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sábado, 31 de março de 2012

BANCO DO BRASIL – CONCURSO PÚBLICO – 2010 – CARGO: ESCRITURÁRIO – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA

BANCO DO BRASIL – CONCURSO PÚBLICO – 2010 – CARGO: ESCRITURÁRIO 





Prova de Língua Portuguesa

Atenção:  As questões de números 1 a 9 referem-se ao texto abaixo.

A multiplicação de desastres naturais vitimando populações inteiras é inquietante: tsunamis, terremotos, secas e inundações devastadoras, destruição da camada de ozônio, degelo das calotas polares, aumento dos oceanos, aquecimento do planeta, envenenamento de mananciais, desmatamentos, ocupação irresponsável do solo, impermeabilização abusiva nas grandes cidades. Alguns desses fenômenos não estão diretamente vinculados à conduta humana. Outros, porém, são uma consequência direta de nossas maneiras de sentir, pensar e agir.
É aqui que avulta o exemplo de Hans Jonas.
Em 1979 ele publicou O Princípio Responsabilidade. A obra mostra que as éticas tradicionais – antropocêntricas e baseadas numa concepção instrumental da tecnologia – não estavam à altura das consequências danosas do progresso tecnológico sobre as condições de vida humana na Terra e o futuro das novas gerações. Jonas propõe uma ética para a civilização tecnológica, capaz de reconhecer para a natureza
um direito próprio. O filósofo detectou a propensão de nossa civilização para degenerar de maneira desmesurada, em virtude das forças econômicas e de outra índole que aceleram o curso do desenvolvimento tecnológico, subtraindo o processo de
nosso controle.
Tudo se passa como se a aquisição de novas competências tecnológicas gerasse uma compulsão a seu aproveitamento industrial, de modo que a sobrevivência de nossas sociedades depende da atualização do potencial tecnológico, sendo as tecnociências suas principais forças produtivas. Funcionando de modo autônomo, essa dinâmica tende a se reproduzir coercitivamente e a se impor como único meio de resolução dos
problemas sociais surgidos na esteira do desenvolvimento. O paradoxo consiste em que o progresso converte o sonho de felicidade em pesadelo apocalíptico – profecia macabra que tem hoje a figura da catástrofe ecológica. [...]
Jonas percebeu o simples: para que um "basta" derradeiro não seja imposto pela catástrofe, é preciso uma nova conscientização, que não advém do saber oficial nem da conduta privada, mas de um novo sentimento coletivo de responsabilidade e temor. Tornar-se inventivo no medo, não só reagir com a esperteza de "poupar a galinha dos ovos de ouro", mas ensaiar novos estilos de vida, comprometidos com o futuro das próximas gerações.

(Adaptado de Oswaldo Giacoia Junior. O Estado de S. Paulo,  A2 Espaço Aberto, 3 de abril de 2010)

1 – antropocêntricas e baseadas numa concepção instrumental da tecnologia – (3o parágrafo)

O sentido da afirmativa acima está corretamente reproduzido, com outras palavras, em:

(A) direcionadas para o bem-estar da humanidade e determinadas pelos avanços tecnológicos.
(B) centralizadas nos avanços tecnológicos, mas preocupadas com a vida humana na Terra.
(C) voltadas para o homem e fundamentadas na tecnologia como meio de atingir determinados fins.
(D) preocupadas com a relação entre homem e natureza, atualmente imposta pela tecnologia.
(E) determinadas pelo homem e expostas às comodidades trazidas a todos pelo progresso tecnológico.

2. A conclusão do texto propõe, em outras palavras,

(A) uma preocupação mais ampla com o emprego da tecnologia em algumas áreas do conhecimento humano, para evitar os atuais abusos.
(B) uma visão otimista centrada na resolução dos problemas oriundos do progresso tecnológico, por serem eles relativamente simples.
(C) o respeito aos inúmeros benefícios oferecidos às condições de vida moderna pelos avançados recursos decorrentes da tecnologia.
(D) uma atitude comunitária voltada para a prevenção e disposta a alterações no modo de vida na Terra para evitar a ocorrência de catástrofes ecológicas.
(E) procedimentos conjuntos entre órgãos oficiais e a sociedade civil como solução para a correta aplicação dos avanços tecnológicos.

3. O  paradoxo assinalado no 4o parágrafo se estabelece entre

(A) os direitos humanos apoiados no uso benéfico da tecnologia e as exigências impostas pela natureza, como seu próprio direito. 
(B) a confiança irrestrita nos avanços tecnológicos como solução dos problemas do homem e a tendência para a destruição do ambiente natural.
(C) o desenvolvimento pleno da tecnologia e as infinitas possibilidades de seu uso na melhoria das condições de vida no planeta.
(D) o destemor diante do progresso tecnológico e a valorização de suas aplicações na vida humana.
(E) a ocorrência natural dos fenômenos climáticos habituais e a responsabilidade humana determinante para seu agravamento.

4. Considere as afirmativas a respeito dos sinais de pontuação empregados no texto.

I. Os dois-pontos, no 1o parágrafo, introduzem enumeração de fatos que exemplificam  desastres naturais.
II. Os travessões isolam, no 3o parágrafo, um comentário explicativo da expressão imediatamente anterior a esse segmento.
III. O travessão único, no final do 4o parágrafo, pode ser corretamente substituído por uma vírgula, sem alteração do sentido original.
IV. As aspas colocadas na frase do final do texto "poupar a galinha dos ovos de ouro"  têm por objetivo assinalar a ideia principal do texto. 

Está correto o que consta APENAS em

(A)  II, III e IV.
(B)  II e IV.
(C)  I e II.
(D)  I, II e III.
(E)  I, III e IV.

5. Considerando-se a organização do texto, a afirmativa INCORRETA é:

(A) A relação de catástrofes ambientais apresentada no 1o parágrafo tem por objetivo demonstrar a impossibilidade de deter o progresso tecnológico, cujos avanços são os principais causadores desses desastres.
(B) Todo o texto se desenvolve a partir da constatação de que o modo de vida atual, voltado para o uso abusivo da tecnologia, leva o planeta a uma  catástrofe ecológica.
(C) O autor toma como base os diversos desastres naturais que vêm ocorrendo em todo o planeta para discutir aspectos ligados à questão ambiental.
(D) A retomada das ideias do filósofo Hans Jonas constitui a base da argumentação necessária para que o autor do texto fundamente suas próprias ideias.
(E) O título da obra  O Princípio Responsabilidade remete à necessária tomada de consciência dos homens sobre os abusos que vêm cometendo contra o meio ambiente.

6. A ideia central do texto está explicitada em:

(A) Uso limitado dos recursos tecnológicos na vida moderna.
(B) Práticas abusivas contra o meio ambiente, apesar das tecnociências.
(C) Impotência da natureza contra os abusos decorrentes da tecnologia.
(D) Proposição de uma nova ética para a civilização tecnológica.
(E) Aceitação das inevitáveis consequências do atual progresso tecnológico.

7. Identifica-se noção de causa no segmento:

(A)  ... para que um "basta" derradeiro não seja imposto pela catástrofe ...
(B) ...  comprometidos com o futuro das próximas gerações.
(C)  ... sobre as condições de vida humana na Terra e o futuro das novas gerações.
(D) ...  capaz de reconhecer para a natureza um direito próprio.
(E) ...  em virtude das forças econômicas e de outra índole ...

8. A concordância verbal e nominal está inteiramente correta na frase:

(A) Foram detectadas, nas análises mais recentes, a presença de partículas de poluentes prejudiciais à saúde humana.
(B) Estão havendo problemas nas negociações sobre o clima por falta de consenso entre os países participantes.
(C) Cada vez mais se tornam imprescindíveis medidas que venham a alterar o relacionamento entre o homem e a natureza.
(D) Quando entra em discussão nos países envolvidos as questões sobre responsabilidade climática, dificilmente se chega a um acordo.
(E) Chegaram-se a impasses nas negociações sobre a sustentabilidade do planeta pela impossibilidade de determinar a responsabilidade de cada país.

9.  Em 1979 ele publicou O Princípio Responsabilidade. (início do 3o parágrafo)

A frase cujo verbo exige o mesmo tipo de complemento que o grifado acima é:

(A)  ... a sobrevivência de nossas sociedades depende da atualização do potencial tecnológico ...
(B)  ... que não advém do saber oficial nem da conduta privada ...
(C)  ... que as éticas tradicionais [...] não estavam à altura das consequências danosas do progresso tecnológico ...
(D)  ... para degenerar de maneira desmesurada ...
(E)  ... que aceleram o curso do desenvolvimento tecnológico...

10. A respeito dos padrões de redação de um  ofício, é INCORRETO afirmar que:

(A) Deverá constar, resumidamente, o teor do assunto do documento.
(B) O texto deve ser redigido em linguagem clara e direta, respeitando-se a formalidade que deve haver nos expedientes oficiais.
(C) O fecho deverá caracterizar-se pela polidez, como por exemplo:  Agradeço a V. Sa. a atenção dispensada.
(D) Deve conter o número do expediente, seguido da sigla do órgão que o expede.
(E) Deve conter, no início, com alinhamento à direita, o local de onde é expedido e a data em que foi assinado.

GABARITO

01 – C     02 – D     03 – B     04 – D     05 – A     
06 – D     07 – E     08 – C     09 – E     10 – C

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terça-feira, 27 de março de 2012

GOMES LEAL – POETA DE TRÊS FACES

GOMES LEAL

- António Duarte Gomes Leal nasceu em Lisboa, em 1848, e faleceu na mesma cidade, em 1921.
- Frequentou o Curso Superior de Letras, mas não o concluiu.
- Levou uma vida boêmia e desregrada, mas converteu-se ao catolicismo ao final da vida. Poeta de triste destino, morreu pobre e na miséria, vivendo de caridade alheia.
- Poesia oscilante entre três escolas literárias da segunda metade do séc. XX: o Romantismo, o Simbolismo e o Parnasianismo. Foi considerado ainda um precursor do Modernismo.
- Fez poemas de quase todos os tipos, inspirados em diversas tendências literárias.
- Poesia de cunho social, retratando a miséria e o desalento dos mais necessitados.
- Poesia satírica em que ironizava a corte, o clero, a burguesia e os costumes do povo português. Foi detido e cumpriu pena na prisão do Limoeiro por críticas ao rei D. Luís.
- Poesia romântica em que exaltava o amor e idealizava a mulher.
- Trabalhou ainda outros temas, como a religiosidade, o ocultismo, o pessimismo e a vida boêmia noturna de Portugal.

Ele se definia como sendo um poeta de três faces: 

Em mim há três coisas: o poeta popular e de combate, nas sátiras e panfletos; o poeta do sonho e do mistério, na 'Nevrose Noturna', nas 'Claridades do Sul', na 'Lua morta' e na 'Mulher de Luto'; e o poeta místico, na 'História de Jesus' e na 'Senhora da Melancolia'.




A um corpo perfeito

Nenhum corpo mais lácteo e sem defeito,
Mais róseo, escultural, ou feminino,
Pode igualar-se ao seu branco e divino
Imóvel, nu, sobre o comprido leito! -

Nada se lhe iguala! - O ferro do assassino
Podia, hoje, matá-la, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
Daquele corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida.
E o gozo sensual de a ver vencida
Há-de ser forte, estranho, singular...

Como o das coisas dignas de castigo
– ou qual amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d´um altar.

(Gomes Leal)

A jovem Miss

Ela é tão loura, lírica, franzina,
tão mimosa, quieta e virginal
como uma bela virgem dum missal,
toda dourada e preciosa e fina!

Não há graça mais casta e feminina
do que a dela! Seu riso angelical
cria em nós todo um mundo de moral,
melhor que tudo o que Platão ensina!

Por isso e pela sua castidade,
deve ser gozo intenso, na verdade,
sentir fundir-se em nós seus olhos régios!

E o gozo de a beijar trêmula, amante,
deve ser quase estranho e semelhante
ao de fazer terríveis sacrilégios!

(Gomes Leal)

Cantiga do Campo

Por que andas tu mal comigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde coses,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar contigo, ó meu pomo,
Exposto às chuvas e aos sóis!
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!

Morrer chorando, num choro
Que mais as magoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!

Por que andas tu mal comigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira! 

(Gomes Leal)

DE NOITE

Ele vinha da neve, dos trabalhos
violentos, custosos, da enxada,
cantando a meia voz, pelos atalhos.

A mulher, loura, infeliz, resignada,
cosia junto à luz. O rijo vento
batia contra a porta mal fechada.

Ao pé, havia um Cristo, um ramo bento
e uma estampa a Virgem, colorida,
cheia de mágoa, olhando o firmamento…

Portinari. "Duas mulheres e duas crianças".

Uma banca de pinho, mal sustida,
vacilante aos pés: um candeeiro,
companheiros daquela negra vida.

O homem, alto, pálido, trigueiro,
entrou. Tinha as feições queimadas, duras,
dos que andam com a enxada, o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras
do seu rosto contavam já tristezas
de grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas
daquela vida assim!… Talvez sonhado
um dia com palácios e riquezas!

Ele deitou-se a um canto, fatigado
de erguer-se, alta manhã, todos os dias,
mal voavam as pombas do telhado.

Lá fora, nuvens grossas e sombrias
no pesado horizonte. Ele assim esteve
– as noites eram ásperas e frias -

Ela cobriu-o duma manta leve,
esburacada, velha. No telhado
ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ela então meditou no seu passado;
no seu primeiro beijo, nas lembranças,
talvez, do seu vestido de noivado,

e nas tardes das eiras, e das danças
às estrelas, e aquela vez primeira
que a rosa lhe furtou das longas tranças;

e aquela tarde, junto da amoreira,
que trocaram as mãos; e na janela;
e quando olhavam juntos; a ribeira;

e quando era tímida e singela…

--------------------------------------------------------

Lá fora, dava o vento nos caixilhos;
não brilhava no céu nem uma estrela.

E, àquela hora da noite, por que trilhos
andariam no mundo – ela cismava –
nas misérias, talvez, sem rumo, os filhos!…

Ele, na manta velha, ressonava.

(Gomes Leal)

Ao Leitor

Aqui, leitor sossegado,
- Velho burguês de outras eras! -
Depõe o livro de lado
- Não leias estas quimeras!

Não corras esta carteira
Meu velho amigo sem dentes!
Enquanto geme a lareira
- Sonha em mortos parentes!

Mas vós, amigos dos sonhos,
Doces, místicas violetas,
Castos selvagens tristonhos,
E solitários poetas,

Que amais as tristes paisagens
E as coisas misteriosas,
A longa chuva, as viagens,
E as melodias nervosas,

Nas longas noites de outono,
Que o vento varre a poeira,
E a chuva bate... – sem sono ! –
Folheai esta carteira.

(Gomes Leal)

O Selvagem

Gomes Leal
Eu não amo ninguém. Também no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.

Fechei, de há muito, o livro do Passado
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
N'um egoísmo bárbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos cruéis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguém. Saio somente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguém me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...

(Gomes Leal, in "Claridades do Sul")

Eu tenho ouvido as sinfonias das plantas.

Eu sou um visionário, um sábio apedrejado,
passo a vida a fazer e a desfazer quimeras,
enquanto o mar produz o monstro azulejado
e Deus, em cima, faz as verdes primaveras.

Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
e erro como estrangeiro ou homem doutras eras,
talvez por um contrato irônico lavrado
que fiz e já não sei noutras sutis esferas.

A espada da Teoria, o austero Pensamento,
não mataram em mim o antigo sentimento,
embriagam-me o Sol e os cânticos do dia...

E obedecendo ainda a meus velhos amores,
procuro em toda a parte a música das cores,
– e nas tintas da flor achei a Melodia.

(Gomes Leal)

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sábado, 24 de março de 2012

Texto - "A borboleta preta" - Machado de Assis

A borboleta preta


       No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela.
Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
       Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
       - Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.
       E esta reflexão, - uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas». A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
       Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.

(Machado de Assis, in "Memórias póstumas de Brás Cubas", Capítulo XXXI)

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terça-feira, 20 de março de 2012

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA – CONCURSO PÚBLICO – CARGO: INVESTIGADOR DE POLÍCIA

CONCURSO PÚBLICO – INVESTIGADOR DE POLÍCIA – POLÍCIA CIVIL DE SÃO PAULO – 2010


PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA

1 - De acordo com língua culta escrita, assinale a alternativa em que o pronome está corretamente colocado.

a) Desde que instalou-se na cidade, a floricultura inclui em seus préstimos uma bonita embalagem.
b) O que almeja-se é chegar à vitória com mais pontos.
c) Ainda pleiteia-se a elevação dos salários, mesmo tendo mostrado-se impossível qualquer acordo.
d) Me desculpem a sinceridade, mas ninguém está apto a enfrentar a realidade.
e) Temos nos empenhado em receber todas as sugestões que nos apresentarem.

2 - A forma de tratamento está corretamente empregada em:

a) Senhor Chefe de Seção, encaminhamos a Vossa Excelência o relatório solicitado.
b) Sua Eminência, o senhor Secretário, dará início à solenidade.
c) Senhor Diretor: se Sua Reverência determinar, organizaremos o evento.
d) O Reverendíssimo Reitor estará presente na solenidade.
e) Sua Excelência, o Senhor Ministro, aprovou o relatório?

3 - Ele começou ______ fazer alusão _____ questões, com mais segurança, quando se fecharam ______ portas.

a) à – as – às
b) à – às – as
c) a – as – as
d) a – às – às
e) a – às – as

4 - “Ela deveria escrever a tese, ______ tema era criticar a suposição ______ a maldade seria intrínseca ______ natureza humana.”

a) que o – que - à
b) cujo – de que – à
c) cujo o – que – a
d) com que o – de que – a
e) da qual – que – a

5 - Assinale a alternativa em que não há figura de linguagem.

a) “Foi bom reler Machado de Assis.”
b) “A vela que se apaga é um sol que morre.”
c) “As questões da prova de português passaram a ser baseadas em textos”.
d) “A chama da vela morre adormecendo...
e) “Eu e minha vela, sozinhos como dois amantes, nos despediremos...

6- A conjunção e tem valor adversativo em

a) Ia enfeitar a casa e receber as visitas.
b) “Torço as orelhas e não dão sangue.”
c) “Qualquer movimento, e será um homem morto.”
d) O objetivo não se concretizou e fiquei desapontado.
e) Ela voltou e desfaleceu.

7- Assinale a alternativa em que todas as palavras estão grafadas corretamente.

a) A tendência do espectador é desacreditar de todas as atitudes de uma personagem instável.
b) O motorista maneja alavancas que comandam portas e trocam os intinerários.
c) A proposta era espandir as discussões sobre sustentabilidade, até então focadas na eficiência energética das edificações.
d) A meia-entrada proporciona o assesso igualitário à cultura e ao laser.
e) O jogo entre liberdade e timidês e entre desejo e espectativa dá ao filme dramaticidade e sustentação da intriga.

8 - Os juízes da infância e da juventude, em colaboração com os conselhos tutelares, fixaram, para a circulação noturna de crianças e adolescentes, condições.

O significado da frase acima está corretamente expresso em:

a) Para a circulação noturna de crianças e adolescentes e para colaborar com os conselhos tutelares os juízes fixariam condições.
b) Os juízes da infância e da juventude, em colaboração com os conselhos tutelares, fixaram condições para a circulação noturna de crianças e adolescentes.
c) Os juízes da infância e juventude, caso colaborassem com os conselhos tutelares, fixarão para a circulação noturna de crianças e adolescentes condições.
d) Para a circulação noturna de crianças e adolescentes e para colaborar com os conselhos tutelares os juízes vão fixar condições.
e) Os juízes da infância e juventude, se colaborassem com os conselhos tutelares, fixariam para a circulação noturna de crianças e adolescentes condições.

9 - A concordância verbal e nominal está de acordo com a língua culta escrita em:

a) É dever da família, da sociedade e do Estado assegurarem proteção suficientes a criança e ao adolescente.
b) Calças cinzas-escuros e camisetas verdes-claras compunha o uniforme.
c) A queda das bolsas de valores mostraram o tamanho dos problemas econômicos-sociais.
d) O debate dos diferentes segmentos da sociedade a respeito de problemas político-sociais contribui para os avanços da democracia.
e) Se tivéssemos bastante petróleo, mas sem capacidade técnico-financeiro de explorá-lo, haveriam outros tipos de problema.

10 - A regência verbal e nominal está de acordo com a língua culta escrita em:

a) Lembrei-me de que ele está fazendo um trabalho útil à sociedade.
b) Referi-me, naquele instante, a conexão em o passado no presente.
c) Qualquer conversa com respeito das eleições começa provocar controvérsias.
d) Os meios que podemos contar para demonstrar solidariedade com o próximo são muitos.
e) Ela preferiu ir a Paris, que gosta muito, do que voltar a Alemanha para dar assistência à seus pais.

As questões de números 11, 12, 13, 14 e 15 referem-se ao texto abaixo.

“Intensas erupções solares e tempestades geomagnéticas ejetam grandes quantidades de íons – partículas eletricamente carregadas – ao espaço. Quando essas partículas atingem o campo magnético da Terra, causam o belo espetáculo atmosférico das
auroras polares, mas derrubam a comunicação com os satélites”.

11 - As conjunções grifadas no texto acima estabelecem entre as orações, respectivamente, as ideias de

a) restrição e adição.
b) conclusão e adição.
c) tempo e contraste.
d) modo e finalidade.
e) modo e condição.

12 - O primeiro período do texto apresenta uma oração, cujo sujeito é

a) inexistente.
b) indeterminado.
c) claro, determinado, simples.
d) claro, determinado, composto.
e) oculto.

13 - A expressão “partículas eletricamente carregadas” exerce, no texto, a função de

a) aposto
b) adjunto adverbial.
c) complemento verbal.
d) complemento nominal.
e) vocativo.

14 - O texto apresenta

a) três verbos no pretérito perfeito do indicativo.
b) dois verbos no pretérito perfeito do indicativo.
c) três verbos no presente do indicativo.
d) quatro verbos no pretérito perfeito do indicativo.
e) quatro verbos no presente do indicativo.

15 - As palavras “magnético”, “carregadas”, “tempestades” e “auroras” apresentam, respectivamente,

a) dígrafo, dígrafo, dígrafo e ditongo crescente.
b) encontro consonantal, encontro consonantal, encontro consonantal e hiato.
c) encontro consonantal, dígrafo, dígrafo e ditongo decrescente.
d) dígrafo, dígrafo, dígrafo e hiato.
e) dígrafo, encontro consonantal, encontro consonantal e hiato.

Nas questões de números 16 a 18, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas das frases.

16 - Os mantenedores ______a creche, e os monitores voluntários ______ as crianças.

a) proviram – entretinham
b) proveram – entretiveram
c) proveria – entreteria
d) proverá – entreterá
e) proverão – entreterá

17 - Os policiais cumpriram o __________ de busca e ________ no __________ do réu.

Indique as palavras adequadas para o preenchimento da oração.

a) mandado, aprenção, domicílio
b) mandado, apreensão, domicílio
c) mandado, apreenção, domiscílio
d) mandato, apreensão, domecílio
e) mandato, aprensão, domicílio

18 -  _____________ a testemunha não compareceu ao distrito policial?

- Não sei o ______, talvez seja ___________ esteja sendo ameaçada.

a) porque, por que, porque
b) por que, porque, porquê
c) porque, porque, por que
d) por que, porquê, porque
e) por que, por que, porque

19 - Transpondo para a voz passiva a frase Ela deu parabéns aos presentes, obtém-se a forma verbal

a) foi dado
b) é dado
c) deu-se
d) eram dados
e) foram dados

20 - Indique a alternativa com oração reduzida de gerúndio.

a) Não é vergonhoso errar.
b) Mesmo baleado, o homicida não se rendeu.
c) Patrulhando a rua, localizei a casa do autor do crime.
d) O Delegado de Polícia determinou que se prendesse o suspeito.
e) Caso você saia, feche as portas da casa.

GABARITO

1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
E
E
E
B
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