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sexta-feira, 31 de maio de 2013

“Poema em linha reta” – Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos – heterônimo de Fernando Pessoa)

Texto: “O menino que escrevia versos” – Mia Couto

O menino que escrevia versos

"Boy writing" - Benjamin Lacombe
De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do Menino que fazia versos) 

  — Ele escreve versos!
  Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
  — Há antecedentes na família?
  — Desculpe doutor?
  O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
  — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
  Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas  confissões de amor.
  Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
  — São meus versos, sim.
  O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
  Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
  — O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte elétrica.
  Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe  espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
  Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
  — Dói-te alguma coisa?
  —Dói-me a vida, doutor.
  O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
  — E o que fazes quando te assaltam essas dores?
  — O que melhor sei fazer, excelência.
  — E o que é?
  — É sonhar.
  Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, por quê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
  O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
  — Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
 A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
  Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
  — Não continuas a escrever?
 — Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
  O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
  — Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
  — Não importa — respondeu o doutor.
  Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
  Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
  — Não pare, meu filho. Continue lendo...

(Mia Couto)

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Temas de redação – Unicamp – 2003

Redação - 1ª Fase – Unicamp – 2003

ORIENTAÇÃO GERAL

- Escolha do tema:

Escolha um dos três temas propostos para redação e assinale sua escolha no alto da página de resposta.
Você deve desenvolver o tema conforme o tipo de texto indicado, segundo as instruções
que se encontram na orientação dada ao tema escolhido.

- Coletânea de textos:

Os textos que acompanham cada tema foram tirados de fontes diversas e apresentam fatos, dados, opiniões e argumentos relacionados com o tema geral:

EVOLUÇÃO/PROGRESSO.

São textos como aqueles a que você está exposto na sua vida diária de leitor de jornais,
revistas ou livros, e que você deve saber ler e comentar.

Leia a coletânea e utilize-a segundo as instruções específicas dadas para o tema escolhido. Se quiser, pode valer-se também de informações que julgar importantes, mesmo que tenham sido incluídas nas propostas dos outros temas ou nos enunciados das questões desta prova.

TEMA A:

ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO SEGUIR AS INSTRUÇÕES RELATIVAS A ESTE TEMA, SUA REDAÇÃO SERÁ ANULADA.

A palavra “evolução” tem sido usada em vários sentidos, especialmente de mudança e de progresso, seja no campo da biologia, seja nas ciências humanas. Tendo em mente esses diversos sentidos, e considerando a coletânea abaixo, escreva uma dissertação em torno da seguinte afirmação do filósofo Bertrand Russel (Unpopular Essays, 1959):

A mudança é indubitável, mas o progresso é uma questão controversa.

1) Evolução significa um desenvolvimento ordenado. Podemos dizer, por exemplo, que os automóveis modernos evoluíram a partir das carruagens. Frequentemente, os cientistas usam palavras num sentido especial, mas quando falam de evolução de climas, continentes, planetas ou estrelas, estão falando de desenvolvimento ordenado. Na maioria dos livros científicos, entretanto, a palavra se refere à evolução orgânica, ou seja, à teoria da evolução aplicada a seres vivos. Essa teoria diz que as plantas e animais se modificaram geração após geração, e que ainda estão se modificando hoje em dia. Uma vez que essa mudança tem-se prolongado através das eras, tudo o que vive atualmente na Terra descende, com muitas alterações, de outros seres que viveram há milhares e até milhões de anos atrás.

(Enciclopédia Delta Universal, vol. 6, p. 3134.)

2) Quando se focalizou a língua, historicamente, no século XIX, as mudanças que ela sofre através do tempo foram concebidas dentro da idéia geral de evolução. A evolução, como sabemos, foi um conceito típico daquela época. Surgiu ele nas ciências da natureza, e depois, por analogia, se estendeu às ciências do homem. (...) Do ponto de vista das ciências do homem em geral, a plenitude era entendida como o advento de um estado de civilização superior, e os povos eram vistos como seguindo fases evolutivas até chegar a uma final, superior, que seria o ápice de sua evolução.

(Mattoso Câmara, 1977. Introdução às línguas indígenas brasileiras. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico. p. 66.)

3) Progresso, portanto, não é um acidente, mas uma necessidade... É uma parte da natureza.

(Herbert Spencer, Social Statics, 1850, cap. 2, seção 4.)

4) Ator 1 – Com o passar dos séculos – o homem sempre foi muito lento – tendo desgastado um quadrado de pedra e desenvolvido uma coisa que acabou chamando de roda, o homem chegou, porém, a uma conclusão decepcionante – a roda só servia para rodar. Portanto, deixemos claro que a roda não teve a menor importância na História. Que interessa uma roda rodando? A idéia verdadeiramente genial foi a de colocar uma carga em cima da roda e, na frente, puxando a carga, um homem pobre. Pois uma coisa é definitiva: a maior conquista do homem foi outro homem. O outro homem virou escravo e, durante séculos, foi usado como transporte (liteira), ar refrigerado (abano), lavanderia, e até esgoto, carregando os tonéis de cocô da gente fina.

(Millôr Fernandes. A História é uma história. Porto Alegre, LP&M, 1978.)

5) Na história evolucionária, relativamente curta, documentada pelos restos fósseis, o homem não aperfeiçoou seu equipamento hereditário através de modificações corporais perceptíveis em seu esqueleto. Não obstante, pôde ajustar-se a um número maior de ambientes do que qualquer outra criatura, multiplicar-se infinitamente mais depressa do que qualquer parente próximo entre os mamíferos superiores, e derrotar o urso polar, a lebre, o gavião, o tigre, em seus recursos especiais. Pelo controle do fogo e pela habilidade de fazer roupas e casas, o homem pode viver, e vive e viceja, desde o Círculo Ártico até o Equador. Nos trens e carros que constrói, pode superar a mais rápida lebre ou avestruz. Nos aviões, pode subir mais alto que a águia, e, com os telescópios, ver mais longe que o gavião. Com armas de fogo, pode derrubar animais que nem o tigre ousa atacar. Mas fogo, roupas, casas, trens, aviões, telescópios e revólveres não são, devemos repetir, parte do corpo do homem. Pode colocá-los de lado à sua vontade. Eles não são herdados no sentido biológico, mas o conhecimento necessário para sua produção e uso é parte do nosso legado social, resultado de uma tradição acumulada por muitas gerações, e transmitida, não pelo sangue, mas através da fala e da escrita.

(Gordon Childe.A evolução cultural do homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1966. p. 39-40.)

6) O homem pode ser desculpado por sentir algum orgulho por ter subido, ainda que não por seus próprios esforços, ao topo da escala orgânica; e o fato de ter subido assim, em vez de ter sido primitivamente colocado lá, pode dar-lhe esperanças de ter um destino ainda mais alto em um futuro distante.

(Charles Darwin, A descendência do homem. www.gutenbergnet)

7) ... por causa de nossas ações, os ecossistemas do planeta estão visivelmente evoluindo de formas não previstas pelos seres humanos. Algumas vezes, as mudanças parecem pequenas. Tomemos o caso das rãs e das salamandras nas Ilhas Britânicas. Os invernos estão mais quentes nessa região, devido a mudanças de clima causadas pelos seres humanos. Isso significa que as lagoas onde aqueles animais se reproduzem estão mais quentes. Assim, as salamandras (Triturus) começaram a se acasalar mais cedo. Mas as rãs (Rana temporaria) não. De modo que a desova das rãs está virando almoço das salamandras. É possível que as lagoas britânicas em que há salamandras continuem por dezenas e dezenas de anos cada vez com menos rãs. E então, um dia, o ecossistema da lagoa desmorona...

(Adaptado de Alanna Mitchell, “Bad Evolution”, The Globe and Mail Saturday, 4/5/2002.)

8) Em que consiste, em última análise, o progresso social? No desenvolvimento do melhor modo possível dos recursos havidos da natureza, da qual tiramos a subsistência, e no apuro dos sentimentos altruísticos, que tornam a vida cada vez mais suave, permitindo uma cordialidade maior entre os homens, uma solidariedade mais perfeita, um interesse maior pela felicidade comum, um horror crescente pelas injustiças e iniquidades...

(Manuel Bonfim, A América Latina: Males de origem. Rio de Janeiro/Paris, H. Garnier, s/d.)
TEMA B

ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO SEGUIR AS INSTRUÇÕES RELATIVAS A ESTE TEMA, SUA REDAÇÃO SERÁ ANULADA.

No século XXII, um cientista resolve criar o “homem perfeito”. Para tanto, desenvolve um “acelerador genético”, capaz de realizar em pouco tempo um processo que supostamente duraria milênios. Aplica o engenho a um pequeno número de cobaias humanas que, à idade propícia, são inseridas na sociedade, para cumprirem seu “destino”. Dessas cobaias, uma suicidou-se, outra tornou-se um criminoso, outra, presidente da república. A quarta é você, a quem cabe atestar o êxito ou o fracasso do experimento.

Componha uma narrativa em primeira pessoa que contenha

- ações que justifiquem o desfecho das histórias de seus companheiros;
- um desfecho inteiramente diferente para sua própria história.
TEMA C

ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO SEGUIR AS INSTRUÇÕES RELATIVAS A ESTE TEMA, SUA REDAÇÃO SERÁ ANULADA.

Periodicamente, ao longo da história, pensadores têm afirmado que a humanidade chegou a um ponto definitivo (o “fim da história”). O artigo abaixo, parcialmente adaptado, que Denis Lerrer Rosenfield publicou no jornal Folha de S. Paulo em 28/06/2002, de certo modo retoma essa afirmação.

A POÇÃO MÁGICA

O mundo mudou depois de 11 de setembro. A administração Bush, inicialmente voltada para um fechamento dos EUA sobre si mesmos, cujo símbolo era o projeto de escudo interbalístico, que protegeria essa nação de mísseis intercontinentais, afirma-se agora claramente como imperial. Sua doutrina militar sofreu uma alteração substancial. Doravante, a prioridade são ataques preventivos, que eliminem os focos terroristas no mundo, ameaçando e atacando os Estados que lhes dêem cobertura e, sobretudo, que tenham armas químicas e biológicas. (...)
Talvez o mundo, no futuro, mostre que o problema da democracia passa pela influência que países, empresas, sindicatos e meios de comunicação venham a exercer sobre a opinião pública americana – que pode, ela sim, mudar os rumos do império. Não esqueçamos que a Guerra do Vietnã terminou devido à influência decisiva da opinião pública americana sobre o centro de decisões políticas. Os países deverão se organizar para atuar sobre a opinião pública americana.
Se essa descrição dos fatos é verdadeira, nenhuma política futura poderá ser baseada em um confronto direto com os EUA ou em um questionamento dos princípios que regem essa nação. A autonomia, do ponto de vista econômico, social, militar e político, pertence ao passado. Poderemos ter nostalgia dela, mas seu adeus é definitivo. O que não significa, evidentemente, que tenhamos de acatar tudo o que de lá vier; é imperativo reconhecer, porém, que a realidade mudou e que embates radicais estão fadados ao fracasso.
Na época do Império Romano, o general César ou os imperadores subsequentes não estavam preocupados com o que se passava na Gália. Seus exércitos vitoriosos exerciam uma superioridade inconteste. Era mais sensato negociar com eles do que enfrentá-los. Se uma Gália moderna achar que pode deixar de honrar contratos, burlar a democracia, fazer os outros de bobos, mudando seu discurso a cada dia ou cada mês, sua política se tornará imediatamente inexequível.
Contudo, se, mesmo assim, esse povo decidir eleger um Asterix, convém lembrar que foi perdida para sempre a fórmula da poção mágica e suas últimas gotas se evaporaram no tempo.

Escreva uma carta, dirigida ao Editor do jornal, para ser publicada. Após identificar a tese central do texto de Rosenfield,

a) caso concorde com o ponto de vista do autor, apresente outros argumentos e fatos que o reforcem;
b) caso discorde do ponto de vista do autor, apresente argumentos e fatos que o contradigam.

Para realizar essa tarefa, além do texto anterior, considere também os que se seguem:
- Ao assinar a carta, use iniciais apenas, de forma a não se identificar.

1) Ao ver um cordeiro à beira do riacho, o lobo quis devorá-lo. Mas precisava de uma boa razão. Apesar de estar na parte superior do rio, acusou-o de sujar a água. O cordeiro se defendeu:
– Como eu iria sujar a água, se ela está vindo daí de cima, onde tu estás?
– Sim, mas no ano passado insultaste meu pai, replicou o lobo.
– No ano passado, eu nem era nascido...
Mas o lobo não se calou:
– Podes defender-te quanto quiseres, que não deixarei de te devorar.

(Adaptado de Esopo, Fábulas. Porto Alegre, LP&M.).

2) Então saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, da altura de seis côvados e um palmo. (...) Todos os israelitas, vendo aquele homem, fugiam diante dele (...). Davi disse a Saul: “... teu servo irá, e pelejará contra ele”. (...) Davi meteu a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e ele caiu com o rosto em terra. E assim prevaleceu Davi contra Golias, com uma funda e uma pedra.

(Adaptado de I Samuel, 17, 4-50.)

3) Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

(Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte... Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977).

João de Deus – Poemas

João de Deus – Poemas

Que não ... Que sim

– Elisa, se eu fora rico, 
Tão rico,
Que por essa linda mão,
Tão linda,
Te desse riqueza infinda,
Que dirias então?
– Que não.

– E se eu fosse um grande, um nobre,
Tão nobre,
Que por essa linda mão,
Tão linda,
Te desse nobreza infinda,
Que me dirias então?
– Que não.

– E se em vez de lira, espada,
Falada,
Eu trouxesse, e por tua mão
Tão linda,
Te desse uma glória infinda,
Que me dirias então?
– Que não.

Se rico, nobre e soldado,
C'roado,
Fosse rei e por tua mão
Tão linda,
Desse a c'roa e terra infinda,
Que me dirias então?
– Que não.

Ai ! qu'esperanças !... sendo eu pobre,
Tão pobre,
Só rico d'alma !... se enfim,
Tão linda,
Mão pedisse... inveja infinda,
Que me dirias a mim?
– Que sim.

(João de Deus)

Amo-te Muito, Muito!

Amo-te muito, muito!
Reluz-me o paraíso
Num teu olhar fortuito,
Num teu fugaz sorriso!

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De cor-de-rosa tinges,

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes que te assalta
Não sei que idem, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra?...

Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua;

Ou quando à luz que adoro
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e choro;

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe!

(João de Deus, in “Campo de Flores”)

A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve 
"Four violin´s strings". Edward Okun. 1914.
Que se desfaz como a neve 
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

(João de Deus, in “Rosa do mundo”)

Beatriz

Tu és o cheiro que exala
Ao ir-se abrindo uma flor!
Tu és o colo que embala
Suas primícias de amor!

Tu és um beijo materno!
Tu és um riso infantil,
Sol entre as nuvens do Inverno,
Rosa entre as flores de Abril.

Tu és a rosa de Maio! 
"Do not leave me". Albena Vatcheva
Tu és a flâmula azul
Que atam à flecha do raio
As tempestades do sul!

Tu és a nuvem de Agosto,
Meu alvo velo de lã!
Tu és a luz do sol-posto!
Tu és a luz da manhã!

Tu és a tímida corsa
Que mal se deixa avistar!
Tu és a trança que a força
Do vento leva no ar!

És a pérola que salta
Do níveo cálix da flor!
És o aljôfar que esmalta
Virgíneas rosas de amor!

És a roseira que a custo
Levanta as rosas do chão!
És a vergôntea do arbusto,
Anjo do meu coração!

Tu és a água das fontes!
Tu és a espuma do mar!
Tu és o lírio dos montes!
Tu és a hóstia do altar!...

És o pimpolho, és o gomo,
És um renovo de amor!
Tu és o vedado pomo!...
Tu és a minha Leonor!

Tu és a Laura que eu amo,
E a minha Tábua da Lei,
E a pomba que trouxe o ramo,
E a margarida que achei!

És o lírio, és a bonina
Dos vales do meu país!
És a minha Catarina!
És a minha Beatriz!

(João de Deus)

O céu

Pátria ditosa e linda, e onde o mal
Desaparece ao meigo olhar do Amor,
Que entre os seres do Além é sempre igual,
No mesmo anseio santo e superior!

Lá não se vê traição e cada qual
Urde ali sua auréola de esplendor,
Doce Mansão de Paz, imaterial,
Onde impera a bondade do Senhor!

Porto de Salvação para quem crê
Nessa Praia do Azul, que se antevê,
Pelo poder da Fé, na provação;

País dos Céus, aonde o pecador,
Depois de bem sofrer aí a dor,
Vai ali encontrar Consolação.

(João de Deus)

Morrer

Não mais a dor intensa e desmedida 
"Ressurreição". Rembrandt
No momento angustioso de morrer,
Nem o pranto pungente por se ver
Um ser amado em horas da partida!...

A morte é um sono doce; basta crer
Na Paz do Céu, na Terra apetecida,
Para se achar o Amor, a Luz e a Vida,
Onde há trégua à tristeza e ao padecer.

Venturosa região do espaço Além,
Onde brilha a Verdade e onde o Bem
É o fanal reluzente que conduz;

Mansão de claridade e pulcritude,
Onde os bons, que adoraram a Virtude,
Gozam do afeto extremo de Jesus.

(João de Deus)
Bondade

Vê-se a miséria desditosa
Perambulando numa praça;
Sob o seu manto de desgraça
Clama o infortúnio abrasador.

Eis que a Fortuna se lhe esconde;
E passa o gozo, muito ao largo;
E ela chora, ao gosto amargo,
O seu destino, a sua dor.

Mas eis que alguém a reconforta:
É a bondade. Abre-lhe a porta;
E a fada, à luz dessa manhã,

Diz-lhe, a sorrir: – Tens frio e fome‘?
Pouco te importe qual meu nome,
Chega-te a mim: sou tua irmã.

(João de Deus)

A Fortuna

Anda a Fortuna por uma praça,
Fala à Ventura com riso irmão,
E mais adiante topa a Desgraça,
E altiva e rude lhe esconde a mão.

Vaidosa e bela, dá preferência
Ao torpe egoísmo acomodatício,
E entre as virtudes, na existência,
Escolhe sempre flores do vício.

E assim prossegue na desmarcada
Carreira louca do vão prazer,
Como perdida, e já sepultada,
No esquecimento do próprio ser.

Depois, cansada e já comovida,
Quando só pede luz e amor,
Acorre a Morte por dar-lhe a Vida,
E vem a Vida por dar-lhe a Dor.

(João de Deus)

Além

Além da sepultura, a nova aurora
Luminosa e divina se levanta;
Lá palpita a beleza onde a alma canta,
À luz do amor que vibra e revigora.

Ó corações que a lágrima devora,
Prisioneiros da dor que fere e espanta,
Tende na vossa fé a bíblia santa,
E em vossa luta o bem de cada hora.

Além da morte, a vida tumultua,
O trabalho divino continua...
Vida e morte – exultai ao bendizê-las

Esperai nos tormentos mais profundos,
Que a este mundo sucedem-se outros mundos,
E às estrelas sucedem-se as estrelas!

(João de Deus)
"The deposition". Fra Bartolomeo
No templo da educação

Distribuía o Mestre os dons divinos
Da luz do seu Espírito sem jaça,
E exclama, enquanto a turba observa e passa:
– “Deixai virem a mim os pequeninos!...”

E que na alma sincera dos meninos
Há uma luz de ternura, amor e graça,
De que o Senhor da Paz quer que se faça
O sol da nova estrada dos destinos.

Vós, que tendes a fé que ama e consola,
Fazei do vosso lar a grande escola
De justiça, de amor e de humildade!

As conquistas morais são toda a glória
Que a alma busca na vida transitória,
Pelos caminhos da imortalidade.

(João de Deus)