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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Texto: “Reunião de mães” – Fernando Sabino

Reunião de mães

Na reunião de pais só havia mães. Eu me sentiria constrangido em meio a tanta mulher, por mais simpáticas me parecessem, e acabaria nem entrando - se não pudesse logo distinguir, espalhadas no auditório, duas ou três presenças masculinas que partilhariam de meu ressabiado zelo paterno.
"When teacher´s back is turned". Taanmann Jacob.
Sentei-me numa das últimas filas, para não causar espécie à seleta assembléia de progenitoras. Uma delas fazia tricô, e várias conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. O Padre-Diretor tomou assento à mesa, cercado de professoras, e deu início à sessão. 
Eu viera buscar Pedro Domingos para levá-lo ao mé­dico, mas desta vez cabia-me também participar antes da reunião. Afinal de contas andava mesmo precisando de verificar pessoalmente a quantas o menino andava.
O. Padre-Diretor fazia considerações gerais sobre o uniforme de gala a ser adotado. A gravatinha é azul? ­perguntou uma das mães. Meia três - quartos? - perguntou outra. E o emblema no bolsinho? - perguntou uma ter­ceira. Outra ainda, à minha frente, quis saber se tinha pesponto - mas sua pergunta não chegou a ser ouvida.
Invejei-lhes a desenvoltura. Tive vontade de perguntar também alguma coisa, para tornar mais efetivo meu interesse de pai - mas temi aquelas mães todas voltando a cabeça, curiosas e surpreendidas, ante uma destoante voz de homem, meio gaguejante talvez de insegurança. Poderia também não ser ouvido - e se isso me acontecesse eu sumiria na cadeira. Além do mais, não me ocorria nada de mais prático para perguntar senão o que vinha a ser pesponto.
Acabei concluindo que tanta perguntação quebrava um pouco a solene compostura que devíamos manter, como responsáveis pelo destino de nossos filhos. E dispensei-me de intervir, passando a ouvir a explanação do Padre­-Diretor:
– Chegamos agora ao ponto que interessa: o quinto ano. Depois de cuidadosa seleção, foi dividido em três turmas - a turma 14, dos mais adiantados; a turma 13, dos regulares; e a turma 12, dos atrasados, relapsos, irrequietos, indisciplinados. Os da 13 já não são lá essas coisas, mas os da 12 posso assegurar que dificilmente irão para frente, não querem nada com estudo.
Fiquei atento: em qual delas estaria o menino? Pensei que o Diretor ia ler a lista de cada turma - o meu certamente na 14. Não leu, talvez por consideração para com as mães que tinham filhos na 12. Várias, que já sabiam disso, puseram-se a falar ao mesmo tempo: não era culpa delas; levavam muito dever para casa, não se habituavam com o semi-internato. Uma - a do tricô, se não me engano - chegou mesmo a se queixar do ensino dirigido, que a seu ver não estava dando resultado. Outra disse que tinha três filhos, faziam provas no mesmo dia, como prepará-los de uma só vez? O Padre-Diretor sacudiu a cabeça, sorrindo com simpatia – não posso nem ao menos lastimar que a senhora tenha tanto filho. E voltou a falar nos relapsos, um caso muito sério. Não vai esse Padre dizer que meu filho está entre eles, pensei. Irrequieto, indisciplinado. Ah, mas ele havia de ver comigo: entre os piores!
E por que não? Quietinho, muito bem mandado, filhinho do papai, maria-vai-com-as-outras ele não era mesmo não. Desafiei o auditório, acendendo um cigarro: ninguém tinha nada com isso. Criança ainda, na idade mesmo de brincar e não levar as coisas tão a sério. O curioso é que não me parecesse assim tão vadio - jogava futebol na rua, assistia à televisão, brincava de bandido, mas na hora de estudar o rapazinho estudava, então eu não via? Quem sabe se procurasse ajudá-lo, dar uma mão­zinha. . Mas essas coisas que ele andava estudando eu já não sabia de cor, tinha de aprender tudo de novo. Outro dia, por exemplo, me embatucou perguntando se eu sabia como se chamam os que nascem na Nova Guiné. Ninguém sabe isso, meu filho, respondi gravemente. Ah, não sabe? Pois ele sabia: guinéu! Não acreditei, fui olhar no dicionário para ver se era mesmo. Era. Talvez estivesse na turma 13, bem que sabia lá uma coisa ou outra, o danadinho.
Agora o Diretor falava na comida que serviam ao almoço. Da melhor qualidade, mas havia um problema ­os meninos se recusavam a comer verdura, ele fazia questão que comessem, para manter dieta adequada. No entanto, algumas mães não colaboravam. Mandavam bilhetinhos pedindo que não dessem verdura aos filhos.
Eis algo que eu jamais soube explicar: por que menino não gosta de verdura? Quando menino eu também não gostava.
Pedem às mães que mandem bilhetinhos e não é só isso: usam qualquer recurso para não comer verdura. Hoje mesmo me apareceu um com um bilhete da mãe dizendo: não obrigar meu filho a comer verdura. Só que estava escrito com a letra do próprio menino.
Chegada era a hora de levá-lo ao médico - uma professora amiga foi buscá-lo para mim.
 Meu filho - perguntei, ansioso, assim que saímos:
– Em que turma você está? Na 12 ou na 13?
– Na 14 - ele respondeu, distraído. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo?
– Fico satisfeito de saber - comentei apenas.
Ele não perdeu tempo:
– Então eu queria te pedir um favor – aproveitou logo – que você mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.

(Fernando Sabino, in “A vitória da infância”)


Leia também:

"O grande clandestino" - Aníbal Machado
Virgínia Victorino - Poemas

"Navegar é preciso" - Fernando Pessoa

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CONCURSO PÚBLICO – CARGO: AGENTE DE SEGURANÇA PENITENCIÁRIA – 2012

CONCURSO PÚBLICO – CARGO: AGENTE DE SEGURANÇA PENITENCIÁRIA – 2012 – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA



Para responder às questões de números 01 a 06, leia o texto de Carlos Heitor Cony.

A justiça como é feita

RIO DE JANEIRO – Um filme de André Cayatte (“Justice est faite”) conta a história de um réu acusado de um crime. Ele alega inocência, o juiz fica em dúvida e, na dúvida, não o condena à morte, mas à prisão por oito anos. Cayatte, que além de cineasta era advogado militante, termina entrando na história com o seguinte comentário: “Se o réu é culpado, a pena foi pouca. Se o réu é inocente, a pena foi muita. De qualquer forma, a justiça dos homens foi feita”.

(Folha de S.Paulo, 05.03.2009)

01. Ao se deparar com a dúvida, o juiz

(A) omite-se de suas obrigações.
(B) prescreve uma pena mais severa.
(C) deixa de fazer a justiça dos homens.
(D) não deixa que ela o perturbe.
(E) opta por uma sentença mais branda.

02. O comentário de Cayatte deixa evidente que

(A) o juiz não se influenciou pela alegação de inocência do réu, o que lhe permitiu ser justo, independentemente da justiça dos homens.
(B) a decisão do juiz se baseia na justiça dos homens, que nem sempre pode refletir a verdade de uma situação.
(C) a ponderação do juiz poderia ser de forma menos emotiva, caso ele conhecesse, de fato, a justiça dos homens.
(D) a pena que o juiz aplicou ao réu revela sua fraqueza na hora de decidir, já que abriu mão da justiça dos homens.
(E) o juiz prescreveu uma pena muito maior do que o réu merecia, pelo fato de não se ater à justiça dos homens.

Para responder às questões de números 03 e 04, considere a frase

Cayatte, que além de cineasta era advogado militante... –

03. Com a frase, entende-se que Cayatte

(A) um dia foi advogado.
(B) tinha vontade de ser cineasta.
(C) era cineasta e advogado.
(D) deixou de ser advogado.
(E) era mais do que cineasta e advogado.

04. O termo militante significa

(A) atuante.  (B) revolucionário. (C) omisso. (D) militar. (E) poderoso.

05. No comentário de Cayatte – “Se o réu é culpado, a pena foi pouca. Se o réu é inocente, a pena foi muita.” – as orações iniciadas pela conjunção Se expressam sentido de

(A) conclusão. (B) consequência. (C) conformidade. (D) condição. (E) concessão.

06. Assinale a alternativa correta quanto ao emprego de parônimos.

(A) O juiz agiu com descrição, para não tornar evidente a sua dúvida.
(B) O réu se disse inocente, e foi fragrante a dúvida do juiz.
(C) O réu foi descriminado da acusação pelo habilidoso juiz.
(D) O réu teve sua pena de oito anos proferida pelo iminente juiz.
(E) O réu ficou feliz: o juiz diferiu sentença favorável a sua absolvição.

As questões de números 07 a 12 baseiam-se na charge a seguir.

07. O personagem que vive no mundo do crime

(A) tem medo das pessoas que se arriscam na criminalidade.
(B) considera muito perigosa a vida na criminalidade.
(C) acredita que, em breve, deixará a criminalidade.
(D) revela intenção de manter-se na criminalidade.
(E) afirma, na verdade, ter abandonado a criminalidade.

08. Quando diz – ... juro que nunca mais eu assalto! – o personagem está se expressando com

(A) ódio.  (B) vergonha.  (C) carinho.  (D) obstinação.  (E) ironia.

09. A segunda fala da mulher revela que ela

(A) discorda do tipo de vida do rapaz.
(B) se sente ameaçada pelo rapaz.
(C) tem orgulho do tipo de vida do rapaz.
(D) vive com satisfação ao lado do rapaz.
(E) intimida o rapaz para que mude de vida.

10. Com o verbo no futuro, a frase – Eu vou andar 10 km... – deve ser reescrita da seguinte forma:

(A) Eu andava 10 km.
(B) Eu andarei 10 km.
(C) Eu tenho andado 10 km.
(D) Eu ando 10 km.
(E) Eu andara 10 km.

11. Considere as afirmações.

I. Na frase do personagem – … se eu encontrar um policial… – a palavra policial é um substantivo. Porém, na frase – Mais adiante, há posto policial. – essa mesma palavra tem valor adjetivo.
II. As palavras anzol e azul fazem o plural da mesma forma que policial.
III. O advérbio nunca é indicativo de causa.

Está correto apenas o que se afirma em

(A) I.   (B) II.   (C) III.   (D) I e II.   (E) I e III.

12. Na primeira frase do primeiro quadrinho, a expressão dessa vida está empregada em sentido _____ , sugerindo um modo de vida _____.
Os espaços da frase devem ser preenchidos, correta e respectivamente, com

(A) figurado ... em desarmonia com os padrões sociais
(B) próprio ... desejável para a sociedade moderna
(C) figurado ... condizente com a lei e a ordem social
(D) próprio ... ilegal e pouco desejável socialmente
(E) figurado ... honesto e amparado pela lei

Leia o texto para responder às questões de números 13 a 19.

Livres, anônimos e abandonados

Fazendo um retrospecto na história, encontramos que a primeira instituição com caráter de atendimento à infância tenha nascido na Itália e se expandido por toda Europa e posteriormente no Brasil. Chamava-se “Roda dos Expostos” e recebia essa denominação porque em sua entrada havia um dispositivo que se encaixava em um eixo giratório. Sua função era dar anonimato ao abandono de crianças. Para “expor” uma criança bastava colocá-la dentro da caixa, girá-la a 180º e apertar a campainha. Do outro lado ficava o funcionário para receber a criança abandonada. Nenhuma das identidades era revelada. Esta era uma instituição do tipo total, pois as crianças passavam tempo integral de suas vidas e tinham nela seu único abrigo. No Brasil, esse tipo de instituição chegou por volta de 1726 e esteve em vigor até 1950.
A partir de 1935, a Casa de Expostos de São Paulo, localizada no bairro do Pacaembu, passou a ser conhecida como Asilo Sampaio Vieira. Posteriormente, essa instituição passou a se denominar Educandário Sampaio Vieira, depois Casa da Criança
do Serviço Social de Menores, e por fim, constituiu-se como a Unidade de Triagem Sampaio Viana (UT-1), da FEBEM-SP, que atendia crianças do sexo masculino e feminino, de até seis anos e onze meses.

(Sociologia: ciência&vida, ano II, número 17. Adaptado)

13. De acordo com o texto, uma família que “expunha” uma criança na Roda

(A) adotava-a.  (B) recebia-a.  (C) resgatava-a.  (D) emprestava-a.  (E) abandonava-a.

14. Segundo as informações do texto, a caixa giratória era um expediente da Roda que

(A) permitia ao funcionário conhecer os pais das crianças.
(B) garantia a integridade física do funcionário.
(C) preservava a identidade das pessoas.
(D) expunha aos doadores o funcionário do local.
(E) punha em risco a integridade física e emocional da criança.

15. No título do texto, os termos estão flexionados, concordando gramaticalmente com

(A) crianças.  (B) expostos.  (C) nós (adultos e crianças).  (D) identidades.  (E) funcionário e instituição.

16. Em – Posteriormente, essa instituição passou a se denominar Educandário Sampaio Vieira... – o advérbio Posteriormente indica ______ e seu antônimo é _____.
Os espaços da frase devem ser preenchidos, correta e respectivamente, com

(A) modo ... antigamente
(B) tempo ... anteriormente
(C) afirmação ... concomitantemente
(D) tempo ... após
(E) modo ... raramente

17. Assinale a alternativa correta quanto à pontuação.

(A) A Casa de Expostos de São Paulo a partir de 1935, passou a ser conhecida como Asilo Sampaio Vieira.
(B) A Casa de Expostos de São Paulo, passou a ser conhecida como Asilo Sampaio Vieira a partir de 1935.
(C) A Casa de Expostos de São Paulo, passou a ser conhecida como Asilo Sampaio Vieira, a partir de 1935.
(D) A Casa de Expostos de São Paulo, a partir de 1935, passou a ser conhecida como Asilo Sampaio Vieira.
(E) A Casa de Expostos de São Paulo passou a partir de 1935, a ser conhecida como Asilo Sampaio Vieira.

18. Mantendo-se o mesmo modo e tempo verbal, a oração – Nenhuma das identidades era revelada. – pode ser reescrita da seguinte forma:

(A) Não se tem revelado nenhuma das identidades.
(B) Não se revelou as identidades nenhuma.
(C) Não revelarão nenhuma das identidades.
(D) Não são reveladas nenhuma das identidades.
(E) Não revelavam nenhuma das identidades.

19. Analise as afirmações.

I. Em – ... localizada no bairro do Pacaembu... – se o termo localizada for substituído por próxima, haverá alteração da regência, devendo-se empregar ao no lugar de no.
II. Em – ... que atendia crianças do sexo masculino e feminino... – a forma verbal pode ser substituída por cuidava, sem alteração da regência verbal.
III. Em – ... que atendia crianças do sexo masculino e feminino... atendia pode ser substituído, sem prejuízo de sentido, por assistia, devendo-se substituir crianças por
à crianças.
Está correto apenas o que se afirma em

(A) I.    (B) II.    (C) III.    (D) I e II.    (E) I e III.

As questões de números 20 a 25 baseiam-se no texto de Ruy Castro.

O caso da coxinha envenenada

RIO DE JANEIRO Na semana passada, em Conchal (172 km de São Paulo), uma mulher serviu um prato de coxinhas ao marido. Este salivou profusamente e atacou uma delas com disposição. Mas, na primeira engolida, sentiu um gosto estranho e comentou que o quitute não estava nos padrões a que ela o acostumara. A mulher deu um sorriso amarelo e disse que devia ser a pimenta-do-reino.
O homem fez “Grmff!” e repassou as coxinhas a seu cachorro, que o olhava com ar súplice, debaixo da mesa. O animal, fraco em etiqueta e de paladar menos sofisticado, devorou a porção quase de uma bocada. Ato contínuo, deu um ganido grosso, irreal, como se dublasse a si mesmo, revirou os olhos e estatelou-se, morto, na sala.
Desconfiado, o marido correu para o pronto-socorro, onde o velho clister entrou em ação. Diante da suspeita de envenenamento, a mulher confessou tudo ao delegado. Tinha desviado R$ 15 mil da conta de ambos e temia que ele descobrisse.

(Folha de S.Paulo, 11.03.2009)

20. De acordo com o texto, o homem

(A) foi ao pronto-socorro porque começou a passar mal depois de ingerir as coxinhas feitas pela mulher.
(B) decidiu dar as coxinhas ao cachorro porque tinha certeza de que a mulher pretendia envenená-lo.
(C) só achou que havia algo errado com as coxinhas depois que seu cachorro as comeu e morreu.
(D) aproveitou as coxinhas do prato para livrar-se do importuno cão, que estava debaixo da mesa.
(E) comeu as coxinhas para poder desmascarar a mulher, que o roubara e queria eliminá-lo.

21. O cachorro olhava seu dono com olhar súplice. Isso significa que o animal

(A) sentia-se desprezado.
(B) esperava receber alimento.
(C) era bastante perigoso.
(D) olhava o dono com desdém.
(E) aparentava estar doente.

22. Na frase – ... e atacou uma delas com disposição. – a preposição com forma uma expressão indicativa de

(A) conformidade.  (B) comparação.  (C) causa.  (D) modo.  (E) consequência.

23. Assinale a alternativa correta quanto à concordância nominal.

(A) O cão, com bem menos sofisticação no gosto do que o dono, comeu todas as coxinhas.
(B) O marido e o cachorro foram vítima da mulher, que queria esconder suas falcatruas.
(C) O cachorro morreu e seu dono quase, porque a mulher lhes serviu coxinhas envenenada.
(D) A mulher temia que o marido soubesse que R$ 15 mil foram desviado da conta de ambos.
(E) A mulher, meia apavorada com a suspeita de envenenamento, contou tudo ao delegado.

Nas questões de números 24 e 25, indique a alternativa que completa, correta e respectivamente, os espaços da frase.

24. O marido se pôs ___ comer as coxinhas, sentiu um gosto estranho e disse _____ mulher que elas estavam fora de seu padrão culinário. Ela, então, respondeu que era devido ____ pimenta do reino.

(A) à ... a ... a
(B) a ... a ... a
(C) a ... à ... à
(D) à ... à ... à
(E) a ... a ... à

25. Quando _____ em perigo, o marido foi ao pronto-socorro. Com a suspeita de envenenamento, o delegado interrogou a mulher e ela não ______ nada.

(A) viu se ... omitiu-lhe
(B) viu-se ... omitiu-lhe
(C) se viu ... o omitiu
(D) si viu ... omitiu-o
(E) se viu ... lhe omitiu

GABARITO

1 – E      2 – B    3 – C    4 – A    5 – D    6 – C    7 – D    8 – E    9 – A  10 – B
11 – D  12 – A  13 – E  14 – C  15 – B  16 – B  17 – D  18 – E  19 – A  20 – C
21 – B  22 – D  23 – A  24 – C  25 – E 

Instituição: Vunesp  - Nível: Médio

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

José Régio – Poemas

José Régio


Soneto de amor

"Tender Passion". Vladislav Shugarov
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

(José Régio)

Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

(José Régio)

Redenção

Meus poemas desprezaram a Beleza...
Fi-los descendo e transcendendo lodos.
(Dos lodos todos e dos poemas todos
Aqui vos falo com feroz franqueza!)

Fi-los, sentando à minha impura mesa
Quantos pecaram, por qualquer dos modos
Que há, de pecar, entre judeus ou godos...
E assim os fiz mais belos que a Beleza.

Tenho as mãos negras e os sorrisos curvos
Dos que, na sombra, beijam as raízes
Do que parece claro à luz de fora.

Vinde aos espelhos dos meus olhos turvos!
Se sois infames, fracos, e infelizes,
Neles vereis como já nasce a aurora.

(José Régio)

Palavras

Palavras, atirei-as
Como quem joga pedras, lança flores.
Abriram fendas nas areias,
Suscitaram carícias e furores.

Sobre mim recaíram
Pesada de multíplices sentidos.
Tenho os lábios que um dia as proferiram
E os dedos que as gravaram - já feridos.

Tintas de sangue as restituo aos ventos,
Prestidigitador que sou de sons, palavras.
Dá-lhes novos alentos,
Fogo sonoro que em mim lavras!
Errantes lá pra solidões imensas
Com asas no seu peso, à recaída,
Me tragam, ágeis, densas,
A resposta final que me é devida.

(José Régio)

Canção de primavera

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo? 

(José Régio)

Libertação

"A boy blowing on an ember to light border".
El Greco.
Menino doido, olhei em roda, e vi-me 
Fechado e só na grande sala escura. 
(Abrir a porta, além de ser um crime, 
Era impossível para a minha altura...) 

Como passar o tempo?... E diverti-me 
Desta maneira trágica e segura: 
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me, 
Desfiz trapos, arames, serradura... 

Ah, meu menino histérico e precoce! 
Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse, 
E tens a inquietação da Descoberta! 

O menino, por fim, tombou cansado; 
O seu boneco aí jaz esfarelado... 
E eu acho, nem sei como, a porta aberta! 

(José Régio)

Ignoto Deo

Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

(José Régio, in “Biografia”)

Improviso corrigido

Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão...

Se minto? ... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo,
Não nas que entôo a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois.
Não nas que entrego a músicas, miragens,
Alegorias, fábulas, mentiras,
Cadências, símbolos, imagens.
Ecos da minha e mil milhões de liras.

Se minto?...Minto! É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo,
E a mim me visto de inocência, e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!

(José Régio, in “Colheita da Tarde”)

"A criação de Adão". Michelangelo
Sarça ardente

Eis-me..., tal qual!: Estreito mais que estreito,
De mim próprio cadáver e ataúde,
Beijocando e esmurrando o próprio peito
De olhos em alvo e os dedos no alaúde,
devedor apregoando o seu direito
E os seus vícios entoando por virtude,
Bicho da terra, vil, e tão pequeno
Que nem sequer aprende a ser terreno...

(…)

Assim falava, quando uma Figura
Ante mim se esboçou, se alevantava,
Que nos astros pousava a fronte pura,
Os pés na humilde terra que eu pisava.
Suas asas vibrando em la que altura
Faziam este vento que soprava...
E os seus abertos olhos mais que humanos
Eram grandes e fundos como oceanos.

(…)

E não mais, versos meus, palavras mortas,
Não mais!, que a voz se me enrouquece em vão.
Cale-me eu ao fragor, Senhor, das Portas
Do teu imenso Sim que não tem não!
Não mais eu te erga, em público, as mãos tortas,
Com reservas a doer no coração...
Não mais! E nos silêncios do meu verso,
Fala tu! Voz Suprema do Universo.

(José Régio)

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"Reunião de mães" - Fernando Sabino

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