a) “Notai dos males seus a imensidade,”
“Encontrardes alguns, cuja aparência”
b) “Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores.”
c) “Nos meus suspiros, lágrimas e amores”
“Crede, ó mortais, que foram com violência”
d) “A curta duração dos seus favores;”
“Ponderai da Fortuna a variedade”
e) “Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.”

XVII – OS VERMES

(...) Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
− Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

(Dom Casmurro, Machado de Assis)

QUESTÃO 16 - O trecho em questão caracteriza um procedimento metalinguístico do autor. Assinale a afirmação NÃO condizente:

a) A fala do “verme gordo” pode ser entendida como a total indiferença em relação aos textos escritos.
b) Transpassa a ideia de que se lê por ler, ou seja, lê-se muitas vezes por obrigação, sem consciência do ato em si.
c) A expressão “roer o roído” é passível de ser lida, dentro do contexto, como “roer o ruído”, remetendo à produção do silêncio.
d) A expressão “Passado palavra” remete à alienação mental e à renúncia aos compromissos editoriais.
e) O trecho pode ser visto também como uma alusão à passagem inexorável do tempo.

QUESTÃO 17 - Leia:

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e há altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.

(Cecília Meireles)

O trecho acima foi extraído de Romanceiro da Inconfidência, poemas narrativos inspirados em Tiradentes, nos poetas árcades e em outros inconfidentes. Segundo o texto, o projeto de independência política era elaborado na clandestinidade por um grupo composto de vários segmentos da sociedade da época. Esses segmentos são representados por:

a) metonímias de, respectivamente, burgueses, advogados, intelectuais, mulheres, garimpeiros e outros elementos do clero.
b) sinédoques de, respectivamente, administradores, advogados, intelectuais, burgueses, garimpeiros e frades.
c) perífrases de, respectivamente, militares, padres, letrados, mulheres, trabalhadores braçais e frades.
d) sinédoques de, respectivamente, militares, padres, intelectuais, mulheres, trabalhadores braçais e outros elementos do clero.
e) metáforas de, respectivamente, burgueses, padres, intelectuais, mulheres, trabalhadores braçais e frades.

Datilografia

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...
Mas ao lado, acompanhamento
banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque
estalado das máquinas
de escrever.

(Álvaro de Campos)

QUESTÃO 18 - Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, é o poeta angustiado do século XX, urbano, descrente dos valores tradicionais. Sobre o poema acima, assinale a
afirmação NÃO condizente:

a) Nos primeiros versos, o trabalho em seu escritório é realçado pela solidão e perda da identidade.
b) Há uma oposição básica no texto entre a vida anterior, da infância, onírica, verdadeira e feliz, e a vida adulta presente, falsa e infeliz.
c) De teor niilista ou profundamente pessimista, o “eu” poético aponta o aspecto angustiante de uma existência repetitiva e enfadonha.
d) Ressalta a infeliz necessidade de se viver de aparências na sociedade, fato que aprisiona e mata o ser humano.
e) Lamenta o fato de não ter conseguido ler os “grandes livros coloridos” da infância, apenas visto suas ilustrações.

QUESTÃO 19 - Assinale a afirmação INCORRETA sobre o poema:

a) o eu poético reitera o incômodo crescente e neurótico do barulho da máquina de escrever.
b) o tique-taque da máquina de escrever sugere a repetição e a monotonia da existência.
c) apesar do estorvo, a máquina de escrever ainda extasia o engenheiro, considerada como exemplo máximo de modernidade.
d) a expressão “acompanhamento banalmente sinistro” realça o aspecto da morte em vida, como se fosse um cortejo fúnebre.
e) nos últimos versos, o ruído da máquina de escrever ganha proporções tais que há uma personificação.

QUESTÃO 20 - Os versos abaixo revelam traços característicos e biográficos do que tradicionalmente se conhece de Álvaro de Campos. Assinale o verso que diretamente expressa aversão à monotonia da vida:

a) Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano.”
b) “Remoto até de quem eu sou.”
c) “Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;”
d) “Que abjeção essa regularidade!”
e) “Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros.”

GABARITO

1 – D    2 – B    3 – C   4 – A    5 – E     6 – A    7 – C    
8 – E    9 – B    10 – D 11 – E   12 – B  13 – C   14 – A    
15 – A 16 – D  17 – D  18 – E  19 – C   20 – D