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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA — ESPM — 2º Semestre de 2014

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA — ESPM — 2º Semestre de 2014


Texto para as questões 1 a 3:

ROLEZINHOS

            Uma amiga me diz que ela passeia pelos shoppings para ter a impressão de estar fora do Brasil, ou seja, num espaço público que não seja ansiógeno1 e violento. Claro, é uma ilusão fugaz; basta olhar para as vitrines para constatar que tudo é brutalmente mais caro do que no exterior - pelos impostos, pela produtividade medíocre ou pela corrupção endêmica, tanto faz. Mesmo assim, insiste mi­nha amiga, a ilusão de civilidade é um alívio. Hoje, à brutalidade de impostos, cor­rupção e mediocridade produtiva acrescen­tam-se os “rolezinhos” dos jovens da perife­ria. O que eles querem, afinal? Talvez eles gostem de apavorar. Não se­ria de se estranhar. É um axioma2: para quem vive na incerteza (de seu status, do reconhe­cimento dos outros, de seu lugar no mundo), apavorar é um jeito de encontrar no medo dos outros uma confirmação de sua própria relevância. Apavoro, logo existo: espelho-me na preocupação dos seguranças e na cara fechada dos clientes que voltam correndo para o estacionamento. Mas apavorar é um efeito colateral. Os jovens dos «rolezinhos» pedem sobretudo uma bola branca: a admissão ao clube. A prova, a roupa que eles preferem e que grita para ser reconhecida como luxo.Tudo bem, alguém perguntará, eles pedem acesso a quê? À classe privilegiada? Ao consumo de quem tem grana? Não acredito em nada disso, aposto que eles pedem acesso ao próprio lugar para o qual eles vão: eles pedem acesso ao shop­ping. O que esse lugar tem de mágico? De desejável? Qual é seu valor simbólico? Na nossa cultura (justamente pela qua­se inexistência de espaços públicos minima­mente frequentáveis, ou seja, pelo horror que a rua é para todos, ricos e pobres), os shop­pings integram a lista histórica dos refúgios.

(Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo, 06.02.2014, adaptado) ¹ansiógeno: que gera ansiedade 2axioma: premissa admitida universal­mente como verdadeira, sem exigência de demonstração; máxima; sentença

Questão 1 - Segundo o texto, o autor:

a) concorda com a amiga, ao ver o shopping como um espaço público que passa a ilu­são de um lugar sem violência.
b) olha para as vitrines dos shoppings e tam­bém tem a sensação de estar fora do país.
c) responsabiliza impostos, produtividade me­díocre e corrupção endêmica por desfaze­rem a imagem de civilidade de um shopping.
d) reconhece ser uma ilusão achar que os preços dos produtos no Brasil seriam me­nores do que os do exterior.
e) aponta o preço dos produtos daqui como um dos fatores para se perceber a ilusão efêmera que é um shopping.

Questão 2 - Ainda segundo o texto, o autor entende que:

a) os “rolezinhos” dos jovens da periferia também são um fator contribuinte para a desilusão representada por um shopping.
b) aterrorizar os outros seria uma forma ine­ficaz de os jovens da periferia obterem a dimensão da própria existência.
c) instaurar medo nos clientes é um modo de enfatizar uma importância já reconhe­cida pela sociedade.
d) torna-se uma verdade universal o fato de os jovens da periferia não terem status, re­conhecimento e lugar no mundo.
e) os “rolezinhos” dos jovens da periferia são protestos injustos por parte daqueles que não são excluídos da sociedade con­sumidora.

Questão 3 - O autor acredita que o shopping:

a) torna-se uma opção mais atraente do que as ruas horrorosas sem espaço para po­bres.
b) representa historicamente um lugar públi­co frequentável apenas pelos mais ricos.
c) simboliza um espaço reivindicado pelos jovens que desejam ascender à classe alta.
d) passa a ser um refúgio para os jovens da periferia, espaço do qual eles ainda não se sentem detentores.
e) possui um aspecto quase mágico que passa a ser um espaço público desejável por todos.

Texto para as questões de 4 a 7:

            No terceiro século do domínio portu­guês é que temos um afluxo maior de imi­grantes para além da faixa litorânea, com o descobrimento do ouro das Gerais (...) E mesmo essa emigração faz-se largamente a despeito de ferozes obstruções artificial­mente instituídas pelo governo; os estrangei­ros, então, estavam decididamente excluídos delas (apenas eram tolerados – mal tolera­dos – os súditos das nações amigas: ingleses e holandeses), bem assim como os monges; considerados piores contraventores das de­terminações régias, os padres sem empre­go, os negociantes estalajadeiros, todos os indivíduos enfim que pudessem não ir ex­clusivamente a serviço da insaciável avidez da metrópole. Em 1720 pretendeu-se mesmo fazer uso de um derradeiro recurso, o da proibi­ção de passagens para o Brasil. Só as pes­soas investidas de cargo público poderiam embarcar com destino à colônia. Não acom­panhariam esses funcionários mais do que os criados indispensáveis. Dentre os eclesi­ásticos podiam vir os bispos e missionários, bem como os religiosos que já tivessem pro­fessado no Brasil e precisassem regressar aos seus conventos. Finalmente seria dada a licença excepcionalmente a particulares que conseguissem justificar a alegação de terem negócios importantes, e comprome­tendo-se a voltar dentro de prazo certo.

(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)

Questão 4  Do texto, pode-se afirmar que a política de colonização:

a) orientava-se sobretudo por estímulos concedidos à vinda de comerciantes es­trangeiros dos países amigos.
b) procurava atender às necessidades e prioridades estabelecidas pela coroa portuguesa.
c) buscava distinguir entre os padres de maus costumes e o clero engajado na prestação de serviços políticos.
d) obedecia a critérios casuísticos e de­monstrava repugnância pelos forasteiros, sobretudo ingleses e holandeses..
e) tinha como único alvo assentar aqui o con­junto de instituições e grupos sociais exis­tentes na metrópole.

Questão 5 - A proibição que se pretendeu impor em 1720 isentava apenas:

a) funcionários públicos, monges e comer­ciantes estalajadeiros.
b) detentores de cargos públicos, ingleses e membros do clero atuantes na colônia.
c) eclesiásticos com tarefas na colônia, fun­cionários públicos graduados e particula­res com seus criados.
d) autoridades públicas e seus acompa­nhantes, padres sem emprego e alguns negociantes de peso.
e) representantes da coroa, bispos e missio­nários e comerciantes sob a condição de voltar.

Questão 6 - As medidas em relação ao clero:

a) não discriminavam seus integrantes con­forme as posições ocupadas na hierar­quia eclesiástica.
b) distinguiam os padres que transgrediam as determinações da coroa daqueles que estavam desempregados.
c) privilegiavam os ocupantes de posições episcopais e aqueles dedicados ao traba­lho realizado no Brasil.
d) estabeleciam divisão nítida entre os qua­dros do clero secular e os integrantes das ordens religiosas.
e) davam prioridade àqueles padres que ti­vessem negócios na colônia e que tives­sem um nível razoável de renda.

Questão 7 - A corrida para o interior do país por causa do ouro se fez:

a) com apoio político da coroa portuguesa.
b) por pressão dos ingleses e holandeses.
c) mesmo com os obstáculos impostos pelo governo.
d) com os estrangeiros a serviço da metró­pole.
e) com a ajuda de monges e padres desem­pregados.

A escola e outras instituições – edito­ras, jornais etc. – “precisam” ou pensam que precisam uniformizar a língua. Se pudessem, uniformizariam também nosso pensamento. As gramáticas e dicionários não são “insti­tuições” revolucionárias. Pelo contrário. Por exemplo, não só ensinam que “obedecer” é um verbo transitivo indireto (...), como seus exemplos também são “educativos”, do tipo “Devemos obedecer às ordens”. 

(Sírio Possenti, terramagazine.terra.com.br/blogdo­sírio)

Questão 8 - Segundo o texto, o autor:

a) apoia as escolas e todas as instituições que exerçam um modo revolucionário de pensar a língua.
b) vê nas escolas, editoras e jornais a mesma postura conservadora das gramáticas e dicionários no tocante à língua.
c) reconhece a necessidade de um cunho ideológico nas frases usadas como exem­plos gramaticais.
d) critica a escola e outras instituições por não promoverem a uniformização da língua.
e) utiliza aspas em vocábulos e frase para in­dicar, em todos os casos, uma conotação irônica.

Questão 9 - Em uma das manchetes de jornal, é possível fazer dupla leitura. Aponte-a:

a) Árbitro que errou em jogo no Rio denuncia ameaças de torcedores à polícia.
b) Governo suspende venda de 111 planos de saúde de 47 operadoras.
c) Governo quer proibir uso de máscaras e fazer apreensão de câmeras durante protestos.
d) Despesas com habitação pressionam cus­to de vida da população paulistana.
e) Pequenas e médias empresas são foco de apenas 20% dos jovens brasileiros inician­tes no mercado.

Questão 10 - A charge acima faz alusão:

a) à harmonia política entre presidenta e po­líticos do Congresso.
b) à submissão da presidenta em relação a um partido oposicionista.
c) à dificuldade de relacionamento entre go­verno e partido aliado.
d) ao excesso de autonomia nos ministérios por parte dos políticos aliados.
e) à barganha política por meio de loteamen­to de cargos pelo partido da base aliada.


Questão 11 - Causada pelo vírus VHA, a hepatite A pode ser transmitida também por meio de _____________________________ .
Segundo a norma padrão, o espaço só não poderia ser preenchido com:

a) alimento e água contaminada
b) alimento e água contaminados
c) água e alimento contaminado
d) água e alimento contaminados
e) alimento e água contaminadas

Questão 12 - Uma das frases apresenta uma transgressão de Regência Verbal, segundo a norma culta. Indique-a:

a) Os novos ministros do STF alegam que os crimes foram cometidos em coautoria, o que não implica num novo delito, como formação de quadrilha.
b) Obama prefere espionagem e veícu­los aéreos não tripulados a soldados em campo.
c) Maduro assiste impotente à inflação mais alta da América Latina - 56% no ano pas­sado.
d) Com a falta de chuvas, seguro do gover­no federal assiste financeiramente famílias que vivem só da pesca.
e) A cirurgia plástica não visa só ao rejuve­nescimento, mas também a tratamentos reparadores.

Questão 13 - Sobre a frase "A imprensa publica o que ouve e não o que houve.", atribuída ao poeta e escritor modernista Oswald de Andrade, assinale a afirmação incorreta:

a) critica a falta de comprovação dos fatos por parte da imprensa.
b) subentende que a verdade da imprensa não corresponde aos fatos.
c) estabelece um jogo de palavras com vo­cábulos homófonos. d) recorre também a vocábulos parônimos.
e) faz um trocadilho constituindo a figura de linguagem chamada paronomásia.

Questão 14 - Em todos os itens, constata-se a figura de linguagem denominada SINESTESIA, exceto em um. Indique-o:

a) “Agora o cheiro áspero das flores / leva­-me os olhos por dentro de suas pétalas.”
(Cecília Meireles)
b) “...com os seus grandes e belos olhos, que davam uma sensação singular de luz úmida; eu deixei-me estar a vê-los...”
(Machado de Assis)
c) “Grifam-me sons de cor e de perfumes, / Ferem-me os olhos turbilhões de gu­mes,...”
(Mário de Sá-Carneiro)
d) “Era um som feito luz, eram volatas / Em lânguida espiral que iluminava / Brancas sonoridades de cascatas...”
(Cruz e Sousa)
e) “Eu preparo uma canção, / em que minha mãe se reconheça / todas as mães se re­conheçam / e que fale como dois olhos.”
(C.Drummond de Andrade)

Questão 15 - Considerado pelo narrador como “vadio­-mestre”, “vadio-tipo”, no final, Leonardo sai da prisão, é promovido a sargento de milícias e casa-se com moça de boa con­dição social. Um jogo dúbio a que Antonio Candido chamou de “dialética da malan­dragem”. Poderíamos estabelecer um pa­ralelismo temático entre esse quadro e os versos a seguir:

a) “e, para mais m’espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos”
(Camões)
b) “Que os brasileiros são bestas
E estarão a trabalhar
Toda a vida por manter
Maganos [malandros] de Portugal”
(Gregório de Matos)
c) “Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!”
(Álvaro de Campos)
d) “Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!”
(Mário de Andrade)
e) “Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta”
(Tomás Ant. Gonzaga)

Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse; perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distin­guimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó: em que nos distinguimos uns dos outros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como e distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mor­tos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz: “Hic jacet”¹.

(Pe. Antônio Vieira, Sermão da Quarta-Feira de Cinza) 1“Hic jacet”: aqui jaz

Questão 16 - Padre Vieira, maior orador sacro da língua portuguesa, produziu mais de 200 sermões. Percebem-se no texto um tom oral ou carac­terísticas do discurso falado devido:

a) ao uso intensivo da metáfora do “pó”.
b) à repetição enfática de palavras e ao uso da expressão "ora".
c) ao desenvolvimento de um raciocínio ló­gico-dedutivo sobre a condição humana.
d) ao uso de um jogo de palavras e às cons­truções anafóricas.
e) ao rebuscamento da linguagem e ao uso de frase em latim.

Texto para as questões de 17 a 20: 

– Travessa? – disse eu. – Pois já não está em idade própria ao que parece. – Quantos lhe dá? – Dezessete. – Menos um. – Dezesseis. Pois então! É uma moça. Não pôde Eugênia encobrir a satisfa­ção que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como dantes, ereta, fria e muda. Em verdade, parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus fol­gares de moça: mas assim quieta, impassível, tinha a compostura de mulher casada. Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarizamos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava­-os de boa sombra, e ela sorria, com os olhos fúlgidos, como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante...

(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Questão 17 - O comentário sobre a idade, fez com que Eugênia tivesse uma reação inicial de pes­soa:

a) escabreada   b) recompensada   c) ressabiada   d) lisonjeada   e) impassível

Questão 18 - Pode-se constatar pelo texto que Eugênia:

a) alternava satisfação e alegria com frieza e mudez. b) alheia a tudo, fingia ser uma mulher casa­da.
c) conservou-se calada, mas sua imaginação ia longe.
d) era uma mulher casada que dissimulava um ar virginal.
e) era uma moça que intelectualmente se comportava como uma criança.

Questão 19 -De acordo com o texto, Eugênia:

a) tinha dezessete anos, mas queria enco­brir sua verdadeira idade.
b) é uma personagem que não participou do diálogo.
c) era pródiga na conversação com seus fa­miliares.
d) sorria toda vez que o assunto se referia a sua idade.
e) fez o narrador se familiarizar rápido com a mãe.

Questão 20 - O trecho: “como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante...”pode ser entendido como uma ironia ao:

a) rebuscamento barroco
b) bucolismo árcade
c) devaneio romântico
d) preciosismo parnasiano
e) inconsciente simbolista


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