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domingo, 29 de setembro de 2013

UNESP 2011 – Meio do ano – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa

UNESP 2011 – Meio do ano – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa


Instrução: As questões de números 01 a 05 tomam por base uma passagem da Proposta Curricular do Estado de São Paulo (2008).

Prioridade para a competência da leitura e da escrita

     A humanidade criou a palavra, que é constitutiva do humano, seu traço distintivo. O ser humano constitui-se assim um ser de linguagem e disso decorre todo o restante, tudo o que transformou a humanidade naquilo que é. Ao associar palavras e sinais, criando a escrita, o homem construiu um instrumental que ampliou exponencialmente sua capacidade de comunicar-se, incluindo pessoas que estão longe no tempo e no espaço.
      Representar, comunicar e expressar são atividades de construção de significado relacionadas a vivências que se incorporam ao repertório de saberes de cada indivíduo. Os sentidos são construídos na relação entre a linguagem e o universo natural e cultural em que nos situamos. E é na adolescência, como vimos, que a linguagem adquire essa qualidade de instrumento para compreender e agir sobre o mundo real.
A ampliação das capacidades de representação, comunicação e expressão está articulada ao domínio não apenas da língua mas de todas as outras linguagens e, principalmente, ao repertório cultural de cada indivíduo e de seu grupo social, que a elas dá sentido. A escola é o espaço em que ocorre a transmissão, entre as gerações, do ativo cultural da humanidade, seja artístico e literário, histórico e social, seja científico e tecnológico. Em cada uma dessas áreas, as linguagens são essenciais.
     As linguagens são sistemas simbólicos, com os quais recortamos e representamos o que está em nosso exterior, em nosso interior e na relação entre esses âmbitos; é com eles também que nos comunicamos com os nossos iguais e expressamos nossa articulação com o mundo.
     Em nossa sociedade, as linguagens e os códigos se multiplicam: os meios de comunicação estão repletos de gráficos, esquemas, diagramas, infográficos, fotografias e desenhos.
     O design diferencia produtos equivalentes quanto ao desempenho ou à qualidade. A publicidade circunda nossas vidas, exigindo permanentes tomadas de decisão e fazendo uso de linguagens sedutoras e até enigmáticas. Códigos sonoros e visuais estabelecem a comunicação nos diferentes espaços. As ciências construíram suas próprias linguagens, plenas de símbolos e códigos. A produção de bens e serviços foi em grande parte automatizada e cabe a nós programar as máquinas, utilizando linguagens específicas. As manifestações artísticas e de entretenimento utilizam, cada vez mais, diversas linguagens que se articulam.
     Para acompanhar tal contexto, a competência de leitura e de escrita vai além da linguagem verbal, vernácula – ainda que esta tenha papel fundamental – e refere-se a sistemas simbólicos como os citados, pois essas múltiplas linguagens estão presentes no mundo contemporâneo, na vida cultural e política, bem como nas designações e nos conceitos científicos e tecnológicos usados atualmente.

(Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Língua Portuguesa / Coord. Maria Inês Fini. São Paulo: SEE, 2008. p. 16. Adaptado.)

Questão 01 - Segundo o que é afirmado no primeiro parágrafo do texto, a criação da escrita

(A) diminuiu a capacidade de comunicação da linguagem oral.
(B) permitiu que a linguagem falada fosse sendo aos poucos abandonada.
(C) ampliou bastante a capacidade de comunicação do homem.
(D) constituiu um fenômeno puramente acidental de associação de signos.
(E) foi criada por Deus para a humanidade, para ser constitutiva do humano.

Questão 02 - A escola é o espaço em que ocorre a transmissão, entre as gerações, do ativo cultural da humanidade, seja artístico e literário, histórico e social, seja científico e tecnológico.

Considerando o período transcrito, analise as seguintes palavras:

I. risco.   II. legado.   III. patrimônio.   IV. déficit.

Questão 03 - As palavras que poderiam substituir, sem perda relevante de sentido, a palavra “ativo” no período transcrito estão contidas, apenas, em:

(A) I e II.   (B) II e III.   (C) III e IV.   (D) I, II e III.   (E) II, III e IV.

Questão 03 - E é na adolescência, como vimos, que a linguagem adquire essa qualidade de instrumento para compreender e agir sobre o mundo real.

Neste período do texto, considerando que o verbo compreender não pede a preposição sobre, como ocorre com agir, a construção ficaria sintaticamente mais adequada com a substituição da sequência “para compreender e agir sobre o mundo real” por:

(A) para compreender o mundo real e agir sobre este.
(B) para compreender e agir o mundo real.
(C) para compreender sobre o mundo real e agir.
(D) para compreender o mundo real e agi-lo.
(E) para compreender o mundo real e agir-lhe.

Questão 04 - A humanidade criou a palavra, que é constitutiva do humano, seu traço distintivo.

Considerando o contexto e o relacionamento sintático entre os elementos deste período do texto, verifica-se que humano é empregado como

(A) adjetivo.   (B) pronome indefinido.   (C) advérbio.   (D) substantivo.   (E) verbo.

Questão 05 - A mensagem principal do texto consiste em enfatizar que

(A) as ciências não precisam de nenhuma linguagem para expressar-se.
(B) as artes constituem as linguagens preferenciais da matemática.
(C) a publicidade não é linguagem, mas apenas um meio de seduzir consumidores.
(D) a escola tem a obrigação fundamental de ensinar tecnologia.
(E) o ensino, para ser coerente com a realidade, deve focalizar as múltiplas linguagens.

Instrução: As questões de números 06 a 10 tomam por base uma passagem do romance O sertanejo, do romântico brasileiro José de Alencar (1829-1877).

O sertanejo

    O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido, que lhe serviu de braseiro para aquentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se ao boi nestes termos e com um modo afável:
   – Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não; ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia, quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e esse foi Arnaldo Louredo.
   O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter ele entendido, e continuou:
   – Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha paciência, meu Dourado, esse há de levar; que é o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago o seu ferro aqui, no meu peito. Olhe, meu Dourado.
   O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que ele havia picado na pele, sobre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fora estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão.
   Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro, que já estava em brasa, e marcou o Dourado sobre a pá esquerda.
   – Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?... Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto.
   O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu.Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso
adeus.
   E o narrador deste conto sertanejo não se anima a afirmar que ele se iludisse em sua ingênua superstição.

(José de Alencar. O sertanejo. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, [s.d.]. tomo II, p. 79-80. Adaptado.)

Questão 06 - Numa leitura atenta do trecho apresentado, verifica-se que o último parágrafo contém

(A) a resposta do boi à atitude do vaqueiro.
(B) a certeza do sertanejo de que o boi realmente o entendeu.
(C) um monólogo interior de Arnaldo Louredo.
(D) um comentário do narrador sobre os fatos narrados.
(E) uma reflexão da personagem sobre o que acaba de vivenciar.

Questão 07 - Considere as seguintes palavras do texto:
I. Moço.    II. Mancebo.    III. Sertanejo.    IV. Valente.

As palavras utilizadas pelo narrador para referir-se a Arnaldo Louredo estão contidas apenas em:

(A) I e II.   (B) II e III.   (C) III e IV.   (D) I, II e III.   (E) II, III e IV

Questão 08 - Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo.
Com esta visão que o sertanejo tem de sua senhora, fica perfeitamente caracterizado no relato um dos traços fundamentais da literatura do Romantismo:

(A) idealização.   (B) animização.   (C) escapismo.   (D) condoreirismo.   (E) Mal do Século.

Questão 09 - O emprego da palavra camarada pelo vaqueiro, com relação ao boi, caracteriza:
I. Uma expressão de fadiga.
II. Uma atitude amistosa para com o boi.
III. O tratamento do animal como um companheiro.
IV. O desprezo pelo boi como um inimigo.

É correto o que se afirma apenas em:

(A) I e II.   (B) II e III.   (C) III e IV.   (D) I, II e III.   (E) II, III e IV.

Questão 10 - Tomando por base que estresido é particípio do verbo estresir, que significa no texto a passagem da marca da senhora para o peito do vaqueiro por meio de papel, tinta e um instrumento furador, complete a lacuna da seguinte frase com a forma adequada do pretérito perfeito do indicativo do verbo estresir:

A bordadeira _________ o desenho sobre o pano.

(A) estresou   (B) estreseu   (C) estrisiu   (D) estresinhou   (E) estresiu

Instrução: As questões de números 11 a 15 tomam por base uma crônica jornalística de Fernando Soléra.

Um gênio chamado Marílson

    Diz o ditado que “chegar é fácil; passar é que são elas!”. Pois, lá, no final do Elevado, ele chegou junto ao líder daquele instante, ultrapassou e saiu iniciando um show de resistência, em passadas vigorosas e perfeitas no seu balé de viver para correr e correr para viver. Atuação linda de se ver a sua contínua busca da vantagem, a partir da metade do percurso, alargando a cada quilômetro, uma superioridade impressionante.
    Marílson Gomes dos Santos voltou para encantar. Cinco anos depois de ter sido bi, retornou para ser, mais que um ganhador, um tricampeão único entre os brasileiros, numa deliciosa emoção esportiva que encerra com pompa o ano de 2010. Pisou de novo o asfalto paulistano no momento em que sentiu que estava pronto para deslumbrar.
    Subiu de novo ao degrau mais alto daquele pódio que lhe é tão familiar, lugar exato que ocupou em 2005.     Foi como se o topo reservado ao melhor entre os melhores estivesse esperando por ele durante esse tempo todo em que não disputou.
    Campeão de tantas e tantas provas, recordista da série completa de corridas de fundo sul-americanas, o homem que deixou, por duas vezes, os norte-americanos fascinados ao voar baixo pelas ruas de New York chegou à Avenida Paulista com o plano pronto para maravilhar todo este país. Ele sabia (porque ele sempre sabe que vai levantar o troféu de vencedor) que nos daria um Feliz Ano Novo saído do fundo de seu coração.
    O mundo testemunhou pelas imagens de televisão, ao vivo, um novo registro espetacular desse brasileiro brasiliense, um fenômeno que sabe vencer na hora que quer, na competição que escolhe para, como na maioria absoluta das vezes, passear isolado, lá na frente, deixando atrás de si uma esteira de coadjuvantes que o seguem com admiração e respeito.
    Esse talento inigualável vai legar às gerações futuras muitas lições de sua arte. E como vai! De hoje em diante, garotos e meninas desta terra terão muitos motivos para se dedicar à prática esportiva. Quem viver verá quantos competidores surgirão com a mesma ânsia de chegar primeiro e experimentar como é delicioso viver para correr e correr para viver. Tomara que com a mesma simplicidade desse verdadeiro gênio.

(Fernando Soléra: www.gazetaesportiva.net)

Questão 11 - Levando em consideração que o jornalista Fernando Soléra se refere à Corrida Internacional de São Silvestre, indique, com base nos dados fornecidos pela própria crônica, o número de provas dessa tradicional corrida que Marílson Gomes dos Santos não disputou depois do ano em que foi bicampeão:


(A) 2.   (B) 3.   (C) 4.   (D) 5.   (E) 6.

Questão 12 - ... ultrapassou e saiu iniciando um show de resistência, em passadas vigorosas e perfeitas...
A palavra da língua inglesa show apresenta, na passagem acima, o sentido de:

(A) escândalo.   (B) exibição.   (C) diálogo.   (D) protesto.   (E) filme.

Questão 13 - ... deixou, por duas vezes, os norte-americanos fascinados ao voar baixo pelas ruas de New York...
Com esta frase, o cronista esportivo quer significar que Marílson

(A) fez voos rasantes nas ruas de Nova Iorque em algum tipo de exibição aviatória.
(B) participou de corridas de automóvel nos Estados Unidos.
(C) venceu duas corridas em Nova Iorque.
(D) empregou aviões para avaliar os trajetos das corridas.
(E) também participa de competições de ultraleves.

Questão 14 - Na crônica de Fernando Soléra, é informado ao leitor que

(A) a genialidade de Marílson desestimula os jovens atletas a competir.
(B) vencer uma corrida é sempre obra do acaso.
(C) Marílson é vencedor da Maratona de Londres.
(D) o vencedor da São Silvestre usa a dança como uma das técnicas de treinamento.
(E) Marílson é recordista da série completa de corridas de fundo sul-americanas.

Questão 15 - Considere as seguintes frases do texto:
I. ... em passadas vigorosas e perfeitas no seu balé de viver para correr e correr para viver.
II. ... vai legar às gerações futuras muitas lições de sua arte.
III. ... quantos competidores surgirão com a mesma ânsia de chegar primeiro...
IV. ... sabe vencer na hora que quer, na competição que escolhe...

As frases em que o esporte da corrida é associado à ideia de outra atividade são apenas:

(A) I e II.   (B) I e III.   (C) I e IV.   (D) II e III.   (E) II, III e IV.

Instrução: As questões de números 16 a 20 tomam por base a letra da toada Boiadeiro, de Armando Cavalcante (1914-1964) e Klecius Caldas (1919-2002):

Boiadeiro

    De manhãzinha, quando eu sigo pela estrada
   Minha boiada pra invernada eu vou levar:
    São dez cabeças; é muito pouco, é quase nada
    Mas não tem outras mais bonitas no lugar.
5  Vai boiadeiro, que o dia já vem,
    Leva o teu gado e vai pensando no teu bem.
    De tardezinha, quando eu venho pela estrada,
    A fiarada tá todinha a me esperar;
    São dez filinho, é muito pouco, é quase nada,
10 Mas não tem outros mais bonitos no lugar.
    Vai boiadeiro, que a tarde já vem
    Leva o teu gado e vai pensando no teu bem.
    E quando chego na cancela da morada,
    Minha Rosinha vem correndo me abraçar.
15 É pequenina, é miudinha, é quase nada
    Mas não tem outra mais bonita no lugar.
    Vai boiadeiro, que a noite já vem,
    Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem!

(Armando Cavalcante e Klecius Caldas. Boiadeiro. In: Beth Cançado. Aquarela brasileira, vol. I. Brasília: Editora Corte Ltda., 1994. p. 59.)

Questão 16 - A toada Boiadeiro, de Armando Cavalcante e Klecius Caldas, notabilizada pela interpretação de Luiz Gonzaga em 1950, tem sua letra elaborada em versos de doze e de dez sílabas métricas. Observe com atenção os seguintes versos na letra da toada:

I. Vai boiadeiro, que o dia já vem,
II. A fiarada tá todinha a me esperar;
III. Vai boiadeiro, que a tarde já vem
IV. É pequenina, é miudinha, é quase nada

Dos versos indicados, os que apresentam dez sílabas métricas são apenas:

(A) I e II.   (B) I e III.   (C) II e III.   (D) I, II e III.   (E) II, III e IV.

Questão 17 - Embora em muitas versões da letra de Boiadeiro apareça escrita no terceiro verso a palavra cabeças, no plural, no canto essa palavra deve ser entoada no singular. Isso se deve à necessidade de

(A) eliminar o ruído sibilante do s, que é pouco musical.
(B) informar que se trata de poucos bois.
(C) deixar claro que, quando se trata de “gado”, cabeça só se usa no singular.
(D) manter a sequência do verso com doze sílabas.
(E) fazer a concordância com pouco e nada.

Questão 18 - Um dos melhores recursos expressivos empregados na letra de Boiadeiro é o processo de repetição da mesma estrutura sintática com a mudança de apenas um vocábulo, que faz progredir o sentido, tal como se verifica, por exemplo, entre os versos 5, 11 e 17. Tal recurso é conhecido como

(A) paralelismo.   (B) metáfora.   (C) comparação.   (D) pleonasmo.   (E) metonímia.

Questão 19 - São dez cabeças; é muito pouco, é quase nada – São dez filinho, é muito pouco, é quase nada – É pequenina, é miudinha, é quase nada.
O efeito de anticlímax observável nos três versos é explicável pela

(A) divisão de cada um dos versos indicados em três sequências sintáticas simétricas.
(B) repetição da forma verbal “é” por três vezes nos versos mencionados.
(C) acentuação regular na quarta, oitava e décima segunda sílabas nos versos.
(D) atenuação gradativa do sentido que se verifica do início ao fim de cada um dos versos apontados.
(E) referência a poucos objetos ou entidades nos três versos.

Questão 20 - Mas não tem outras mais bonitas no lugar.
O emprego da forma verbal tem em vez de há no verso mencionado se deve

(A) à necessidade de substituir um monossílabo tônico por um átono.
(B) à exigência métrica de uma sílaba a mais.
(C) à intenção de reforçar o sentido de “existir” nos versos.
(D) à obediência ao disposto pela norma-padrão.
(E) ao objetivo dos compositores de representar a fala regional, popular.

GABARITO

1 – C     2 – B   3 – A   4 – D   5 – E   6 – D   7 – D   8 – A   9 – B  10 – E
11 – C 12 – B 13 – C 14 – E 15 – A 16 – B 17 – D 18 – A 19 – D  20 – E

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Instrução: As questões de números 01 a 05 tomam por base o seguinte fragmento do diálogo Fedro, de Platão (427-347 a.C.).

Fedro

SÓCRATES: – Vamos então refletir sobre o que há pouco estávamos discutindo; examinaremos o que seja recitar ou escrever bem um discurso, e o que seja recitar ou escrever mal.
FEDRO: – Isso mesmo.
SÓCRATES: – Pois bem: não é necessário que o orador esteja bem instruído e realmente informado sobre a verdade do assunto de que vai tratar?
FEDRO: – A esse respeito, Sócrates, ouvi o seguinte: para quem quer tornar-se orador consumado não é indispensável conhecer o que de fato é justo, mas sim o que parece justo para a maioria dos ouvintes, que são os que decidem; nem precisa saber tampouco o que é bom ou belo, mas apenas o que parece tal – pois é pela aparência que se consegue persuadir, e não pela verdade.
SÓCRATES: – Não se deve desdenhar, caro Fedro, da palavra hábil, mas antes refletir no que ela significa. O que acabas de dizer merece toda a nossa atenção.
FEDRO: – Tens razão.
SÓCRATES: – Examinemos, pois, essa afirmação.
FEDRO: – Sim.
SÓCRATES: – Imagina que eu procuro persuadir-te a comprar um cavalo para defender-te dos inimigos, mas nenhum de nós sabe o que seja um cavalo; eu, porém, descobri por acaso uma coisa: “Para Fedro, o cavalo é o animal doméstico que tem as orelhas mais compridas”..
RO: – Isso seria ridículo, querido Sócrates.
SÓCRATES: – Um momento. Ridículo seria se eu tratasse seriamente de persuadir-te a que escrevesses um panegírico do burro, chamando-o de cavalo e dizendo que é muitíssimo prático comprar esse animal para o uso doméstico, bem como para expedições militares; que ele serve para montaria de batalha, para transportar bagagens e para vários outros misteres.
FEDRO: – Isso seria ainda ridículo.
SÓCRATES: – Um amigo que se mostra ridículo não é preferível ao que se revela como perigoso e nocivo?
FEDRO: – Não há dúvida.
SÓCRATES: – Quando um orador, ignorando a natureza do bem e do mal, encontra os seus concidadãos na mesma ignorância e os persuade, não a tomar a sombra de um burro por um cavalo, mas o mal pelo bem; quando, conhecedor dos preconceitos da multidão, ele a impele para o mau caminho, – nesses casos, a teu ver, que frutos a retórica poderá recolher daquilo que ela semeou?
FEDRO: – Não pode ser muito bom fruto.
SÓCRATES: – Mas vejamos, meu caro: não nos teremos excedido em nossas censuras contra a arte retórica? Pode suceder que ela responda: “que estais a tagarelar, homens ridículos? Eu não obrigo ninguém – dirá ela – que ignore a verdade a aprender a falar. Mas quem ouve o meu conselho tratará de adquirir primeiro esses conhecimentos acerca da verdade para, depois, se dedicar a mim. Mas uma coisa posso afirmar com orgulho: sem as minhas lições a posse da verdade de nada servirá para engendrar a persuasão”.
FEDRO: – E não teria ela razão dizendo isso?
SÓCRATES: – Reconheço que sim, se os argumentos usuais provarem que de fato a retórica é uma arte; mas, se não me engano, tenho ouvido algumas pessoas atacá-la e provar que ela não é isso, mas sim um negócio que nada tem que ver com a arte. O lacônio declara: “não existe arte retórica propriamente dita sem o conhecimento da verdade, nem haverá jamais tal coisa”.

(Platão. Diálogos. Porto Alegre: Editora Globo, 1962.)

Questão 01 - Neste fragmento de um diálogo de Platão, as personagens  Sócrates e Fedro discutem a respeito da relação entre a arte retórica, isto é, a arte de produzir discursos, e a expressão da verdade por meio de tais discursos. Trata-se de um tema ainda atual. Aponte a única alternativa que expressa um conteúdo não abordado pelas duas personagens no fragmento.

(A) A produção de bons discursos.
(B) A formação do orador.
(C) A natureza da Filosofia.
(D) O poder persuasivo da oratória.
(E) A retórica como arte de criar discursos.

Questão 02 - Após uma leitura atenta do fragmento do diálogo Fedro, podese perceber que Sócrates combate, fundamentalmente, o argumento dos mestres sofistas, segundo o qual, para fazer bons discursos, é preciso

(A) evitar a arte retórica.
(B) conhecer bem o assunto.
(C) discernir a verdade do assunto.
(D) ser capaz de criar aparência de verdade.
(E) unir a arte retórica à expressão da verdade.

Questão 03 - ... para quem quer tornar-se orador consumado não é indispensável conhecer o que de fato é justo, mas sim o que parece justo para a maioria dos ouvintes, que são os que decidem; nem precisa saber tampouco o que é bom ou belo, mas apenas o que parece tal ...
Neste trecho da tradução da segunda fala de Fedro, observa-se uma frase com estruturas oracionais recorrentes, e por isso plena de termos repetidos, sendo notável, a este respeito, a retomada do demonstrativo o e do pronome relativo que em o que de fato é justo, o que parece justo, os que decidem, o que é bom ou belo, o que parece tal. Em todos esses contextos, o relativo que exerce a mesma função sintática nas orações de que faz parte. Indique-a.

(A) Sujeito.             (B) Predicativo do sujeito.   (C) Adjunto adnominal.  
(D) Objeto direto.   (E) Objeto indireto.

Questão 04 - Não se deve desdenhar, caro Fedro, da palavra hábil, mas antes refletir no que ela significa.
Nesta frase, Sócrates, para rotular o tipo de discurso que acaba de ser sugerido por Fedro, emprega palavra hábil com o sentido de

(A) discurso prolixo e ininteligível.
(B) pronúncia adequada das palavras.
(C) habilidade de leitura.
(D) expressão de significados contraditórios, absurdos.
(E) discurso eficiente em seus objetivos.

Questão 05 - ... que frutos a retórica poderá recolher daquilo que ela semeou?
Esta passagem apresenta conformação alegórica, em virtude do sentido figurado com que são empregadas as palavras frutos, recolher e semeou. Aponte, entre as alternativas a seguir, aquela que contém, na ordem adequada, palavras que, sem perda relevante do sentido da frase, evitam a conformação alegórica:

(A) alimentos – colher – plantou.
(B) resultados – produzir – prescreveu.
(C) lucros – contabilizar – investiu.
(D) textos – apresentar – negou.
(E) efeitos – causar – menosprezou.

Instrução: As questões de números 06 a 10 tomam por base duas passagens do livro A linguagem harmônica da Bossa Nova, do docente e pesquisador da Unesp José Estevam Gava.

Momento Bossa Nova

Nos anos 1940, o samba-canção já era uma alternativa para o samba tradicional, batucado, quadrado. Em sua gênese foram empregados recursos correntes na música erudita europeia e na música popular norte-americana. Já era algo mais sofisticado, praticado por compositores e arranjadores com maior preparo musical e sempre de ouvido aberto para as soluções propostas pela música estrangeira. O jazz, por exemplo, mais tarde permitiria fusões interessantes como o “samba-jazz” e o “samba moderno”, com arranjos grandiosos e com base nos instrumentos de sopro. Mas, em termos de poesia e expressividade, o samba-canção tendia a manter seu caráter escuro, sombrio, com muitos elementos que lembravam a atmosfera tensa e pessimista do tango argentino e do bolero, gêneros latinos por excelência.
O samba-canção esteve desde logo ambientado em Copacabana, lugar de vida noturna intensa, boates enfumaçadas, mulheres adultas e fatais envoltas num clima de pecado e traição, enquanto a Bossa Nova ambientou-se mais para o Sul, em Ipanema, além de tornar-se representativa de um público mais jovem, amante do sol e da praia. Nesse ambiente solar, a  mulher passou a ser a garota da praia, a namorada. Deu-se um descanso às imagens de “amante proibida e vingativa, com uma navalha na liga. E as letras da Bossa Nova não tinham nada de enfumaçado. Eram uma saga oceânica: a nado, numa prancha ou num barquinho, seus compositores prestaram todas as homenagens possíveis ao mar e ao verão. Esse mar e esse verão eram os de Ipanema” 

(Castro, 1999, p. 59).

     A Bossa Nova levou aos extremos a tendência intimista de cantar sobre temas do cotidiano, sem muita complicação poética. Em vez da negatividade do samba-canção, explorou ao máximo a positividade expressiva e um otimismo sem precedentes. Esse foi o grande traço distintivo entre a Bossa Nova e o samba-canção. O otimismo diante do amor trouxe consigo imagens de paz e estabilidade possibilitadas por relacionamentos amorosos felizes e amores correspondidos, sem as cores patológicas e dramáticas que tanto marcavam os sambas-canções. Mesmo a dor, quando ocorria, era encarada como um estágio passageiro, deixando de assumir o antigo caráter terminal.
     Em plenos anos 1950, quando nas rádios predominava o derramamento vocal e sentimental, Tom Jobim já buscava um retraimento expressivo pautado por um discurso poético/musical mais sereno, mais em tom de conversa do que de súplica. Se os mais jovens identificavam-se com essas coisas novas, os mais velhos e tradicionalistas viam-nas com estranheza, sendo compreensível que as descrevessem como canções bobas e ingênuas, não obstante a sofisticação harmônica e rítmica.

(José Estevam Gava. A linguagem harmônica da Bossa Nova.São Paulo: Editora Unesp, 2002.)

Questão 06 - A partir do texto apresentado, aponte a alternativa que não caracteriza a Bossa Nova.

(A) Ambientada em Ipanema.
(B) Bem recebida por um público mais jovem.
(C) Abordagem de temas do cotidiano.
(D) A dor como o fato dominante da existência.
(E) Maior sofisticação harmônica e rítmica.

Questão 07 - Segundo o texto, o principal traço distintivo da Bossa Nova com relação ao samba-canção foi

(A) a influência do jazz.
(B) o afastamento do samba tradicional, batucado, quadrado.
(C) a exploração da positividade expressiva e um otimismo sem precedentes.
(D) a influência do tango e do bolero sofrida pela Bossa Nova.
(E) o caráter mais inovador e as virtudes rítmicas do samba-canção.

Questão 08 - Seguindo as lições do fragmento apresentado sobre as características temáticas de cada gênero musical, aponte quais dos quatro seguintes exemplos fazem parte de letras de sambas-canções.

I. Não falem dessa mulher perto de mim, / Não falem pra não me lembrar minha dor (Cabelos brancos, de Marino Pinto e Herivelto Martins.)
II. Doce é sonhar / E pensar que você / Gosta de mim / Como eu de você (Este seu olhar, de A. C. Jobim.)
III. Eu não seria essa mulher que chora / Eu não teria perdido você (Castigo, de Dolores Duran.)
IV. Ah! se eu pudesse te mostrar as flores / Que cantam suas cores pra manhã que nasce (Ah! se eu pudesse, deRoberto Menescal e Ronaldo Boscoli.)

(A) I e II.   (B) I e III.   (C) II e III.   (D) I, II e III.   (E) II, III e IV.

Questão 09 - ... sendo compreensível que as descrevessem como canções  bobas e ingênuas, não obstante a sofisticação harmônica e rítmica.
Nesta passagem, a sequência não obstante a poderia ser substituída, sem prejuízo do sentido, por

(A) em função da.   (B) apesar da.   (C) graças à.   (D) por causa da.   (E) em relação à.

Questão 10 - A leitura do fragmento como um todo permite concluir que,  para o autor,

(A) o samba-canção era um gênero superior ao da Bossa Nova, pelo fato de explorar temas mais sérios e adultos.
(B) a Bossa Nova buscava agradar ao público jovem com letras simplórias e melodias bastante pobres.
(C) tanto a Bossa Nova quanto o samba-canção foram gêneros secundários, sem qualquer influência relevante para a música popular brasileira.
(D) o samba autêntico, tradicional, tinha muito mais qualidade e autenticidade que a Bossa Nova e o samba-canção.
(E) samba-canção e Bossa Nova representaram desenvolvimentos autênticos do samba tradicional, cada qual com temática própria e estrutura melódica e musical distinta.

Instrução: As questões de números 11 a 15 tomam por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).

Contas

Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.

(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)

Questão 11 - Identifique, entre os quatro exemplos extraídos do texto, aqueles que se apresentam em discurso indireto livre:

I. Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos.
II. – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer.
III. Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
IV. Não era preciso barulho não.

(A) I e II.   (B) II e III.   (C) III e IV.   (D) I, II e III.   (E) II, III e IV.

Questão 12 - No fragmento apresentado, de Vidas secas, as formas verbais  mais frequentes se enquadram em dois tempos do modo indicativo. Marque a alternativa que indica, pela ordem, o tempo verbal predominante no segundo parágrafo e o que predomina no quinto parágrafo.

(A) pretérito perfeito – pretérito imperfeito.
(B) presente – pretérito imperfeito.
(C) presente – pretérito perfeito.
(D) futuro do pretérito – presente.
(E) pretérito imperfeito – pretérito perfeito.

Questão 13 - Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano.
A forma verbal queimava, no período acima, apresenta o sentido de:

(A) ignorava.   (B) assava.   (C) destruía.   (D) marcava.   (E) prejudicava.

Questão 14 - Quem é do chão não se trepa.
Fabiano emprega duas vezes este provérbio para retratar com certo determinismo sua situação, que ele considera impossível de ser mudada. Há outros que poderiam ser utilizados para retratar essa atitude de desânimo ante algo que parece irreversível. Na relação de provérbios abaixo, aponte aquele que não poderia substituir o empregado por Fabiano, em virtude de não corresponder àquilo que a personagem queria significar.

(A) Quem nasce na lama morre na bicharia.
(B) Quem semeia ventos colhe tempestades.
(C) Quem nasceu pra tostão não chega a milhão.
(D) Quem nasceu pra ser tatu morre cavando.
(E) Os paus, uns nasceram para santos, outros para tamancos.

Questão 15 - Lendo atentamente o fragmento de Vidas secas, percebe-se que o foco principal é o das transações entre Fabiano e o proprietário da fazenda. Aponte a alternativa que não corresponde ao que é efetivamente exposto pelo texto.

(A) O proprietário era, na verdade, um benfeitor para Fabiano.
(B) Fabiano declarava-se “um bruto” ao proprietário.
(C) O proprietário levava sempre vantagem na partilha do gado.
(D) Fabiano sabia que era enganado nas contas, mas não conseguia provar.
(E) Fabiano aceitava a situação e se resignava, por medo de ficar sem trabalho.

Instrução: As questões de números 16 a 20 tomam por base um fragmento do livro Comunicação e folclore, de Luiz Beltrão (1918-1986).

O Bumba-Meu-Boi

Entre os autos populares conhecidos e praticados no Brasil – pastoril, fandango, chegança, reisado, congada, etc. – aquele em que melhor o povo exprime a sua crítica, aquele que tem maior conteúdo jornalístico, é, realmente, o bumba-meu-boi, ou simplesmente boi.
Para Renato Almeida, é o “bailado mais notável do Brasil, o folguedo brasileiro de maior significação estética e social”. Luís da Câmara Cascudo, por seu turno, observou a sua superioridade porque “enquanto os outros autos cristalizaram, imóveis, no elenco de outrora, o bumba-meu-boi é sempre atual, incluindo soluções modernas, figuras de agora, vocabulário, sensação, percepção contemporânea. Na época da escravidão mostrava os vaqueiros escravos vencendo pela inteligência, astúcia e cinismo. Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas. O capitão-do-mato, preador de escravos, assombro dos moleques, faz-sono dos negrinhos, vai ‘caçar’ os negros que fugiram, depois da morte do Boi, e em vez de trazê-los é trazido amarrado, humilhado, tremendo de medo. O valentão mestiço, capoeira, apanha pancada e é mais mofino que todos os mofinos. Imaginem a alegria negra, vendo e ouvindo essa sublimação aberta, franca, na porta da casa-grande de engenho ou no terreiro da fazenda, nos pátios das vilas, diante do adro da igreja! A figura dos padres, os padres do interior, vinha arrastada com a violência de um ajuste de contas. O doutor, o curioso, metido a entender de tudo, o delegado autoritário, valente com a patrulha e covarde sem ela, toda a galeria perpassa, expondo suas mazelas, vícios, manias, cacoetes, olhada por uma assistência onde estavam muitas vítimas dos personagens reais, ali subalternizados pela virulência do desabafo”.
Como algumas outras manifestações folclóricas, o bumbameu-boi utiliza uma forma antiga, tradicional; entretanto, fá-la revestir-se de novos aspectos, atualiza o entrecho, recompõe a trama. Daí “o interesse do tipo solidário que desperta nas camadas populares”, como o assinala Édison Carneiro. Interesse que só pode manter-se porque o que no auto se apresenta não reflete apenas situações do passado, “mas porque têm importância para o futuro”. Com efeito, tendo por tema central a morte e a ressurreição do boi, “cerca-se de episódios acessórios, não essenciais, muito desligados da ação principal, que variam de região para região... em cada lugar, novos personagens são enxertados, aparentemente sem outro objetivo senão o de prolongar e variar a brincadeira”. Contudo, dentre esses personagens, os que representam as classes superiores são caricaturados, cobrindo-se de ridículo, o que torna “o folguedo, em si mesmo, uma reivindicação”.
Sílvio Romero recolheu os versos de um bumba-meu-boi, através dos quais se constata a intenção caricaturesca nos personagens do folguedo. Como o Padre, que recita:
Não sou padre, não sou nada
“Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco;
Secular sou como os outros”.
Ou como o Capitão-do-Mato que, dando com o negro Fidélis, vai prendê-lo:
“CAPITÃO – Eu te atiro, negro
Eu te amarro, ladrão,
Eu te acabo, cão.”
Mas, ao contrário, quem vai sobre o Capitão e o amarra é o Fidélis:
“CORO – Capitão de campo
Veja que o mundo virou
Foi ao mato pegar negro
Mas o negro lhe amarrou.
CAPITÃO – Sou valente afamado
Como eu não pode haver;
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr”.

(Luiz Beltrão. Comunicação e folclore. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1971.)

Questão 16 - O fragmento apresentado focaliza, por meio da opinião do autor e de outros folcloristas mencionados, o bumba-meu-boi, auto popular brasileiro bastante conhecido. A leitura do fragmento, como um todo, deixa claro que o núcleo temático do bumba-meu-boi é sempre

(A) a perseguição aos escravos que fugiram das fazendas.
(B) a vingança dos escravos contra o capitão-do-mato.
(C) a morte e a ressurreição do boi.
(D) o castigo dos valentões, que acabam se mostrando covardes.
(E) a crítica aos padres e religiosos em geral pela sensualidade.

Questão 17 - Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas.

Nesta passagem, Luís da Câmara Cascudo, mencionado pelo autor, explica que, em apresentações do bumba-meu-boi da época da escravidão,

(A) as pessoas da plateia eram convidadas a participar do bumba-meu-boi para declamar versinhos ridículos.
(B) o auto era uma forma de fazer as pessoas presentes confessarem estertoricamente os seus pecados.
(C) havia uma personagem que usava uma chibata para agredir pessoas da plateia, enquanto apontava seus defeitos.
(D) todos os presentes participavam do auto, improvisando falas e declamações.
(E) o bumba-meu-boi satirizava em seu enredo personagens que apresentavam os mesmos defeitos de pessoas reais.

Questão 18 - O capitão-do-mato, preador de escravos, assombro dos moleques, faz-sono dos negrinhos, vai ‘caçar’ os negros que fugiram (...)

Nesta passagem, levando-se em conta o contexto, a função sintática e o significado, verifica-se que faz-sono é

(A) substantivo.   (B) adjetivo.   (C) verbo.    (D) advérbio.   (E) interjeição.

Questão 19 - Aponte a alternativa que indica, entre os quatro termos relacionados a seguir, apenas os que, no fragmento apresentado, são empregados pelos folcloristas para referir-se ao bumba-meu-boi.

I. Bailado.   II. Ritual.   III. Brincadeira.   IV. Folguedo.

(A) I e II.   (B) II e III.   (C) I, II e III.   (D) I, III e IV.   (E) II, III e IV

Questão 20 - Quem me ver estar dançando. – Mas o negro lhe amarrou.

Nos dois versos acima, do exemplo de estrofes de um bumba-meu-boi recolhidas por Sívio Romero, as formas ver e lhe caracterizam um uso popular. Se se tratasse de um discurso obediente à construção formal em Língua Portuguesa, tais formas seriam substituídas, respectivamente, por

(A) vir, o.   (B) vir, a.   (C) vesse, a.   (D) visse, te.   (E) vier, o.


GABARITO

1 – C     2 – D    3 – A    4 – E    5 – B    6 – D    7 – C    8 – B    9 – B  10 – E
11 – C 12 – E  13 – D  14 – B  15 – A  16 – C  17 – E  18 – A  19 – D  20 – A

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Texto: “O Coronel e o Lobisomem” – José Cândido de Carvalho

O Coronel e o Lobisomem

Em vão tentei retirar de mim tais quebrantos. Por dentro do luar, de rédea perdida, viajei tempo sem conta. Ao dar acordo de Ponciano, já o ventão da costa andava longe e um jeito de alma penada imperava nos ermos. Nesse entrementes, tive a atenção chamada por uns pés de cuité, onde um vulto parecia escondido. Freei no supetão, não fosse uma tocaia armada contra a minha pessoa. Cocei as armas, pronto para limpar a estrada a fogo de garrucha. Mas o luar pulou na frente e desbaratou o vulto da cuitezeira, que não passava de um mal-entendido da noite. Aliviado, catuquei a mula de sobre-leve. Não acusou roseta. Piquei de novo, e quem disse que ela arredava casco da estrada? Orelha em pé como bicho em presença de perigo, a teimosa fincou as patas no calhau. Mais uma vez risquei espora na barriga dela e de novo a bichinha rejeitou as ordens. Conhecedor das manhas dos escuros, não quis fazer prevalecer a vontade do coronel, embora tivesse poder para tanto. Deixei de lado esse direito e procurei entrar em entendimento com a birrenta: 
        – Que faniquito é esse? Respeite a patente e deixe de ficar sestrosa.
Foi quando, sem mais nem menos, deu entrada no meu ouvido aquele assovio fininho, vindo não atinei de onde. Podia ser cobra em vadiagem de luar. Se tal fosse, a mula andava recoberta de razão. Por isso, dei prazo de espera para que a peçonha saísse no claro. Nisso, outro assobio passou rentoso de minha barba, com tanta maldade que a mula estremeceu da anca ao casco, ao tempo em que sobrevinha do mato um barulho de folha pisada. Inquiri dentro do regulamento militar:
– Quem vem lá?
De resposta tive novo assobio. Num repente, relembrei estar em noite de lobisomem – era sexta-feira. Tanto caçoei do povo de Juca Azeredo que o assombrado tomou a peito tirar vingança de mim, como avisou o Sinhozinho. Pois muito pesar levava eu não poder, em tal estado, dar provimento ao caso dele. Sujeito de patente, militar em serviço de água benta, carecia de consentimento para travar demanda com lobisomem ou outra qualquer penitência dos pastos, mesmo que fosse uma visagenzinha de menino pagão. Sempre fui cioso de lei e não ia em noite de batizado manchar, na briga de estrada, galão e patente:
– Nunca!
A mulinha, a par de tamanha responsabilidade, que mula sempre foi bicho de grande entendimento, largou os cascos na poeira. Para a frente a montaria não andava, mas na direção do Sobradinho corria de vento em popa. Já um estirão era andado quando, numa roça de mandioca, adveio aquele figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pelo e raiva. Na frente de ostentação tão provida de ódio, a mulinha de Ponciano debandou sem minha licença por terra de dormideira e cipó, onde imperava toda a raça de espinho, caruru-de-sapo e roseta-de-frade. 
O luar era tão limpo que não existia matinho desimportante para as suas claridades – tudo vinha à tona, de quase aparecer raiz. Aprovei a manobra da mula na certeza de que lobisomem algum arriscava sua pessoa em tamanho carrascal. Enganado estava eu. Atrás, abrindo caminho e destorcendo mato, vinha o vigancista do lobisomem. Roncava como porco cevado. Assim acuada, a mulinha avivou carreira, mas tão desinfeliz que embaralhou a pata do coice numas embiras-de-corda. Não tive mais governo de sela e rédea. Caí como sei cair, em posição militar, pronto para repelir qualquer ofendimento. Digo, sem alarde, que o lobisomem bem podia sair da demanda sem avaria ou agravo, caso não fosse um saco de malquerença. Estando eu em retirada, pelo motivo já sabido de ser portador de galão e patente, não cabia a mim entrar em arruaça desguarnecido de licença superior. Disso não dei conta ao enfeitiçado, do que resultou a perdição dele. Como disse, rolava eu no capim, pronto a dar ao caso solução briosa, na hora em que o querelante apresentou aquela risada de pouco caso e deboche:
– Quá-quá-quá...
Não precisou de mais nada para que o gênio dos Azeredos e demais Furtados viesse de vela solta. Dei um pulo de cabrito e preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro:
– São Jorge, Santo Onofre, São José!
Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azeredo Furtado.
Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira e lá de cima, no galho mais firme, aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de executar macaquices que nunca cuidei lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria era que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei. Diante de tão firme deliberação, o vingativo mudou o rumo da guerra. Caiu de dente no pé de pau, na parte mais afunilada, como se serrote fosse:
– Raque-raque-raque.
Não conversei – pronto dois tiros levantaram asa da minha garrucha. Foi o mesmo que espalhar arruaça no mato todo. Subiu asa de tudo que era bicho da noite e uma sociedade de morcegos escureceu o luar. No meio da algazarra, já de fugida, vi o lobisomem pulando coxo, de pernil avariado, língua sobressaída na boca. Na primeira gota de sangue a maldição desencantava, como é de lei e dos regulamentos dessa raça de penitentes. No raiar do dia, sujeito que fosse visto de perna trespassada, ainda ferida verde, podia contar, era o lobisomem.

(José Cândido de Carvalho, in “O Coronel e o Lobisomem”)


Leia também:
"Tormento não tem idade" - Moacyr Scliar
Mário de Sá-Carneiro - Poemas
"A repartição dos pães" - Clarice Lispector

domingo, 22 de setembro de 2013

Camilo Pessanha – Poemas

Camilo Pessanha

Caminho – I

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro. 
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

(Camilo Pessanha)

Caminho – II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
– Bom dia, companheiro – te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

(Camilo Pessanha)

Caminho – III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar – encher a alma.

(Camilo Pessanha)


"The Flute Player". Frederick McCubbin.
Ao Longe os Barcos de Flores

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,

– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora... 

(Camilo Pessanha)

Em um Retrato

De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há de inumar,
E depois de já muito ter chovido,
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há de ir humilde, atravessando o mar,
Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.

(Camilo Pessanha, in “Clepsidra”)

O meu coração desce

O meu coração desce,
Um balão apagado...
– Melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado. 

Na bruma fastidienta.
Como um caixão à cova...
– Porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!

Que apego ainda o sustém?
Átomo miserando...
– Se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...

O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o a ressaca.

(Camilo Pessanha, in “Clepsidra”)

Floriram por engano as rosas bravas

Floriram por engano as rosas bravas 
"Spring". Lawrence Alma-Tadema.
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze  quanta flor!  do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

(Camilo Pessanha)

Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor,  frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

(Camilo Pessanha)

Na cadeia os bandidos presos!

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das flores de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos cativos.

Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes num aquário.
– Campo florido das Saudades,
Porque rebentas tumultuário?

Serenos... Serenos... Serenos...
Trouxe-os algemados a escolta.
– Estranha taça de venenos
Meu coração sempre em revolta.

Coração, quietinho... quietinho...
Por que te insurges e blasfemas?
Pschiu... Não batas... Devagarinho...
Olha os soldados, as algemas!

(Camilo Pessanha, in “Clepsidra”)

Crepuscular

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
– Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
– É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

(Camilo Pessanha)

Quem poluiu?

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer – meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear - tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
– Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Nem te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais. 

(Camilo Pessanha)

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
"The Kiss". Francesco Hayez

E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

(Camilo Pessanha, in “Clepsidra”)

Paisagens de Inverno

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.


Extintas primaveras, evocai-as.
Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.

Sossegai, esfriai, olhos febris...
Hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis.

(Camilo Pessanha)

Soneto

Foi um dia de inúteis agonias…
Dia de sol, inundado de sol!…
Fulgiam nuas as espadas frias…
Dia de sol, inundado de sol!…

Foi um dia de falsas alegrias.
Dália a esfolhar-se, — o seu mole sorriso…
Voltavam os ranchos das romarias.
Dália a esfolhar-se, — o seu mole sorriso.

Dia impressível mais que os outros dias.
Tão lúcido… Tão Pálido… Tão lúcido!…
Difuso de teoremas, de teorias…

O dia fútil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias…
Tão lúcido… Tão pálido… Tão lúcido!…

(Camilo Pessanha)