Temas de Redação
- 1ª Fase – Unicamp – 2001
ORIENTAÇÃO
GERAL
Há
três temas sugeridos para redação. Você deve escolher um deles e desenvolvê-lo
conforme o tipo de texto indicado, segundo as instruções que se encontram na
orientação dada para cada tema. Assinale no alto da página de resposta o tema
escolhido.
Coletânea
de textos: Os
textos foram tirados de fontes diversas e apresentam fatos, dados, opiniões e
argumentos relacionados com o tema. Eles não representam a opinião da banca
examinadora: são textos como aqueles a que você está exposto na sua vida diária
de leitor de jornais, revistas ou livros, e que você deve saber ler e comentar.
Consulte a coletânea e utilize-a segundo as instruções específicas dadas para
cada tema. Não a copie. Ao elaborar sua redação, você poderá utilizar-se também
de outras informações que julgar relevantes para o desenvolvimento do tema
escolhido.
ATENÇÃO:
SE VOCÊ NÃO SEGUIR AS INSTRUÇÕES RELATIVAS AO TEMA QUE ESCOLHEU, SUA REDAÇÃO
SERÁ ANULADA.
TEMA
A
Um
dos temas dominantes de nossa época é o fim das fronteiras – científicas,
geográficas, econômicas, de Comunicação. Foram ultrapassados até mesmo os
limites da ficção científica nas pesquisas sobre genoma e sobre a estrutura do
universo e da matéria. No campo das comunicações, as novidades são diárias.
Para muitos, vivemos sob o signo da globalização. Para outros, as conquistas da
humanidade não são comuns a todas as pessoas. Paradoxalmente, continuam
persistindo, e até se aprofundando, as lutas por identidades (culturais, de
gênero, de etnia, etc.). Tomando como referência a coletânea abaixo, escreva
uma dissertação sobre o tema:
Um
paradoxo da modernidade: eliminação de fronteiras, criação de fronteiras.
1.
Bárbaro, adj. e s. Do gr. bárbaros, “estrangeiro, não grego[...]; relativo a
estrangeiros, a bárbaros; semelhante à linguagem, aos costumes dos bárbaros;
bárbaro, incorrecto (em referência a erros contra o bom uso do idioma grego);
grosseiro, não civilizado, cruel”;
pelo lat. barbaru- “bárbaro, estrangeiro (= latino para os Gregos); bárbaro,
estrangeiro (todos os povos, à excepção dos Gregos e Romanos); bárbaro,
inculto, selvagem; bárbaro, incorrecto (falando da linguagem)”. Pela comparação
com o sânscrito barbarah, “gago”, esloveno brbrati, brbljatati, sérvio
brboljiti, “patinhar, chafurdar”, lituano birbti, “zumbir”, barbozius, “zumbidor”,
verifica-se estarmos na presença de onomatopeias, das quais podemos aproximar o
latim balbus (cf. Boisacq, 144- 145), donde em português balbo e bobo (q.v.s.v.
balbuciar); [...]
(José
Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 2a. ed., Lisboa,
Confluência, 1967.)
2.
Assim, acreditei por muito tempo que esta aldeia, onde não nasci, fosse o mundo
inteiro. Agora que conheci realmente o mundo e sei que ele é feito de muitas pequenas
aldeias, não sei se estava tão enganado assim quando era menino. Anda-se por
mar e por terra da mesma forma que os rapazes do meu tempo iam às festas nas
aldeias vizinhas, e dançavam, bebiam, brigavam e voltavam para casa
arrebentados. [...] é necessário ter-se uma aldeia, nem que seja apenas pelo
prazer de abandoná-la. Uma aldeia significa não
estar sozinho, saber que nas pessoas, nas plantas, na terra há alguma coisa de
nós, que, mesmo quando se não está presente, continua à nossa espera. Mas é
difícil ficar sossegado. [...] Essas coisas só são compreendidas com o tempo,
com a experiência. Será
possível que, aos quarenta anos e com o tanto de mundo que conheci, não saiba
ainda o que é minha aldeia?
(Cesare
Pavese, A lua e as fogueiras, São Paulo, Círculo do Livro, p. 10 -11.)
3.
O movimento do qual eu participo não está vinculado ideologicamente a nada.
Nossas ações não são especialmente dirigidas contra os Estados Unidos, mas
contra as multinacionais. Entre elas, as que produzem organismos geneticamente
modificados, os transgênicos.
São empresas americanas, mas também européias. Para nós, elas são todas iguais.
A forma como a agricultura geneticamente modificada tem sido imposta aos países
europeus não nos deixa outra alternativa senão reagir. [...] O McDonald’s é o
símbolo da uniformização da comida e da cultura americana no mundo.
(José
Bové, líder camponês francês, em entrevista à ISTOÉ, 30/08/2000, p. 10 -11.)
4.
– Por que me matais?
– Como! Não habitais do outro lado da água?
Meu amigo, se morásseis deste lado, eu seria um assassino, seria injusto
matar-vos desta maneira; mas, desde que residis do outro lado, sou um bravo, e
isso é justo.
(Pascal,
Pensamentos, §293, São Paulo, AbrilCultural, Col. Os Pensadores.)
5.
Cem anos passados, aquele destino trágico, que confrontou algozes e vítimas no
maior “crime da nacionalidade” perpetrado, parece ter-se alastrado, como
maldição, para todo o território do país. O incêndio de Canudos espalhou-se por
todo o campo e cidades. O vento levou as cinzas para muito longe, fora de
qualquer controle. O grande desencontro de tempos dá-se hoje, simultaneamente,
em muitos espaços. Essa a grande herança dos modernos. As muitas figuras em que
se multiplicam e dispersam os condenados de Canudos, em plena era de
globalização, continuam a vagar sem nomes, sem terra, sem história: são quase
60 milhões de pobres, párias e miseráveis esquecidos do Brasil (que é este
gigante que dorme, enquanto seus filhos – os mais novos e os mais antigos – agonizam
nas ruas e estradas?).
(F.
Foot Hardman, “Tróia de Taipa, Canudos e os Irracionais”. In Morte e Progresso:
a Cultura Brasileira como apagamento de rastros, São Paulo, Unesp, 1998, p. 132.)
6.
O apartheid brasileiro pode ir a juízo, imaginem. A associação nacional dos
shoppings deve ir à justiça a fim de impedir pobres de perturbar seu comércio.
Na origem da demanda judicial estaria o passeio de 130 pobres pelo shopping Rio
Sul, organizado por uma tal Frente de Luta Popular. Talvez seja ilegal a
perturbação do comércio. Na tradição brasileira das famílias proprietárias, pobres
nas proximidades sempre perturbam. Como dizem os economistas, há um case aí. O
apartheid no tribunal!
(Vinícius
Torres Freire, “Crioulos no limite”, Folha de S. Paulo, 27/08/2000, p. A 2.)
7.
Se os senhores fossem todos alienistas e eu lhes apresentasse um caso,
provavelmente o diagnóstico que os senhores me dariam do paciente seria a
loucura. Eu não concordaria, pois enquanto esse homem puder explicar-se e eu
sentir que podemos manter um contato, afirmarei que ele não está louco. Estar
louco é uma concepção extremamente relativa. Em nossa sociedade, por exemplo, quando
um negro se comporta de determinada maneira, é comum dizer-se: “Ora, ele não
passa de um negro”, mas se um branco agir da mesma forma, é bem possível
dizerem que ele é louco, pois um branco não pode agir daquela forma. Pode-se
dizer que um homem é diferente, comporta-se de maneira fora do comum, tem
idéias engraçadas, e se por acaso ele vivesse numa cidadezinha da França ou da
Suíça, diriam: “É um fulano original, um dos habitantes mais originais desse
lugar”. Mas se trouxermos o tal homem para a Rua Harley, ele será considerado
doido varrido. Se determinado indivíduo é pintor, todo mundo tende a
considerá-lo um homem cheio de originalidades, mas coloque-se o mesmo homem
como caixa de um banco e as coisas começarão a acontecer...
(C.
G. Jung, “As conferências de Tavistock”. In Fundamentos de psicologia
analítica, Petrópolis, Vozes, 1972, p. 56.)
8.
Pergunta: – O e-mail aproxima as pessoas?
Resposta:
– Isso é ilusão. Marcel Proust escreveu 21 volumes de cartas. Você as lê e
percebe que ele as escrevia para manter as pessoas à distância. Ele não queria
se aproximar. Com o e-mail acontece a mesma coisa. Acho até que ele potencializa
esse aspecto.
Essa história de comunidade global, com todo mundo falando com todo mundo, é
lixo ideológico. Em vez de o sujeito estar num bar, conversando com seus
amigos, ele passa horas no computador, mandando mensagens eletrônicas para
pessoas que, em muitos casos, nem conhece. Essa é uma forma de solidão. Não
houve aproximação.
(Walnice
Nogueira Galvão, entrevista a Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 27/08/2000, p. A
15.)
TEMA
B
Ser
ou não ser, eis a questão.
Se
correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Situações-limite
são uma constante, tendo sido retomadas tanto pela literatura como pela
sabedoria popular.
Pensando
nisso, escreva uma narrativa em primeira pessoa, na qual o narrador não seja o
protagonista da ação. Considere os aspectos abaixo, que constituirão um roteiro
para sua narrativa, a qual pode corresponder a diferentes situações, como um
drama familiar, uma questão de ordem psicológica, uma aventura, etc.:
·
uma situação problemática, de cuja solução depende algo muito importante;
·
uma tentativa de solução do problema, pela escolha de um dos caminhos
possíveis, todos arriscados:ultrapassar ou não ultrapassar uma fronteira;
·
uma solução para o problema, mesmo que origine uma nova situação problemática.
TEMA
C
Suponha
que você seja ou o juiz que decidiu pela volta do menino Elián a Cuba, ou um
parente de Elián que lutou por sua permanência nos Estados Unidos, ou o pai de
Elián, que lutou por sua volta a casa. Colocando-se no lugar de uma dessas
pessoas, e considerando os pontos de vista expressos no texto abaixo, escreva
uma carta a Elián, mas para ser lida por ele quinze anos depois desses
acontecimentos, tentando convencê-lo de que a posição que você assumiu foi a
melhor possível.
Quando
a imaginação do mundo se depara com uma tragédia humana tão dolorosa quanto a
de Elián, o menino refugiado de 6 anos que sobreviveu a um naufrágio apenas para
afundar no atoleiro político da Miami cubano-americana, ela instintivamente procura
penetrar nos corações e mentes de cada um dos personagens do drama. Qualquer
pai ou mãe é capaz de imaginar o que o pai de Elián, Juan Miguel González, vem
sofrendo, na cidade natal de Elián, Cárdenas – a dor de perder seu filho primogênito;
logo depois, a alegria de saber de sua sobrevivência milagrosa, com Elián boiando
até perto da Flórida numa câmara de borracha.
A
seguir, o abalo de ouvir da boca de um bando de parentes com os quais não tem
relação alguma e de pessoas que lhe são totalmente estranhas a notícia de que
estavam decididos a colocar-se entre ele e seu filho. Talvez também sejamos
capazes de compreender um pouco do que se passa na cabeça de Elián, virada do
avesso. Trata-se, afinal de contas, de um garoto que viu sua mãe mergulhar no
oceano escuro e morrer. Durante um tempo muito longo depois disso, seu pai não
esteve a seu lado.
Assim,
se Elián agora se agarra às mãos daqueles que têm estado a seu lado em Miami,
se os segura forte, como se segurou à câmara de borracha, para salvar sua vida,
quem pode culpá-lo por isso? Se ergueu uma espécie de felicidade provisória à sua
volta, em seu novo quintal na Flórida, devemos compreender que é um mecanismo
de sobrevivência psicológica, e não um substituto permanente de seu amor ao
pai. [...]
Elián
González virou uma bola de futebol política, e – acredite na palavra de alguém
que sabe o que é isso – a primeira conseqüência de virar uma bola de futebol é que
você deixa de ser visto como ser humano que vive e sente. Uma bola é um objeto inanimado,
feita para ser chutada de um lado a outro. Assim, você se transforma naquilo que
Elián se tornou, na boca da maioria das pessoas que discutem o que fazer dele:
útil, mas, em essência, uma coisa, apenas.
Você
se transforma em prova da mania de litígio de que sofrem os Estados Unidos, ou
do orgulho e poder político de uma comunidade imigrante poderosa em nível
local. Você vira palco de uma batalha entre a vontade da turba e o estado de direito,
entre o anticomunismo fanático e o antiimperalismo terceiro-mundista.
Você
é descrito e redescrito, transformado em slogan e falsificado até quase deixar
de existir, para os combatentes que se enfrentam aos gritos. Transforma-se numa
espécie de mito, um recipiente vazio no qual o mundo pode derramar seus
preconceitos, seu ódio, seu veneno.
Tudo
o que foi dito até agora é mais ou menos compreensível. O difícil é imaginar o
que se passa na cabeça dos parentes de Elián em Miami. A família consanguínea
desse pobre menino optou por colocar suas considerações ideológicas de linha
dura à frente da necessidade óbvia e urgente que Elián tem de seu pai. Para a maioria
de nós, que estamos de fora, a escolha parece ser desnaturada,
repreensível.[...]
Quando
os parentes de Miami dão a entender que Elián sofrerá “lavagem cerebral” se
voltar para casa, isso apenas nos faz pensar que eles são ainda mais bitolados
do que os ideólogos que condenam.
(Salman
Rushdie, “Elián González se transformou numa bola de futebol política”, Folha
de S. Paulo, 07/04/2000, p. A 3, com pequenas adaptações.)
www.veredasdalingua.blogspot.com.br
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