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sábado, 8 de setembro de 2012

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA — ESPM — 1º Semestre de 2011

ESPM 2011 – 1º  Semestre – Prova de Língua Portuguesa


Texto para as questões de 61 a 64:

As minhas traições

SOU UM traidor. Sou um hipócrita. Não tenho defesa. Nem perdão. Mas guardar segredo é pior que partilhá-lo. Partilho.
Imagine o leitor: eu, num círculo de amigos literatos, discutindo as últimas novidades da “rentrée”. Subitamente, alguém fala sobre o futuro do livro. E elogia as qualidades do livro eletrônico.
É nesse preciso momento que eu faço cara de nojo, limpo o suor da testa com meu lenço de renda e disparo um “jamais!” que faz tremer o salão. O meu mundo é o mundo de Gutenberg: o mundo arcaico do papel e da tinta, não de “pixels”, “bits” e outras barbaridades linguísticas. Livro eletrônico? É como fazer amor com uma boneca insuflável.
“Um livro é um livro”, disparava eu, em conhecido clichê. Nada substitui o objeto físico que transportamos, dobramos, sublinhamos. Tocamos. Cheiramos. Por vezes, rasgamos ou queimamos. A ideia de ler um romance, uma biografia, um mero ensaio em suporte eletrônico chegava para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético. Nem morto.
Mas então aconteceu: uma oferta familiar em dia de aniversário. Bateram à porta. Entregaram a encomenda. Era o famoso Kindle da Amazon, com capa de pele, bonitinho. Perigosamente bonitinho. Farejei o bicho com desconfiança primitiva. Cocei o crânio com pasmo neandertal e senti-me um dos macacos de Stanley Kubrick, na sequência inicial de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”.
Como se um objeto estranho tivesse vindo diretamente do futuro. Por milagre não quebrei o aparelho com a força das minhas ossadas. Um livro eletrônico era aquilo? “Jamais, jamais”, gritava a minha pobre consciência.
Os dias passaram. O objeto, a um canto, mendigava a minha atenção sempre que passava por ele. “Jamais, jamais”, repetia ainda. E sempre com menor convicção.
Uma tarde, aproximei-me. Tentei ignorá-lo, lendo ostensivamente as “Páginas Amarelas”. O objeto soltou um suspiro de tristeza, quem sabe de abandono. E eu, com caridade cristã, decidi dedicar-lhe dois minutos de atenção, não mais. Liguei o Kindle. Com enfado, fui lendo as instruções. E, por cada página lida, a pergunta mefistofélica: experimentar nunca fez mal a ninguém, certo? Experimentei. Diretamente do site da Amazon, fui importando livros grátis. Os clássicos gregos. Os clássicos romanos. Algum Maquiavel, algum Hobbes, algum Swift. Os pensamentos dePascal. Uma edição completa das peças do bardo. Tudo a preço zero. Em 60 segundos, a Biblioteca de Alexandria viajava até minha casa. O meu entusiasmo começava a ser perigoso. Embaraçoso. Numa tarde, descarregara 50 livros. Outros 50 vinham a caminho.
E, pior, já começara a ler um: a autobiografia de Tony Blair, que comprei a preço reduzido. Lia. Inacreditavelmente, sublinhava. Mais inacreditavelmente ainda, escrevia notas. Aquilo não era um livro. Era melhor que um livro. Que foi mesmo que eu disse?
Hoje, levo uma vida dupla. Em público, passeio os meus grossos volumes da “Enciclopédia Britânica”, em gesto de resistência ao mundo virtual. Finjo. Quando me falam nas virtudes do Kindle, ou do e-book, as minhas gargalhadas são jocosas, ofensivas, delirantes. Mas são também forçadas e encenadas: chego em casa e chamo logo pelo meu Kindle como quem chama pelo gato. E ele vem, pronto para miar centenas e centenas de obras-primas. Se um dia a casa arder e eu estiver em estado delirante, o leitor já sabe o que significa “Salvem o gato! Salvem o gato!”.
Moral da história? A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida.
Haverá sempre livros que desejarei ter; e “ter” no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor. Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial.
Regresso ao início: sou um traidor. E no dia em que os meus amigos literatos, cansados de minhas mentiras, vierem buscar-me para a fogueira, nada peço em minha defesa. Espero apenas que poupem o gato.

(João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 05/10/2010)

rentrée: em francês, regresso, retorno, reentrada.
herético: relativo a ou que envolve heresia.

QUESTÃO 61 - A traição ou a hipocrisia que o narrador assume no início do texto estão ligadas ao fato de:

a) guardar segredo de sua visão preconceituosa sobre o livro eletrônico.
b) não  revelar  para  os  amigos  literatos  sua  aversão  ao “e-book”.
c) substituir definitivamente o livro tradicional de papel pelo livro virtual.
d) ter uma postura de herege ante o livro eletrônico, não reconhecendo as qualidades deste.
e) render-se, depois de tantas críticas e resistência, aos atrativos do “Kindle”.

QUESTÃO 62 - A frase que expressa um conceito paradoxal é:

a) “para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético.”
b) “Cocei o crânio com pasmo neandertal...”
c) “Hoje, levo uma vida dupla.”
d) “as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor.”
e) “Espero apenas que poupem o meu gato.”

QUESTÃO 63 - Ao longo do texto, o narrador se mostra avesso ao “Kindle” (livro eletrônico). O fato que explica sua primeira alteração de postura transparece em:

a) “mendigava minha atenção”
b) “O objeto soltou um suspiro de tristeza”
c) “com caridade cristã”
d) “experimentar nunca fez mal a ninguém”
 e) “Salvem o gato!”

QUESTÃO 64 - Sobre a frase: “Um livro é um livro”, pode-se afirmar que é um exemplo de:

a) preterição, por tratar de um assunto ao mesmo tempo que se afirma que será evitado.
b) aforismo, por se tratar de uma sentença breve e conceituosa, uma máxima.
c) tautologia, pelo fato de sujeito e predicado serem expressos com o mesmo termo e mesmo conceito.
d) lugar-comum ou chavão, por expressar um argumento ou ideia já muito conhecida ou repisada.
e) pleonasmo vicioso, pelo fato de a frase expressar um conteúdo redundante.

Texto para as questões de 65 a 70:

A massacrante felicidade dos outros

            (...) Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: “Eu espero / acontecimentos / só que quando anoitece / é festa no outro apartamento”.
Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.
As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.
Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados. Pra consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. 
Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta.
Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem. Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. (...) Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?
Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista. As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento.

(MARTHA MEDEIROS, jornalista e escritora, colunista do jornal "Zero Hora" e de "O Globo")

QUESTÃO 65 - Todas as metáforas espaciais usadas no texto estão no mesmo plano semântico, exceto:

a) “outros apartamentos” b) “grama do vizinho” 
c) “em algum lugar”        d) “mesmo barco”           e) “festa lá fora”

QUESTÃO 66 - Os versos de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa): “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo” confirmam ironicamente:

a) o sentimento de rejeição sofrido pelo indivíduo ante a felicidade contagiante da sociedade.
b) a imaginação fértil da maioria das pessoas em relação ao sucesso e felicidade alheios.
c) a comemoração, por toda a sociedade, do próprio êxito financeiro e amoroso.
d) a exaltação do triunfo das pessoas ante as adversidades da vida.
e) a ocultação, por parte do ser humano, de suas angústias, aflições ou fraquezas.

QUESTÃO 67 - As frases interrogativas no penúltimo parágrafo são:

a) parábolas que querem provocar no leitor uma reação mais vibrante em relação à vida.
b) perguntas retóricas que questionam os estereótipos vigentes relacionados à felicidade.
c) alegorias que buscam uma postura mais crítica do leitor para os modelos de felicidade.
d) monólogos interiores que revelam as dúvidas da autora sobre a melhor forma de felicidade.
e) solilóquios que extravasam de maneira ordenada e lógica os pensamentos e emoções da autora.

QUESTÃO 68 - “Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista.” Levando em conta o texto, o termo em destaque possui melhor definição em:

a) que produz sensação intensa.
b) que desperta viva admiração ou entusiasmo; espetacular; formidável.
c) que há divulgação e exploração, em tom espalhafatoso, de matéria capaz de emocionar ou escandalizar.
d) que há surpresa ou grande impressão devida a um acontecimento raro, incomum.
e) que produz fato de grande comoção moral; emocionante.

QUESTÃO 69 - No texto, aquilo que pode ser considerado “falsos holofotes” são os(as):

a) “amigos leais” b) “nossas músicas” c) “livros” d) “paixões e fortunas” e) “estes versos”

QUESTÃO 70 - O texto todo faz alusão ao recorrente jogo entre ser e parecer praticado pela sociedade. A passagem que não expressa diretamente esse enfoque é:

a)  “Passei minha adolescência com esta sensação...”
b) “é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias.”
c) “Os notáveis alardeiam muito suas vitórias...”
d) “Pra consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores.”
e) “Nesta era de exaltação de celebridades – reais ou imaginárias...”

QUESTÃO 71 - Assinale a opção em que a manchete de jornal não apresenta duplo sentido.

a) Envergonhado, Papa Bento 16 condena abusos de crianças nos EUA
a) Golfo do México: barreira nos EUA não contém óleo que vazou
c) Amiga de Eliza diz que o goleiro Bruno a ameaçou
d) Rodízio completa 15 anos com efeito quase nulo sobre ar de SP
e) Bolsa paulista tem pior dia em 6 semanas com pessimismo externo

QUESTÃO 72 - Hipálage, segundo Massaud Moisés, “designa um expediente retórico próprio da poesia, mediante o qual uma palavra troca o lugar que logicamente ocuparia na sequência frásica por outro, junto de um termo ao qual se vincula gramaticalmente.” Em todas as frases abaixo, ocorre essa figura de linguagem, exceto em uma. Assinale-a:

a) “uma alvura de saia moveu-se no escuro” (Eça de Queirós)
b) “Mandados da rainha, que abundantes / Mesas de altos manjares excelentes” (Camões)
c) “apetite necrófago da mosca” (Augusto dos Anjos)
d) “o riscar dos fósforos espavoridos” (Clarice Lispector)
e) “de um povo heroico o brado retumbante” (Osório Duque Estrada)

QUESTÃO 73


A famosa frase em inglês da propaganda da NIKE, num sentido literal, significa “Apenas faça”. Num sentido mais amplo, significa “Faça sem perguntar o porquê”. A imagem acima pode ter várias leituras. Assinale a única descabida:

a) Há um flagrante contraste entre um garoto, imagem da pobreza (magro, sem camisa e descalço), e um dos mais famosos ícones de consumo do mundo capitalista.
b) A imagem do garoto pode lembrar que nem todos possuem acesso aos bens de consumo da sociedade capitalista.
c) O comportamento do garoto, poderia ser entendido como atitude de desprezo, de rebeldia ou de irreverência para com aquilo que é símbolo de culto ao esporte ou até de “status” (uso da marca).
d) A propaganda, por intenção irônica, mostra um garoto cumprindo em atitude aquilo que a frase ordena em inglês.
e) O cachorro, olhando para a cena, simboliza inequivocamente a humanidade animalizada, apenas plateia do conflito pobreza e riqueza.

ps.  A prova da ESPM é extremamente bem elaborada e com adequado grau de dificuldade ao vestibulando. Ainda assim, cabe apontar um deslize gramatical na alternativa C. Há uma vírgula indevida entre o sujeito e o verbo. A versão original da prova foi mantida, mas convém mostrar a forma exigida pela norma culta: “O comportamento do garoto poderia...”.

QUESTÃO 74

Epigrama 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo persiste.

(Cecília Meireles)

Assinale a afirmação errônea sobre o poema:

a) Ao dialogar com a figura da Felicidade, o “eu” poético personifica-a.
b) A Felicidade é caracterizada por elementos paradoxais.
c) As horas foram inventadas como tentativa de substituição da Felicidade.
d) Constata-se que o tempo é tão fugaz quanto a Felicidade.
e) A Felicidade acaba sendo responsável pelo vazio existencial.

QUESTÃO 75 - Se as formas verbais (no Presente do Indicativo) dos dois primeiros versos exprimissem ordem, na mesma pessoa, teríamos respectivamente:

a) sê, custa, vem, não te demores.
b) seja, custa, vem, não se demore.
c) sede, custai, vinde, não vos demoreis.
d) sê, custa, venha, não te demoras.
e) sê, custe, vem, não te demore.

QUESTÃO 76 - Assinale a frase que apresente o melhor uso das vírgulas:

a) Com o desenvolvimento econômico a participação dos serviços sofisticados, aumenta e, em consequência, a participação da indústria de transformação cai.
b) Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta, e em consequência, a participação da indústria de transformação cai.
c) Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequência, a participação da indústria de transformação cai.
d) Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequência a participação da indústria de transformação cai.
e) Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta e em consequência, a participação da indústria de transformação, cai.

QUESTÃO 77

QUESTÃO DE PONTUAÇÃO

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca)

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia)
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política)

O homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

(João Cabral de Melo Neto)

Assinale a afirmação inaceitável sobre o poema:

a) A exclamação estaria relacionada a uma vida exuberante, prazerosa, arrebatada.
b) Há um questionamento existencial sob vários pontos de vista humanos.
c) Numa suposta vida atribulada, o homem deve buscar equilíbrio nas pausas.
d) Na política, sugere-se que não há normas, espécie de liberdade total para mandos e desmandos.
e) O “inevitável ponto final” é metáfora da morte, ideia com a qual o homem não se conforma.

QUESTÃO 78

CAPÍTULO IV / UM DEVER AMARÍSSIMO

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servir a prolongar as frases.

(Machado de Assis, Dom Casmurro)

José Dias, caracterizado como o homem dos superlativos, é uma paródia, uma caricatura da expressão verbal pomposa e oca, da subliteratura dos salões. Sua retórica exagerada configura um discurso redundante, reduto de clichês, lugares-comuns, adjetivos e advérbios inexpressivos.

(Fernando Teixeira).

Das frases proferidas pela personagem, assinale a que NÃO necessariamente se enquadra na definição acima:

a) “Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo.” (XXV)
 b) “... e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia...” (LXI)
c) “A viagem à Europa é o que é preciso, mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos...” (LXI)
d) “... que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus.” (XCV)
e) “... uma grande alma, espírito ativo, coração reto, amigo, bom amigo, digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera...”  (CXXVI)

QUESTÃO 79 - No título “Um Dever Amaríssimo”, o termo em destaque significa:

a) amar demais      b) de amavios (sedução, feitiço, encanto)
c) amoroso             d) muito amaro (amargo)                           e) de amante

QUESTÃO 80

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
(...)

(in: “Poemas”,  Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)

Assinale a afirmação que não condiz:

a) Poema desabafo em que o “eu” poético alude ironicamente ao fato de que só ele confessa seus “delitos”.
b) Há uma oposição inicial entre o poeta, associado a qualidades negativas, e os campeões, associados a virtudes.
c) A metáfora do “soco” é uma referência à própria falta de coragem, à própria covardia.
d) Depreende-se do poema que o que vigora na sociedade é a hipocrisia, e que o “eu” poético é julgado e marginalizado em função disso.
e) Devido a sua “sujeira”, o “eu” poético se sente um plebeu ante o caráter principesco dos outros.

GABARITO

61 – E   62 – D   63 – D   64 – C   65 – D   66 – E   67 – B   68 – C   69 – D   70 – A
71 – D   72 – E   73 – E   74 – C   75 – A   76 – C   77 – B   78 – C   79 – D   80 – E


Leia também:

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Texto: “A casa viaja no tempo” – Rubem Braga

A casa viaja no tempo

"Keeping out of the cold" - James Hayllar
Volto, como antigamente, a esta grande casa amiga, na noite de domingo. Recuso, com o mesmo sorriso, a batida que o dono da casa me oferece, e tomo a mesma cachacinha de sempre. O dono da casa é o mesmo, a cachaça é a mesma, a casa, eu… E tantas vezes vim aqui que não tomo consciência das coisas que mudaram. 
Sento-me, por acaso, ao lado de uma jovem senhora, amiga da família, e a conversa é tranquila e morna. Mas de repente, a propósito de alguma coisa, ela diz que se lembra de mim há muito tempo. “Você vinha às vezes jantar, sempre assim, de paletó e sem gravata. Sentava calado, com a cara meio triste, um ar sério. Eu me lembro muito bem. Eu tinha seis anos…”
Seis anos! Certamente não me lembro dessa menina de seis anos; a casa sempre esteve cheia de meninas e mocinhas, há pessoas que eu conheço de muitos domingos através de muitos anos, e das quais nem sequer sei o nome. Pessoas que para mim fazem parte desta casa e desses domingos, visitando esta casa.
A primeira recordação que tenho dessa jovem é de uma adolescente que às vezes dançava no jardim. Era certamente linda; mas não creio que tivéssemos trocado, através dos anos, mais de duas ou três frases ocasionais. Sempre tive a vaga impressão de que, por algum motivo imponderável, ela não simpatizava comigo. Só agora me dou conta de que a vi crescer, terei sido uma distraída testemunha de seus flertes, seu namoro; lembro-me de seu noivado, lembro-me quando se casou, sei que hoje, ainda tão moça, tem dois filhos – e a maternidade veio definir melhor sua radiosa beleza juvenil.
Inutilmente procuro reconstituir a menina de seis anos que me olhava na mesa, e me achava triste. E não faço a menor ideia do que ela soube ou viu a meu respeito durante esses inumeráveis domingos. Certamente fui sempre, para ela, uma figura constante, mas vaga – um senhor feio e quieto, que ela se acostumou a ver distraidamente de vez em quando  às vezes com um ano ou mais de intervalo, que viaja e reaparece com a mesma cara e o mesmo jeito. Tomo consciência de que é a primeira vez que conversamos os dois, ao fim de tantos anos de vagos “boa-noite” e “como vai?” mas nossa conversa tranquila e trivial me emociona de repente quando ela diz: “eu tinha seis anos...”
Penso em tudo o que vivi nestes anos – tanta coisa tão intensa que veio e foi – e penso na casa, no dono da casa, na família, na gente que passou por aqui. A casa não é mais a mesma, a casa não é mais casa, é um grande navio que vai singrando o tempo, que vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo: dentro em pouco outra menina de seis anos, filha dessa menina, estará sentada na mesma sala, sob a mesma lâmpada, e com seus dois olhinhos pretos verá o mesmo senhor calado, de cara triste – o mesmo senhor que numa noite de domingo, sem o saber, se despedirá para sempre e irá para o remoto país onde encontrará outras sombras queridas ou indiferentes que aqui viveram também suas noites de domingo – e não voltaram mais.

(Rubem Braga)

Leia também:

Affonso Romano de Sant´Anna – Poemas
“O bracelete” – José de Alencar
Augusto Frederico Schmidt – Poemas
“Fita Verde no cabelo” – Guimarães Rosa


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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Affonso Romano de Sant'Anna – Poemas

Affonso Romano de Sant'Anna – Poemas

"Arrufos" - Belmiro de Almeida
Separação

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Arte-final

Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Silêncio Amoroso - 2 

Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Amar a Morte

Amar de peito aberto a morte.
Não de esguelha, de frente.
Amar a morte,
digamos,
despudoradamente.

Amá-la como se ama
uma bela mulher
e inteligente.Amá-la
diariamente
sabendo que por mais
que a amemos
ela se deitará
com uns e outros
indiferente.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Balada dos Casais

Os casais são tão iguais,
por isto se casam
e anunciam nos jornais.
Os casais são tão iguais,
por isto se beijam
fazem filhos, se separam
prometendo
não se casarem jamais.

Os casais são tão iguais,
que além de trocar fraldas,
tirar fotos, acabam se tornando
avós e pais.

Os casais são tão iguais,
que se amam e se insultam
e se matam na realidade
e nos filmes policiais.

Os casais são tão iguais,
que embora jurem um ao outro
amor eterno
sempre querem mais.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Letra: Ferida Exposta ao Tempo

É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais:rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.

O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

"Odalisca" - Henri Matisse

Poemas para a Amiga – (Fragmento 6)

Estás partindo de mim
e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vai levando,
como eu que fico
e em mim vou te criando.
Tanto mais tu me despedes
e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando
e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança de teu ser
me conformando.

Estás partindo de mim
e eu pressinto
na verdade, há muito que partias,
há muito que eu consinto
que tu partas como um mito..

Mas não és a única que partes
nem eu o único que fico:
sei que juntos e contrários
nos partimos:
-pois tanto mais nos desencontros nos revemos,
tanto mais nas despedidas consentimos.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

A Implosão da Mentira

(ou o episódio do Riocentro – fragmentos)

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente.Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

Fragmento 4

(...)

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

"O beijo" - Picasso.

Errando no Museu Picasso

Picasso
         erra
quando pinta
                e erra
quando ama.

Mas quando erra,
                     erra
violenta e
generosamente,
                   erra
com exuberante
arrogância,
             erra
como o touro erra
seu papel de vítima,
sangrando
quem, por muito amar, fere
e sai ovacionado
com banderilhas na carne.

Pintor do excesso
                      e exuberância,
Picasso
          é extravagância.
Ele erra,
          mas nele,
                      o erro
mais que erro
              - é errância.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Despedidas 

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual

Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

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Leia também:

“O bracelete” – José de Alencar
Augusto Frederico Schmidt – Poemas
“Circuito fechado” – Ricardo Ramos
“A casa viaja no tempo” – Rubem Braga



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