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domingo, 30 de junho de 2013

José Craveirinha – Poemas

José Craveirinha

Sílabas

Sento-me à máquina. Datilografo. 
Vacilam-me nos dedos as teclas.
Desalinhadas enfileiram-se as letras.
É angústia da minha velha máquina
ou será da fita gasta?
É que na limpidez do papel
Sobressaem nubladas
Cinco letras:
Maria.

(José Craveirinha)

Memória dos dois

Ambos
juntos na mesma memória
Eu
o Zé que não te esquece.
Tu
a Maria sempre lembrada.

(José Craveirinha)

A nossa casa

Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.

Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Classica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que é morar no bairro de Lhanguene.

Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.

Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos. 

(José Craveirinha)

"Prelúcio". Malangatana Valente.
Aldeia Queimada

Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
atuam.

É
de cinzas
o vestígio das palhotas. 

(José Craveirinha)

Jacarandás de saudade

Tempo
de seus passos vindo
pelo tapete de roxas flores
dos jacarandás enfileirados na rua.

Hoje
é eterno o ontem
da silhueta de Maria
caminhando no asfalto da memória
em nebuloso pé ante pé do tempo.
...
Todo o tempo
colar de missangas ao pescoço
sempre o tempo todo
suruma minha suruma da saudade.

Suruma daquela saudade
das flores dos jacarandás
nos passos de Maria.

(José Craveirinha)


A boca

Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.

Alva dentadura
antônima do riso
às escâncaras desde a cilada.

Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.

(José Craveirinha)

Pablo picassamente

lembrança 
"A sopa". Pablo Picasso.

dolorosa gêmea de ti
que o ralo cabelo
(algodão-cinza-e-poeira)
me vai requintando por fora.

Ferida
de memória
tão Pablo Picassamente bem suturada
que poucos podem perceber
onde ela te perpetua. 

Além da rigidez fatal da tela
e dos agoniados azuis
é de vinagre impressionista
meu sombrio tom de guache.

(José Craveirinha)
Em casa

Em casa
nenhuma hora coincide
com a hora das refeições.
Chego.
Cedo ou tarde
ou nem sequer aparecendo
ninguém me pergunta onde estive.
Demore ou não demore
ninguém me espera.

(José Craveirinha)

Mesa grande 

Dos nossos projetos
de uma mesa maior
mais me lembro
quando sentado no mesmo lugar
aquela mesma exígua mesa
agora é uma mesa grande.

(José Craveirinha) 

O velho dos vasos

No remanso de água
dos vasos.

Com as sedosas pétalas
contíguas ao teu sono
perfumando à volta.

Ultimamente é o Zeca
quem paga ao velhote
que põe flores
e muda a água.

(José Craveirinha)

Pressentimento

Espera aí mesmo por mim.
Exilado nos meus versos
vou ter contigo.
Sem falta!

(José Craveirinha)

Quero Ser Tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

(José Craveirinha)

Grito Negro

Eu sou carvão! 
"Mercado de frutas". Malangatana Valente.

E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

(José Craveirinha)

Poema do futuro cidadão

Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe.
Vim e estou aqui!

Não nasci apenas eu
nem tu nem outro...
mas irmão.

Mas
tenho amor para dar às mãos-cheias.
Amor do que sou
e nada mais.

E
tenho no coração
gritos que não são meus somente
porque venho dum país que ainda não existe.

Ah! Tenho meu amor a rodos para dar
do que sou.
Eu!
Homem qualquer
cidadão de uma nação que ainda não existe.

(José Craveirinha)

De profundis

Extenso dia taciturno de nuvens.
Nas ramadas passarinhos de mágoa
Lacrimejando chilros. Um braçado
Policromo de flores
Perfumado
De profundis
De coroas.
Tão duro
Assim lacônico
Nosso adeus de rosas, Maria.

(José Craveirinha)

O meu rosto

Logo pela manhã 
"Mulher com os braços cruzados". Picasso

dizem-me carrancuda a expressão
da minha face.
Escarninho não respondo.

Para quê as palavras
ante a evidência das rugas?

A esferográfica escreve
o que sinto
e explícita a face hostil
reduz a mim mesmo
a tristeza do que nos sucede.

Depois...
é só passar à máquina.

(José Craveirinha)

Fábula

"Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou
assoprou com força o balão amarelo.
Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!
Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos."

(José Craveirinha)

Pena

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.
Mas não me chames negro.
Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

(José Craveirinha)

Segredo

A noite estava escura
escura e fechada até à beira do mar
escura e fechada estava a noite.

E os langues
olhos dos dois encontraram
no céu o Cruzeiro do Sul Xi-Ronga
e uma poalha de estrelas cobriu confidências
mundos de silêncio
o litúrgico frenesi dos dedos
e o desejo ardente de não ser
mais do que um.
A noite estava escura
E fechada à beira do mar.

Mas o beijo
Dos dois no tempo esquecido
Transformou a noite.

(José Craveirinha)


Leia também:
"Dispersão" - Mário de Sá-Carneiro
"O sino de ouro" - Rubem Braga
"Cem anos de perdão" - Clarice Lispector

www.veredasdalingua.blogspot.com.br
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Um comentário:

  1. Craveirinha, que saudades tenho de você, dos poemas, do seu sorriso, do galanteio, o meu poeta maior me acompanhará sempre para onde eu for, um poeta não morre jamais, e então,... se esse poeta se chama José Craveirinha, esquecer se torna uma impossibilidade, Isadora Prates Dias.

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