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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Escritores falecidos em 2012

A homenagem do blog “Veredas da Língua” a alguns grandes escritores luso-brasileiros que nos deixaram em 2012. Lembremo-nos das palavras de Machado quando da morte de José de Alencar:

E ao tornar este sol, que te há levado,
Já não acha a tristeza. Extinto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacável e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...




Autran Dourado 
(1926 – 2012)






Bartolomeu Campos de Queirós 
(1944 – 2012)



Décio Pignatari 
(1927 – 2012)







Ilka Brunhilde Laurito 
(1925 – 2012)


Ivan Lessa 
(1935 – 2012)




Lêdo Ivo 
(1924 – 2012)


Manuel António Pina 
(1943 – 2012)




Millôr Fernandes 
(1923 – 2012)

sábado, 20 de outubro de 2012

O ADEUS A MANUEL ANTÓNIO PINA


MORRE O ESCRITOR MANUEL ANTÓNIO PINA


   Uma triste notícia para o mundo das letras. Faleceu nesta sexta-feira, 19 de outubro, o escritor português Manuel António Pina. Nascido em 1943 na cidade de Sabugal e formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Pina trabalhou por mais de 30 anos no “Jornal de Notícias”, no qual mantinha uma coluna diária de crônicas intitulada “Por outras palavras”. 
   Cinéfilo declarado e apaixonado por gatos, o escritor era conhecido pelo bom humor de suas crônicas e pelo tom reflexivo-filosófico de suas poesias. Estreou na literatura em 1974 com o livro de poemas “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma é apenas um pouco tarde”.
   Entre as inúmeras atividades que exerceu, foi escritor, jornalista, redator e professor na Escola Superior de Jornalismo do Porto. Além de toda a produção poética e ficcional, deixa uma vasta obra infantil que lhe rendeu fama e prestígio.
   Em 2011, pelo conjunto da obra, foi laureado com o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário em língua portuguesa.

Alguns depoimentos sobre a morte de Manuel António Pina.

Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura de Portugal:

“Ficamos todos, amantes da poesia, muito tristes e muito sós, muito mais sós  (...) Contigo aprendemos quase tudo sobre a grande arte. Aprendemos a medida do verso e a necessidade de nunca deixar de rir. Aprendemos que nunca é tarde, afinal; que nunca deixarás de regressar às nossas estantes, ao nosso coração, à leveza que nos mostraste, ao caminho no meio das florestas. Aprendemos a esperar. Aprendemos a olhar. Aprendemos a ver em ti uma honestidade belíssima e inimitável. Aprendemos que somos aprendizes da tua capacidade de verificar a beleza das coisas e dos seus mistérios e que, às vezes, eles se reduzem a um verso que se aproxima tão perto da beleza - que queima, que nos deixa em transe sobre a terra...”

Cavaco Silva, Presidente de Portugal:

“Um autor que ficará para sempre na memória dos leitores como um dos grandes poetas da sua geração.”

Graça Morais, pintora portuguesa:

"Nestes tempos de tantas tristezas e aflições, o Manuel António Pina morreu. Vou sentir falta da sua honradez, da sua lucidez, da sua inteligência, do seu fino humor, do olhar presente com que sempre nos ouviu.”


Leia também:

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Manuel António Pina - Poemas

MANUEL ANTÓNIO PINA

"Narciso", por Caravaggio, óleo sobre tela.
Narciso

Quando me dizes "Vem", já eu parti
e já estou tão próximo de ti
que sou eu quem me chama e quem te chama
e é o meu amor que em ti me ama.

Se me olhas sou eu que me contemplo
longamente através do teu olhar
e moro em ti e sou eu o lugar
e demoro-me em ti e sou o tempo.

Eu sou talvez aquilo que me falta
(a alma se sou corpo, o corpo se sou alma)
em ti, e afogo-me na tua vida
como na minha imagem desmedida:

Sol, Lua, água, ouro,
horizontalidade, concordância,
indiferente ordem da infância,
união conjugal, morte, repouso.


(Manuel António Pina)


Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


(Manuel António Pina)



As coisas melhores

As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respirar a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar.

(embora sem ver)
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer.
E isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar!

(Manuel António Pina)

Café do Molhe

Perguntavas-me 
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

(Manuel António Pina)

A um jovem poeta 

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


(Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança")

Na biblioteca 

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.


(Manuel António Pina, in “Cuidados Intensivos”)

O escritor português Manuel António Pina, vencedor do prêmio Camões 2011
O quarto 

Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste

para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.

A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.

Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.

Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.


(Manuel António Pina, in "Como se Desenha uma Casa")

Arte poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?


(Manuel António Pina)


www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

"Um certo capitão Rodrigo" - Érico Veríssimo
"Calunga" - Jorge de Lima
Alphonsus de Guimaraens - O Solitário de Mariana
Paulo Bomfim - Poemas
O ADEUS A MANUEL ANTÓNIO PINA


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