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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Texto: “Dialogando com o público leitor” – João Ubaldo Ribeiro

Dialogando com o público leitor

– Boa tarde, o senhor me desculpe eu estar interrompendo sua leitura, mas é só um minutinho.
– Ah, pois não.
– É o seguinte, não é o senhor que é o escritor? O menino ali me disse que o senhor é o escritor. 
– Bem, não sei se sou o escritor. Mas sou um escritor, sou, sim.
– Madalena, venha cá, é ele! Madalena! Chame Rosalvo e os meninos, é ele?
– O que foi que houve?
– Madalena é minha esposa, ela estava com vergonha de perguntar se era o senhor mesmo o escritor. Ela me disse que já tinha ouvido muito falar no senhor. E Rosalvo é meu cunhado, que conhece sua obra, é gente boa. 
– Sim, eu...
– Não vou interromper nada, pode ficar descansado, o senhor pode continuar com sua leitura. 
– Eu... 
– Madalena, é ele mesmo! Você tinha razão, é ele. É boa gente, você sabe? Estamos aqui numa prosa ótima, ele é a simplicidade em pessoa. Olha aí, Rosalvo, é ele. Pode sentar, rapaz, ele não morde, há-há! 
– Muito prazer, dá licença. 
– Eu... 
– Meu nome é Rosalvo Luiz da Anunciação Pereira, mas eu costumo assinar apenas Anunciação Pereira. 
– Ah, sim, interessante. 
– Admiro muito sua obra, O Sargento de Milícias. 
– Mas não fui eu quem escreveu esse, foi outro. Bem que podia ter sido eu, mas não fui eu. 
– Ah, então o senhor não é autor do “Sargento”? 
– Sou, mas de outro sargento, o Sargento Getúlio. 
– Ah, mas é claro, que besteira minha. O Sargento de Milícias é de Lima Duarte, não é? 
– Lima Duarte? O Sargento... 
– Sim, Lima Duarte, do Policarpo Quaresma, grande autor, para mim maior do que Machado de Assis. 
– Lima Barreto. 
– Sim, claro, claro, Lima Barreto, eu sempre confundo, Lima Duarte é outro. 
– E não foi Lima Barreto que escreveu O Sargento de Milícias. 
– E quem foi? 
– Manoel Ant... Deixa pra lá, tudo bem, Seu Rosalvo. 
– Pelo amor de Deus, nada de formalidades, que é isso de “Seu Rosalvo”, os amigos a gente trata pelo nome. 
– Muito obrigado, gentileza sua. 
– Que é isso que você está bebendo aí, posso dar uma cheiradinha? Ah, isso é caju! De hoje que eu não tomo uma batida de caju, vou pedir uma também enquanto a gente conversa, é coisa pouca, não vou tomar seu tempo, eu sei que você é um homem ocupado e precisa ler o jornal para estar por dentro do que acontece, o escritor tem de estar informado. 
– Pois é, eu... 
– Madalena, peça uma batida de caju no boteco e traga uns acarajés, uns abarás, uns tira-gostos, umas coisinhas. Quem bebe tem que comer, não é não? 
– É, mas eu, pessoalmente, quando estou bebendo... 
– Não vou tomar seu tempo, vou direto ao assunto. Eu também sou escritor. 
– Ah, que bom, eu... 
– Mas até hoje só publiquei um livro, que eu mesmo custeei, um livro de poemas em prosa e mais alguns escritos que eu reuni. Se eu soubesse que ia lhe encontrar aqui, eu lhe trazia um exemplar. Chama-se Retalhos de Mim. Não quero ser imodesto, mas muita gente boa... Não sei se você conhece o professor Martinho Lobo, conhece o professor Martinho Lobo? 
– Não, infelizmente não, eu... 
– Não conhece Martinho Lobo, da Academia de Odontólogos Escritores, que foi muitos anos professor de português no Central? 
– Não, infelizmente... 
– Bem, eu vou lhe mandar a cópia de um artigo que Martinho Lobo escreveu na Gazeta de Ipiaú a respeito desse livro meu, você vai ver que comentário interessante, ele foi muito feliz nas observações dele. 
– Sim, mas eu... 
– Ah, chegou o acarajé! O acarajé dessa baiana é uma beleza, é um dos melhores que eu já provei. 
– Eu sei, eu conheço essa baiana desde menino. 
– Ah, sim, claro. Com pimenta ou sem pimenta? 
– Não, obrigado, eu detesto comer quando estou bebendo. Aliás, eu... 
– Abará então? Hum, esse abará... 
– Eu... 
– Vou direto ao assunto, não quero tomar seu tempo. Para onde é que eu posso mandar uns originais que eu queria que você lesse? São 29 peças curtas, que eu prefiro não rotular, são pedaços de minha vida, de minha sensibilidade. Alguns você poderia chamar de contos. Não sei se você conhece aquela frase de Edgard de Andrade que diz que o conto é tudo aquilo que se chama de conto, conhece essa frase? 
– Eu... 
– Pois é, mas eu não quis chamar de contos, preferi não dar nome, chega de rótulos, de fórmulas, de coisas preestabelecidas, precisamos inovar a literatura, você não acha? Agora, se depois que você ler você achar que eu devo dizer que são contos, você é que sabe, você é que vai fazer o prefácio, não sou eu. 
– Eu vou fazer o prefácio? 
– Eu já tinha dito a Madalena e a Walter Augusto – Walter Augusto é meu cunhado, casado aqui com Madalena: eu vou lá conversar com ele e vou ser logo sincero, vou botar as cartas na mesa. Se eu quero o prefácio, pra que ficar enrolando, é ou não é? Madalena, me dê a caneta aí, para eu tomar nota do endereço dele para mandar os originais. Eu moro aqui na Bahia mesmo, isso chega rápido pelo correio, amanhã mesmo eu mando, deve estar aqui dois ou três dias depois, quer dizer, dá para esse prefácio estar pronto daqui para o outro domingo. Mas você não precisa ter o trabalho de me mandar o prefácio e me devolver os originais, eu mesmo venho aqui pegar tudo no próximo fim de semana e assim a gente aproveita para bater outro papo, depois que discutir o prefácio. 
– Discutir o prefácio? Eu... 
– Agora está na hora de uma cervejinha. Dê cá seu copo aí, que eu vou mandar lavar, que agora a gente vai numa lourinha estupidamente gelada que eu... 
– Olha aqui, meu amigo, eu não vou fazer prefácio nenhum, não quero discutir nada com o senhor, não suporto mesa atulhada de caranguejo, folha de banana, farelo de acarajé, resto de vatapá e essa tralha toda aí e, mais do que tudo, não quero nem vou tomar cerveja nenhuma, largue meu copo aí, por favor. 
– Mas minha intenção... 
– O senhor vai me dar licença, eu vou embora. 
– E o endereço? 
– Que endereço, rapaz, eu vou lá lhe dar endereço? 
– É isso que acontece, Madalena, o sujeito tem um sucessozinho, vira medalhão e aí pisa nos outros! Pode ir, pode ir, eu saberei vencer sozinho! Você já viu que indelicadeza, Madalena, ele age como se tivesse o rei na barriga, não sei o que ele está pensando que é, ainda se fosse um escritor importante mesmo, agora um cara desses que ninguém sabe quem é... 

(João Ubaldo Ribeiro)


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"A mensagem" - Millôr Fernandes
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Jorge de Sena - Poemas

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Temas de Redação – Unesp – 2011

Temas de Redação – Unesp – 2011
REDAÇÃO – Unesp – 2011

Instrução: A redação toma por base um texto que integra uma reportagem da revista Fotografe Melhor e fragmentos de um artigo de Elisabeth Seraphim Prosser, professora e pesquisadora de História da Arte e de Metodologia da Pesquisa Científica da Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

Manifestação surgiu em Nova York nos anos de 1970

Muitos encaram o grafite como uma mera intervenção no visual das cidades. Outros enxergam uma manifestação social. E há quem o associe com vandalismo, pichação... Mas um crescente público prefere contemplá-lo como uma instigante, provocadora e fenomenal linguagem artística.
O grafite é uma forma de expressão social e artística que teve origem em Nova York, EUA, nos anos de 1970. O novaiorquino Jean-Michel Basquiat foi o primeiro grafiteiro a ser reconhecido como artista plástico, tendo sido amigo e colaborador do consagrado Andy Warhol — a vida de Basquiat, aliás, mereceu até filme, lançado em 1996.
A chegada ao Brasil também foi nos anos de 1970, na bagagem do artista etíope Alex Vallauri e se popularizou por aqui. Desde a década de 1990 é pura efervescência. Irreverente, a arte das ruas colocou à prova a criatividade juvenil e deu uma chance bastante democrática de expressão, que conquistou, além dos espaços públicos, um lugar na cultura nacional. Uma arte alternativa, que saiu dos guetos para invadir regiões centrais e privilegiadas em quase todo o Ocidente.
Hoje, à vista da sociedade e totalmente integrada ao cotidiano do cidadão brasileiro, a arte de rua provoca e, ao mesmo tempo, lembra a existência de minorias desfavorecidas e suas demandas por meio de coloridos desenhos que atraem a atenção.
Essa manifestação avançou no campo artístico e vem conquistando superfícies em ambientes até então improváveis: do interior de famosas galerias às fachadas externas de museus, como o Tate Modern, de Londres, que em 2008 (maio a setembro) teve a famosa parede de tijolinhos transformada em monumentais painéis grafitados (25 metros) pelas mãos, sprays e talento de grafiteiros de vários lugares do planeta, convidados para esse desafio, com destaque para os brasileiros Nunca e os artistas-irmãos Osgêmeos.

(Fotografe Melhor. Um show de cores se revela na arte dos grafites. São Paulo: Editora Europa, ano 14, n.º 161, fevereiro 2010.)


Do vandalismo anárquico à arte politicamente comprometida

Quanto à manifestação da arte de rua em si, pode-se afirmar que ela abrange desde o vandalismo anárquico até a arte politicamente comprometida. Vai da pichação, cujo propósito é sujar, incomodar, agredir, chamar a atenção sobre determinado espaço urbano ou simplesmente desafiar a sociedade estabelecida e a autoridade, até o lambe-lambe e o graffiti, nos quais se pretende criticar e transformar o status quo. (...)
O transeunte (...) geralmente ignora, rechaça ou destrói essa arte, considerando-a sujeira, usurpação do seu direito a uma paisagem esterilizada, uma invasão do seu espaço (às vezes privado, às vezes público), uma afronta à mente inteligente. Escolhe não olhá-la, não observá-la, não ler nas suas entrelinhas e nos espaços entre seus rabiscos ou entre seus traços elaborados. Confunde o graffiti com a pichação, isto é, a arte com o vandalismo (...).
No entanto, em documentários e em entrevistas com vários artistas de rua em Curitiba em 2005 e 2006, pôde-se constatar que essa concepção é, na maioria dos casos, improcedente. Grande parte dos escritores de graffiti e dos artistas envolvidos com o lambe-lambe não apenas estuda ou trabalha, mas tem rendimento bom ou ótimo na sua escola ou no seu emprego.
De acordo com a pesquisa ora em andamento, o artista de rua curitibano mora tanto na periferia quanto no centro, é oriundo tanto de famílias de baixa renda como de outras economicamente mais favorecidas. Seu nível de instrução varia do fundamental
incompleto ao médio e ao superior, encontrando-se entre eles inclusive funcionários de órgãos culturais e educacionais da cidade, bem como profissionais liberais, arquitetos, publicitários, designers e artistas plásticos, entre outros. Pôde-se perceber, também, que suas preocupações políticas, sua consciência quanto à ecologia e ao meio ambiente natural ou urbano, seu engajamento voluntário ou profissional em organizações educacionais e assistencialistas são uma constante.

(Elisabeth Seraphim Prosser. Compromisso e sociedade no graffiti, na pichação e no lambe-lambe em Curitiba (2004-2006). Anais – Fórum de Pesquisa Científica em Arte. Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Curitiba, 2006-2007.)

PROPOSIÇÃO

Arte de rua, intervenção urbana, grafite, graffiti, pichação, lambe-lambe, são inúmeros os termos pelos quais é conhecida a atividade pictórica em muros, paredes e superfícies de prédios nas cidades do mundo inteiro. Muitas pessoas consideram tais trabalhos verdadeiros exemplos de arte plástica popular; outras afirmam que é puro vandalismo. Os autores ou escritores, por vezes, têm de dar explicações à polícia, quando flagrados desenhando ou pintando em superfícies de prédios públicos ou privados. Mas há quem os convide, tanto nas repartições públicas como nas empresas de todos os gêneros, a pintar painéis decorativos em edifícios. E não falta também quem já venha implantando cursos ou atividades complementares para alunos do ensino fundamental e médio aprenderem a fazer grafites.
Com base neste comentário e nos textos apresentados, escreva uma redação de gênero dissertativo, em prosa obediente à norma culta da Língua Portuguesa, sobre o tema:

GRAFITES: ENTRE O VANDALISMO E A ARTE

REDAÇÃO – Unesp – 2011 – Meio do ano

Instrução: Leia os trechos dos textos que se referem ao futuro do livro.

Texto I

A possibilidade do fim do livro é traumática porque o livro não pode jamais ser visto apenas como material inerte ou simples objeto de consumo. É antes um objeto simbólico e uma instituição aos quais a cultura pós-Gutemberg confiou a tarefa de armazenar e fazer circular praticamente todo o conhecimento considerado relevante. Enquanto instituição, o livro representa uma forma de socialização que compreende todo um circuito de produção e consumo: autores, editores, leitores, críticos, comunidades interpretativas institucionalizadas. Como qualquer forma de socialização, a instituição do livro cria um espaço público, estabelece hierarquias e constitui identidades nos grupos e nos indivíduos que dela participam.

(Sérgio Luiz Prado Bellei, O fim do livro e o livro sem fim. Universidade Federal de Santa Catarina: http://lfilipe.tripod.com.bellei.html)

Texto II

Com relação ao desaparecimento do livro, os dois [Umberto Eco e Jean-Claude Carrière] observam com razão que as tecnologias digitais ficam obsoletas muito mais rapidamente que o livro impresso. Carrière vai buscar em sua biblioteca um pequeno incunábulo em latim, impresso em Paris em 1498; com exceção de umas poucas palavras obscuras, é perfeitamente legível como linguagem e como tecnologia, cinco séculos depois. E ele cita o caso de um cineasta belga, seu amigo, que tem no porão de casa 18 computadores diferentes, para poder consultar trabalhos antigos, criados em programas de PC que não são mais usados hoje.
Os dois comentam que a possibilidade atual de armazenar quantidades imensas de dados não significa que tudo isto continuará armazenado (e acessível) indefinidamente, e observam que mesmo uma biblioteca gigantesca não passa de uma mera seleção, um filtro de escolha, de prioridades, aplicado a uma cultura. ‘O que devemos preservar?’ – eis a questão, porque é impossível preservar tudo, tanto quanto é impossível consultar tudo quanto foi preservado (e que é necessariamente uma pequena parte desse todo).

(Braulio Tavares. Não contem com o fim do livro: http://jornaldaparaiba.globo.com/)

Texto III

Ou seja, apesar de sua imagem idealizada – às vezes, sacralizada – de fonte de lazer, informação, conhecimento, fruição intelectual, o livro, enquanto objeto, é apenas ‘o suporte da leitura’, o meio pelo qual o escritor chega ao leitor. E assim permanecerá até que ‘alguma coisa similar’ o substitua. Saber quanto tempo essa transição levará para se consumar é mero e certamente inútil exercício de futurologia. Até porque provavelmente não ocorrerá exatamente uma transição, mas apenas a acomodação de uma nova mídia no amplo universo da comunicação. Tem sido assim ao longo da História.
Tranquilizem-se, portanto, os amantes do livro impresso. Tal como ‘a colher, o martelo, a roda ou a tesoura’, ele veio para ficar, pelo menos até onde a vista alcança. E não se desesperem os novidadeiros amantes de gadgets. Estes continuarão sendo inventados e aprimorados por força da voracidade do business globalizado. E é possível até mesmo que algum deles venha a se tornar definitivo e entrar no time do livro, da colher, da roda...

(A. P. Quartim de Moraes. É o fim do livro? Rir para não chorar. www.estadao.com.br/)

PROPOSIÇÃO

Os e-readers, aparelhos de leitura de livros digitalizados, e os chamados tablets, que incorporam outras funções além da leitura de livros e revistas, estão conquistando cada vez mais usuários. Hoje já é possível, com um desses leitores digitais, ter uma biblioteca de milhares de obras e, além disso, acessar para leitura imediata jornais e revistas do mundo inteiro. Diante dessa nova realidade, caracterizada por uma competição muito grande entre empresas que pretendem criar o melhor aparelho eletrônico de leitura, muitos estudiosos já preveem o fim dos jornais e revistas e o fim dos livros. Outros, porém, questionam tais previsões e afirmam que o livro não desaparecerá. Que poderá acontecer de fato?
Com base nos textos apresentados na instrução, escreva uma redação de gênero dissertativo, empregando a norma-padrão, sobre o tema:

O FUTURO DO LIVRO



Leia também:

Temas de redação - Unicamp - 2011
Temas de redação – Fuvest – 2009 – 2012
Temas de redação – Mackenzie – 2011
Temas de redação – Enem – 2010 – 2011

Texto: “A Mensagem” – Millôr Fernandes

A Mensagem

Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo: 
E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do seu negócio: “Nesta casa se vendem ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou ao pintor que bolasse uma figura, uma alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000. Cinquenta mil o quê?, indagou o comerciante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale, disse então o comerciante. Como não vale?, retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco?, arriscou o comerciante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim?, disse o negociante? Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha, o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Agora também não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: “Se vendem ovos frescos”, já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa ao lado, não é mesmo? Certíssimo!, exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por que colocar “Se vendem”? Se o freguês potencial lê “Ovos Frescos”, já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo!, espantou-se ainda mais o comerciante. Quanto ao “Frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. “Frescos” lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos “velhos”. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também o “frescos”! Certíssimo!, berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas OVOS. Por favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: OVOS! Só ovos, ovos tout court, ovos em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o pincel, voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo ― pensando bem, por que vender ovos?

(Millôr Fernandes)


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Torquato da Luz – Poemas
"Dialogando com o público leitor" - João Ubaldo Ribeiro

domingo, 3 de novembro de 2013

Antonio Olinto – Poemas

Antonio Olinto

Soneto de Natal

“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
Machado de Assis

Mudaria o Natal ou mudo iria
mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
novidadeiro, múltiplo, daria

ao mudadiço mito da alegria
em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
de mucama, de verso, pouso, dia,

porque a muda modula esse desnudo
renascimento em palha, e molda e afia
o instrumento da troca, o fim miúdo,

a noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
ou somente o Natal me mudaria?

(Antonio Olinto)

Teoria do Homem

O começo do homem é o fim do homem 
"Nacer de nuevo". Remedios Varo.
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem. 

(Antonio Olinto)

Abertura

Noite é chuva, plano é longo.

Hora de abraçar a máquina
medianeira do olho e do objeto
disposta para o módulo dos ritos
através.

Ó câmara de sutis delicadezas,
brandura carda, mansa entrega,
me ensina a reta prontidão
no pegar cada coisa e seu contorno,
me concede a cordura decisiva
da lente caminhando para a imagem
diretamente.

Ferramenta e musa,
vem comigo às estacas do homem
chamado Sousa,
entra na macia resistência da pele
águas adentro
(sabes: somos em aquário,
nele andamos, consistimos,
amamos
refreados de presenças
além do líquido limite:
em aquário somos).
Mulher e fábula,
tira a transparência
das roupas silenciadas,
restaura os rituais
dos mitos cotidianos
passados de fêmea a fêmea,
mãe, irmã, amante,
câmera votiva.

Que importa sejas metal agora,
vidro, foco, olho de máquina,
para a justa visão da coisa vista?

Eia, câmera, comigo
ao plano largo, noite chuva.

(Antonio Olinto)

Infância

"Meninos soltando pipa". Portinari.
Num retrospecto
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.

(Antonio Olinto)

Fala do Sousa

O desígnio das coisas
ferido de espera.
Nem poderia ser, como pensais,
de lastro diferente.
Sabeis e guardais remanso.
Vinde à frente do palco
no risco da luz firmada
que os olhos querem vossa fala.
caso inventado mas pende
da mais sólida nuvem.
As tábuas estão aí,
a mesa, o pão, a roupa
e as gentes.
Nas cadeiras que vos olham
a certeza de vossa força.
Traçai o desenho
do que está vindo,
erguei a mão em rito,
fazei objetos.
Agora vejo.
Esse traço é o caminho da moça?
Completai-o que desce um cântico,
não deve ser interrompido.
O desígnio da moça
repousa em nervos de flor.
Riscai outros.
Esse não conheço.
Da que foi mãe?
Parece mais linha sem ponta.
Aonde irá?

(Antonio Olinto)

IV

Faço-me palavra
Ave Palavra,
faço de meu corpo uma árvore em que pouses
faço-me palavra eu também
divido-me nas sílabas necessárias
com tímbales e cânticos
vestir-me-ei por inteiro de palavras
que só existo quando através de ti.
Ave Palavra.

V

A paisagem
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.

Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.

"Aproxima-se a tempestade". 1869. Albert Bierstadt.
VI

Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.

A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.

Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.

Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.

(Antonio Olinto)

O crime da máquina

A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.

(Antonio Olinto)


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