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sábado, 30 de março de 2013

Texto: “A fêmea do cupim” – Manuel Bandeira

A fêmea do cupim

Tenho um amigo, cujo filho pretendeu entrar para a diplomacia. Não que tivesse vocação para a carreira, a vocação dele era para o turismo, mas como quem é pobre a maneira mais fácil de arranjar viagem é fazer-se diplomata, candidatou-se ao curso do Instituto Rio Branco. Foi reprovado em português no vestibular. Os leitores hão de imaginar que ele redigia mal, ou que havia na banca um funcionário do DASP que lhe tivesse perguntado, por exemplo, o presente do indicativo do verbo “precaver”. Foi pior do que isto: um dos examinadores saiu-se com esta questão absolutamente inesperada para um candidato a diplomata: “Qual o nome da fêmea do cupim?”. O rapaz embatucou e o mais engraçado é que ignora até hoje. Inquiriu todo mundo, ninguém sabia. 
Eu também não sabia, mas tomei o negócio a peito. Saí indagando dos mais doutos. O dicionarista Aurélio decerto saberia. Pois não sabia. O filólogo Nascentes levou a mal a minha curiosidade e respondeu aborrecido que o nome da fêmea do cupim só podia interessar... ao cupim! Uma minha amiga professora, sabidíssima em femininos e plurais esquisitos, foi mais severa e me perguntou se eu estava ficando gagá e dando para obsceno!
Vi que tinha de me arranjar sozinho. Fui para casa, botei a livraria abaixo. Nada de fêmea do cupim. De repente me lembrei da enciclopédia Delta-Larousse, cujos quatro últimos volumes – primorosos – acabo de receber. Corri ao índice geral. Ó beleza! Lá estava: “Cupins, pág. 6436”. Li muita coisa interessante sobre a fêmea do cupim. Assim, que ela apresenta a mais monstruosa hipertrofia abdominal que se possa imaginar: atinge o volume de uma salsicha e põe sem parar, noite e dia, um ovo por segundo, ou seja, cerca de trinta milhões por ano, cento e cinquenta no curso de sua vida. E uma porção de outras minúcias. Mas sobre o nome da bicha, neca!
Isto, pensei comigo, é problema que só poderá ser resolvido por algum decifrador de palavras cruzadas, gente que sabe que o ferrinho onde se reúnem as varetas do guarda-chuva se chama “noete”, que o pato “grasna’, o tordo “trucila”,  a garça “gazeia”, e outras coisas assim. Telefonei para minha amiga Jeni, cruzadista exímia.
– Jeni, me salve! Como se chama a fêmea do cupim?!
E ela, do outro lado do fio:
– Arará.
Fui verificar nos dicionários. Dos que eu tenho em casa só um trazia a preciosa informação: “Arará”, s. m. (bras.) Ave aquática do Rio Grande do Sul; fêmea alada do cupim.”
Mestre Aurélio, a fêmea do cupim se chama “arará”, está no meu, no teu, no nosso dicionário – O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa!

(Manuel Bandeira, 25/10/61)

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