Seguidores

terça-feira, 17 de julho de 2012

Diferença entre “mas” e “mais”

Diferença entre “mas” e “mais”

Observe as tirinhas abaixo.






Elas usam corretamente as palavras “mas” e “mais”, a primeira como conjunção adversativa e a segunda como advérbio de intensidade.

Um dos erros mais comuns encontrados nas redes sociais é o uso indevido das palavras “mas” e “mais”, principalmente a troca de “mas” por “mais”. Isso também ocorre frequentemente nas redações escolares dos alunos do ensino médio. Basta ter um pouquinho de atenção e o aluno não errará mais.

“Mas” – Conjunção adversativa, indica oposição. Tem como palavras sinônimas as conjunções e locuções conjuntivas porém, entretanto, no entanto, contudo, todavia, etc.

Exemplos:

“Talvez não seja exatamente assim que aconteceu, mas é assim que deveria ter acontecido e é assim que eu gosto de me lembrar. E se os sonhos e as recordações as vezes se misturam, é assim mesmo que deve ser, porque todos os garotos merecem ser heróis. Na verdade eles já são!”

(Anos Incríveis)

“A mágoa choro só, só choro os danos
  De vez por quem, senhora, me trocastes.
  Mas em tal caso, vós só me vingastes
  De vossa ingratidão, vossos enganos.”

(Camões)

"Estou caindo numa tristeza sem dor. Não é mau. Faz parte. Amanhã provavelmente terei alguma alegria, também sem grandes êxtases, só alegria, e isto também não é mau. É, mas não estou gostando muito deste pacto com a mediocridade de viver."

(Clarice Lispector, in "A descoberta do mundo")

“Mais” – Opõe-se a “menos”. Normalmente é advérbio de intensidade ou pronome indefinido.

Exemplos:

Comprei mais livros este mês. (Pronome indefinido)
Os brasileiros estão mais esperançosos quanto ao futuro. (advérbio de intensidade)

por Prof. Maurício Fernandes da Cunha - www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Exercícios – Complete com "mas" ou "mais"

1. Todos pedem _______ educação.
2.  São Paulo é, sem dúvida, a cidade _______ agitada do Brasil.
3. Preciso estudar _______, _______ não tenho tempo.
4. Ela contou muitas coisas novas, _______ não tudo.
5. Preciso comprar _______ sapatos.
6. Ela é a aluna _______ inteligente da turma.
7. O time jogou muito bem, _______ acabou derrotado.
8. Não consegui passar no concurso, _______ acertei todas em português.
9. A China tem a economia que _______ cresce atualmente.
10. Quero conquistá-la, _______ não sei o que dizer.

11. "Acho que posso agora enfrentar com _______ coragem as minhas dificuldades e resolver melhor os meus problemas. Já não tenho _______ receio das minhas noites nem acho longos nem vazios os meus dias."

(Érico Veríssimo)

12. "Sei que, às vezes, uso
       Palavras repetidas,
       _______ quais são as palavras
       Que nunca são ditas? (Legião Urbana)

13. "E há uma grande vontade de viver, todo o nosso ser pede para viver, e, inflamado com a esperança _______ ardente, _______ cega, o nosso coração parece desafiar o futuro, com todo o seu mistério, com todo o desconhecido, ainda que em tempestades e tormentas, contanto que isso seja vida!"

(Dostoiévski) 

14. "Quanto _______ conheço os ditadores, _______ eu amo meu cachorro." (Zé Geraldo)

15. "O mal dos homens terem deixado de acreditar em Deus, não é que já não acreditem em nada, _______ sim que estão dispostos a acreditar em tudo."

(G. K. Chesterton)


16. "Gostamos de nossas mães quase sem o saber, sem o sentir, pois isto é tão natural quanto viver, e não nos damos conta de toda a profundidade das raízes desse amor, senão no momento da separação derradeira. Nenhuma outra afeição é comparável a esta, pois todas as outras são de encontros, _______ esta é de nascença; todas as outras nos chegam _______ tarde, pelos acasos da existência, e esta vive desde nossos primeiros dias em nosso sangue."

(Guy de Maupassant, in "Forte Como a Morte")

17. "Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que veem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. _______ a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

(Jack Kerouac)


18. “Lá você vai encontrar a minha querência. O lugar que eu amei. Onde os meus sonhos emagreceram. Meu povoado, levantado sobre a planície. Cheio de árvores e folhas, como um cofre onde guardamos nossas memórias. Você vai sentir que ali a gente gostaria de viver para toda a eternidade. O amanhecer; a manhã; o meio-dia e a noite, sempre os mesmos; _______ com a diferença do ar. Lá, onde o ar muda a cor das coisas; onde a vida se ventila como se fosse um murmúrio; como se fosse um puro murmúrio de vida...”

(Juan Rulfo, in "Pedro Páramo")

19. "Me olhas, de perto me olhas, cada vez _______ de perto, e, então, brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez _______ de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando confundidas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio."

(Júlio Cortazar, in "O jogo da amarelinha")

20. "_______, quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, _______ frágeis, porém _______ vivazes, _______ imateriais, _______ persistentes, _______ fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre ruínas de tudo o _______, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações."

(Marcel Proust)

Prof. Maurício Fernandes da Cunha

Leia também:

REGÊNCIA VERBAL - II
REGÊNCIA VERBAL - I
ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA - PARTE I


Conheça as apostilas do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.

















domingo, 15 de julho de 2012

Fatec 2007 – 1º Semestre – Prova de Língua Portuguesa

Fatec – Prova de Língua Portuguesa - 1º Semestre – 2007


Leia o texto abaixo, para responder às questões de números 43 a 45.

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao amanhecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo - 1940)

QUESTÃO 43 - Considere as seguintes afirmações sobre o texto.

I. Trata-se de um poema em que o eu lírico afirma seu desejo de que a poesia possa reconstruir aquilo que, tendo sido destruído no passado, permanece atual em sua memória.
II. O poeta manifesta a confiança de que sua nova poesia poderá superar os problemas pessoais que quase o levaram ao suicídio e o fizeram desejar isolar-se.
III. O poeta convoca outros poetas para que, juntos, possam se libertar das velhas convenções que prejudicam a poesia moderna.
IV. Os versos da 1ª estrofe indicam o anseio do eu lírico de que sua poesia se aproxime dos homens e ajude a transformar a vida presente.
V. Na 2ª estrofe, o eu lírico nega que a poesia desse momento histórico deva tratar de temas sentimentais ou amorosos.

São corretas apenas as afirmações

a) I, II e III. b) I e IV. c) II e III. d) III e IV. e) IV e V.

QUESTÃO 44 - Assinale a alternativa que apresenta o provérbio cujo significado se aproxima do tema dos versos:

O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

a) Depois da tempestade vem a bonança.
b) Uma andorinha só não faz verão.
c) Deus ajuda quem cedo madruga.
d) De grão em grão a galinha enche o papo.
e) A esperança é a última que morre.

QUESTÃO 45 - Considerando o poema “Mãos dadas”, no conjunto da obra a que pertence (Sentimento do mundo), é correto afirmar que Carlos Drummond de Andrade

a) recusa os princípios formais e temáticos do primeiro Modernismo.
b) tematiza o lugar da poesia num momento histórico caracterizado por graves problemas mundiais.
c) vale-se de temas que valorizam aspectos recalcados da cultura brasileira.
d) alinha-se à poética que critica as técnicas do verso livre.
e) relativiza sua adesão à poesia comprometida com os dilemas históricos, pois a arte deve priorizar o tema da união entre os homens.

QUESTÃO 46

Considere as seguintes afirmações sobre o texto dos quadrinhos.

I. A transposição das falas do primeiro quadrinho para o discurso indireto deve ser: “O rato ordenou ao menino que se levante e pegue um sorvete para ele, e ele respondeu que sim ao mestre”.
II. No segundo quadrinho, o acréscimo de um complemento para o verbo “hipnotizar” está de acordo com a norma culta em “Eu o hipnotizo”.
III. A relação de sentido entre as orações do período – Eu hipnotizo e ele usa a minha mente – é de causa e consequência.
IV. A frase “Levante e pegue um sorvete para mim me refrescar” apresenta redação de acordo com a norma culta.

Estão corretas apenas as afirmações

a) I e II. b) I, II e III. c) I e III. d) II e III. e) II, III e IV.

QUESTÃO 47 - Não importa se você acredita (I) que sucesso é resultado de sorte ou competência (II), por que te oferecemos os dois (III): o melhor servidor com uma imperdível condição
de pagamento.

(Texto de anúncio publicitário)

Assinale a alternativa contendo análise correta de fatos de língua pertinentes a esse texto.

a) A oração (I) exerce a mesma função sintática que a oração (II) – ambas são complemento de verbos.
b) É coerente, no contexto, associar a idéia de sorte a – imperdível condição de pagamento – e a idéia de competência a – o melhor servidor.
c) A redação do texto obedece aos princípios da norma culta, apresentando clareza e correção gramatical.
d) O receptor do anúncio é tratado de maneira uniforme no texto, em 3ª pessoa.
e) A oração III tem equivalente sintático e de sentido em – portanto te oferecemos os dois.

QUESTÃO 48 - LIBRA (23 set. a 22 out.)

Com a Lua transitando em Gêmeos, os librianos podem esperar mais clareza mental, acuidade, boa expressão e facilidade ambiente, porque o mundo irá girar num ritmo
consoante com seu jeito de ser. Justamente porque tudo flui melhor você não precisa reagir com extremos. Segure essa impaciência.

(Folha de S.Paulo, 13-09-2006)

Considere as seguintes afirmações relacionadas a esse texto.

I. Na frase – segure essa impaciência – poderia ser empregado também o pronome esta, pois se trata de referência à pessoa a quem se dirige a sugestão contida no texto.
II. O texto mantém-se de acordo com a norma culta caso se empregue – contém essa impaciência – em lugar de – segure essa impaciência.
III. Pode-se interpretar como de causa a circunstância expressa por – Com a Lua transitando em Gêmeos.
IV. As palavras “acuidade” e “consoante” podem ser substituídas, no contexto, correta e respectivamente, por “agudeza” e “em harmonia”.
V. A relação sintática e de sentido expressa em – porque tudo flui melhor – tem equivalente em – como tudo flui melhor.

Estão corretas apenas as afirmações

a) I, II e III.   b) I, II e IV.   c) II, III e IV.   d) III, IV e V.   e) II, III, IV e V.

GABARITO

43 – E   44 – B   45 – B   46 – D   47 – B   48 – D


Conheça as apostilas do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.


















Leia também:

Fatec 2017 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa
Novas Fatecs – Prova de Língua Portuguesa - 1º Semestre – 2006

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Carlos Nejar - Poemas

Carlos Nejar

Lunalva

Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente

Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada

Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas

Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano

O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue

(Carlos Nejar)

Os meus sentidos

Um dia vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.

E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.

Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,

a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.

(Carlos Nejar)

Assentada

Chega a esta casa
sem prazo ou contrato.
Faze de pousada
as salas e quartos.
Os nossos arreios
ninguém os desata
com ódio e receios.

O tempo não sobe
nas suas paredes;
secou como um frio
nos beirais da sede;
calou-se nos mapas,
na plácida aurora,
nos pensos retratos.

Entra nesta casa
que é tua e de todos,
há muito deixada
aberta aos assombros.

Entra nesta casa
tão vasta que é o mundo,
pequena aos enganos,
perdida, encontrada.
Os dias, os anos
são palmos de nada.

(Carlos Nejar)

Qualificação

Não venham com razões
e palavras estreitas.

O que sou sustenta
o que não sou.
Por mais grave a doença,
a dor já me curou.

E levo no bordão,
o campo, a cerca,
as passadas que vão,
o rosto que se acerca
na rudeza do chão.

O que sou
é dar socos
contra facas quotidianas.
E é pouco.

(Carlos Nejar)

"Conversation" - Renoir.

Soltos de imensidão

Os anos, Elza, já não gravam nada,
porque gravamos nós o tempo todo.
O teu cuidar, faz-me animar o fogo
e cada dia em nós, jamais se apaga.

Provados somos e o provar é um gomo
desta romã partida pelas águas.
Somos o fruto, somos a dentada
e a madureza de ir no mesmo sonho.

Os anos, Elza, não consertam mágoas,
mas as mágoas não correm, se corremos.
Não encanece a luz, onde são remos

da limpa madrugada, os nossos corpos.
Amamos. No existir estamos soltos,
soltos de imensidão entre as palavras.

(Carlos Nejar)

Abandonei-me ao vento

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro, livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

Proa mergulhada

Com as coisas mais simples, silenciosas,
a casa com seus hábitos. A onda
que se compraz a descansar na água.
Pelo ar inefável, sobem rosas

de um jarro: te amo. A mesa tão redonda
que, na manhã, é proa mergulhada.
O café, junto ao leite quente, quente;
sua xícara suspensa na inocência.

E o pão cortado, a fala destilada
sob a luz. Era o tempo, sua ciência
de ir sem ser levado. Segurava

no bico do silêncio: amor, amada.
Falamos sabiás, folhas e nadas.
O sol por dentro, o galo da palavra.

(Carlos Nejar)

Luiz Vaz de Camões

Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi reposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
quando não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de tantos filhos.

(Carlos Nejar)

O homem sempre é mais forte
se a outro homem se aliar;
o arado faz caminho
no seu tempo de cavar.

No mesmo mar que nos leva,
o vento nos quer buscar;
o que é da terra é do homem,
onde o arado vai brotar.

Por mais que a morte desfaça,
há um homem sempre a lutar;
o vento faz seu caminho
por dentro, no seu pomar.

(Carlos Nejar)


De como a terra e o homem se unem 

1.
Fica a terra, passa o arado,  
"A bountiful harvest". Gregory Frank Harris

mas o homem se desgasta;
sangra o campo, pasce o gado,
brota o vento de outro lado
e a semente também brota.
Fica a terra, passa o arado
e o trabalho é o que nos passa,
como nome, como herança;
fica a terra, a noite passa.

A semente nos consome,
mas a terra se desgasta.
 
2.
Que será do novo homem
sobre a terra que vergasta ?
Sangra a terra, pasce o gado
e o trabalho é o que nos passa.

Vem o sol e cava a terra;
a semente é como espada.
Há uma noite que nos gera
quando a noite é dissipada.

Vem a noite e cava a terra;
vem a noite, é madrugada.
 
3.
O homem se desgasta,
sopro misturado
ao sopro rijo do arado.
Vai cavando.

Madrugada sai da terra,
como um corpo se entreabre
para o orvalho e para o trigo.
 
O homem vai cavando,
vai cavando a madrugada.

(Carlos Nejar)

Afluentes

Eram os executados.
Os dias intumesciam
e como frutos caíam.

Eram os executados
Sem o título ou família,
sem o tempo, sem o espaço
que de viver lhes cabia.

Percebi os vários rostos,
percebi que eles baixavam
e suas penas subiam.
A voz ninguém divisava,
A senha não existia.

Eram os executados.
Quando? Como? Quem sabia?
O mundo já os viu deitados,
agora o mundo os erguia.

Executados por fardo?
No leito da amada, um dia?
Por algum golpe de estado?
Numa conversa ou litígio?
Numa batalha ou na esquina?

Eram os executados
que desde sempre partiram
e desde sempre chegavam.

(Carlos Nejar)

Lisura 

Entras na morte,
como se entra em casa,  
"El encuentro". Remedios Varo.

desvestindo a carne,
pondo teus chinelos
e pijama velho.

Entras na morte,
como alguém que parte
para uma viagem:
não se sabe o norte
mas começa agora.

Entras na morte,
sem escuros,
sem punhais ocultos
sob o teu orgulho.
 
Entras na morte,
limpo
de cuidados breves;
como alguém que dorme
na varanda enorme,
entras na morte. 


(Carlos Nejar)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

“Um Fluminense tão Flaubert” – Nelson Rodrigues
Lêdo Ivo – Poemas
“A disciplina do amor” – Lygia Fagundes Telles
"O Ateneu" - Raul Pompeia


Conheça as apostilas de literatura do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.














ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO