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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

“Canto de Natal” – Manuel Bandeira


Canto de Natal

O nosso menino
nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
o nosso menino.
Mas a mãe sabia
que ele era divino.

Vem para sofrer
a morte na cruz
o nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
o humano destino:
Louvemos a glória
de Jesus menino.

(Manuel Bandeira)

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Leia também:

"Perguntas à Língua Portuguesa" - Mia Couto
Jorge de Sena - Poemas
"Dialogando com o público leitor" - João Ubaldo Ribeiro

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sábado, 30 de março de 2013

“Vou-me embora pra Pasárgada” – Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente 

Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)


Leia também:
"A máquina do mundo" - Carlos Drummond de Andrade
Carlos Queirós - Poemas

"Nascer no Cairo, ser fêmea do cupim" - Rubem Braga

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Texto: “A fêmea do cupim” – Manuel Bandeira

A fêmea do cupim

Tenho um amigo, cujo filho pretendeu entrar para a diplomacia. Não que tivesse vocação para a carreira, a vocação dele era para o turismo, mas como quem é pobre a maneira mais fácil de arranjar viagem é fazer-se diplomata, candidatou-se ao curso do Instituto Rio Branco. Foi reprovado em português no vestibular. Os leitores hão de imaginar que ele redigia mal, ou que havia na banca um funcionário do DASP que lhe tivesse perguntado, por exemplo, o presente do indicativo do verbo “precaver”. Foi pior do que isto: um dos examinadores saiu-se com esta questão absolutamente inesperada para um candidato a diplomata: “Qual o nome da fêmea do cupim?”. O rapaz embatucou e o mais engraçado é que ignora até hoje. Inquiriu todo mundo, ninguém sabia. 
Eu também não sabia, mas tomei o negócio a peito. Saí indagando dos mais doutos. O dicionarista Aurélio decerto saberia. Pois não sabia. O filólogo Nascentes levou a mal a minha curiosidade e respondeu aborrecido que o nome da fêmea do cupim só podia interessar... ao cupim! Uma minha amiga professora, sabidíssima em femininos e plurais esquisitos, foi mais severa e me perguntou se eu estava ficando gagá e dando para obsceno!
Vi que tinha de me arranjar sozinho. Fui para casa, botei a livraria abaixo. Nada de fêmea do cupim. De repente me lembrei da enciclopédia Delta-Larousse, cujos quatro últimos volumes – primorosos – acabo de receber. Corri ao índice geral. Ó beleza! Lá estava: “Cupins, pág. 6436”. Li muita coisa interessante sobre a fêmea do cupim. Assim, que ela apresenta a mais monstruosa hipertrofia abdominal que se possa imaginar: atinge o volume de uma salsicha e põe sem parar, noite e dia, um ovo por segundo, ou seja, cerca de trinta milhões por ano, cento e cinquenta no curso de sua vida. E uma porção de outras minúcias. Mas sobre o nome da bicha, neca!
Isto, pensei comigo, é problema que só poderá ser resolvido por algum decifrador de palavras cruzadas, gente que sabe que o ferrinho onde se reúnem as varetas do guarda-chuva se chama “noete”, que o pato “grasna’, o tordo “trucila”,  a garça “gazeia”, e outras coisas assim. Telefonei para minha amiga Jeni, cruzadista exímia.
– Jeni, me salve! Como se chama a fêmea do cupim?!
E ela, do outro lado do fio:
– Arará.
Fui verificar nos dicionários. Dos que eu tenho em casa só um trazia a preciosa informação: “Arará”, s. m. (bras.) Ave aquática do Rio Grande do Sul; fêmea alada do cupim.”
Mestre Aurélio, a fêmea do cupim se chama “arará”, está no meu, no teu, no nosso dicionário – O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa!

(Manuel Bandeira, 25/10/61)

"O aluno relapso" - Lêdo Ivo
"Vou-me embora pra Pasárgada" - Manuel Bandeira


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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

- Nasceu em Recife, em 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1968.
- Foi escritor, tradutor e professor.
- Começou como parnasiano em “Cinza das Horas”, mas logo aderiu ao Modernismo.
- Foi um dos principais nomes da primeira geração do Modernismo.
- Participou indiretamente da Semana de Arte Moderna através da leitura de seu poema “Os Sapos”, em que criticava os poetas parnasianos.
- Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1940.
- Poeta das coisas simples; poesia lírica, melancólica e autobiográfica; uso da linguagem coloquial.
- Conviveu desde cedo com a doença (foi diagnosticado com tuberculose), tema também de sua poética.
- Alguns temas de sua poesia: a infância, o espectro da morte, o cotidiano, a cidade de Recife.


Velha Chácara

A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

- Mas o menino ainda existe.

(Manuel Bandeira)

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...

- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(Manuel Bandeira)

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

(Manuel Bandeira)

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Manuel Bandeira)

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.


(Manuel Bandeira)

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem tua pureza. Nem tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

(Manuel Bandeira)

A Estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


(Manuel Bandeira)

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