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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

“O tempo é um fio” — Henriqueta Lisboa

O tempo é um fio

O tempo é um fio
bastante frágil
Um fio fino
que à toa escapa.


O tempo é um fio.
"Le Reve". François Fressinier.

Tecei! Tecei!
Rendas de bilro
com gentileza.


Com mais empenho
tranças espessas.
Malhas e redes
com mais astúcia.

 

O tempo é um fio
que vale muito.

 

Tranças espessas
carregam frutos.
Malhas e redes
apanham peixes.

 

O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.


Lá vai o tempo
como um farrapo
jogado à toa.


Mas ainda é tempo!


Soltai os potros
aos quatro ventos,
mandai os servos
de um pólo a outro,
vencei escarpas,
voltai com o tempo
que já se foi!...

(Henriqueta Lisboa)


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QUAL ROMANCE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão. E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura − ficção literária.
Você dirá que estou apenas exigindo dos outros que eles sejam parecidos comigo. E eu teria de concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada. Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado em pesquisa que acaba de ser publicada pela revista  Science, Reading literary fiction improves theory of mind[Ler ficção literária melhora a teoria da mente], de David C. Kidd e Emanuele Castano.
Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de não ficção, 3) um grupo que acabava de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada. Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia*.
A pesquisa mede o efeito imediato da leitura de trechos literários. Não sabemos se existem efeitos cumulativos da leitura passada: o que importa não é se você leu, mas se está lendo. A pesquisa constata também que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens. Segundo os pesquisadores, “contrariamente à ficção literária, a ficção popular tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o trabalho de sua teoria da mente”.
Na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato a um emprego, não me esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo?

Contardo Calligaris Adaptado de www1.folha.uol.com.br.
*
sociopatia e psicopatia − doenças psicológicas caracterizadas pelo comportamento antissocial

PROPOSTA DE REDAÇÃO

O psicanalista Contardo Calligaris defende que se avalie o valor de uma pessoa, um político ou um profissional, verificando se eles leem literatura.
A partir da leitura do conjunto dos textos desta prova e de suas próprias reflexões, redija um texto argumentativo-dissertativo, em prosa, com 20 a 30 linhas, em que apresente seu posicionamento acerca do ponto de vista defendido por Calligaris, ou seja, de que é preciso levar em conta a leitura de literatura para avaliar a formação e os valores de uma pessoa. 
Utilize a norma-padrão da língua e atribua um título à sua redação. 


www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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Ciência na educação popular

Há uma dimensão ética da divulgação científica na qual eu gostaria de me deter: a circulação das ideias e dos resultados de pesquisas é fundamental para avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate e confronto de ideias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes, rompe ou fere. Nesse sentido, a divulgação não é apenas página de literatura, mas exercício de reflexão sobre os impactos
sociais e culturais de nossas descobertas.
Os limites das manipulações com seres humanos têm dimensões técnicas e éticas que transcendem os estreitos corredores dos hospitais, dos institutos de pesquisa ou até mesmo dos respeitáveis conselhos de bioética. Informar essa discussão, de modo que os valores novos possam ser pensados
e os antigos respeitados, é arte complexa de múltiplas dimensões humanas, científicas e culturais.
Acredito que esse aspecto da divulgação da ciência, uma vez que o público leigo - insisto - também deve ser alcançado, é responsabilidade do cientista e, a meu ver, deveria ser item do financiamento público da própria pesquisa. Dificilmente podemos imaginar que fundos privados, provenientes de
empresas interessadas na comercialização dos produtos das pesquisas, investiriam recursos para promover a livre discussão sobre as repercussões éticas das inovações ou descobertas por eles financiadas.

Ennio Candotti - Adaptado de casadaciencia.ufrj.br.

PROPOSTA DE REDAÇÃO

No texto acima, o autor trata da necessidade de divulgar ideias e resultados de pesquisas como forma de democratizar, na sociedade, o debate acerca de valores culturais e sociais, de vantagens e de problemas que envolvem todas as pesquisas científicas e seu uso posterior na vida do cidadão comum.
Elabore um texto dissertativo-argumentativo, em prosa, com no mínimo 20 e no máximo 30 linhas, no qual discuta a necessidade de que a sociedade conheça e debata as motivações, interesses e usos das pesquisas científicas
Utilize a norma padrão da língua e atribua um título à sua redação.

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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TEXTO I

Lembra-te de que tempo é dinheiro. Aquele que pode ganhar dez xelins* por dia com seu trabalho e vai passear, ou fica vadiando metade do dia, embora não despenda mais do que seis pence durante seu divertimento ou vadiação, não deve computar apenas essa despesa; gastou, na realidade, ou melhor, jogou fora, cinco xelins a mais. (...)
Aquele que perde cinco xelins, não perde somente esta soma, mas todo o proveito que, investindo-a, dela poderia ser tirado, e que durante o tempo em que um jovem se torna velho, integraria uma considerável soma de dinheiro.

(Benjamin Franklin)

* xelim - unidade de moeda equivalente a 12 pence

TEXTO II

Dizemos, com frequência, que fomos atropelados pelos acontecimentos - mas quais acontecimentos têm poder de atropelar o sujeito? Aqueles em direção aos quais ele se precipita, com medo de ser deixado para trás. Deixamo-nos atropelar, em nossa sociedade competitiva, porque medimos o valor do tempo pelo dinheiro que ele pode nos render. Nesse ponto remeto o leitor, mais uma vez, à palavra exata do professor Antonio Candido: “O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Isso é uma brutalidade. O tempo é o tecido de nossas vidas”.
A velocidade normal da vida contemporânea não nos permite parar para ver o que atropelamos; torna as coisas passageiras, irrelevantes, supérfluas.

(Maria Rira Kehl)

PROPOSTA DE REDAÇÃO

Os textos I e II apresentam posições opostas sobre a relação com o tempo: para o primeiro, tempo é dinheiro, porque deve ser empregado em produzir riqueza; para o segundo, tempo não pode ser resumido ao dinheiro, porque isso é uma brutalidade.
Com base na leitura dos textos e de suas elaborações pessoais sobre o tema, escolha uma das duas posições e a defenda, redigindo um texto argumentativo em prosa, com no mínimo 20 e no máximo 30 linhas. 
Utilize a norma padrão da língua e atribua um título a sua redação. 


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Texto: “A volta” — Luís Fernando Verissimo

A volta

         Da janela do trem o homem avista a velha cidadezinha que o viu nascer. Seus olhos se enchem de lágrimas. Trinta anos. Desce na estação – a mesma do seu tempo, não mudou nada – e respira fundo. Até o cheiro é o mesmo! Cheiro de mato e poeira. Só não tem mais cheiro de carvão porque o trem agora é elétrico. E o chefe da estação, será possível? Ainda é o mesmo. Fora a careca, os bigodes brancos, as rugas e o corpo encurvado pela idade, não mudou nada.
         O homem não precisa perguntar como se chega ao centro da cidade. Vai a pé, guiando-se por suas lembranças. O centro continua como era. A praça. A igreja. A prefeitura. Até o vendedor de bilhetes na frente do Clube Comercial parece o mesmo. 
"A cidade está pousando". Jacek Yerk.

          — Você não tinha um cachorro?
          — O Cusca? Morreu, ih, faz vinte anos.
          O homem sabe que subindo a Rua Quinze vai dar num cinema. O Elite. Sobe a Rua Quinze. O cinema ainda existe. Mas mudou de nome. Agora é o Rex. Do lado tem uma confeitaria. Ah, os doces da infância... Ele entra na confeitaria. Tudo igual. Fora o balcão de fórmica, tudo igual. Ou muito se engana ou o dono ainda é o mesmo.
          — Seu Adolfo, certo?
          — Lupércio.
          — Errei por pouco. Estou procurando a casa onde nasci. Sei que ficava ao lado de uma farmácia.
          — Qual delas, a Progresso, a Tem Tudo ou a Moderna?
          — Qual é a mais antiga?
          — A Moderna.
          — Então é essa.
          — Fica na Rua Voluntários da Pátria.
          Claro. A velha Voluntários. Sua casa está lá intacta. Ele sente vontade de chorar. A cor era outra. Tinham mudado a porta e provavelmente emparedado uma das janelas. Mas não havia dúvida, era a casa da sua infância. Bateu na porta. A mulher que abriu lhe parecia vagamente familiar. Seria...
          — Titia?
          — Puluca!
          — Bem, meu nome é...
          — Todos chamavam você de Puluca. Entre.
          Ela lhe serviu licor. Perguntou por parentes que ele não conhecia. Ele perguntou por parentes de que ela não se lembrava. Conversaram até escurecer. Então ele se levantou e disse que precisava ir embora. Não podia, infelizmente, demorar-se em Riachinho. Só viera matar a saudade. A tia parecia intrigada.
          — Riachinho, Puluca?
          — É, por quê?
          — Você vai para Riachinho?
          Ele não entendeu.
          — Eu estou em Riachinho.
          — Não, não. Riachinho é a próxima parada do trem. Você está em Coronel Assis.
          — Então eu desci na estação errada!
          Durante alguns minutos os dois ficaram se olhando em silêncio. Finalmente a velha pergunta:
          — Como é mesmo o seu nome?
          Mas ele estava na rua, atordoado. E agora? Não sabia como voltar para a estação, naquela cidade estranha.

(Luis Fernando Veríssimo, in “A mulher do Silva”)


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