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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Torquato da Luz – Poemas

Torquato da Luz

Retrato

Um poço de ternura. 
Cisterna que decanta
o líquido pastoso da loucura
que de súbito em mim se eleva e canta.

Reserva frágil de emoções.
Um forno em que se coze
a sede insaciável que me impõe
que viva e ouse.

Floresta agora, logo após deserto.
Árida aresta de tudo o que me chama.
Não sabendo de nada, apenas certo
da certeza invencível de quem ama.

Cantil de raiva que destila medo,
gato de unhas e patas aguçadas,
rasgo o pano da noite e com um dedo
acuso as madrugadas.

(Torquato da Luz, in "Lucro Lírico", 1973)

Resistir

Para o que der e vier,
sigo a tua legenda: resistir.
Mas já me assalta a dor de não saber
se hei-de ficar, se hei-de partir.

Nada do que sonhamos se cumpriu
e o tempo, animal veloz,
vai deixar o vazio
onde devíamos ser nós.

É muito fácil desenhar
o destino à medida.
Difícil é conformar
o desenho e a vida.

(Torquato da Luz, in "Destino do Mar", 1991)


"Touched by love". Josef Kote.
A vida inteira

Quando a manhã chegar e tu voltares 
com o intenso cheiro a maresia
que usas deixar em todos os lugares
por onde passas, pura poesia
ou perdida lembrança dos olhares
que surpresos trocamos algum dia,

vou apertar-te ao peito de maneira
que fiques a meu lado a vida inteira. 

(Torquato da Luz, 2008)

Talvez


Talvez na noite inquieta o teu passo sereno
a tua voz chegada do princípio de tudo
as tuas mãos erguidas num aceno
os teus lábios de quem vai beijar o mundo.

Talvez na manhã clara o teu corpo de fogo
os teus cabelos leque de todas as cores
os teus dedos correndo as ruas do meu corpo
o teu odor a mar por onde quer que fores.

Talvez somente a luz do teu olhar
o sol que deixas sempre em teu lugar.

(Torquato da Luz, 2005)

Solidão

Hei-de lembrar-te ainda, quando o vento
tiver varrido as folhas da memória
e nada mais couber na nossa história
de amor do que o direito ao esquecimento.

Hei-de lembrar-te ainda, quando a dor
das horas em que não estive contigo
tiver passado, exorcizando o perigo
de me render a outra dor maior.

Hei-de lembrar-te ainda, quando não
souber mais quem tu eras, solidão.

(Torquato da Luz, 2008)
À espera

Ainda um dia hei-de contar-te as espantosas
coisas de que me lembro quando fico à tua espera
horas e horas, cada vez mais vagarosas,
e tu não chegas, meu amor, e tu demoras
mais do que a minha paciência. Quem me dera
aquele tempo em que era sempre primavera
e assistia indiferente à passagem das horas.

Mas, quando chegas, só me ocorre esquecer tudo
e ter-te uma vez mais como quem tem o mundo.

(Torquato da Luz, in “Os dias do amor”)

"E as janelas, o jardim...". Anna Marinova.
Mais nada

Nestes dias chuvosos, quando a tua
lembrança vem bater-me na vidraça,
recuso-me de todo a ver quem passa
e procuro nem sequer olhar a rua.

E pela noite dentro, quando a lua
é um pássaro triste que esvoaça
sobre a última árvore da praça,
onde um fantasma sempre se insinua,

reinvento-te e, à luz da madrugada,
concluo que, além de ti, não há mais nada.

(Torquato da Luz, 2008)

O que der e vier

Tributário apenas da verdade,
avesso a peias e grilhetas,
feito da massa dos poetas
e dos que amam a liberdade,
sensível à dor própria e à dor alheia,
lutando até ao fim por uma ideia
de peito aberto e sem ter medo
de nada nem de ninguém,
capaz de guardar segredo
mas de o revelar também,
eis como sempre hei-de ser
para o que der e vier.

(Torquato da Luz, 2007)

Sem drama

Poucas pessoas gostam de poesia,
embora a maioria,
como é sabido, diga que sim.
É que a  poesia, erva ruim,
cresce sem pedir licença
e não precisa de jardim
para marcar presença.

Vicejando em qualquer lado,
há quem a ponha na lapela
para o encontro aprazado.
Outros mostam-na à janela
no lugar do cortinado.

Mas, sem que nisso haja drama,
raros são decerto aqueles
que a fazem dormir com eles
noite após noite na cama.

(Torquato da Luz, 2013)

Ainda as palavras

Há palavras com pássaros por dentro,
onde é difícil circular:
têm patas e asas, muitas penas.
É a medo que invento
a força de lhes pegar
com as minhas mãos pequenas.

Há palavras sulcadas de navios,
onde é difícil viajar:
faltam bandeiras e velas.
É por entre calafrios
que me lanço a navegar
no mar eriçado delas.

Há palavras panóplias de mil armas,
pistolas velhas e espadas.
Meu prazer é desarmá-las
ante as tias alarmadas.

Há palavras quais facas espanholas,
brilham no gume afiado,
navalhas de ponta e mola
para o destino aprazado.
Mas destas disse-me a escola
que lhes passasse de lado.

(Torquato da Luz, in "A Porta da Europa", 1978)

Silves

Para além desta porta não há nada
e esta escada
para de súbito no ar.

E que dizer da janela,
também ela ,
que já não dá para o mar?

Nada diremos,
nada.

Na memória arruinada
só persiste o apelo:
reter nas mãos o momento,
bebê-lo até ao fim,
bebê-lo lento,
no esplêndido ondular do teu cabelo.

(Torquato da Luz, in "Destino do Mar", 1991)

Por eles

Por essa gente parada
que há sempre em todas as gares
e da funda madrugada
nos lança estranhos olhares.
Por essa gente adiada
que há sempre em todos os bares.

Pelos que sonham índias e não têm
sequer um bote para as alcançar,
vascos da gama que de noite vêm
contar-me histórias para me acordar.

Pelos que, afinal, mantêm
vivo nas veias o mar.

(Torquato da Luz, in "Destino do Mar", 1991)

A casa iluminada

Houve um tempo em que nada estava certo:
a noite não era um rio
com a foz na madrugada.
Mas tu chegaste e o longe fez-se perto:
a labareda de frio
deixou-me a casa iluminada.

Houve um tempo em que tudo estava certo:
a noite era como um rio
com a foz na madrugada.
Mas tu partiste e, rápido, o deserto
engendrou o desafio
da nossa casa queimada.

Há, porém, ventos e navios
e há, nas amuradas,
suspensa a esperança de outros rios
e outras madrugadas.

É que todos os estios
são primaveras adiadas.

(Torquato da Luz, in "Destino do Mar", 1991)

"No Jardim". Vicente Romero.
Jardim

Tu és o meu jardim. Há no teu corpo
as longas alamedas da infância.
E eu inventei, suspenso do teu rosto,
as palavras que vencem a distância.

(Torquato da Luz, in "Lucro Lírico", 1973)

Deserto próprio

Porque me deste tudo:
o corpo, a alma e esse jeito
de amar, inteiro e perfeito,
como ao princípio do mundo.

Porque a ti me entreguei
despido de mim, liberto
dos fantasmas que inventei
para meu próprio deserto.

(Torquato da Luz, in "Deserto Próprio", 1994)

Aqui

Aqui nasci, aqui habito,
aqui fizeram
que fosse o meu lugar.
Aqui entre paredes me limito
à condição daquilo que me deram
na casa onde morar.

Daqui vejo uma pomba atrás do espaço,
procurando entre as asas capturá-lo.
Aqui tento encontrar-me no que faço,
aqui furando o medo acerto o passo
com os outros com quem a medo falo.

Aqui nasci, aqui habito,
aqui puseram
este meu corpo sem me consultar.
Mas é também daqui que lanço o grito
de que ninguém me há-de calar.

(Torquato da Luz, in "Voz Suspensa", 1970)

Presença

Já não estás onde estavas, já não estás
onde sempre te vi.
Mas, olhando o lugar, sinto-te aí
e recupero a paz.

O que conta não é o que se sabe,
tampouco o que se vê.
O que conta é aquilo que não cabe
dentro dos olhos, mas se crê.

(Torquato da Luz, in "Destino do Mar", 1991)

Sem medo

Quando tudo me pesa, quando a noite
nunca mais é manhã e a frieza
me entra no quarto e vem colar-se
à minha pele, aos músculos, aos ossos,

quando me sinto à beira do naufrágio
e não há salva-vidas, boia, bote
à vista a que me agarrar,

quando tropeço e já me assalta o medo
de nunca mais me levantar,

eis que te vejo e chega a madrugada,
não há mais frio nem me é adverso o mar
e sigo em frente sem temer mais nada.

(Torquato da Luz, 2006)

Rosto a rosto

Olhemo-nos rosto a rosto
e sem demoras troquemos
sobre as rugas do tempo e do desgosto
as palavras que nos devemos.
Palavras arrancadas do mais fundo
da alma, onde as escondemos
tempo demais, como se o mundo
pudesse esperar que nunca fossem ditas.
Palavras feitas de horas infinitas
de silêncio forçado
e enfim libertas do seu longo exílio
por entre a inocência e o pecado.
Palavras que nos sejam um auxílio
para os dias sombrios à nossa espera
e que transportem sol e primavera.
Palavras como espuma e maresia,
temperadas de sal e de calor,
que nos matem a sede de poesia
e a fome de amor.

(Torquato da Luz, 2011)


Leia também:

“Um sonho de simplicidade” – Rubem Braga
Olegário Mariano – O Poeta das Cigarras
"A Repartição dos Pães" - Clarice Lispector
“A agenda” – Luis Fernando Verissimo

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

UNESP 2013 – Prova de Língua Portuguesa – 1º Fase

UNESP 2013 – Prova de Língua Portuguesa – 1º Fase



Instrução: As questões de números 01 a 05 tomam por base um texto de Millôr Fernandes (1924-2012).

Os donos da comunicação

Os presidentes, os ditadores e os reis da Espanha que se cuidem porque os donos da comunicação duram muito mais. Os ditadores abrem e fecham a imprensa, os presidentes xingam a TV e os reis da Espanha cassam o rádio, mas, quando a gente soma tudo, os donos da comunicação ainda tão por cima. Mandam na economia, mandam nos intelectuais, mandam nas moças fofinhas que querem aparecer nos shows dos horários nobres e mandam no society que morre se o nome não aparecer nas colunas.
Todo mundo fala mal dos donos da comunicação, mas só de longe. E ninguém fala mal deles por escrito porque quem fala mal deles por escrito nunca mais vê seu nome e sua cara nos “veículos” deles. Isso é assim aqui, na Bessarábia e na Baixa Betuanalândia. Parece que é a lei. O que também é muito justo porque os donos da comunicação são seres lá em cima. Basta ver o seguinte: nós, pra sabermos umas coisinhas, só sabemos delas pela mídia deles, não é mesmo? Agora vocês já imaginaram o que sabem os donos da comunicação que só deixam sair 10% do que sabem?
Pois é; tem gente que faz greve, faz revolução, faz terrorismo, todas essas besteiras. Corajoso mesmo, eu acho, é falar mal de dono de comunicação. Aí tua revolução fica xinfrim, teu terrorismo sai em corpo 6 e se você morre vai lá pro fundo do jornal em quatro linhas.

(Millôr Fernandes. Que país é este?, 1978.)

Questão 01 - Para Millôr Fernandes, no texto apresentado, os donos da comunicação são

(A) produtores de tecnologia de informação e comunicação.
(B) dirigentes de órgãos governamentais que regem a comunicação no país.
(C) apresentadores de telejornais e programas populares de televisão.
(D) proprietários de veículos de comunicação em massa.
(E) funcionários executivos de empresas de publicidade.

Questão 02 - Millôr Fernandes emprega com conotação irônica o termo inglês society, para referir-se a

(A) pessoas que fazem caridade apenas para aparecer nos jornais.
(B) pessoas dedicadas ao desenvolvimento da sociedade.
(C) indivíduos presunçosos da chamada alta sociedade.
(D) norte-americanos ou ingleses muito importantes, residentes no país.
(E) sociedades de atores de teatro, cinema e televisão.

Questão 03 - Com a frase Parece que é a lei, no segundo parágrafo, o humorista tenta explicar que

(A) parece que a lei não existe no mundo da comunicação.
(B) as pessoas poderosas se unem em sociedades secretas.
(C) as leis não foram criadas para proteger os cidadãos.
(D) o poder dos grandes empresários emana de uma lei que os protege.
(E) o poder dos donos da comunicação parece ter força de lei.

Questão 04 - As repetições, o uso de palavras e expressões populares, a justaposição fluente de ideias, dispensando vírgulas, e as ironias constantes atribuem ao texto de Millôr Fernandes

(A) dificuldade de leitura e compreensão. 
(B) tom descontraído e bem-humorado.
(C) imagens vulgares e obscenas.
(D) estilo agressivo e contundente.
(E) feição arcaica e ultrapassada.

Questão 05 - No último período do texto, a discrepância dos possessivos teu e tua (segunda pessoa do singular) com relação ao pronome de tratamento você (terceira pessoa do singular) justifica-se como

(A) aproveitamento estilístico de um uso do discurso coloquial.
(B) emprego perfeitamente correto, segundo a gramática normativa.
(C) possibilidade permitida pelo novo sistema ortográfico da língua portuguesa.
(D) intenção de agredir com mau discurso os donos da comunicação.
(E) um modo de escrever característico da linguagem jornalística.

Instrução: As questões de números 06 a 10 tomam por base um fragmento de uma peça do teatrólogo Guilherme Figueiredo (1915-1997).

A raposa e as uvas

(Casa de Xantós, em Samos. Entradas à D., E., e F. Um gongo. Uma mesa. Cadeiras. Um “clismos*”. Pelo pórtico, ao fundo, vê-se o jardim. Estão em cena Cleia, esposa de Xantós, e Melita, escrava. Melita penteia os cabelos de Cleia.)

MELITA: — (Penteando os cabelos de Cleia.) Então Rodópis contou que Crisipo reuniu os discípulos na praça, apontou para o teu marido e exclamou: “Tens o que não perdeste”. Xantós respondeu: “É certo”. Crisipo continuou: “Não perdeste chifres”. Xantós concordou: “Sim”. Crisipo finalizou: “Tens o que não perdeste; não perdeste chifres, logo os tens”. (Cleia ri.) Todos riram a valer.
CLEIA: — É engenhoso. É o que eles chamam sofisma. Meu marido vai à praça para ser insultado pelos outros filósofos?
MELITA: — Não; Xantós é extraordinariamente inteligente... No meio do riso geral, disse a Crisipo: “Crisipo, tua mulher te engana, e no entanto não tens chifres: o que perdeste foi a vergonha!” E aí os discípulos de Crisipo e os de Xantós atiraram-se uns contra os outros...
CLEIA: — Brigaram? (Assentimento de Melita.) Como é que Rodópis soube disto?
MELITA: — Ela estava na praça.
CLEIA: — Vocês, escravas, sabem mais do que se passa em Samos do que nós, mulheres livres...
MELITA: — As mulheres livres ficam em casa. De certo modo são mais escravas do que nós.
CLEIA: — É verdade. Gostarias de ser livre?
MELITA: — Não, Cleia. Tenho conforto aqui, e todos me consideram. É bom ser escrava de um homem ilustre como teu marido. Eu poderia ter sido comprada por algum mercador, ou algum soldado, e no entanto tive a sorte de vir a pertencer a Xantós.
CLEIA: — Achas isto um consolo?
MELITA: — Uma honra. Um filósofo, Cleia!
CLEIA: — Eu preferia que ele fosse menos filósofo e mais marido. Para mim os filósofos são pessoas que se encarregam de aumentar o número dos substantivos abstratos.
MELITA: — Xantós inventa muitos?
CLEIA: — Nem ao menos isto. E aí é que está o trágico: é um filósofo que não aumenta o vocabulário das controvérsias. Já terminaste?
MELITA: — Quase. É bom pentear teus cabelos: meus dedos adquirem o som e a luz que eles têm. Xantós beija os teus cabelos? (Muxoxo de Cleia.) Eu admiro teu marido.
CLEIA: — Por que não dizes logo que o amas? Gostarias bastante se ele me repudiasse, te tornasse livre e se casasse contigo...
MELITA: — Não digas isto... Além do mais, Xantós te ama...
CLEIA: — À sua maneira. Faço parte dos bens dele, como tu, as outras escravas, esta casa...
MELITA: — Sempre que viaja te traz presentes.
CLEIA: — Não é o amor que leva os homens a dar presentes às esposas: é a vaidade; ou o remorso.
MELITA: — Xantós é um homem ilustre.
CLEIA: — É o filósofo da propriedade: “Os homens são desiguais: a cada um toca uma dádiva ou um castigo”. É isto democracia grega... É o direito que o povo tem de escolher o seu tirano: é o direito que o tirano tem de determinar: deixo-te pobre; faço-te rico; deixo-te livre; faço-te escravo. É o direito que todos têm de ouvir Xantós dizer que a injustiça é justa, que o sofrimento é alegria, e que este mundo foi organizado de modo a que ele possa beber bom vinho, ter uma bela casa, amar uma bela mulher. Já terminaste?
MELITA: — Um pouco mais, e ainda estarás mais bela para o teu filósofo.
CLEIA: — O meu filósofo... Os filósofos são sempre criaturas cheias demais de palavras...

(*) Espécie de cama para recostar-se.

(Guilherme Figueiredo. Um deus dormiu lá em casa, 1964.)

Questão 06 - A leitura deste fragmento da peça A raposa e as uvas revela que a personagem Cleia

(A) aprecia, orgulhosa, Xantós como homem e como filósofo.
(B) preferiria que Xantós desse mais atenção a ela que à Filosofia.
(C) tem bastante orgulho pelas vitórias do marido nos debates.
(D) demonstra grande admiração pela cultura filosófica de Xantós.
(E) manifesta desprezo pelo marido, mas valoriza sua sabedoria.

Questão 07 - Entre as frases, extraídas do texto, aponte a que consiste num raciocínio fundamentado na percepção de uma contradição:

(A) As mulheres livres ficam em casa. De certo modo são mais escravas do que nós.
(B) É bom pentear teus cabelos: meus dedos adquirem o som e a luz que eles têm.
(C) Tenho conforto aqui, e todos me consideram.
(D) Xantós é extraordinariamente inteligente...
(E) Os filósofos são sempre criaturas cheias demais de palavras...

Questão 08 - Considerando-se que os papéis desempenhados pela esposa e pela escrava são reveladores do modo como sentem as condições em que vivem, pode-se afirmar que Cleia e Melita encarnam em cena, respectivamente, dois sentimentos distintos:

(A) admiração – resignação.      (B) respeito – desprezo.
(C) ingenuidade – sabedoria.     (D) insatisfação – felicidade.     (E) orgulho – euforia.

Questão 09 - Em sua penúltima fala no fragmento, Cleia critica o conceito de “democracia grega”, podendo-se perceber, pelo teor de seu discurso, que

(A) é incapaz, como todas as mulheres gregas, de compreender abstrações.
(B) o marido não lhe passa argumentos para compreender a beleza do conceito.
(C) tem muita perspicácia ao perceber e apontar as contradições do conceito.
(D) a filosofia de Xantós é elevada demais para as pessoas comuns compreenderem.
(E) não tem informações suficientes para entender o valor da “democracia grega”.

Questão 10 - [...] a injustiça é justa – o sofrimento é alegria.
O impacto estilístico destas duas frases de uma das falas de Cleia se deve à utilização expressiva de entre conceitos. O termo que preenche corretamente a lacuna é

(A) refinamento.   (B) liberação.   (C) semelhança.   (D) similaridade.   (E) contradição.


Instrução: As questões de números 11 a 15 tomam por base um poema de Luís Delfino (1834-1910) e a reprodução de um mosaico da Catedral de Monreale.

Jesus Pantocrátor[1]

Há na Itália, em Palermo, ou pouco ao pé, na igreja
De Monreale, feita em mosaico, a divina
Figura de Jesus Pantocrátor: domina
Aquela face austera, aquele olhar troveja.

Não: aquela cabeça é de um Deus, não se inclina.
À árida pupila a doce, a benfazeja
Lágrima falta, e o peito enorme não arqueja
À dor. Fê-lo tremendo a ficção bizantina[2].

Este criou o inferno, e o espetáculo hediondo
Que há nos frescos[3] de Santo Stefano Rotondo[4];
Este do mundo antigo espedaçado assoma...

Este não redimiu; não foi à Cruz: olhai-o:
Tem o anátema[5] à boca, às duas mãos o raio,
E em vez do espinho à fronte as três coroas de Roma.

(Luís Delfino. Rosas negras, 1938.)

(1) Pantocrátor: que tudo rege, que governa tudo.
(2) Bizantina: referente ao Império Romano do Oriente (330- 1453 d.C.) e às manifestações culturais desse império.
(3) Fresco: o mesmo que afresco, pintura mural que resulta da aplicação de cores diluídas em água sobre um revestimento ainda fresco de argamassa, para facilitar a absorção da tinta.
(4) Santo Stefano Rotondo: igreja erigida por volta de 460 d.C., em Roma, em homenagem a Santo Estêvão (Stefano, em italiano), mártir do cristianismo.
(5) Anátema: reprovação enérgica, sentença de maldição que expulsa da Igreja, excomunhão.

Figura de Cristo Pantocrátor

(Catedral de Monreale, Itália.)
Questão 11- Neste soneto de Luís Delfino ocorre uma espécie de diálogo entre o texto poético e uma impressionante figura de Jesus Cristo Pantocrátor, com 7 m de altura e largura de 13,30m, criada por mestres especializados na técnica bizantina do mosaico, na abside da catedral de Monreale, construída entre 1172 e 1189. A figura de Cristo Pantocrátor, feita em mosaicos policromos e dourados, pode ser vista ainda hoje na mesma cidade e igreja mencionadas na primeira estrofe. Colocando-se diante dessa representação de Cristo, o eu lírico do soneto

(A) entende que a combinação da atitude e dos traços da figura do mosaico mais parecem as de um ídolo pagão oriental do que de um deus cristão venerado pela humanidade.
(B) sugere que a figura do mosaico não condiz com a imagem que a tradição cristã legou de um doce e divino homem com feições marcadas pelo martírio e sofrimento na cruz.
(C) sustenta que a figura humana ali representada provém de uma religião anticristã, com ligações estreitas com as divindades infernais que martirizavam cristãos.
(D) utiliza o caráter assustador do mosaico para negar a divindade de Jesus Cristo, servindo-se do poema como um meio de argumentação.
(E) questiona a qualidade plástica e os fundamentos formais de origem bizantina da imagem como destituídos de maior valor estético.

Questão 12 - A leitura do soneto revela que o poeta seguiu o preceito parnasiano de só fazer rimar em seus versos palavras pertencentes a classes gramaticais diferentes, como se observa, por exemplo, nas palavras que encerram os quatro versos da primeira quadra, que rimam conforme o esquema ABBA. Consideradas em sua sequência do primeiro ao quarto verso, tais palavras surgem, respectivamente, como

(A) substantivo, adjetivo, verbo, verbo.
(B) substantivo, substantivo, verbo, verbo.
(C) substantivo, adjetivo, substantivo, advérbio.
(D) adjetivo, verbo, substantivo, adjetivo.
(E) verbo, adjetivo, verbo, adjetivo.

Questão 13 - À árida pupila a doce, a benfazeja / lágrima falta.
A inversão das posições usuais dos termos da oração, provocada pela necessidade de completar o número de sílabas e obedecer às posições dos acentos tônicos nos versos, por vezes dificulta a percepção das relações sintáticas entre esses termos.
É o caso da oração destacada, que ocupa o sexto e parte do sétimo versos. Em discurso não versificado, essa oração apresentaria usualmente a seguinte disposição de termos:

(A) À pupila doce a lágrima, a árida, a benfazeja falta.
(B) A doce, a benfazeja pupila falta à árida lágrima.
(C) Falta à pupila a árida, a doce, a benfazeja lágrima.
(D) A doce, a benfazeja lágrima falta à árida pupila.
(E) Falta a lágrima a doce, a benfazeja à árida pupila.

Questão 14 - O pronome demonstrativo este, empregado no início dos versos de números 9, 11 e 12, faz referência

(A) ao peito enorme do Pantocrátor.
(B) ao próprio eu lírico.
(C) à figura de Jesus Pantocrátor.
(D) a Santo Estêvão.
(E) a Satanás, o mestre das trevas.

Questão 15 - Segundo um dos dogmas da doutrina cristã, Jesus Cristo nos resgatou e nos reconciliou com Deus por meio de seu sacrifício na cruz. Aponte o verso do poema que nega explicitamente esse dogma para a imagem de Cristo Pantocrátor.

(A) Não: aquela cabeça é de um Deus, não se inclina.
(B) Este do mundo antigo espedaçado assoma...
(C) Aquela face austera, aquele olhar troveja.
(D) Figura de Jesus Pantocrátor: domina
(E) Este não redimiu; não foi à Cruz: olhai-o:

Instrução: As questões de números 16 a 20 tomam por base dois trechos de um artigo de Alexandre Oliva sobre a importância do uso de software na educação.

Software Livre, isto é, software que respeita as liberdades dos usuários de executar o software para qualquer propósito, de estudar o código fonte do software e adaptá-lo para que faça o que o usuário deseje, de fazer e distribuir cópias do software, e de melhorá-lo e distribuir as melhorias, permite que pessoas usem computadores sem abrir mão de serem livres e independentes, sem aceitar condições que os impeçam de obter ou criar conhecimento desejado.
Software que priva o usuário de qualquer dessas liberdades não é Livre, é privativo, e mantém usuários divididos, dependentes e impotentes. Não é uma questão técnica, não tem nada a ver com preço nem com a tarefa prática desempenhada pelo software. Um mesmo programa de computador pode ser Livre para alguns usuários e não-Livre para outros, e tanto os Livres quanto os privativos podem ser grátis ou não. Mas além do conhecimento que foram projetados para transmitir, um deles ensinará liberdade, enquanto o outro ensinará servidão.
[...]
Se o usuário depender de permissão do desenvolvedor do software para instalá-lo ou utilizá-lo num computador qualquer, o desenvolvedor que decida negá-la, ou exija contrapartida para permiti-la, efetivamente terá controle sobre o usuário. Pior ainda se o software armazenar informação do usuário de maneira secreta, que somente o  fornecedor do software saiba decodificar: ou o usuário paga o resgate imposto pelo fornecedor, ou perde o próprio conhecimento que confiou ao seu controle. Seja qual for a escolha, restarão menos recursos para utilizar na educação.
Ter acesso negado ao código fonte do programa impede o educando de aprender como o software funciona. Pode parecer pouco, para alguém já acostumado com essa prática que pretende também controlar e, por vezes, enganar o usuário: de posse do código fonte, qualquer interessado poderia perceber e evitar comportamento indesejável, inadequado ou incorreto do software. Através dessa imposição de impotência, o fornecedor cria um monopólio sobre eventuais adaptações ao software: só poderão ser desenvolvidas sob seu controle. Pior ainda: cerceia a curiosidade e a criatividade do educando. Crianças têm uma curiosidade natural para saber como as coisas funcionam. Assim como desmontam um brinquedo para ver suas entranhas, poderiam querer entender o software que utilizam na escola. Mas se uma criança pedir ao professor, mesmo o de informática, que lhe ensine como funciona um determinado programa privativo, o professor só poderá confessar que é um segredo guardado pelo fornecedor do software, que a escola aceitou não poder ensinar ao aluno. Limites artificiais ao que os alunos poderão almejar descobrir ou aprender são a antítese da educação, e a escolha de modelos de negócio de software baseados numa suposta necessidade de privação e controle desse conhecimento não deve ser incentivada por ninguém, muito menos pelo setor educacional.

(Alexandre Oliva. Software privativo é falta de educação.  http://revista.espiritolivre.org)

Questão 16 - De acordo com a argumentação do especialista Alexandre Oliva, a principal característica de um software livre consiste em

(A) apresentar grande facilidade de instalação e uso.
(B) revelar qualidade superior e maior velocidade de desempenho.
(C) ser sempre muitíssimo mais barato que o software privativo.
(D) dar liberdade de acesso e manipulação do código-fonte ao usuário.
(E) não permitir que o usuário o copie para outro computador ou para terceiros.

Questão 17 - Conforme aponta o autor no terceiro parágrafo, um dos problemas dos programas privativos é

(A) sofrerem rápida defasagem, necessitando de atualizações constantes.
(B) não poderem ser devolvidos em caso de ineficácia.
(C) exigirem contrapartida para instalações em outros computadores.
(D) apresentarem preço extorsivo para o usuário em ambiente doméstico.
(E) trazerem a marca registrada ou de fantasia da empresa.

Questão 18 - Crianças têm uma curiosidade natural para saber como as coisas funcionam.
No contexto em que surge, no último parágrafo, esta frase aponta um fato que reforça o argumento de Alexandre Oliva, segundo o qual

(A) os programas privativos, apesar dos problemas que apresentam, são mais indicados para a educação.
(B) a educação brasileira necessita, urgentemente, de teorias que estimulem ainda mais a curiosidade infantil.
(C) tanto faz usar software privativo como livre, que as crianças sempre dão um jeito de desmontá-lo.
(D) tanto faz usar um tipo de programa como outro, desde que as crianças sejam consultadas primeiro.
(E) seria altamente educativo que as escolas utilizassem programas sem limitações de acesso a seu funcionamento.

Questão 19 - No fragmento do artigo apresentado, em todas as referências a software, a palavra “Livre” aparece com inicial maiúscula e a palavra “privativo” com inicial minúscula. Aponte a alternativa que explica essa diferença em função do próprio contexto do artigo:

(A) A maiúscula foi necessária no contexto para ressaltar o fato de que as palavras “livre” e “privativo” pertencem a classes gramaticais diferentes.
(B) A inicial maiúscula em “livre” foi empregada como recurso estilístico para enfatizar a grande importância que o autor atribui a tal tipo de software.
(C) Trata-se de um recurso que o autor utilizou, ao rascunhar o artigo, para localizar a palavra “livre” e depois esqueceu de apagar.
(D) O autor escreveu a inicial maiúscula na palavra “livre” sem nenhum motivo justificável em função do texto do artigo.
(E) Foi seguido o preceito segundo o qual todos os nomes próprios do idioma devem ser escritos sempre com inicial maiúscula.

Questão 20 - [...] cerceia a curiosidade e a criatividade do educando.
A forma verbal cerceia, nesta frase do último parágrafo, significa:

(A) restringe.   (B) estimula.   (C) cerca.   (D) reforça.   (E) contamina.



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