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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Prova de Língua Portuguesa – Mackenzie – 2012 – 1º Semestre

Universidade Mackenzie – Vestibular 2012 - 1º Semestre – Prova de Língua Portuguesa



Texto para as questões de 01 a 05

01 No verão de 1949, os nativos estavam inquietos no país do Carnaval.
02 As cuícas iriam roncar nas ruas do Rio em fevereiro, e as válvulas
03 dos Philcos já pegavam fogo ao som dos sucessos daquele ano. De
04 três em três minutos, a Rádio Nacional martelava “Chiquita Bacana”,
05 com Emilinha Borba. Era um massacre, a que nem os surdos eram
06 poupados. E até que aquele não seria um Carnaval dos piores:
07 alguns sambas e marchinhas eram divertidos, como o eufórico
08 “Que samba bom!”. E dezenas de outros, feitos para durar apenas
09 por pouco tempo, mas que as pessoas aprendiam e cantavam -
10 nada a ver com os paquidérmicos sambas-enredo de hoje. As escolas
11de samba existiam em função dos sambistas, não dos cambistas -
12 não que elas fossem muito importantes para o Carnaval. E, como
13 não existia televisão, ninguém ficava apalermado em casa, vivendo
14 vicariamente o espalhafato alheio. Saía-se às ruas para brincar e,
15 durante os dois primeiros meses do ano, todo o Rio de Janeiro era
16 um Carnaval com um elenco de milhões. Mais exatamente 2.377.451
17 figurantes, segundo diria o IBGE em 1950.

(Adaptado de "Chega de saudade", de Ruy Castro)

Questão nº 01 - Assinale a alternativa INCORRETA.

a) A palavra inquietos (linha 01) poderia ser substituída, sem prejuízo para o sentido original do fragmento, por “irrequietos”.
b) Os dois pontos (linha 06) introduzem explicitação do que foi afirmado no período imediatamente anterior.
c) A conjunção adversativa mas (linha 09) pode ser substituída pela equivalente “e”, sem que haja alteração semântica do trecho.
d) A expressão nada a ver (linha 10) apresenta duas possibilidades de grafia: a própria “nada a ver” e a equivalente “nada há ver”.
e) A expressão em função (linha 11) denota sentido de explicação, equivalente ao que seria expresso também pela forma “por causa de”.

Questão nº 02 - Assinale a alternativa correta.

a) A palavra nativos (linha 01) faz referência aos habitantes naturais do Brasil: os milhares de indígenas massacrados no processo de colonização.
b) A expressão  daquele ano (linha 03) estabelece coesão, pois antecipa referência que ainda será explicitada ao longo do texto.
c) Os vocábulos  sambistas e  cambistas (linha 11) apresentam sufixo que denota o agente de determinadas ações.
d) É indiferente a presença ou ausência do artigo definido o no trecho todo o Rio de Janeiro era um Carnaval (linhas 15 e 16).
e) Em seu emprego no texto, a forma diria (linha 17) denota temporalidade que indica ação hipotética, jamais efetivamente realizada.

Questão nº 03 - Assinale a alternativa que NÃO apresenta uso de linguagem figurada.

a) (linha 02) - As cuícas iriam roncar.
b) (linhas 02 e 03) - as válvulas dos Philcos já pegavam fogo.
c) (linha 04) - a Rádio Nacional martelava “Chiquita Bacana”.
d) (linha 10) - nada a ver com os paquidérmicos sambas-enredo.
e) (linha 13) - ninguém ficava apalermado em casa.

Questão nº 04 - Considere as seguintes afirmações:

I. O texto faz implicitamente uma crítica ao Carnaval dos nossos tempos, concentrados no luxo televisivo e espetacular das dispendiosas  escolas de samba.
II. O narrador observa, nostalgicamente, velhos tempos carnavalescos da cidade carioca, quando imperava a alegria das marchinhas e do Carnaval de rua.
III. A leveza das letras e ritmo das marchinhas são contrapostos a um ritmo pesado e nada leve dos sambas-enredo atuais.

Assinale:
a) se apenas as alternativas I e II estiverem  corretas.
b) se apenas as alternativas II e III estiverem  corretas.
c) se apenas as alternativas I e III estiverem  corretas.
d) se todas as alternativas estiverem corretas.
e) se nenhuma das alternativas estiver correta.

Questão nº 05 - Considerado o contexto, todas as alternativas traduzem adequadamente o sentido do termo em destaque, EXCETO:

a) eufórico (linha 07) = exultante
b) apalermado (linha 13) = atônito
c) vicariamente (linha 14) = em substituição
d) espalhafato (linha 14) = alvoroço
e) elenco (linha 16) = conjunto de artistas famosos
Texto para as questões de 06 a 08

01 Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
02 leituras não era a beleza das frases, mas a doença
03 delas.
04 Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
05 esse gosto esquisito.
06 Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
07 - Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
08 o Padre me disse.
09 [...]
10 Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
11 Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
12 agramática.

(Manoel de Barros, “Poema VII” )

Questão nº 06 - Assinale a alternativa correta.

a) O verso Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável (v.7) denota o desprezo com que o Padre Ezequiel  se dirigiu ao enunciador, já que se apresenta como um paradoxo.
b) O segmento meu primeiro professor de agramática (v.11 e 12) é índice da visão equivocada que o menino de 13 anos tinha das aulas de gramática normativa.
c) A imagem estranha no verso Eu pensava que fosse um sujeito escaleno (v.6) pode ser corretamente considerada como concretização do que o eu lírico denomina doença da linguagem.
d) O início do poema – Descobri aos 13 anos – é a frase que identifica o eu lírico do texto como um jovem adolescente.
e) O segmento  o que me dava prazer nas leituras  (v.1 e 2) deve ser compreendido como uma ironia, pois o eu lírico declara não sentir prazer na beleza das frases (v.2).

Questão nº 07 - O valor do prefixo da palavra agramática encontra-se também em:

a) anagrama.  b) acrópole. c) adjunto. d) amoral. e) análise.

Questão nº 08 - Considere as seguintes afirmações:

I. Trata-se de um texto que exemplifica uma tendência da poesia contemporânea marcada pela oposição a padrões acadêmicos rígidos, obedecidos, por exemplo, pela poesia parnasiana.
II. A proposta estética implícita nesse poema confirma posições defendidas pelo movimento modernista brasileiro de 22.
III. O poema valoriza clichês linguísticos – por exemplo, sujeito escaleno e agramática – , como forma de criticar o experimentalismo estético.

Assinale:
a) todas as afirmações estão corretas.
b) apenas as afirmações I e II estão corretas.
c) apenas as afirmações II e III estão corretas.
d) apenas as afirmações I e III estão corretas.
e) nenhuma afirmação está correta. 

Texto para as questões de 09 a 11

01 Guiomar não tinha a experiência nem a idade da inglesa, que podia
02 ser sua mãe; mas a experiência e a idade eram substituídas, como
03 sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturais. Há criaturas
04 que chegam aos cinquenta anos sem nunca passar dos quinze, tão
05 símplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas
06 o crepúsculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem
07 na sazão das flores; vêm ao mundo com a ruga da reflexão no
08 espírito, - embora, sem prejuízo do sentimento, que nelas vive e
09 influi, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreado; trota largo,
10 vai a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca,
11 não se perde nem perde o cavaleiro.

(Machado de Assis, A mão e a luva)

Questão nº 09 - Assinale a alternativa correta.

a) O narrador onisciente apresenta-nos a personagem Guiomar como uma jovem de acentuada tendência às paixões, traço alusivo ao estilo romântico da primeira fase do escritor.
b) Na linha 03, a referência a  um grande tino e sagacidade naturais, característica da figura feminina descrita, lembra outras personagens machadianas, como, por exemplo, Capitu, do romance D. Casmurro.
c) A linguagem presente às linhas 09, 10 e 11 revela que a personagem mais madura, referida como  inglesa,  jamais perde o controle das situações passionais.
d) Com a frase o crepúsculo é o prolongamento da aurora (linha 06), o narrador de primeira pessoa, tipicamente machadiano, revela sua visão de mundo marcada pelo humor e crença na harmonia existencial, em que vida e morte se fundem.
e) Na expressão ruga da reflexão no espírito (linhas 07 e 08), Machado de Assis faz, indiretamente,  um juízo de valor negativo acerca do estilo realista.

Questão nº 10 - Considerado o contexto, todas as alternativas explicam adequadamente a expressão extraída do fragmento, EXCETO:

a) chegam aos cinquenta anos sem nunca passar dos quinze (linha 04): conservam a mesma beleza e esplendor da juventude.
b) tão cegas, tão verdes (linha 05): adjetivos que, conotativamente, expressam a ideia de ingenuidade, infantilidade.
c) amadurecem na sazão das flores  (linhas 06 e 07): referência a um amadurecimento emocional e intelectual desenvolvido em curto espaço de tempo, precocemente.
d) vai a passo ou galopa (linha 10): referência ao fato de o coração bater às vezes em ritmo normal, outras vezes em ritmo mais acelerado.
e) não se perde nem perde o cavaleiro (linha 11): alusão ao controle emocional de algumas pessoas.

Questão nº 11 - Considere os seguintes traços de estilo:

I. Evidência de metáforas na composição do discurso descritivo.
II. Marca linguística que denuncia a presença do interlocutor no texto.
III. Sinais explícitos de reflexão metalinguística, ou seja, discurso que tematiza o próprio fazer literário.

No texto,
a) apenas as características I e II estão presentes.
b) apenas a característica I está presente.
c) apenas as características II e III estão presentes.
d) apenas as características I e III estão presentes.
e) as características I, II e III estão presentes.

GABARITO

1 – D   2 – C   3 – E   4 – D   5 – E   6 – C   7 – D   8 – B   9 – B   10 – A   11 – A

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA – CARGO: PAPILOSCOPISTA (2004)

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA – CONCURSO PÚBLICO – POLÍCIA FEDERAL –  CARGO: PAPILOSCOPISTA (2004)

PROVA OBJETIVA

De acordo com o comando a que cada um dos itens a seguir se refira, marque, na folha de respostas, para cada item: o campo designado com o código C, caso julgue o item CERTO; ou o campo designado com o código E, caso julgue o item ERRADO.

Texto para os itens de 1 a 15


1   O filme Central do Brasil, de Walter Salles, tem como
     protagonista a professora aposentada Dora, que ganha um dinheiro
     extra escrevendo cartas para analfabetos na Central do Brasil,
4   estação ferroviária do Rio de Janeiro. Outra personagem é o menino
     Josué, filho de Ana, que contrata os serviços de Dora para escrever
     cartas passionais para seu ex-marido, pai de Josué. Logo após ter
7   contratado a tarefa, Ana morre atropelada. Josué, sem ninguém a
     recorrer na megalópole sem rosto, sob o jugo do estado mínimo
     (sem proteção social), vê em Dora a única pessoa que poderá levá-lo
10 até seu pai, no interior do sertão nordestino.
     Dos vários momentos emocionantes do filme, o mais
     sensibilizante é o encontro de Josué com os presumíveis irmãos que,
13 como o pai elaborado em seus sonhos, são também marceneiros. A
     câmera faz uma panorâmica no interior do sertão para mostrar um
     conjunto habitacional de casas populares recém-construídas; em uma
16 das casas, os moradores são os filhos do pai de Josué que, em sua
     residência simples, acolhem para dormir Josué e Dora. Os irmãos
     dormem juntos e dividem a mesma cama. Existe uma comunhão de
19 sentimentos entre os irmãos: os que têm um teto para morar, têm
     trabalho, dão amparo ao menino órfão sem eira nem beira.
     No filme, a grande questão do analfabetismo está acoplada
22 a outro desafio, que é a questão nordestina, ou seja, o atraso
     econômico e social da região. Não basta combater o analfabetismo,
     que, por si só, necessitaria dos esforços de, no mínimo, uma geração
25 de brasileiros para ser debelado, pois, em 1996, o analfabetismo
     da população de 15 anos e mais, no Brasil, era de 13,03%,
     representando um total de 13,9 milhões de pessoas. Segundo a
28 UNESCO, o Brasil chegaria ao ano 2000 em sétimo lugar entre os
     países com maior número de analfabetos.
     No Brasil, carecemos de políticas públicas que atendam, de
31 forma igualitária, a população, em especial aquelas voltadas para as
     crianças, os idosos e as mulheres. A permanência da questão
     nordestina é um exemplo constante das nossas desigualdades, do
34 desprezo à vida e da falta de políticas públicas que atendam aos
     anseios mínimos do povo trabalhador. Não saber ler nem escrever,
     no Brasil, é um elemento a mais na desagregação dos indivíduos que
37 serão párias permanentes em uma sociedade que se diz moderna e
     globalizada, mas que é debilitada naquilo que é mais premente ao
     povo: alimentação, trabalho, saúde e educação. Sem essas condições
40 básicas, praticamente se nega o direito à cidadania da ampla maioria
     da população brasileira.
     Os ensinamentos que podemos tirar de Central do Brasil
43 são que devemos atacar a questão social de várias frentes, em
     especial na educação de todos os brasileiros, jovens e velhos; lutar
     por políticas públicas de qualidade que direcionem os investimentos
46 para promover uma desconcentração regional e pessoal da renda
     no país, propugnando por um novo modelo econômico e social.
     Ao garantir uma vida digna, a maioria da população saberá, por
49 meio da solidariedade de classe, responder às necessidades da
     construção de uma sociedade mais justa. Central do Brasil é um
     exemplo vivo de que o Brasil tem rumo e esperança.

(Salvatore Santagada. Zero Hora, 20/3/1999 - com adaptações)

A partir do texto ao lado, julgue os itens a seguir.

1 – Depreende-se, pelo primeiro parágrafo, que o texto faz parte de um relatório técnico, por meio do qual é dada ao leitor a síntese do roteiro elaborado por Walter Salles.

2 – De acordo com o texto, o filme Central do Brasil é perpassado por uma emocionante comunhão afetiva e um elevado sentimento de solidariedade entre Dora e Josué, assim como entre este e seus irmãos.

3 – O elemento de articulação “como” expressa diferentes relações nas linhas 1 e 13, não podendo ser substituído, nessas duas ocorrências, por porque.

4 – Na linha 3, uma vírgula pode ser colocada após “extra”, sem que se firam o sentido do texto e as regras gramaticais de pontuação.

5 – O segundo parágrafo do texto é, predominantemente, descritivo, mas, a partir do terceiro parágrafo, o texto tem caráter dissertativo, por apresentar argumentos que defendem o ponto de vista do redator.

6 – Pela passagem do texto “o mais sensibilizante é o encontro de Josué com os presumíveis irmãos que, como o pai elaborado em seus sonhos, são também marceneiros” (R.11-13), deduz-se que tanto os irmãos quanto a figura paterna são personagens imaginados pelo garoto.

7 – Com referência ao emprego do sinal indicativo de crase, é correto substituir o período “No Brasil (...) as mulheres” (R.30-32) pela seguinte construção: As políticas públicas devem auxiliar, de forma igualitária, à população, em especial às crianças, aos idosos e às mulheres.

8 – Nas formas verbais sublinhadas em “têm um teto para morar, têm trabalho” (R.19-20), distintamente de “tem rumo e esperança” (R.51), foi empregado o acento circunflexo porque o verbo ter está flexionado no plural.

9 – Os adjetivos “acoplada” (R.21), “debelado” (R.25) e “debilitada” (R.38) significam no texto, respectivamente, ligada, extinto e fraca.

10 – Está correta a pontuação e a concordância na seguinte reescritura do trecho “em 1996 (...) de pessoas” (R.25-27): em 1996, 13,03% da população de 15 anos e mais no Brasil, eram analfabetos, percentual esse que representavam o total de 13,9 milhões de pessoas.

11 – No período simples “Segundo a UNESCO, o Brasil chegaria ao ano 2000 em sétimo lugar entre os países com maior número de analfabetos” (R.27-29), há uma única oração cujo sentido não se altera com a seguinte reescritura: O Brasil, segundo a UNESCO, iria chegar em sétimo lugar entre os países com maior número de analfabetos, no ano 2000.

Julgue as reescrituras apresentadas nos itens a seguir quanto à grafia, à acentuação, à pontuação e à preservação das idéias do último parágrafo do texto de referência.

12 – Podemos extrair de Central do Brasil o ensinamento de que devemos atacar a questão social de várias formas, especialmente educando todos os brasileiros, infantes, jovens e idosos.

13 – Lutar em favor de políticas de qualidade pública, que direcionem os investimentos à promoção de uma desconcentração da renda no País, propunando por um novo modelo econômico de benefício social, regional e particular, é um dos ensinamentos que se pode tirar de Central do Brasil.

14 – Garantindo uma vida com dignidade à maioria da população, todos saberão que, por intermédio da solidariedade entre as classes trabalhadoras, responder-se-á as necessidades da construção de uma sociedade mais justa.

15 – Central do Brasil é um exemplo pulsante de que o Brasil tem rumo e esperança, desde que a maioria da população, por meio da solidariedade de classe, ao garantir uma vida digna para todos, saberá responder aos apelos no sentido da construção de uma sociedade mais justa.

GABARITO OFICIAL

1 – E     2 – E    3 – C    4 – C     5 – C    6 – E    7 – E
8 – C     9 – C   10 – E  11 – C   12 – C  13 – E  14 – E 15 – E 

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Texto: "Vinte e uma coisas que aprendi como escritor" - Moacyr Scliar

Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Aprendi que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.
“Belgian writer Emile Verhaeren” – Théo Van Rysselberghe. 1901.
Aprendi que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.
Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.
Aprendi que, quando se começa a escrever, sempre se é autobiográfico, o que  de novo – não prejudica. Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.
Aprendi que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito (...)
Aprendi que uma boa ideia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).
Aprendi que uma boa ideia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar. O grande teste para uma ideia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.
Aprendi que aeroportos e bares são grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias; o aeroporto, porque neles a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.
Aprendi que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar ideias (é por isso que escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conta bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...)
Aprendi que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual – como toda história – pode nos ensinar muito.
Aprendi que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloquente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.
Aprendi a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa da autocomiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)
Aprendi a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos, à porta de editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.
Aprendi a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.
Aprendi que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.
Aprendi que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.
Aprendi que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.
Aprendi a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.
Aprendi que, para um escritor, frio na barriga ou pelos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.

(Moacyr Scliar)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br 

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“A casa viaja no tempo” – Rubem Braga