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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA — ESPM — 1º Semestre de 2015

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA — ESPM — 1º Semestre de 2015


Texto para as questões de 1 a 5:

            Numa sociedade fortemente hierarqui­zada, onde as pesso­as se ligam entre si e essas ligações são consideradas como fundamentais (valen­do mais, na verdade, do que as leis universalizantes que go­vernam as instituições e as coisas), as relações entre senhores e escravos po­diam se realizar com muito mais “intimi­dade, confiança e consideração”. Aqui, o senhor não se sente ameaçado ou cul­pado por estar submetendo um outro homem ao trabalho escravo, mas, mui­to pelo contrário, ele vê o negro como seu “complemento natural”, como um “outro” que se dedica ao trabalho duro, mas complementar às suas próprias ati­vidades que são as do espírito. Assim a lógica do sistema de relações sociais no Brasil é a de que pode haver intimida­de entre senhores e escravos, superiores e inferiores, porque o mundo está real­mente hierarquizado, tal qual o céu da Igreja Católica, também repartido e tota­lizado em esferas, círculos, planos, todos povoados por anjos, arcanjos, querubins, santos de vários méritos etc., sendo tudo consolidado na Santíssima Trindade, todo e parte ao mesmo tempo; igualda­de e hierarquia dados simultaneamente. O ponto crítico de todo nosso sistema é a sua profunda desigualdade.(...)
            Neste sistema, não há necessidade de segregar o mestiço, o mulato, o índio e o ne­gro, porque as hierarquias asseguram a supe­rioridade do branco como grupo dominante.

(Roberto da Matta, Relativizando - Uma Introdução à Antropologia Social)

Questão 01 - Conforme o autor:

a) Numa sociedade, em que as ligações são mais importantes do que as leis univer­sais, não existem hierarquias.
b) Os senhores e escravos se estimam quan­do há intimidade, confiança e consideração e, portanto, não há discriminação social.
c) Hierarquia, intimidade, confiança e consi­deração não estão necessariamente em oposição.
d) Só há discriminação social quando as leis que governam valem menos que as liga­ções entre as pessoas.
e) Quando leis universalizantes são conside­radas fundamentais, então é possível ha­ver intimidade, confiança e consideração.

Questão 02 - Segundo o texto:

a) O escravo nunca ameaçava o senhor quan­do havia intimidade, confiança e considera­ção.
b) As relações familiares criadas entre se­nhores e escravos acabaram lançando as bases das leis universalizantes.
c) Em sistemas sociais fortemente hierarqui­zados, o trabalho escravo substituía as ati­vidades do espírito.
d) Em sociedade hierarquizada, senhores e escravos eram percebidos naturalmente como complementares.
e) Hierarquia e complementaridade são for­mas naturais de relações sociais.

Questão 03 - Depreende-se do texto que:

a) o sentimento de culpa do senhor, gerado pelo grau de intimidade com o negro es­cravo, ficava escamoteado.
b) a ideia de trabalho escravo era relativiza­da pelas relações existentes entre senho­res e escravos.
c) a Igreja Católica possui um modelo hie­rárquico herdado de um sistema escravo­crata de relações.
d) dadas as relações amistosas, havia, em­bora de modo parcial, igualdade entre se­nhores e escravos.
e) numa sociedade em que um grupo social é superior, justifica-se manter a segrega­ção de grupos considerados inferiores.

Questão 04 - “igualdade e hierarquia dados simulta­neamente. O ponto crítico de todo nosso sistema é a sua profunda desigualdade.” No contexto, ao fazer essa afirmação, o autor dá a entender que:

a) caiu em contradição nos seus postulados.
b) hierarquia e desigualdade são antônimos.
c) hierarquia deveria ser simultânea a desi­gualdade.
d) o ponto crítico da igualdade é a desigual­dade.
e) a igualdade a que se refere é apenas apa­rente.

Questão 05 - O vocábulo “Aqui” no segundo período se reporta a:

a) “relações entre senhores e escravos”
b) “sociedade fortemente hierarquizada”
c) “leis universalizantes”
d) “instituições e coisas”
e) “trabalho duro”

Texto para as questões de 6 a 10:

O PATO SOCIAL

            Amigos que atuam no mercado editorial e na imprensa de Lisboa, externando com bom humor a sua indignação, argumenta­vam: “Queremos igualdade de condições e direitos. Se não podemos ser ‘exactos’ em nosso idioma, então vocês não podem ter um ‘pacto’, mas, sim, um pato social”.
            Avicultura sociopolítica à parte, os lusos, a despeito de seus questionamentos, e os demais governos da Comunidade dos Paí­ses de Língua Portuguesa, com exceção de Angola, já ratificaram o acordo ortográfico. O mais importante de tudo isso é entender que as mudanças que unificaram a ortografia não alteraram a gramática e a riqueza do portu­guês, com sua multiplicidade de expressões homônimas e parônimas e infinitas possibili­dades sintáticas para a composição das fra­ses e sentenças.
            Ademais, o alto grau de redundância linguística de nosso idioma permite que os textos sejam lidos rapidamente e na diago­nal, sem prejuízo de se assimilar a informa­ção mínima, e também facilita o mecanismo da previsibilidade (ou seja, mesmo quando faltam letras numa palavra, o leitor consegue ler de maneira correta). Tudo isso vai a favor do consenso nacional quanto à necessidade de estimular a leitura.
            Considerando a adequada e rápida adaptação do Brasil e levando-se em conta que até os portugueses já ratificaram o acordo ortográfico, são incompreensíveis as propos­tas que às vezes surgem no nosso Legislati­vo ou na retórica de pretensos estudiosos do tema, de se produzirem novas mudanças.

(Karine Pansa, Folha de SP, adaptado, 19.08.2014)

Questão 06 - De uma leitura atenta do texto, pode-se afir­mar que:

a) o mercado editorial e a imprensa de Lis­boa defendem uma igualdade de direitos sociopolíticos.
b) os portugueses resolveram não aderir à reforma ortográfica da língua portuguesa.
c) o acordo ortográfico trouxe padronização da ortografia, mas também mudanças sig­nificativas na estrutura gramatical.
d) a multiplicidade de expressões homôni­mas e parônimas é que tornam complexa a língua portuguesa.
e) os lusitanos reivindicam uma paridade de mudanças ortográficas em Portugal e no Brasil.

Questão 07 - Pode-se afirmar que segundo a autora do texto:

a) a elevada redundância linguística trabalha a favor da contextualização do vocábulo.
b) a supressão de uma letra altera totalmen­te o significado de uma palavra.
c) o leitor possui uma capacidade limitada de previsibilidade para uma palavra.
d) a rápida adaptação do Brasil ao acordo ortográfico estimulou novas propostas pelo Legislativo.
e) novas mudanças linguísticas deveriam ser encaminhadas às autoridades para esti­mular a leitura no país.

Questão 08 - No trecho: "Avicultura sociopolítica à par­te, os lusos, a despeito de seus questiona­mentos, ...", a expressão em negrito pode ser substituída, sem prejuízo semântico, por:

a) à custa de   b) apesar de   c) à procura de   d) a respeito de   e) no âmbito de

Questão 09 - Na última linha, o segmento “retórica de pre­tensos estudiosos do tema” possui um tom:

a) de elogio, significando a arte de conven­cer de pesquisadores sábios.
b) exortativo, significando detentores do sa­ber que possuem o dom da oratória.
c) irônico, significando o discurso pomposo de supostos estudiosos.
d) pejorativo, significando esforçados estu­dantes com surpreendente eloquência.
e) crítico, significando o discurso ardiloso de linguistas soberbos.

Questão 10 - Assinale o item em que o par de vocábulos não seja exemplo de palavras parônimas, mas sim de homônimas:

a) pacto – pato
b) ratificar – retificar
c) cumprido – comprido
d) são (verbo ser) – são (santo)
e) descrição – discrição


Questão 11 - Assinale a opção não aceita pelas normas de Concordância Verbal:

a) Pesquisa aponta que 92,7% dos brasileiros querem a redução da maioridade penal.
b) Pesquisa aponta que 92,7% da população quer a redução da maioridade penal.
c) Mesma pesquisa mostra que 49,7% se apresentam contrários a união civil de pessoas de mesmo sexo.
d) A maioria (54,2%) se revelou também contra a aprovação de uma lei permitindo o casamento de pessoas do mesmo sexo.
e) ONU: um terço dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados anualmente.

Questão 12 -

(Folha de S.Paulo, 31.05.2014)
A charge acima é passível de ser interpreta­da como ironizando:

I. A presunção do ministro, ao considerar­-se possuidor de poderes semelhantes a Cristo, quando este ressuscitou depois de três dias.
II. O modo ardiloso, além de certa arrogân­cia, a que o ministro recorre para, ante uma provável condenação ética, “desa­parecer” e “reaparecer” politicamente num curto espaço de tempo.
III. A falácia do discurso político, o qual su­bentende repetidas promessas e planos, ante um grupo de jornalistas ávidos por mudanças.

a) apenas a I está correta.
b) apenas a II está correta.
c) I e II corretas.
d) I e III corretas.
e) todas estão corretas.

Questão 13 - Assinale o item em que ocorreu uma con­cordância não gramatical, ou seja, uma con­cordância com a ideia:

a) Penso que todos acreditamos que o futu­ro está nas mãos das nossas crianças, dos nossos jovens.
b) Criminalidade e violência não se combatem com prisão, afirma pesquisa­dora da UFABC.
c) Os Estados Unidos preparam opções mili­tares para pressionar o Estado islâmico na Síria.
d) Analistas avaliam que corrupção eleito­ral e despreparo da população ainda são obstáculos para o voto facultativo.
e) A inadimplência nas operações bancárias das pessoas físicas subiu 6,6% em julho.

Texto para as questões 14 e 15:

            (...) era o Leonardo Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima perso­nagem de cabelos brancos e carão aver­melhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos(¹) que viviam nesse tempo. (...) Fora Leonardo algibe­be(²) em Lisboa, sua pátria; aborreceu-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o ve­mos empossado, e que exercia, como dis­semos, desde tempos remotos.

(Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida) ¹meirinho = funcionário da justiça. ²algibebe = vendedor de roupas baratas; mascate.

Questão 14 - No trecho acima, podem ser detectados ele­mentos característicos que fazem com que a obra em questão se afaste dos padrões românticos. Assinale o item que NÃO seria responsável por esse afastamento:

a) descrição física não idealizada da perso­nagem.
b) uso de apelido incorporado ao nome.
c) passado não digno de um herói tradicional.
d) cargo conseguido não por conquistas, mas por privilégios.
e) ser o mais antigo dos meirinhos que vi­viam nesse tempo.

Questão 15 - Na frase: “Fora Leonardo algibebe(²) em Lisboa, sua pátria;...”, a forma verbal em ne­grito pode ser substituída, sem prejuízo de sentido, por:

a) tinha ido    b) tinha sido     c) seria     d) foi     e) iria

            – O homem – notou Lentz a sorrir com ar de triunfo – há de sempre destruir a vida para criar a vida. E depois, que alma tem esta árvore? E que tivesse... Nós a elimina­ríamos para nos expandirmos.
            E Milkau disse com a calma da resig­nação:
            – Compreendo bem que é ainda a nos­sa contingência essa necessidade de ferir a Terra, de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação; mas virá o dia em que o homem, adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie, receberá a força orgânica da sua própria e pacífica harmo­nia com o ambiente, como sucede com os vegetais; e então dispensará para subsistir o sacrifício dos animais e das plantas. Por ora nos conformaremos com este momen­to de transição... Sinto dolorosamente que, atacando a Terra, ofendo a fonte da nossa própria vida, e firo menos o que há de ma­terial nela do que o seu prestígio religioso e imortal na alma humana...

(Graça Aranha, Canaã)

Questão 16 - No trecho acima, duas personagens alemãs expõem suas posições filosóficas antagôni­cas a respeito do mundo e do homem. No fragmento discutem a necessidade ou não do corte das árvores. Assinale a afirmação NÃO condizente:

a) Enquanto Lentz tem espírito agressivo, destruidor, Milkau é humanista, sensível.
b) Lentz defende a “lei do mais forte”, justi­ficando que para haver vida é preciso ha­ver morte.
c) Milkau se mostra reticente sobre uma fu­tura integração entre homem e natureza.
d) Há uma visão antecipatória de que agredir o Planeta significa agredir o próprio ho­mem.
e) Enquanto Lentz se mostra mais soberbo, Milkau tem uma postura mais humilde.

Questão 17 Do léxico de Cruz e Sousa, especial­mente o dos primeiros livros, já se disse que, além da presença explicável de termos litúr­gicos, traía a obsessão do branco, fator co­mum a tantas de suas metáforas (...) Ao que se pode acrescer a não menor frequência de objetos luminosos ou translúcidos. (Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira)

Os versos que confirmam de modo mais pre­ciso as características apontadas no texto são:

a) Ó Formas alvas, brancas. Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras... (“Antífona”)
b) Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo. (“Siderações”)
c) Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo... (“Lés­bia”)
d) Alma! Que tu não chores e não gemas,
Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
Lá onde a loucura mora! (“Ressurreição”)
e) As minhas carnes se dilaceraram
E vão, das llusões que flamejaram,
Com o próprio sangue fecundando as ter­ras...(“Clamando”)

Texto para as questões de 18 a 20:

            Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio — o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o co­meço da velhice — esta vida era só o demo­ramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reu­matismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abai­xo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranquili­dade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

(ROSA, João Guimarães. “A Terceira Margem do Rio”, Primeiras estórias, Nova Fronteira, 2005)

Questão 18 - O personagem sente-se:

a) humilhado pela atitude vigorosa do pai.
b) solitário, por ser muito idoso.
c) obstinado, à procura do pai.
d) obcecado pela ideia da morte próxima.
e) culpado, embora não consiga identificar sua falta.

Questão 19 - Segundo o texto, o personagem:

a) divaga sobre as palavras tristes.
b) teme pela vida de seu pai, dadas as doen­ças.
c) crê que a verdadeira razão de tudo é a sua idade avançada.
d) talvez quisesse transmitir a própria tran­quilidade ao pai.
e) desvia sua atenção para o rio, a fim de es­quecer a ausência do pai.

Questão 20 - No trecho acima, só NÃO pode ser constatado(a)(s):

a) narrador-personagem em primeira pes­soa.
b) tom de oralidade com longas orações su­bordinadas.
c) linguagem elíptica.
d) neologismos.
e) repetição enfática das palavras.


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