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domingo, 31 de agosto de 2014

UFG - 2011 - 2º Semestre - 1º Fase - Prova de Língua Portuguesa

Prova de Língua Portuguesa - UFG - 2011 - 2º Semestre - 1º Fase

LÍNGUA PORTUGUESA

Leia o Texto 1 a seguir para responder às questões de 01 a 08.

Texto 1
Sandra Speidel/Getty Images.

O gosto da surpresa - Betty Milan

            Nada é melhor do que se surpreender, olhar o mundo com olhos de criança. Por isso as pessoas gostam de viajar.
            Nem o trânsito, nem a fila no aeroporto, nem o eventual desconforto do hotel são empecilhos neste caso. Só viajar importa, ir de um para outro lugar e se entregar à cena que se descortina.
            Como, aliás, no teatro. O turista compra a viagem baseado nas garantias que a agência de turismo oferece, mas se transporta em busca da surpresa. Porque é dela que nós precisamos mais. Isso explica a célebre frase navegar é preciso, viver não, erroneamente atribuída a Fernando Pessoa, já que data da Idade Média.
            Agora, não é necessário se deslocar no espaço para se surpreender e se renovar. Olhar atentamente uma flor, acompanhar o seu desenvolvimento, do botão à pétala caída, pode ser tão enriquecedor quanto visitar um monumento histórico. Tudo depende do olhar. A gente tanto pode olhar sem ver nada quanto se maravilhar, uma capacidade natural na criança e que o adulto precisa conquistar, suspendendo a agitação da vida cotidiana e não se deixando absorver por preocupações egocêntricas. Como diz um provérbio chinês, a lua só se reflete perfeitamente numa água tranquila. O que nós vemos e ouvimos depende de nós. A meditação nos afasta do clamor do cotidiano e nos permite, por exemplo, ouvir a nossa respiração. Quem escuta com o espírito, e não com o ouvido, percebe os sons mais sutis. Ouve o silêncio, que é o mais profundo de todos os sons, como bem sabem os músicos. Numa de suas letras, Caetano Veloso diz que só o João (Gilberto) é melhor do que o silêncio. Porque o silêncio permite entrar em contato com um outro eu, que só existe quando nos voltamos para nós mesmos.
            Há milênios, os asiáticos, que valorizam a longevidade, se exercitam na meditação, enquanto nós, ocidentais, evitamos o desligamento que ela implica. Por imaginarmos que
sem estar ligado não é possível existir, ignoramos que o afastamento do circuito habitual propicia uma experiência única de nós mesmos, uma experiência sempre nova.
            Desde a Idade Média, muitos séculos se passaram. Mas o lema dos navegadores continua atual. Surpreender-se é preciso. A surpresa é a verdadeira fonte da juventude, promessa de renovação e de vida.

VEJA. São Paulo: Abril, ed. 2184, set. 2010, p. 116.

QUESTÃO 01

A estratégia textual utilizada para relacionar as grandes navegações às viagens turísticas contemporâneas centra-se no uso do lema navegar é preciso, viver não é preciso. Os sentidos construídos pelo lema, nas respectivas épocas, são:

(A) mercantilismo – conhecimento.
(B) certeza – crença.
(C) fantasia – êxtase.
(D) conquista – surpresa.
(E) convicção – imaginação.

QUESTÃO 02

No trecho Nem o trânsito, nem a fila no aeroporto, nem o eventual desconforto do hotel são empecilhos neste caso, as palavras sublinhadas estabelecem uma relação de inclusão.
No plano argumentativo, esse procedimento

(A) arrola argumentos favoráveis ao desejo de se surpreender com novos cenários.
(B) promove entrave na linha discursiva estabelecida pela autora.
(C) agrupa ideias que em princípio funcionam como contra-argumento ao desejo de viajar.
(D) constrói argumentos que neutralizam a capacidade contemplativa do leitor.
(E) exemplifica fatos esporádicos de viagens turísticas de longa duração.

QUESTÃO 03

No trecho O turista compra a viagem baseado nas garantias que a agência de turismo oferece, mas se transporta em busca da surpresa, a palavra sublinhada admite mais de uma leitura. No sentido conotativo, ela significa

(A) mudar-se.
(B) conduzir-se.
(C) carregar-se.
(D) afastar-se.
(E) enlevar-se.

QUESTÃO 04

A imagem impressionista complementa as ideias do texto “O gosto da surpresa”. Nesse estilo artístico, a construção do sentido parte, predominantemente,

(A) da forma geométrica, pois a obra de arte representa a realidade fracionada.
(B) do olhar do contemplador, pois a imagem sugere noções subjetivas e sensoriais.
(C) do conteúdo, pois ignoram-se as figuras e ressaltam-se as ideias.
(D) da temática, pois o recorte da realidade social é feito de modo objetivo.
(E) do automatismo psíquico, pois as formas reproduzem o funcionamento real do pensamento.

QUESTÃO 05

Autores como Fernando Pessoa e Caetano Veloso apropriam-se do lema Navegar é preciso, viver não é preciso. Essa apropriação é produtiva porque o lema é um

(A) pleonasmo – repetição consciente de ideias com o mesmo sentido.
(B) provérbio – enunciado utilizado como estratégia de aconselhamento.
(C) clichê – frase aparentemente rebuscada, recorrente em determinado gênero.
(D) jargão – expressão abusivamente repetida, caracterizadora de um grupo social.
(E) aforismo – sentença moral breve, contendo um ensinamento.

QUESTÃO 06

De acordo com os estudos da Biologia, a visão é um sistema receptor de luz, e, segundo o texto, o que nós vemos depende de nós. Essas afirmativas constituem paradoxo, pois são elaboradas com base na

(A) ressignificação do sistema sensorial como personagem humano.
(B) conjugação de funções cerebrais e em atividades do sistema de visão.
(C) negação dos significados contextuais atribuídos ao termo visão.
(D) percepção física do ambiente e na interpretação da realidade.
(E) reelaboração dos significados produzidos pelos sentidos humanos.

QUESTÃO 07

O texto diferencia o homem asiático do homem ocidental. Essa diferença está centrada

(A) na concepção de existência.
(B) na relação com a viagem.
(C) na valorização da aparência.
(D) no ideal de perfeição.
(E) no sentimento de aventura.

QUESTÃO 08

Conforme a temática desenvolvida no texto, infere-se do provérbio chinês a lua só se reflete perfeitamente numa água tranquila que a

(A) interpretação do cotidiano prescinde do desprendimento total da realidade.
(B) necessidade de maravilhamento requer o gosto pela vida social.
(C) capacidade de percepção exige domínio dos conflitos internos.
(D) reflexão sobre a vida permite o encontro do homem com o seu próximo.
(E) liberdade assegura a conquista de estratégias eficientes para a busca da verdade.

Leia o Texto 2 para responder às questões 09 e 10.

Texto 2
FOLHA DE S. PAULO, São Paulo, 7 nov. 2010, Ilustríssima, p. 5.
QUESTÃO 09

Os Textos 1 e 2 apresentam diferentes reações decorrentes da surpresa. Essas reações são, respectivamente,

(A) agitação – melancolia.
(B) encantamento – pesar.
(C) decepção – assombro.
(D) susto – rejeição.
(E) empatia – compulsão.

QUESTÃO 10

Considerando-se a composição enunciativa do Texto 2, o ápice da narrativa configura-se

(A) na suspensão da voz do narrador e na introdução do diálogo entre as personagens.
(B) na sequência cronológica dos fatos narrados.
(C) na introdução do espaço narrativo.
(D) no silêncio sugerido na linguagem não verbal dos dois primeiros quadrinhos.
(E) no desfecho narrativo e na retomada da voz do narrador no último quadrinho.

LITERATURA BRASILEIRA

QUESTÃO 11 - Leia a seguinte passagem de O demônio familiar.

CENA IV
EDUARDO, CARLOTINHA.
CARLOTINHA – Onde vai, mano?
EDUARDO – Vou ao Catete ver um doente; volto já.
CARLOTINHA – Eu queria falar-lhe.
EDUARDO – Quando voltar, menina.
CARLOTINHA – E por que não agora?
EDUARDO – Tenho pressa, não posso esperar. Queres ir hoje ao Teatro Lírico?
CARLOTINHA – Não, não estou disposta.
EDUARDO – Pois representa-se uma ópera bonita. (Enche a carteira de charutos.) Canta a Charton. Há muito tempo que não vamos ao teatro.

ALENCAR, José de. O demônio familiar. 2. ed. Campinas: Pontes, 2003. p. 11.

O texto teatral, exemplificado pelo trecho acima, apresenta semelhanças com o texto narrativo por utilizar personagens, representar ações e marcação de tempo e espaço. No texto teatral,

(A) as ações das personagens são descritas por um narrador, sendo este o mediador da narrativa.
(B) as falas das personagens são diluídas no texto, sendo confundidas com a voz do narrador.
(C) as características das personagens são reveladas por meio de suas falas e assim a ação é conduzida por elas mesmas.
(D) as vozes das personagens são importantes para a construção da narrativa, embora haja a voz de um narrador onisciente.
(E) as atitudes das personagens são conduzidas por um narrador intruso, embora o conflito esteja nos diálogos.

QUESTÃO 12

Nos contos da obra Livro dos homens, de Ronaldo Correia de Brito, há o predomínio de

(A) enredo linear e marcado pela plurissignificação.
(B) foco narrativo limitado e na 3ª pessoa do singular.
(C) personagens-tipos e de dimensão exteriorizada.
(D) linguagem estilizada e de caráter ambíguo.
(E) tempo concentrado e interrompido por flashbacks.

QUESTÃO 13 - Leia o fragmento apresentado a seguir.

            Aquele foi provavelmente o melhor fim de semana que passaram em Minas do Camaquã, uma vila fantasmagórica perto da qual se ergue um conjunto de formações rochosas […]. Situada no sudoeste do Rio Grande do Sul, a vila se desenvolveu a partir do início do século XX, com a descoberta de jazidas de cobre, ouro e prata. […] suas casas e ruas abandonadas, cercadas de uma geografia mutilada pela extração de minérios, dão um adorável ar de fim de mundo a um recanto já naturalmente isolado.

GALERA, Daniel. Mãos de Cavalo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 23-24.

A exploração de minérios no Brasil é tematizada em Mãos de Cavalo por meio das Minas do Camaquã (RS). Considerando a realidade representada no romance, as atividades mineradoras brasileiras e as transformações espaciais decorrentes destas, verifica-se que

(A) o abandono da região do Camaquã é motivado não só pelo aspecto econômico, mas também pela desconfiguração espacial, percebida na descrição do narrador.
(B) Hermano e Renan utilizam como cenário para o montanhismo uma paisagem já alterada pelo extrativismo e que sofreu declínio após o auge da mineração.
(C) as Minas do Camaquã são um exemplo de uma região que sofreu êxodo populacional, apesar da existência de uma atividade economicamente viável e produtiva.
(D) o narrador critica o abandono gerado pelo fim das atividades mineradoras em Camaquã, uma vila que dependia dessa exploração.
(E) o turismo, como o feito por Hermano e Renan, torna-se a solução para a depressão econômica do espaço descrito.

QUESTÃO 14 - Leia o poema a seguir.

br

um ônibus
na estrada
é só uma faixa
contínua
que puxa
& piche
& placas & postes
& mais & mais
asfalto
& pastos
& bois
& soja & cana
ao longo da estrada
interminável
& monótona
& sem fim

PEREIRA, Luís Araujo. Minigrafias. Goiânia: Cânone Editorial, 2009. p. 75.

A anáfora é um recurso de linguagem cuja função é de organização textual, de retomada referencial ou de repetição da mesma palavra ou construção. No poema apresentado, emprega-se “&” por meio dessa figura de linguagem, fazendo a anáfora produzir efeito de sentido equivalente ao

(A) movimento acelerado do ônibus, evidente na imagem “um ônibus/ na estrada/ é só uma faixa/ contínua/ que puxa”.
(B) tipo de vida monótono dos motoristas de ônibus implicado na anáfora e na repetição de consoantes e de vogais.
(C) som do ônibus na estrada, sugerido pelo emprego de aliterações e assonâncias ao longo do poema.
(D) panorama econômico da rodovia, reiterado nas palavras “piche”, “placas”, “postes”, “asfalto”, “pasto”, “bois”, “soja” e “cana”.
(E) cenário da rodovia, igual a todas as estradas, presente na imagem “interminável/ & monótona/ & sem fim”.

QUESTÃO 15

Memórias de um sargento de milícias é um romance cuja narrativa se refere ao início do “tempo do rei”, quer dizer, o período joanino. No entanto, o romance foi escrito e publicado durante a fase final desse tempo, ou seja, durante o 2º. Reinado. Por isso, Memórias de um sargento de milícias contém elementos de uma sociedade

(A) marcada pelos princípios republicanos.
(B) organizada nas bases do mercantilismo.
(C) focada nas relações de formação da burguesia.
(D) formada pelos fundamentos do nacionalismo.
(E) caracterizada pelos valores do bonselvagerismo.

QUESTÃO 16 - Leia a parte transcrita do poema I-Juca-Pirama.

X
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!”
“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest'hora diante de mi.
“Eu disse comigo: que infâmia d'escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”
Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”

DIAS, Gonçalves. I-Juca-Pirama .In:_____. I-Juca-Pirama seguido de Os Timbiras. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997. p. 28.

A exemplo dos versos destacados, o poema de Gonçalves Dias é considerado épico por causa

(A) do caráter narrativo e da tendência de voltar-se para o passado em tom heroico.
(B) do depoimento do narrador e da garantia de que é uma história da tradição do povo.
(C) da coragem do índio Tupi e do senso de nacionalismo inerente ao tom de seu comportamento.
(D) da imagem indianista do cenário e do teor de ambientação bélica da história.
(E) da construção dialogada do texto e do tipo descritivo detalhadamente explorado.

QUESTÃO 17

A enchente é um fenômeno do regime dos rios, que decorre do ciclo da água. No conto O que veio de longe, da obra Livro dos homens, de Ronaldo Correia de Brito, esse fenômeno é representado no processo composicional para

(A) caracterizar o trajeto do protagonista.
(B) vincular a narração a um espaço rural.
(C) demarcar a dimensão linear do enredo.
(D) refletir a estrutura narrativa da história.
(E) enfatizar o conflito e o desfecho do conto.

QUESTÃO 18

Leia o seguinte trecho do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Cumpre-nos agora dizer alguma coisa a respeito de uma personagem que representará no correr desta história um importante papel, e que o leitor apenas conhece, porque nela tocamos de passagem no primeiro capítulo: é a comadre, a parteira que, como dissemos, servira de madrinha ao nosso memorando.

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. 24. ed. São Paulo: Ática, 1995. p. 29-30.

No romance, a comadre é uma personagem que foge aos moldes românticos femininos por sua perspicácia e pela prática de arranjos. O “importante papel” a que o narrador se refere, para o desfecho da narrativa, foi o fato de a comadre ter

(A) livrado Leonardo Pataca da cadeia, após o episódio da feitiçaria.
(B) planejado uma vida de artista para o afilhado Leonardo na Conceição.
(C) arranjado a união de sua sobrinha Chiquinha com Leonardo Pataca.
(D) tramado contra o pretendente de Luisinha, José Manuel, diante de D. Maria.
(E) conseguido o perdão do afilhado junto a Vidigal com o apoio da chantagem de Maria-Regalada.

QUESTÃO 19

Como escrita literária contemporânea, Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, e o conjunto de poemas Minigrafias, de Luís Araujo Pereira, são obras nas quais

(A) o sentido de memória do vivido concatenaram as partes, dadas, à primeira leitura, como fragmentos, sem conexão.
(B) o conflito de estar no mundo angustia a voz das personagens, no romance, e a voz do eu lírico, no poema.
(C) o embate entre a representação do mundo e a palavra escrita prevalece, mantendo o discurso atento ao próprio fazer artístico.
(D) o tempo e o espaço são representações dadas em diálogo com a tradição da prosa de ficção e da poesia.
(E) o detalhismo das descrições torna evidente, em primeira instância, um modo mais realista de representação do mundo.

QUESTÃO 20 - Leia os fragmentos a seguir, respectivamente de I-Juca- Pirama e de O demônio familiar:

– Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte, não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.

DIAS, Gonçalves. I-Juca-Pirama. In:_____. I-Juca-Pirama seguido de Os Timbiras. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997. p. 20.

[…] a modéstia mesmo é uma espécie de vaidade inventada pela pobreza para seu uso exclusivo.

ALENCAR, José de. O demônio familiar. 2. ed. Campinas: Pontes, 2003. p. 26.

Tanto no primeiro fragmento, que é uma fala do chefe Timbira ao prisioneiro Tupi, quanto no segundo, que é uma fala de Azevedo a Eduardo, explicita-se

(A) a indicação de uma superioridade social, visto que o emissor despreza a condição do outro.
(B) um contexto de classes sociais representativas da ordem instituída pelo poder estabelecido.
(C) um cenário do Brasil no período romântico, considerando-se o ambiente citadino e o meio indígena.
(D) uma diversidade de tipos sociais representativos da nação brasileira durante o século XIX.
(E) a demarcação de um discurso comum, considerando-se a sublimação da classe burguesa pelo Romantismo.

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