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domingo, 19 de junho de 2016

Fatec 2015 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa

Fatec – Prova de Língua Portuguesa - 2º Semestre – 2015

Leia o texto para responder às questões de números 50 a 53.

Nova geração - Ivan Angelo

            O rapaz chegou para a entrevista. O executivo de vendas on-line da grande empresa levantou-se para apertar sua mão (...) e aproveitou para dar uma geral no rapaz.
            Arrumado, mas nada formal, de sapato novo, jeans, camisa de manga comprida enrolada ate a metade do antebraço. O detalhe que o incomodou um pouco foi um brinquinho prateado de argola mínima na orelha esquerda. “Nisso dá-se um jeito depois, se valer a pena”, pensou o executivo.
            Ele sabia que não estava fácil atrair novos talentos e reter os melhores. Empresas aparelhavam-se para o crescimento projetado do país, contratavam jovens promissores, mesmo os muito jovens, como era o caso do rapaz a sua frente, 21 anos. (...)
            Havia mais de duas horas que o rapaz estava em avaliação na empresa. Passara pela entrevista inicial com o chefe do setor, resolvera os probleminhas técnicos de internet e programação visual que lhe apresentaram, com rapidez e certa superioridade irônica, lera os princípios, valores e perfil da empresa (...). Alguns itens, como “comprometimento”, foram apresentados como pré-requisitos. Afinal o encaminharam para o diretor da área de e-comerce, vendas pela internet.           O executivo tinha em mãos a avaliação do candidato: excelente.
            Descreveu o trabalho de que a empresa necessitava: desenvolvimento de um site interativo no qual o cliente internauta pudesse fazer simulações de medidas, cores, ajustes, acessórios, preços, formas de pagamento e programação de entrega de cerca de 200 produtos. Durante sua fala, o rapaz mexeu as pernas, levantou um pé, depois o outro, incomodado. O executivo perguntou se ele se sentia apto.
            — Dá para fazer — respondeu o rapaz, movendo a perna, como se buscasse alívio.
            — Posso te ajudar em alguma coisa?
            — Vou te falar a verdade. Eu comprei este sapato para vir aqui e ele está me apertando e incomodando. Eu só uso tênis.
            O executivo sorriu e pensou: “Esses meninos...”.
            — Quem falou para eu vir fazer esta entrevista, e vir de sapato, foi minha namorada. Porque eu não vinha. Ela falou para eu comprar sapato, e o sapato está me apertando aqui, me atrapalhando.
            Nos últimos anos, o executivo vinha percebendo que os desafios pessoais para a novíssima geração eram diferentes, e que havia limites para o que eles estavam dispostos a ceder antes de se comprometer com um trabalho formal.
            — Não tem problema. Pode vir de tênis. O emprego e seu.
            — Não, obrigado. Eu não quero emprego.
            O executivo parou estupefato. O menino continuou:
            — Todo mundo foi muito gentil, mas não vai dar. Esta camisa é do meu pai, eu tenho tatuagem, trabalho ouvindo música.
            — Então por que se candidatou, se não queria trabalhar?
            — Desculpe, eu não falei que não queria trabalhar.
            Novo espanto do executivo. Sentia nas falas dele e do rapaz uma dissintonia curiosa. Como ficou calado, esperando, o rapaz prosseguiu:
            — É muito arrumado aqui. E eu não quero ficar ouvindo falar de identidade corporativa, marco regulatório, desenvolvimento organizacional, demanda de mercado, sinergia, estratégia, parâmetros, metas, foco, valores... Desculpe, eu não sabia que era assim. Achava que era só fazer o trabalho direito e ver funcionar legal.
            O executivo ficou olhando a figura, contando até dez, olhos fixados naquele brinco. O garoto queria ter a liberdade dele, a camiseta colorida dele, o tênis furado dele, ouvir a música dele nos fones de ouvido, talvez trabalhar de madrugada e dormir de manhã. Não queria aquele mundo em que ele mesmo estava metido havia vinte anos. Conferiu de novo as qualificações do rapaz, aquele “excelente”. Ousou:
            — Trabalhar em casa você aceita?
            — Aceito.
            Queria o trabalho, não o emprego. Acertaram os detalhes. Assim caminha a humanidade.

<http://tinyurl.com/n66pnvs> Acesso em: 15.03.2015. Adaptado.

Questão 50 - Assinale a alternativa que traz uma afirmação correta sobre o texto.

(A) O rapaz foi orientado pelo executivo quanto ao traje adequado para a entrevista.
(B) O rapaz sentiu-se muito confortável com a roupa que vestia durante a entrevista.
(C) O rapaz ficou inseguro na entrevista, por estar mal trajado para o momento.
(D) O executivo aprovou o traje do rapaz, exceto o adereço que ele usava na orelha.
(E) O executivo disse para o gerente que depois daria um jeito no brinco usado pelo rapaz.

Questão 51 - Considerando o texto, podemos afirmar que o candidato, no primeiro momento, recusou o emprego naquela empresa porque

(A) ficou desapontado ao saber do salário, depois de passar por uma série de entrevistas e testes para o cargo.
(B) não se sentia seguro para desempenhar as tarefas inerentes ao cargo ao qual se candidatou.
(C) não desejava ficar preso a regras corporativas, que ditam estéticas e padrões de comportamento nas empresas.
(D) desejava contrariar as pressões da namorada que insistia que ele trabalhasse naquela grande corporação.
(E) desejava fazer pressão para poder negociar uma proposta salarial mais interessante do que a empresa lhe oferecia.

Questão 52 - Segundo o texto, a empresa estava recrutando um funcionário para desenvolver

(A) uma nova área de relacionamento pós-venda.
(B) uma nova imagem no mercado imobiliário.
(C) um novo modelo de venda presencial.
(D) um site de serviço de ouvidoria aos clientes.
(E) um site interativo para melhor atender os clientes.

Questão 53 - “E eu não quero ficar ouvindo falar de identidade corporativa, marco regulatório, desenvolvimento organizacional, demanda de mercado, sinergia, estratégia,
parâmetros, metas, foco, valores...”
A organização sintática, na construção desse período, foi possível porque as virgulas empregadas separam

(A) o vocativo, termo que chama, evoca o interlocutor.
(B) o aposto, termo que explica o termo anterior.
(C) os predicativos do sujeito presentes na frase.
(D) os adjuntos adnominais e os vocativos.
(E) os termos de mesmo valor sintático.

O fragmento a seguir pertence a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

            E vejam agora com que destreza; com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nos, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método.

<http://tinyurl.com/lnpaee9> Acesso em: 09.04.2015. Adaptado.

Questão 54 -Sobre esse escritor e correto afirmar que se trata de um autor

(A) realista, cuja estética valoriza a arte pela arte, incorporando aos enredos a ideologia árcade, voltada aos padrões greco-latinos.
(B) realista, cujos textos fazem criticas a sociedade e, por vezes, atribuem ao leitor o papel de interlocutor do narrador.
(C) realista, pois se serve da linguagem popular e de personagens do povo para ocultar a realidade do pais.
(D) simbolista, cujos romances se caracterizam pela presença do onírico, da musicalidade e da analise psicológica das personagens.
(E) simbolista, pois se expressa por meio de uma linguagem marcada, predominantemente, por sinestesias e metáforas.

GABARITO:
50 - D 51 - C 52 - E 53 - E 54 - B


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terça-feira, 17 de maio de 2016

Fatec 2015 – 1º Semestre - Prova de Língua Portuguesa

Fatec – Prova de Língua Portuguesa - 1º Semestre – 2015

Leia o texto para responder às questões de números 50 a 53.

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector

            Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. (...) Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. (...)
            Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
            Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
            Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. (...)
            No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
            Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. (...) E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. (...) Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. (...)
            Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! (...)
            Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai
emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
            Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. (...) Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. (...) Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. (...)

(http://tinyurl.com/veele-contos Acesso em: 27.08.14. Adaptado)

Questão 50 - De acordo com a leitura do texto, pode-se afirmar que a narradora-personagem,

(A) para conseguir um livro emprestado, mentia para a colega e fazia falsas promessas.
(B) para conseguir um livro emprestado, ia à casa da colega a fim de humilhá-la.
(C) para recuperar um livro emprestado, humilhava a colega, que não se importava.
(D) para conseguir um livro emprestado, era humilhada pela colega, porém não desistia.
(E) para recuperar um livro emprestado, procurou a mãe de uma colega, dona de livraria.

Questão 51 - Considerando as informações do texto, é correto afirmar que a narradora-personagem possuía

(A) o desejo de ler, mas não tinha condições de comprar o livro de Monteiro Lobato.
(B) o livro de Monteiro Lobato, mas não o emprestava para suas amigas de colégio.
(C) uma felicidade clandestina de emprestar os livros de Monteiro Lobato à amiga.
(D) uma colega que gostava de emprestar os livros de Monteiro Lobato para ela.
(E) uma livraria com obras de diversos autores, mas preferia ler as de Monteiro Lobato.

Questão 52 - Observe o trecho do texto: “e assim recebi o livro na mão(...)”
Ao passar a oração sublinhada nesse trecho para a voz passiva analítica, teremos:

(A) O livro era recebido por mim.
(B) O livro é recebido por mim.
(C) O livro será recebido por mim.
(D) O livro foi recebido por mim.
(E) O livro seria recebido por mim.

Questão 53 - Leia este fragmento: “Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão.” A função sintática do termo destacado nesse período é

(A) complemento nominal. (B) objeto indireto. (C) objeto direto. (D) sujeito. (E) aposto.

Questão 54 - O escritor, dramaturgo e poeta Ariano Suassuna morreu em 2014, aos 87 anos. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), esse autor traduziu em suas obras a tradição popular do Nordeste.
Assinale a alternativa que apresenta um trecho da obra Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

(A) “ SEVERINO
Não pode ser, João. Eu matei o bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e a mulher e eles morreram esperando por você. Se eu não o matar, vêm-me perseguir de noite, porque será uma injustiça com eles. (...)”
(http://tinyurl.com/lelivros Acesso em: 20.08.14. Adaptado)
(B) “Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro. (...)”
(http://tinyurl.com/leitura-encantada Acesso em: 20.08.14. Adaptado)
(C) “Havia muito que João Romão vivia exclusivamente para essa ideia; sonhava com ela todas as noites; comparecia a todos os leilões de materiais de construção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas
de cal e tijolos; acumulados (...)”
(http://tinyurl.com/dominiopub-1 Acesso em: 20.08.14. Adaptado)
(D) “Aplica esta prova a todos os órgãos e compreendes o meu princípio. Enquanto a inteligência e a felicidade que dela se tira pela incansável acumulação de noções, só te peço que compares Renan e o Grillo...”
(http://tinyurl.com/dominiopub-2 Acesso em: 20.08.14. Adaptado)
(E) “Nhá Tolentina estava ficando rica de vender no arraial pastéis de carne mexida com ossos de mão de anjinho; dos vinténs enterrados juntamente com mechas de cabelo, em frente das casas; e do João Mangolô velho de guerra, voluntário do mato nos tempos do Paraguai (...)”
(http://tinyurl.com/literaturapoeta-1 Acesso em: 20.08.14. Adaptado)

GABARITO:
50 - D 51 - A 52 - D 53 - C 54 - A 

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Fatec 2017 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa

Texto: “A primeira só” — Marina Colasanti

A primeira só

Era linda, era filha, era única. Filha de rei. Mas de que adiantava ser princesa se não tinha com quem brincar? Sozinha, no palácio, chorava e chorava, dias e noites, sem parar. Não queria saber de bonecas, não queria saber de brinquedos. Queria uma amiga para gostar.
De noite o rei ouvia os soluços da filha. De que adiantava a coroa se a filha da gente chora à noite? Decidiu acabar com tanta tristeza. Chamou o vidraceiro, chamou o moldureiro. E em segredo mandou fazer o maior espelho do reino. E em silêncio mandou colocar o espelho ao pé da cama da filha que dormia. 
Anne Bachelier.
Quando a princesa acordou, já não estava sozinha. Uma menina linda e única olhava para ela, os cabelos ainda desfeitos do sono. Rápido saltaram as duas da cama. Rápido chegaram perto e ficaram se encontrando. Uma sorriu e deu bom dia. A outra deu bom dia sorrindo.
– Engraçado – pensou uma –, a outra é canhota.
E riram as duas. Riram muito depois. Felizes juntas, felizes iguais.
A brincadeira de uma era a graça da outra. O salto de uma era o pulo da outra. E quando uma estava cansada, a outra dormia… O rei, encantado com tanta alegria, mandou fazer brinquedos novos, que entregou à filha numa cesta. Bichos, bonecas, casinhas e uma bola de ouro. A bola no fundo da cesta. Porém tão brilhante, que foi o primeiro presente que escolheram. Rolaram com ela no tapete, lançaram na cama atiraram para o alto. Mas quando a princesa resolveu jogá-la nas mãos da amiga…, a bola estilhaçou jogo e amizade.
Uma moldura vazia, cacos de espelho no chão. A tristeza pesou nos olhos da única filha do rei. Abaixou a cabeça para chorar. A lágrima inchou, já ia cair, quando a princesa viu o rosto que tanto amava. Não um só rosto de amiga, mas tantos rostos de tantas amigas nos cacos que cobriam o chão.
– Engraçado são canhotas – pensou.
E riram. Riram por algum tempo depois. Era diferente brincar com tantas amigas. Agora podia escolher.
Um dia escolheu uma e logo se cansou. No dia seguinte preferiu outra, e esqueceu-se dela logo em seguida. Depois outra e outra, até achar que todas eram poucas. Então pegou uma, jogou contra a parede e fez duas. Cansou das duas, pisou com o sapato e fez quatro. Não achou mais graça nas quatro, quebrou com o martelo e fez oito. Irritouse com as oito partiu com uma pedra e fez doze. Mas duas eram menores do que uma, quatro menores do que duas, oito menores do que quatro, doze menores do que oito. Menores cada vez menores. Tão menores que não cabiam em si, pedaços de amigas com as quais não se podia brincar.
Um olho, um sorriso, um pedaço de si. Depois, nem isso, pó brilhante de amigas espalhado pelo chão. Sozinha outra vez a filha do rei. Chorava. Nem sei. Não queria saber das bonecas, não queria saber dos brinquedos.
Saiu do palácio e foi correr no jardim para cansar a tristeza. Correu, correu, e a tristeza continuava com ela. Correu pelo bosque, correu pelo prado. Parou à beira do lago.
No reflexo da água, a amiga esperava por ela. Mas a princesa não queria mais uma única amiga, queria tantas, queria todas: aquelas que tinha tido e as novas que encontraria. Soprou na água. A amiga encrespou-se, mas continuou sendo uma.
Então a linda filha do rei atirou-se na água de braços abertos, estilhaçando o espelho em tantos cacos, tantas amigas que foram afundando com ela, sumindo nas pequenas ondas com que o lago arrumava sua superfície.

(Marina Colasanti)

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“Os dois lados” – Murilo Mendes
“Meus oito anos” – Cassiano Ricardo 

“Amar” – Carlos Drummond de Andrade
"Rita" — Rubem Braga


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Fatec 2014 – 2º Semestre - Prova de Língua Portuguesa

Fatec – Prova de Língua Portuguesa - 2º Semestre – 2014

Leia o texto para responder às questões de números 50 a 53.

O futebol repete a vida - Tostão - (Colunista da Folha)

            Há muitas analogias entre o esporte e a vida. Por isso, as empresas, principalmente as americanas, adoram convidar pessoas do futebol para darem palestras aos seus funcionários e executivos. Por ter sido campeão do mundo e ser agora um cronista, recebo muitos convites. Recuso todos.
            As empresas confundem as razões e as emoções do esporte com as experiências pessoais. Querem criar um manual e um perfil dos vencedores. Não existe. As experiências não se transmitem. Cada um faz do seu jeito.
            Um jogo de futebol é um espetáculo, uma metáfora da vida. Estão presentes a alegria e a tristeza, a glória e o ocaso, a razão e a paixão, a ganância e a solidariedade, o invisível e o previsível, o evidente e o contraditório, o real e o simbólico, a ternura e a agressividade e outras ambivalências que fazem parte da alma humana.
            Nos esportes coletivos e na vida, todos querem brilhar mais do que os outros. Muitos aprendem que só vão se destacar e melhorar de vida se participarem de um grupo ou de uma sociedade organizada, forte e solidária. Por outro lado, são os talentos individuais que iluminam o coletivo. Parece contraditório. A vida é contraditória.
            O esporte é uma boa analogia entre razão e paixão. Um grande jogo precisa ter técnica e emoção. Para formarmos um grande time, é necessário talento, criatividade, disciplina tática e garra. Os grandes atletas são sábios e guerreiros. Quanto mais difícil a partida, mais Pelé vibrava em campo.
            O futebol está tão próximo da brincadeira e da descontração quanto da disciplina e da seriedade. Garrincha foi barrado antes da Copa de 58 porque era considerado uma criança irresponsável. Ele mostrou que o futebol pode ser uma brincadeira séria.
            Em qualquer atividade, a base da criatividade está na brincadeira com seriedade. Craques brincam com a bola; poetas e artistas brincam com as palavras, as imagens e os sons. O ideal seria brincar com a vida, com responsabilidade e sem sentimento de culpa.
            Em um jogo de futebol é muito estreita a linha divisória entre a ética, a responsabilidade e a ambição e a busca pela vitória de todas as maneiras. Na emoção de uma partida, no desejo intenso de ser um campeão, muitas vezes se perdem esses limites. Aí, o atleta dribla a ética. Alguns se arrependem. Assim é também na vida.

(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/ Acesso em: 12.02.14. Adaptado)

Questão 50 - É correto afirmar que, no terceiro parágrafo do texto, há a predominância da figura de linguagem denominada

(A) ironia, uma vez que esse recurso permite substituir algumas palavras por outras com o sentido oposto, com a intenção de suavizar o emprego de uma expressão.
(B) hipérbole, pois aproxima dois seres em razão de alguma semelhança existente entre eles, de forma que as características de um sejam atribuídas ao outro, necessariamente por meio de um termo comparativo.
(C) catacrese, por empregar as palavras com um sentido não usual, sendo esse novo sentido resultante de uma nova relação de semelhança entre esses vocábulos.
(D) eufemismo, por atribuir a seres inanimados ou irracionais características ou ações de seres humanos.
(E) antítese, pelo fato de haver proximidade de termos com sentidos que se opõem no contexto em que são empregados.
Questão 51 - De acordo com as informações presentes no texto, assinale a alternativa correta.

(A) Tostão recebe muitos convites para fazer palestras em empresas pelo fato de ter sido campeão do mundo e ser escritor.
(B) Tostão afirma que, para se formar um grande time, há a necessidade de maturidade e habilidade.
(C) Tostão é seletivo, por isso não aceita alguns convites que recebe das empresas, principalmente das americanas, para fazer palestras.
(D) Garrincha tinha uma estrutura física de criança e convocá-lo para Copa de 58 seria uma irresponsabilidade dos dirigentes da CBF.
(E) Garrincha jogou pouquíssimas partidas na Copa de 58, porque era considerado um jogador sem nenhuma responsabilidade.

Questão 52 - Segundo Tostão, alguns atletas, para obter a vitória a todo custo num jogo de futebol, são capazes de

(A) brilhar menos para ser campeões.
(B) brincar com a vida e afastar a tristeza.
(C) brindar a torcida com a vitória e agir como craques.
(D) driblar a tristeza para ser campeões.
(E) driblar a ética para ser campeões.

Questão 53 - Leia o fragmento do texto: “[...] muitos aprendem que só vão se destacar e melhorar de vida se participarem de um grupo [...]”.
É correto afirmar que a palavra destacada estabelece entre as orações uma relação de

(A) indeterminação, uma vez que nos impossibilita determinar o sujeito de cada oração.
(B) condição, pois expressa uma hipótese para que as ações das orações se realizem.
(C) adversatividade, pois expressa uma ideia antagônica, de oposição entre as orações.
(D) passividade, por transformar as orações em voz passiva sintética ou analítica.
(E) concessão, por conceder uma ideia divergente, expressa na oração anterior.

Questão 54 - “A cidade está alegre, cheia de sol. Os dias da Bahia parecem dias de festa, pensa Pedro Bala, que se sente invadido também pela alegria. Assovia com força, bate risonhamente no ombro de Professor. E os dois riem, e logo a risada se transforma em gargalhada. No entanto, não têm mais que uns poucos níqueis no bolso, vão vestidos de farrapos, não sabem o que comerão. Mas estão cheios da beleza do dia e da liberdade de andar pelas ruas da cidade. E vão rindo sem ter do que, Pedro Bala com o braço passado no ombro de Professor. De onde estão podem ver o Mercado e o cais dos saveiros e mesmo o velho trapiche onde dormem.”

(http://www.culturabrasil.org/zip/ Acesso em: 20.03.14. Adaptado)

É correto afirmar que esse fragmento foi extraído do romance

(A) “O cortiço”, de Aluísio de Azevedo.
(B) “São Bernardo”, de Graciliano Ramos.
(C) “Capitães da areia”, de Jorge Amado.
(D) “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.
(E) “Sagarana”, de Guimarães Rosa.

GABARITO:
50 - E 51 - A 52 - E 53 - B 54 - C



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