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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

UFBA – 2009 – Prova de Redação

UFBA – 2009 – Prova de Redação

INSTRUÇÕES:

• Escreva sua Redação, com caneta de tinta AZUL ou PRETA, de forma clara e legível.
• Caso utilize letra de imprensa, destaque as iniciais maiúsculas.
• O rascunho deve ser feito no local apropriado do Caderno de Questões.
• Na Folha de Resposta, utilize apenas o espaço a ela destinado.
• Será atribuída pontuação ZERO à Redação que
– não se atenha ao tema proposto;
– esteja escrita a lápis, ainda que parcialmente;
– apresente texto incompreensível ou letra ilegível;
– esteja escrita em verso;
– apresente texto padronizado, comum a vários candidatos;
– NÃO SEJA RESPONDIDA NA RESPECTIVA FOLHA DE RESPOSTA;
– ESTEJA ASSINADA FORA DO LOCAL APROPRIADO;
– POSSIBILITE, DE ALGUMA FORMA, A IDENTIFICAÇÃO DO CANDIDATO.

Os textos apresentados a seguir deverão servir de base para uma reflexão sobre a
família brasileira.

I. Para percorrer a trajetória da família brasileira, o ponto de partida é, inevitavelmente, a família patriarcal. No entanto, esta não pode ser considerada o único modelo. [...]
Sem dúvida alguma, a família patriarcal teve um papel fundamental nas formas de organização política, nas relações de trabalho e de poder e nas relações interpessoais, deixando como herança o coronelismo, o populismo e, até mesmo, os traços de cordialidade típicos do brasileiro. [...]
Nos últimos 50 anos, a família brasileira sofreu profundas modificações. Os processos sociais, culturais e econômicos afetaram significativamente as relações entre pais e filhos, as do casal, a educação da criança, a disciplina no lar, as identificações estabelecidas pelos jovens.

NASCIMENTO, A. B. Quem tem medo da geração shopping?: uma abordagem psicossocial. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo. EDUFBA, 1999. p. 57-59.

II.

No dia em que eu vim-me embora
Minha mãe chorava em ai
Minha irmã chorava em ui
E eu nem olhava pra trás
No dia em que eu vim-me embora
Não teve nada de mais
Mala de couro forrada com pano forte brim cáqui
Minha vó já quase morta
Minha mãe até a porta
Minha irmã até a rua
E até o porto meu pai
O qual não disse palavra durante todo o caminho
E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada
Nem de pro que eu ia indo
Nem dos sonhos que eu sonhava
Senti apenas que a mala de couro que eu
[carregava
Embora estando forrada
Fedia, cheirava mal
Afora isto ia indo, atravessando, seguindo
Nem chorando nem sorrindo
Sozinho pra Capital
Nem chorando nem sorrindo
Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital.

VELOSO, C. No dia em que eu vim-me embora. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/ I44569>. Acesso em: 2 ago. 2008.

III.

Eu passei muito tempo aprendendo a beijar
Outros homens como beijo o meu pai
Eu passei muito tempo pra saber que a mulher
Que eu amei, que amo, que amarei
Será sempre a mulher como é minha mãe
Como é, minha mãe? Como vão seus temores?
Meu pai, como vai?
Diga a ele que não se aborreça comigo

Quando me vir beijar outro homem qualquer
Diga a ele que eu quando beijo um amigo
Estou certo de ser alguém como ele é
Alguém com sua força pra me proteger
Alguém com seu carinho pra me confortar
Alguém com olhos e coração bem abertos
Para me compreender

GIL, G. Pai e mãe. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/46231>. Acesso em: 2 ago. 2008.

IV. A casa de meu pai, abrigo certo, minha dimensão de mundo. Ali, minha mãe se inscrevia, em silêncios e sussurros. Às vezes, quando meu pai não estava em casa, eu a ouvia cantar, em voz baixa, suspiros e olhar perdido. Não eram as músicas do rádio, mas cantigas que só ela sabia e falavam de amor ou de dança, num salão todo cheio de flores. Minha mãe repetia certas frases. Normas de vida. Em primeiro lugar, o marido, em segundo, o marido, em terceiro, o marido. Depois, os filhos. Sim, ela era muito feliz. Toda cheirosa, à espera de que meu pai voltasse do trabalho. Ela o esperava. Perfumes, silêncios, sussurros. Seu sorriso pequeno. Eu olhava. De longe.

CUNHA, H. P. Mulher no espelho. São Paulo: Art Ed. 1985. As escritoras, v. 4. p. 21.

V

GLAUCO. Casal Neuras. Folha de S. Paulo: Revista Família Brasileira. São Paulo, 7 out. 2007. p. 65.

VI. A cena do filme “Esqueceram de mim” (1992), em que a família enorme lota um único carro para viajar e logo começa o check-in, se repete final de semana sim, final de semana não, na casa de um casal e de seus seis filhos. Epa! Seis? Numa época em que a maioria dos casais tem dois filhos, de onde surgiu tanta criança?
Nada errado com o script dos dois filhos. O fenômeno aqui é de outra natureza, conectada não ao passado de proles enormes, e sim à, digamos, “miscigeração” — para cunhar um neologismo que tende a dar conta das novas famílias com filhos de casamentos desfeitos e refeitos.

BERGAMASCO, D.; BARBIERI, C. Bem-vindo à “miscigeração”. Folha de S. Paulo: Revista Família Brasileira. São Paulo, 7 out. 2007. p. 58.

A partir da leitura dos textos apresentados e incorporando sua experiência de vida, elabore um texto argumentativo em que você discuta as diferentes realidades da família brasileira.
Atenção!
Use a forma de prosa que julgar conveniente, entretanto, se escolher o gênero epistolar, lembre-se de que não deverá utilizar nenhuma identificação. Para respeitar a estrutura do texto, utilize um “Y” em lugar da assinatura.

UFBA – 2008 – Prova de Redação

UFBA – 2008 – Prova de Redação

INSTRUÇÕES:
• Escreva sua Redação, com caneta de tinta AZUL ou PRETA, de forma clara e legível.
• Caso utilize letra de imprensa, destaque as iniciais maiúsculas.
• O rascunho deve ser feito no local apropriado do Caderno de Questões.
• Na Folha de Resposta, utilize apenas o espaço a ela destinado.
• Será atribuída pontuação ZERO à Redação que
– não se atenha ao tema proposto;
– esteja escrita a lápis, ainda que parcialmente;
– apresente texto incompreensível ou letra ilegível;
– esteja escrita em verso;
– apresente texto padronizado, comum a vários candidatos;
– NÃO SEJA RESPONDIDA NA RESPECTIVA FOLHA DE RESPOSTA;
– ESTEJA ASSINADA FORA DO LOCAL APROPRIADO;
– POSSIBILITE, DE ALGUMA FORMA, A IDENTIFICAÇÃO DO CANDIDATO.


Uma leitura mais profunda sobre a temática da mulher revela, muitas vezes, uma
imagem deturpada, provocando uma indagação, uma reflexão sobre as marcas do feminino,presentes nos textos a seguir, que servirão de ponto de partida para a sua produção textual.

I. Nem é preciso repetir as profundas alterações sofridas pelo papel feminino no decorrer das últimas cinco décadas. [...]
Uma das questões suscitadas pelas transformações dos costumes diz respeito às articulações entre o advento da puberdade e a aquisição do que se costuma chamar “identidade de gênero”. Atualmente é mais fácil verificar que as mudanças biológicas — obviamente manifestas de formas diferentes para o menino e para a menina — não têm gerado os efeitos de outrora em seus comportamentos e, até mesmo, na aparência física. Garotas e rapazes convivem em salas mistas, usam uniformes idênticos, praticam os mesmos esportes, preparam-se para as mesmas profissões. As fronteiras entre os respectivos papéis estão cada vez mais diluídas.
Estas evidências comprovam a impossibilidade não apenas de atribuir a feminilidade ou a masculinidade às diferenças anatômicas, como também de poder definir o tornar-se homem ou tornar-se mulher apenas pela aprendizagem, ou aquisição, dos papéis de gênero impostos pelo sistema social.

NASCIMENTO, Angelina Bulcão. Quem tem medo da geração shopping? uma abordagem psicossocial. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo. EDUFBA, 1999. p. 159-160.

II. [...] A mulher sempre foi para o homem “o outro”, seu contrário e complemento. Se uma parte do nosso ser deseja fundir-se nela, outra, não menos imperiosamente, a separa e exclui. A mulher é um objeto, alternadamente precioso ou nocivo, mas sempre diferente.
Ao transformá-la em objeto, em ser aparte e ao submetê-la a todas as deformações que seu interesse, sua vaidade, sua angústia e até mesmo seu amor lhe ditam, o homem transforma-a em instrumento. Meio para obter o conhecimento e o prazer, via para atingir a sobrevivência, a mulher é ídolo, deusa, mãe, feiticeira ou musa, conforme aponta Simone de Beauvoir, mas nunca pode ser ela mesma. Entre a mulher e nós interpõe-se um fantasma: o de sua imagem, da imagem que fazemos dela e da qual ela se reveste. Não podemos sequer tocá-la como carne que se ignora a si mesma, porque entre nós e ela, desliza esta visão dócil e servil de um corpo que se entrega. E com a mulher acontece o mesmo: não se sente nem se imagina, a não ser como objeto, como “outro”. Nunca é dona de si. Seu ser se divide entre o que é realmente e a imagem que faz de si. Uma imagem que lhe foi impressa por família, classe, escola, amigas, religião e amante. Sua feminidade nunca se expressa, porque se manifesta por meio de formas inventadas pelo homem. [...]

PAZ, Octavio. O labirinto da solidão e post scriptum. Tradução Eliane Zagury. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1992. p. 177-178. (Clássicos Latino-Americanos).

III.

É TEMPO DE MULHER

a mulher ainda desespera
à espera do primeiro beijo
úmido de sim
e permissão de macho

a mulher no entanto conspira
na sua ira secular de silêncio
em sua ilha de nãos
e arremessos
exercitando batalhões oníricos

o relógio com suas obrigações e rugas
questiona eros
homo
hetero
o útero e seu mistério
sapato de salto
batom
rouge
e este inadiável instante etéreo
de saltar
   para
      dentro
         de
             si
na conquista do espaço além da moda
[...]

CUTI. É tempo de mulher. In: QUILOMBHOJE (Org.). Cadernos negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 1998. p. 52-53.

IV. COR DE ROSA CHOQUE

Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso
De quem nada quer
Sexo frágil
Não foge à luta
E nem só de cama
Vive a mulher
Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque
Mulher é bicho esquisito
Todo mês sangra
Um sexto sentido
Maior que a razão
Gata borralheira
Você é princesa
Dondoca é uma espécie
Em extinção
Por isso não provoque
É cor de rosa choque
Não provoque
É cor de rosa choque

CARVALHO, Roberto de; LEE, Rita. Cor de rosa choque. Disponível em: <http://www.rita-lee.cor-derosa-choque.buscaletras.com.br/>. Acesso em: 10 jul. 2007.

Elabore um texto dissertativo, discutindo os aspectos distintos do que é ser mulher e ser homem numa sociedade plural e capitalista como a brasileira. Focalize, sobretudo, a desconstrução, a revisão e a reconstrução de paradigmas na sociedade contemporânea no que se refere à relação “Homem/Mulher”.

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domingo, 1 de outubro de 2017

Texto: “O poder da literatura” – José Castello

O poder da literatura

          Em um século dominado pelo virtual e pelo instantâneo, que poder resta à literatura? Ao contrário das imagens, que nos jogam para a fora e para as superfícies, a literatura nos joga para dentro. Ao contrário da realidade virtual, que é compartilhada e se baseia na interação, a literatura é um ato solitário, nos nos aprisiona na introspecção. Ao contrário do mundo instantâneo em que vivemos, dominado pelo "tempo real" e pela rapidez, a literatura é lenta, é indiferente às pressões do tempo, ignora o imediato e as circunstâncias. 
          Vivemos em um mundo dominado pelas respostas enfáticas e poderosas, enquanto a literatura se limite a gaguejar perguntas frágeis e vagas. A literatura, portanto, parece caminhar na contramão do contemporâneo. Enquanto o mundo se expande, se reproduz e acelera, a literatura se contrai, pendindo que paremos para um mergulho "sem resultados" em nosso próprio interior. Sim: a literatura - no sentido prático - é inútil. Mas ela apenas parece inútil. 
          A literatura não serve para nada  é o que se pensa. A indústria editorial tende a reduzi-la a um entretenimento para a beira de piscinas e as salas de espera dos aeroportos. De outro lado, a universidade  em uma direção oposta, mas igualmente improdutiva  transforma a literatura em uma "especialidade", destinada apenas ao gozo dos pesquisadores e dos doutores. Vou dizer com todas as letras: são duas formas de matá-la. A primeira, por banalização. A segunda, por um esfriamento que a asfixia. Nos dois casos, a literatura perde sua potência. Tanto quando é vista como "distração", quanto quando é vista como "objeto de estudos", a literatura perde o principal: seu poder de interrogar, interferir e desestabilizar a existência. 
          Contudo, desde os gregos, a literatura conserva um poder que não é de mais ninguém. Ela lança o sujeito de volta para dentro de si e o leva a encarar o horror, as crueldades, a imensa instabilidade e o igualmente imenso vazio que carregamos em nosso espírito. Somos seres "normais", como nos orgulhamos de dizer. Cultivamos nossos hábitos, manias e padrões. Emprestamos um grande valor à repetição e ao Mesmo. Acreditamos que somos donos de nós mesmos! 
         Mas leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice  e você verá que rombo se abre em seu espírito. Verá o quanto tudo isso é mentiroso. Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que  a literatura desmascara isso  não passa de ilusão. A "realidade " é apenas um pacto que fazemos entre nós para suportar o "real". A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.
         É nas frestas do real, como uma erva daninha, que a literatura nasce. A literatura não é um divertimento; tampouco é um saber especializado. Ela é um instrumento, precário e sutil, de interrogar a vida. Desloca nossas certezas, transformando-as em incertezas. Em vez de nos oferecer respostas, nos faz novas perguntas  desagradáveis e perturbadoras. Leia "Crime e castigo", "O castelo", o "Livro do desassossego", ou "A paixão segundo GH". Se você ler para valer, se neles mergulhar como quem se lança em um abismo, e a literatura é um abismo, sairá da leitura transformado e atordoado, sairá um outro homem, ainda que no corpo do mesmo homem. 
         A literatura é, antes de tudo, uma máquina de transformação. Se você não deseja se modificar; se não pretende correr riscos; se teme as perguntas que não comportam respostas  então, eu aconselho, afaste-se da literatura. A literatura é, sim, perigosa, porque tem mo poder de nos desestabilizar e desassossegar. Se você aprecia sua vida banal e rotineira, fuja! Ao contrário, se você sente um grande incômodo com o mundo, se você se incomoda com o tédio das imagens e da repetição, se você deseja se modificar e modificar o pequeno mundo que o cerca, então leia. 
        A literatura não tem o poder dos mísseis, dos exércitos e das grandes redes de informação. Seu poder é limitado: é subjetivo. Ao lançá-lo para dentro, e não para fora, ela se infiltra, como um veneno, nas pequenas frestas de seu espírito. Mas, nele instalada pelo ato da leitura, que escândalos, que estragos, mas também que descobertas e que surpresas ela pode deflagrar! 
        Não é preciso ser um especialista para ler uma ficção. Não é preciso ostentar títulos, apresentar currículos, ou credenciais. A literatura é para todos. Dizendo melhor: é para os corajosos ou, pelo menos, para aqueles que ainda valorizam a coragem. Se você deseja sair de si e experimentar novas possibilidades do existir, então leia. Se deseja correr riscos e perder-se um pouco no instável e no precário, leia. Se você acha a vida insuficiente e deseja o inesperado, leia. Este é o pequeno, mas também precioso, poder da literatura. 

(José Castello)

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