Prova de Língua Portuguesa – FEI – 2015 - 2º semestre
PORTUGUÊS
Leia atentamente o texto “Um apólogo”, de Machado de
Assis, e responda a seguir:
Era uma
vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que
está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale
alguma cousa neste mundo?
—
Deixe-me, senhora.
— Que a
deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável?
Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que
cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que
lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua
vida e deixe a dos outros.
— Mas
você é orgulhosa.
— Decerto
que sou.
— Mas por
quê?
— É boa!
Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose,
senão eu?
— Você?
Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e
muito eu?
— Você
fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição
aos babados... (...)
Estavam
nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto
se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não
andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da
linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando
orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da
costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E
dizia a agulha:
— Então,
senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta
costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha
a eles, furando abaixo e acima...
A linha
não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela,
silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras
loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi
andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic
da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia
seguinte. (...)
Veio a
noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se,
levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E
enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro,
arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar
da agulha, perguntou-lhe:
— Ora,
agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do
vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto
você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das
mucamas? Vamos, diga lá.
(...)
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a
cabeça:
— Também
eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
1ª Questão. O estilo do texto permite afirmar que:
(A) trata-se de uma produção literária contemporânea.
(B) não é possível inferir nada da linguagem.
(C) trata-se de uma produção literária, mas não contemporânea.
(D) trata-se de uma produção contemporânea, mas não literária.
(E) trata-se de uma produção acadêmica e, portanto, não literária.
2ª Questão. Machado de Assis é um escritor conhecido como representante
do:
(A) Naturalismo. (B) Realismo. (C) Modernismo.(D)
Classicismo. (E) Barroco.
3ª Questão. A palavra “apólogo”, que compõe o título,
significa:
(A) texto em prosa com a intenção de informar os leitores
dos eventos cotidianos.
(B) texto lírico e marcado pela busca de persuadir os
leitores.
(C) texto dramático, no qual se reconhecem todos os componentes
deste gênero.
(D) narrativa que sugere lições de moral por meio de personagens
inanimados.
(E) narrativa longa voltada para divertir os leitores.
4ª Questão. Machado de Assis é contemporâneo de:
(A) João Ubaldo Ribeiro (B) Carlos Drummond de Andrade
(C) Clarice Lispector
(D) José de Alencar (E)
Gregório de Matos
5ª Questão. A agulha e o novelo de linha:
(A) são personagens que se encontram em disputa e contradições.
(B) são personagens complementares e solidários entre si.
(C) no final, tornam-se ambos dispensáveis.
(D) representam a necessidade de companheirismo.
(E) não conseguem se comunicar de modo adequado.
6ª Questão. A fala do “professor de melancolia” ao final
do texto evidencia que:
(A) as relações sociais tendem ao equilíbrio.
(B) a valorização do sujeito é inerente ao seu trabalho.
(C) as pessoas desprezam as aparências e valorizam o trabalho.
(D) a discussão é necessária, porque promove o entendimento.
(E) nem sempre há a valorização das partes envolvidas em um
trabalho.
7ª Questão. No final do texto, lê-se “Contei esta história
a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça”. Considerando
este fragmento, é correto afirmar sobre o foco narrativo:
(A) o narrador, em primeira pessoa, contou esta história
ao professor de melancolia.
(B) a narradora é a agulha.
(C) o narrador é o novelo de lã.
(D) subentende-se que a costureira é um dos narradores.
(E) o professor de melancolia é um dos narradores que o conto
evidencia.
8ª Questão. “Um apólogo” é exemplo de:
(A) crônica. (B) romance. (C) conto.(D) novela. (E) prosa
épica.
9ª Questão. A leitura atenta de “Um apólogo” permite
afirmar que:
(A) há na sociedade a busca de convivência harmônica entre
as classes sociais.
(B) prevalece na sociedade a afirmação daqueles que se sentem
superiores aos que se sentem inferiores.
(C) os professores educam os alunos para que não perpetuem
a luta entre as classes sociais.
(D) é melhor permanecer indiferente às questões sociais.
(E) o professor está satisfeito com o papel que exerce na
vida dos outros.
10ª Questão. Depreende-se do texto que:
(A) o trabalho é reconhecido socialmente.
(B) o trabalho braçal é parte do trabalho intelectual.
(C) os trabalhadores se satisfazem com o trabalho desempenhado,
mesmo quando não podem usufruir dele.
(D) todos os trabalhadores podem usufruir da atividade realizada.
(E) os trabalhadores normalmente não usufruem dos resultados
da atividade que realizam.
11ª Questão. “Um apólogo” apresenta:
(A) apenas o discurso direto.
(B) apenas o discurso indireto.
(C) apenas o discurso direto livre.
(D) discurso direto e discurso indireto.
(E) apenas discurso indireto livre.
12ª Questão. A conhecida expressão “Era uma vez” remete o
receptor do texto a um tempo antigo. O verbo:
(A) apresenta-se no pretérito imperfeito do indicativo.
(B) está flexionado no presente do indicativo.
(C) está flexionado no pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
(D) apresenta-se no futuro do presente do indicativo.
(E) apresenta-se no pretérito perfeito do indicativo.
13ª Questão. Em “Estavam nisto, quando a costureira
chegou à casa da baronesa”, a oração em destaque imprime à frase a ideia
de:
(A) lugar. (B) tempo. (C) proporção. (D) causa. (E)
consequência.
14ª Questão. Reflita sobre os termos em destaque e
responda a seguir: “A linha não respondia; ia andando”:
(A) os termos evidenciam ações que se projetam para o futuro.
(B) “respondia” marca a continuidade da ação e “ia andando”
traduz uma ação finalizada.
(C) “respondia” tem o mesmo sujeito de “ia andando”,
locução verbal que sugere uma ação desenvolvida de modo contínuo.
(D) “ia andando” sugere uma ação que antecede a sugerida em
“respondia”.
(E) o sujeito de “respondia” não é o mesmo que se depreende
de “ia andando”.
15ª Questão. Em “— É boa! Porque coso. Então os vestidos e
enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?”, sobre o
termo em destaque é correto afirmar:
(A) é um artigo que acompanha e define o substantivo comum
expresso em “cose”.
(B) trata-se de um pronome pessoal do caso oblíquo, que se
refere à expressão “nossa ama”.
(C) trata-se de um pronome pessoal do caso reto, responsável
por ocupar a função de sujeito do verbo “coser”.
(D) trata-se de um pronome pessoal do caso oblíquo, responsável
por retomar a expressão “os vestidos e os enfeites”.
(E) é um termo responsável por introduzir uma nova oração no
período.
16ª Questão. Em “não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic
da agulha no pano”, lê-se exemplo de:
(A) personificação. (B) metonímia. (C) eufemismo. (D)
hipérbole. (E) onomatopeia.
17ª Questão. É possível afirmar que a agulha e o novelo de
linha representam, respectivamente:
(A) o lugar social da costureira (agulha) e da baronesa (novelo
de linha).
(B) o lugar social da baronesa (agulha) e da costureira (novelo
de linha).
(C) o desejo de luxo (agulha) e o destino trágico (novelo
de linha).
(D) a conquista do lugar social adequado para cada classe social.
(E) a revolução (novelo de linha) e a manutenção do poder (agulha).
18ª Questão. Em “a baronesa vestiu-se”, o verbo está na:
(A) voz ativa. (B) voz reflexiva. (C) voz passiva. (D) voz passiva sintética. (E) voz ativa analítica.
19ª Questão. Reflita sobre o fragmento dentro do seu
contexto: “a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe”. Sem prejudicar
o sentido original, o termo em destaque poderia ser substituído por qual dos
termos abaixo?
(A) encher de mofo (B) ficar esperando passivamente (C) zombar (D) alegrar (E) distrair
20ª Questão. Em “A agulha, vendo que ela não lhe dava
resposta”, há respectivamente a ocorrência de:
(A) objeto indireto e adjunto adverbial.
(B) adjunto adverbial e objeto direto.
(C) adjunto adverbial e objeto indireto.
(D) objeto direto e objeto direto.
(E) objeto indireto e objeto direto.
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