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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ALPHONSUS DE GUIMARAENS – O SOLITÁRIO DE MARIANA

ALPHONSUS DE GUIMARAENS – O SOLITÁRIO DE MARIANA

- Nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870, e faleceu em Mariana (MG), em 1921.
- Formou-se em Direito, trabalhando posteriormente como juiz na cidade de Mariana, onde ficaria até a sua morte. Recebeu o apelido de “O solitário de Mariana” devido ao estado de isolamento a qual se submeteu quando lá viveu.
- Foi um dos maiores poetas do Simbolismo brasileiro.
- Típico representante simbolista, tendo em sua poesia as características marcantes dessa escola literária: o misticismo, a sugestividade, a musicalidade, os aspectos vagos e nebulosos, a sonoridade, a espiritualidade.
- Entre seus temas preferidos figuram a morte da mulher amada, o amor, a morte, a solidão e a melancolia.
- Entre seus poemas mais famosos estão “Ismália” e “Hão de chorar por ela os cinamonos”, este feito em honra à sua falecida ex-noiva e prima Constança,
- É considerado o mais místico dos poetas simbolistas.

O poeta e professor Péricles Eugênio da Silva Ramos assim definia Alphonsus de Guimaraens:

"Sua poesia, dolorida e sepulcral, dá testemunho de um artista consciente, que se impressionou, para a vida e para a morte, com a perda de sua prima e noiva, Constança.
Lê-lo é ver uma cruz coberta com os panos roxos da Semana Santa, mas também contemplar o céu aberto num luar de lírios e de arcanjos”.

Os modernistas tinham profunda admiração pelo poeta. Mário de Andrade o visitou em Mariana, em 1919, e escreveu um artigo em que lamentava o claustro e o quase esquecimento do poeta:

“Não haverá no Brasil um editor que lhes agasalhe os poemas, tirando-os da escuridão? Não existirá a piedade dum povo bandeirante que vá descobrir nas Minas Gerais essa mina de diamantes castiços e lapidados, e deslumbre os da nossa raça com os tesoiros que Alphonsus guarda junto de si? Onde? quando o abre-te Sésamo dessa gruta encantada? ...”

Quando de sua morte, em 1921, mesmo o mais radical dos modernistas, Oswald de Andrade, reconhece a grandeza do poeta:

“Hoje que uma estuante geração paulista quebra nas mãos a urupuca de taquara dos versos medidos, a figura de Alphonsus de Guimaraens assume a sua inteira grandeza no movimento da boa arte nacional (...). A reação por ele iniciada contra a incultura e o atraso dos nossos principais poetas está sendo rigorosamente continuada (...). Poetas como ele honram não só uma geração como uma pátria.”

E ainda Manuel Bandeira, na década de 50, por ocasião da data de nascimento do poeta, escreve:

“Se fosse vivo, completaria hoje setenta e três anos. Se fosse vivo... Em verdade vivo ele está e cada vez mais no afeto e na admiração de todos os brasileiros”.



"Ismália", ilustração de Odilon Moraes
Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimaraens)

                        Saudade

Uma mulher que por amar soluça,
Na torre da minha alma se debruça.

E despenha-se o luar na encosta do monte,
            Tranquilamente, como uma fonte.

            Dois ou três demônios familiares
Passam cantando, para voar logo após pelos ares.

E despenha-se o luar pela encosta do monte.
O monte fica defronte
Da torre da minha alma onde soluça
Essa mulher: e quando o sol entre as nuvens se embuça,
            Nas horas mortas dos crepúsculos tão vagos,
De azul, vestida como o céu, como o céu misteriosa,
            Ela abre os olhos imortais, como dois lagos...
            Virgem Piedosa !

E os sonhos passam, cisnes que  não cantam mais,
            No infinito dos seus olhos imortais,
            Abertos para a eternidade...

Pobre mulher, pobre Saudade!

(Alphonsus de Guimaraens)

Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha alma aos teus pés para cantar-te,
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-te o vulto em toda a parte.

(Alphonsus de Guimaraens)

Árias e Canções

A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensanguentara,
Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.

(Alphonsus de Guimaraens)

Cantem outros a clara cor virente

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

(Alphonsus de Guimaraens)

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos...

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"


(Alphonsus de Guimaraens)


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