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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cacaso – Poemas

CACASO - POEMAS

Indefinição
 
Pois assim é a poesia
Esta chama tão distante mas tão perto de
Estar fria.

(Cacaso) 

Imagens I

Para evitar malentendidos
digamos desde já que nos amamos

(Cacaso)

Jogos florais

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

(Cacaso)

E com vocês a modernidade

Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!

(Cacaso)

Refém

Eu sempre quis requebrar
só me faltou poesia
eu nunca soube rimar
mas sempre tive ousadia
nunca joguei o destino
e nem matei a família
a minha sorte na vida
se escreve com C cedilha
Eu nunca tive ideal
nunca avancei o sinal
nem profanei minha filha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

Eu sempre quis acertar
só me faltou pontaria
eu nunca soube cantar
mas sempre tive mania
nunca brinquei carnaval
e nem saí da folia
nunca pulei a fogueira
e nem dancei a quadrilha
Eu nunca amei a ninguém
nunca devi um vintém
nem encontrei minha trilha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

Terceiro Amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou 
Pintura de Carole Beatrice Perret.

como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

lar doce lar

Minha pátria é minha infância
Por isso vivo no exílio.

(Cacaso)

Meio-Termo

Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”) 

Happy end

O meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

(Cacaso) 
Hora e Lugar

Nosso amor foi um tormento
mas eu queria voltar
com você o sofrimento
era fácil de aguentar
até mesmo o fingimento
tinha lá o seu lugar
Mas sem você é um despeito
eu não me entendo direito
saio da terra e do ar

Nosso amor foi um deserto
mas tinha tudo pra dar
faltou apenas dar certo
questão de hora e lugar
A razão me trouxe embora
mas eu queria ficar
a paixão que me devora
sei que ela vai me matar

A vida vai lá fora
preciso de respirar
mas sem você é um sufoco
eu não me mato por pouco
ando fugindo do azar

Nosso amor passou por perto
tava tão fácil de achar
só faltou ser descoberto
questão de hora e lugar

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

Surdina

Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora a Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina...
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina...

(Cacaso)

Amor Amor

Quando o mar
quando o mar tem mais segredo
não é quando ele se agita
nem é quando é tempestade
nem é quando é ventania
quando o mar tem mais segredo
é quando é calmaria
quando o amor
quando o amor tem mais perigo
não é quando ele se arrisca
nem é quando ele se ausenta
nem quando eu me desespero
quando o amor tem mais perigo
é quando ele é sincero

(Cacaso)

Cinema mudo

IV

Neste retrato de noivado divulgamos
os nossos corpos solteiros.
Na hierarquia dos sexos, transparente,
escorrego
para o passado.
Na falta de quem nos olhe
vamos ficando perfeitos e belos
Tão belos e tão perfeitos
como a tarde quando pressente
as glândulas aéreas da noite.
Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.

(Cacaso)

ah

Ah se pelo menos o pensamento
não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração
não tivesse memória!
Como seria menos linda
e mais suave minha história!

(Cacaso)

6 comentários:

  1. Cacaso, poesia simples e genial... puro delírio, doce magia....

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  2. Prof Maurício, gostei do teu site, principalmente da matéria sobre o CACASO, pois estou fazendo um levantamento sobe poetas homenageados com nomes de rua em Jacarepaguá e o nome dele caiu logo na primeira busca. E ao fazer uma busca sobre ele, veio-me o teu site. Parabens, ganhou um seguidor!

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  3. Sem lero-lero, os versos de Cacaso encantam pela simplicidade e plenitude. O sentimento chega rápido como o verso curto!

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  4. Tão lindo...Tão lindo!!!
    "quando o amor tem mais perigo
    é quando ele é sincero"
    Romanticamente genial!

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