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domingo, 8 de julho de 2012

Lêdo Ivo - Poemas

Lêdo Ivo

Soneto da Porta

Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.

(Lêdo Ivo)

Acontecimento do Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

(Lêdo Ivo)




"Ocean Breeze". Hanks Steve.
Soneto de Abril

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d'água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes 
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

(Lêdo Ivo)

Canto Grande


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.


Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

(Lêdo Ivo)

Soneto Puro

Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
de verdes áreas de seu vão lamento.

Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.

Seja o amor como o tempo – não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.

(Lêdo Ivo, in "Plenilúnio")

“Que me deixem passar – eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho”.

(Lêdo Ivo)

"Immersion into stillness". Peregrine Heathcote.
Soneto da Enseada

Sou sempre o que está além de mim 
como a ponte de Brooklyn ao pôr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?

(Lêdo Ivo)

Soneto dos Vinte Anos


Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.

Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.

Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.

Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

(Lêdo Ivo)

Soneto do Empinador de Papagaio


A nada aceito, exceto a eternidade,
Nesta viagem ambígua que me leva
ao altar absoluto que, na treva,
espera pela minha inanidade.

O que sonhei, menino, hoje é verdade
de alva estação que em meu silêncio neva
o inverno de uma fábula primeva
que foi sol, cego à própria claridade.

Na hora do fim de tudo, separados
fiquem os dois comparsas do destino
que sabe a cinza após o último alento.

E a morte guarde em cova os injuriados
despojos do homem feito; que o menino
empina o papagaio, vive ao vento.

(Lêdo Ivo)

Soneto Presunçoso


Que forma luminosa me acompanha
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?

Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.

O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.

Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.

(Lêdo Ivo)


As Iluminações

Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsalício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.

(Lêdo Ivo)

Soneto da Conciliação

Que o amor não me iluda, como a bruma
que esconde uma imprevista segurança.
Antes, sustente o chão em que descansa
o que se irá, perdido como a espuma.

Veja que eu me elegi, mas sem nenhuma
razão de assim fazer, e sem lembrança
de aproveitar apenas a esquivança
de que o amor não prescinde em parte alguma.

Que também não se alheie ao que esclarece
o motivo real, de uma oferta,
reunir o acessório e o imprescindível.

Antes, atente a tudo o que se tece
distante do seu dia inconsumível
que dá certeza à noite mais incerta.

(Lêdo Ivo)

Soneto da Mulher e a Nuvem

A João Cabral de Melo Neto

Nuvem no céu do nunca, nem tão branca 
Michael Cheval.

– assim era o amor, à minha espreita,
e era a mulher, de nuvens sempre feita
e de véus e pudor que o amor arranca.

Não pude amá-la, pois não era franca
a sua carne que o amor aceita,
nuvem que um céu de amor sempre atravanca
e entre praias e pântanos se deita.

Bruma de carne, em vão céu de tormento,
parindo fogo aos meus dezesseis anos,
assim foi ela, sem deixar seu nome.

Nunca foi minha, e só em pensamento
eu pude dar-lhe o amor de desenganos
que me deixou no corpo espanto e fome.

(Lêdo Ivo, in “As imaginações”, 1944.)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

“A disciplina do amor” – Lygia Fagundes Telles
Fagundes Varela
“Fim do mundo” – Carlos Drummond de Andrade

"Um Fluminense tão Flaubert" - Nelson Rodrigues
"A palavra escrita no muro" - Lêdo Ivo
Poeta e escritor Lêdo Ivo morre aos 88 anos


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quarta-feira, 4 de julho de 2012

REGÊNCIA VERBAL – II

REGÊNCIA VERBAL – II

Seguem mais alguns verbos com regências complicadas.

Para relembrar os verbos anteriores, veja o seguinte post:
Lembre-se da nomenclatura utilizada quanto à transitividade verbal:

V.T.D. – Verbo Transitivo Direto
V.T.I. – Verbo Transitivo Indireto
V.T.D.I. – Verbo Transitivo Direto e Indireto
V.L. – Verbo de Ligação
V.I.– Verbo Intransitivo

13 – Ansiar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD
Angustiar, transtornar, afligir
A espera ansiava o réu.
VTI
Desejar ardentemente, almejar – usa-se com a preposição “por”
O povo ansiava por reformas.

14 – Custar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Difícil, ser custoso. Tem como sujeito uma oração reduzida de infinitivo. Pode vir acompanhado da preposição “a” ou não.
Custava-lhe acreditar em tudo aquilo.

VTD
Ter preço.
Os óculos custaram R$ 500,00.
VTDI
Causar, acarretar
O trabalho custou-lhe lágrimas.

Na linguagem coloquial, embora esteja em desacordo com a norma culta, é muito comum o uso da preposição “para”:

Ele custava para entender português.

15 – Esquecer

Na propaganda abaixo, o uso do verbo “esquecer” está corretamente utilizado como VTD.


Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD
Sair da lembrança, olvidar
Esqueci o guarda-chuva.
VTI
Quando usado pronominalmente, torna-se “esquecer-se” com a preposição “de”;
Esqueci-me do guarda-chuva.

Uma terceira construção, muito comum no meio literário, admite o objeto, seja direto ou indireto, como sujeito da oração:

Esqueceu-me tudo.
Esqueceram-me os documentos.

Na linguagem coloquial, é muito comum a mistura de algumas dessas formas:

Esqueci do guarda-chuva.

16 – Informar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTDI
Informar algo a alguém ou alguém de algo.
Informou-os da decisão do juiz.
Informei-lhes a decisão do juiz.

Seguem a mesma regência os verbos avisar, comunicar, noticiar, cientificar e notificar.

17 – Lembrar

Possui regência muito parecida à do verbo esquecer. Na tirinha abaixo, há um exemplo do uso adequado do verbo lembrar como pronominal, utilizando a preposição “de”.



Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD
Trazer à lembrança; recordar-se.
Lembro a festa de formatura com carinho.
VTI
Quando usado pronominalmente, torna-se “lembrar-se” com a preposição “de”;
Lembro-me da festa de formatura com carinho.
VTDI
Fazer recordar; lembrar algo a alguém ou alguém de algo.
Lembro-lhe o dia da prova.

Atualmente, segundo a maioria das gramáticas, quando o objeto indireto estiver representado por uma oração desenvolvida, a preposição “de” pode ser omitida:

Lembro-me que coloquei os documentos na gaveta.

Uma terceira construção, muito comum no meio literário, admite o objeto, seja direto ou indireto, como sujeito da oração:

Lembrou-me os bons tempos da formatura.

Na linguagem coloquial, é muito comum a mistura de algumas dessas formas:

Lembro de toda a formatura.

18 - Namorar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD
Sem a preposição “com”.
Carlos namora a Ana Paula.

19 – Presidir

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD ou VTI
Dirigir como presidente
O juiz presidiu o tribunal.
O juiz presidiu ao tribunal.

20 – Proceder

Transitividade
Sentido
Exemplo
VI
Ter fundamento, comportar-se.
Seus argumentos não procedem.
Proceda com cautela.
VTI
Dar início a, realizar, efetuar.
O juiz procedeu às declarações iniciais.
VTI
Derivar-se, originar-se – com a preposição “de”
Este piso procede de Alagoas.

21 – Querer

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD
Desejar, pretender.
Eu quero a sorte de um amor tranquilo.
VTI
Estimar, ter apreço.
O pai queria muito a seus filhos.

22 – Renunciar

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTD ou VTI
Abrir mão de.
O rei renunciou o trono.
O rei renunciou ao trono.

23 – Responder

Transitividade
Sentido
Exemplo
VTI
Dar resposta, escrever em resposta.
Leia a questão e responda às perguntas seguintes.
VTI
Ser ou ficar responsável – usa-se com a preposição “por”
Alguém terá que responder por essa bagunça.
VTD
Para exprimir a resposta
Nenhum escritor consegue responder isso.
VTDI
Responder algo a alguém.
Respondi-lhe que tudo ia bem.
VI
Ouvir em resposta, repetir a voz.
Todos chamaram, mas ninguém respondeu.

24 – Suceder

Transitividade
Sentido
Exemplo
VI
Acontecer, ocorrer.
Sucedeu que o jogo foi monótono.
VTI
Ser sucessor, substituir.
A Espanha sucedeu à Itália como campeã mundial de futebol.

por Prof. Maurício Fernandes da Cunha - www.veredasdalingua.blogspot.com.br


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Prof. Maurício Fernandes da Cunha

Leia também:

REGÊNCIA VERBAL – I
ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA – II
PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS II – COMPOSIÇÃO E OUTROS PROCESSOS

DIFERENÇA ENTRE "MAS" E "MAIS"



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terça-feira, 3 de julho de 2012

Texto: "A disciplina do amor" - Lygia Fagundes Telles

A disciplina do amor


       Foi na França, durante a Segunda Grande guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. 
Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila inteira já conhcecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava até a correr todo animado atrás dos mais íntimos. Para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe. 
      Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem-amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro, até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao posto de espera. O jovem morreu num bombardeio mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando aquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. 
       Todos os dias, com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina.
       As pessoas estranhavam, mas quem esse cachorro está esperando?…Uma tarde (era inverno) ele lá ficou, o focinho voltado para aquela direção.

(Lygia Fagundes Telles)

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Leia também:

Fagundes Varela
“Fim do mundo” – Carlos Drummond de Andrade
Caio Fernando Abreu - Fragmentos
Lêdo Ivo - Poemas


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