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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Texto: "Pênalti" — Moacyr Scliar

Pênalti
 
      Como um cavaleiro colocando a armadura: era assim que ele sentia cada vez que se fardava para o futebol. Um pouco de exagero, claro: afinal, tratava-se de camiseta, não de couraça, e o jogo, bem, o jogo era uma pelada de sábado à tarde, disputada com muita energia mas pouca técnica por um grupo de velhos amigos. 
      E contudo sentia-se como um cavaleiro preparando-se para a batalha. Porque era um pouco batalha, sim; não ressoavam no campo gritos de guerra nem os uivos dos feridos, mas era um pouco batalha. Sobretudo naquele sábado. Ele não saberia dizer qual a razão, mas sentia que naquele sábado sentia algo muito importante aconteceria. Tentou disfarçar a ansiedade gracejando com os amigos, como de hábito, mas não foi sem inquietação que pisou o gramado. 
 
 
      E tal logo o juiz - que depois estaria com eles no bar, tomando cervejas e comentando os lances mais engraçados do jogo - tão logo o juiz trilou o apito, ele se deu conta do que estava acontecendo.
     O centroavante adversário.
     Era a primeira vez que estava jogando. O que também tinha um significado: depois de todos aqueles anos, haviam resolvido que estava na hora de convidar outros parceiros, gente mais jovem. Afinal, estavam ficando velhos, breve surgiram lacunas nos times, e era preciso manter aquilo que já se tornara uma tradição, o jogo de sábado.
     O centroavante adversário era um rapaz jovem. E era um grande jogador. Isto ficou claro desde os instantes iniciais, pela insolente facilidade com que se apossava da bola, com que driblava os adversários, com que deslocava pelo gramado. Perto dele, os outros jogadores - homens de meia-idade, barrigudos, desajeitados, eram figuras lamentáveis. 
      Aquele centroavante decidira a partida. Vamos perder, pensou, com um aperto no coração. Não suportava perder; não a partida de futebol do sábado. Já lhe bastavam as frustrações do cotidiano, a mediocridade do trabalho na repartição, as recriminações da mulher. No sábado, custasse o que custasse, tinha de ganhar. E o centroavante - que o destino colocara no outro time - não o impediria. Isto deixaria claro. E quanto antes, melhor.
      Não demorou muito o rapaz recebeu uma bola, avançou pelo centro do gramado, passou por um, passou por dois, e de repente estava ali invadindo a grande área, pronto a marcar o gol. Não passará, ele rosnou e, cerrando os dentes, partiu ao encontro do inimigo, como um cavaleiro em plena batalha. O rapaz vinha vindo, e claramente passaria por ele se deixasse. Não deixou. Mandou o pé, que não acertou a bola, porque não era para acertar a bola; era para acertar a canela do adversário. 
      Que, com um grito, caiu.
      Por um instante ficaram todos imóveis, perplexos. Depois, correram todos. E ali estava o jovem, retorcendo-se de dor. Ele se ajoelhou ao lado do rapaz:
      – Desculpe, meu filho - disse, confuso – eu não quis machucar você.
      O rapaz tentou esboçar um sorriso.
      – Eu sei. Você é ruim mesmo. Se soubesse que tinha um pai tão ruim não teria vindo jogar.
      Com a ajuda dos outros, que agora riam e debochavam, o centroavante pôs-se de pé.
      – Eu acho – disse o juiz– que vou ter de dar pênalti.
      Com o que todos concordavam: agressão de pai era caso, no mínimo, de pênalti. Talvez até de expulsão. O próprio rapaz cobrou a penalidade máxima. Com sucesso, naturalmente: afinal, era um grande jogador, como o pai, de olhos úmidos, teve de reconhecer. Com melancolia, mas sem nenhum rancor; se tinha de perder – e tinha de perder – era preferível que perdesse para o filho. E se precisasse ajudá-lo com um pênalti - bem, por que não?

(Moacyr Scliar)
 
www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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