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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Texto: "Escrever" — Clarice Lispector

Escrever 


       Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. 
"Patrice reads Sartre". David Blaine Clemons
       Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.
       Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.
       Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiroescrever e outro, podem-se passar anos.
       Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.

(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999)


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quarta-feira, 22 de junho de 2016

UNESP 2014 – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa

UNESP 2014 – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa


As questões de números 01 a 05 focalizam uma passagem do romance Água-Mãe, de José Lins do Rego (1901-1957).

Água-Mãe

            Jogava com toda a alma, não podia compreender como um jogador se encostava, não se entusiasmava com a bola nos pés. Atirava-se, não temia a violência e com a sua agilidade espantosa, fugia das entradas, dos pontapés. Quando aquele back1, num jogo de subúrbio, atirou-se contra ele, recuou para derrubá-lo, e com tamanha sorte que o bruto se estendeu no chão, como um fardo. E foi assim crescendo a sua fama. Aos poucos se foi adaptando ao novo Joca que se formara nos campos do Rio. Dormia no clube, mas a sua vida era cada vez mais agitada. Onde quer que estivesse, era reconhecido e aplaudido. Os garçons não queriam cobrar as despesas que ele fazia e até mesmo nos ônibus, quando ia descer, o motorista lhe dizia sempre:
            — Joca, você aqui não paga.
            Quando entrava no cinema era reconhecido. Vinham logo meninos para perto dele. Sabia que agradava muito. No clube tinha amigos. Havia porém o antigo center-forward2 que se sentiu roubado com a sua chegada. Não tinha razão. Ele fora chamado. Não se oferecera. E o homem se enfureceu com Joca. Era um jogador de fama, que fora grande nos campos da Europa e por isso pouco ligava aos que não tinham o seu cartaz. A entrada de Joca, o sucesso rápido, a maravilha de agilidade e de oportunismo, que caracterizava o jogo do novato, irritava-o até ao ódio. No dia em que tivera que ceder a posição, a um menino do Cabo Frio, fora para ele como se tivesse perdido as duas pernas. Viram-no chorando, e por isso concentrou em Joca toda a sua raiva. No entanto, Joca sempre o procurava. Tinha sido a sua admiração, o seu herói.

1 Beque, ou seja, o zagueiro de hoje.
2 Centroavante.

(Água-Mãe, 1974.)
Questão 01
Questão 01 - Com a expressão fugia das entradas, no primeiro parágrafo, o narrador sugere que o jogador Joca manifestava em campo:

(A) preguiça. (B) covardia. (C) despreparo. (D) esperteza. (E) ingenuidade.

Questão 02 - No primeiro parágrafo, predominam verbos empregados no

(A) pretérito perfeito do modo indicativo.
(B) pretérito imperfeito do modo indicativo.
(C) presente do modo indicativo.
(D) presente do modo subjuntivo.
(E) pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo.
Questão 03
Questão 03 - Quando entrava no cinema era reconhecido.
A língua portuguesa aceita muitas variações na ordem dos termos na oração e no período, desde que não causem a desestruturação sintática e a perturbação ou quebra do sentido. Assinale a alternativa em que a reordenação dos elementos não altera a estrutura do período em destaque e mantém o mesmo sentido.

(A) Quando era no reconhecido cinema entrava.
(B) Era reconhecido quando entrava no cinema.
(C) Entrava quando no cinema era reconhecido.
(D) Quando era reconhecido entrava no cinema.
(E) Entrava reconhecido quando era no cinema.
Questão 04
Questão 04 - Atitude que, no último parágrafo, melhor sintetiza a reação do antigo center-forward ao sucesso de Joca:

(A) rancor. (B) cavalheirismo. (C) colaboração. (D) admiração. (E) indiferença.
Questão 05
Questão 05 - No dia em que tivera que ceder a posição, a um menino do Cabo Frio, fora para ele como se tivesse perdido as duas pernas.
Segundo o contexto, a imagem como se tivesse perdido as duas pernas revela, com grande expressividade e força emocional,

(A) sensação de estar sendo injustiçado pela torcida.
(B) certeza de que ainda era melhor jogador que o novato.
(C) sentimento de impotência ante a situação.
(D) vontade de trocar o futebol por outra profissão.
(E) receio de sofrer novas contusões e ficar incapacitado.

As questões de números 06 a 10 tomam por base uma passagem do artigo Os operários da música livre, de Ronaldo Evangelista.

            Desde o final do século 20, toda a engrenagem industrial do mercado musical passa por intensas transformações, como o surgimento e disseminação de novas tecnologias, em grande parte gratuitas, como os arquivos MP3s, as redes de compartilhamento destes arquivos, mecanismos torrents, sites de armazenamento de conteúdo, ferramentas de publicação on-line — tudo à disposição de quem quisesse dividir com os outros suas canções e discos favoritos. A era pós-industrial atingiu toda a indústria do entretenimento, mas o braço da música foi quem mais sofreu, especialmente as grandes gravadoras multinacionais, as chamadas majors, que sofreram um declínio em todas as etapas de seu antigo negócio, ao mesmo tempo em que rapidamente se aperfeiçoavam ferramentas baratas e caseiras de produção que diminuíam a distância entre amadores e profissionais.
            A era digital é também chamada de pós-industrial porque confronta o modelo de produção que dominava até o final do século 20. Esse modelo industrial é baseado na repetição, em formatar e embalar. Por trás disso, a ideia é obter a máxima produção — o que, para produtos em geral, funciona muito bem. Quando esses parâmetros são aplicados à arte, a venda do produto (por exemplo, o disco) depende do conteúdo (a canção). A canção que vai resultar nessa “produção máxima” é buscada por meio de um equilíbrio entre criatividade e uma fórmula de sucesso que desperte o interesse do público. Como estudos ainda não conseguiram decifrar como direcionar a criatividade de uma maneira que certamente despertará esse interesse (e maximizará a produção), a opção normalmente costuma ser pela solução mais simples.
            “Cada um tem descoberto suas fórmulas e possibilidades, pois tudo tende a ser cada vez menos homogêneo”, opina o baiano Lucas Santtana, que realizou seus discos recentes às próprias custas.“Claro que ainda existe uma distância em relação aos artistas chamados mainstream”, continua. “Mas você muda o tamanho da escala e já está tudo igual em termos de business. A pergunta é se essa geração faz uma música para esse grande mercado ou se ela está formando um novo público. Outra pergunta é se o grande mercado na verdade não passa de uma imposição de uma máfia que dita o que vai ser popular.”

(Galileu, março de 2013. Adaptado.)

Questão 06 - Segundo o autor, desde o final do século 20, as novas tecnologias e softwares voltados para a música beneficiaram

(A) as lojas especializadas na venda de discos de vinil e digitais.
(B) os distribuidores de discos de vinil no mercado internacional.
(C) as grandes gravadoras e produtoras nacionais de discos.
(D) as grandes redes de supermercados e shoppings.
(E) os usuários interessados em compartilhar músicas.
Questão 07
Questão 07 - Numerosas palavras da língua inglesa são adotadas no mundo todo em jornais, revistas e livros especializados, por terem sido incorporadas aos vocabulários da indústria, do comércio, da tecnologia e de muitas outras atividades. Levando em consideração o contexto do artigo, assinale a alternativa em que a palavra da língua inglesa é empregada para designar algo ou alguém que caiu no gosto do público, com vasta disseminação pela mídia:

(A) majors. (B) mainstream. (C) torrents. (D) sites. (E) business.
Questão 08
Questão 08 - No primeiro parágrafo, o termo tudo, por sua relação sintática e semântica com a sequência que o precede, representa

(A) uma forte redundância devida a um lapso do escritor.
(B) a negação do que foi dito pelos termos antes enumerados.
(C) uma circunstância de tempo acrescentada à enumeração.
(D) o elemento que encerra uma enumeração, resumindo-a.
(E) toda a engrenagem tradicional do mercado musical.

Questão 09 - Em seu depoimento no artigo, o músico Lucas Santtana sugere que o grande mercado talvez não passe da imposição de uma máfia. O termo máfia, nesse caso, foi empregado no sentido de

(A) domínio dos partidos políticos sobre o mercado musical, privilegiando tudo o que interesse apenas ao poder público.
(B) organização criminosa com origem na Itália, com poderosas ramificações pelo mundo inteiro.
(C) sindicato de grandes músicos brasileiros que visa impedir a ascensão e o sucesso de músicos mais jovens.
(D) grupos anarquistas constituídos para tumultuar e desmoralizar os músicos mais jovens e a música popular brasileira.
(E) organização que emprega métodos imorais e ilegais para impor seus interesses em determinada atividade.
Questão 10
Questão 10 - Como estudos ainda não conseguiram decifrar como direcionar a criatividade de uma maneira que certamente despertará esse interesse (e maximizará a produção), a opção normalmente costuma ser pela solução mais simples.
O período em destaque apresenta muitos ecos (coincidências de sons de finais de palavras). Uma das formas de evitá-los e tornar a sequência mais fluente seria colocar “conduzir”, “tal”, “quantidade produzida” em lugar de, respectivamente,

(A) direcionar, esse, produção.
(B) decifrar, esse, solução.
(C) direcionar, interesse, produção.
(D) conseguiram, que, opção.
(E) decifrar, interesse, maximizará.


Para responder às questões de números 11 a 15, leia o fragmento de um texto publicado em 1867 no semanário Cabrião.

São Paulo, 10 de março de 1867.

            Estamos em plena quaresma.
            A população paulista azafama-se a preparar-se para a lavagem geral das consciências nas águas lustrais do confessionário e do jejum.
            A cambuquira* e o bacalhau afidalgam-se no mercado.
            A carne, mísera condenada pelos santos concílios, fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da população, e desce quase a zero na pauta dos preços.
            O que não sobe nem desce na escala dos fatos normais é a vilania, a usura, o egoísmo, a estatística dos crimes e o montão de fatos vergonhosos, perversos, ruins e feios que precedem todas as contrições oficiais do confessionário, e que depois delas continuam com imperturbável regularidade.
            É o caso de desejar-se mais obras e menos palavras.
            E se não, de que é que serve o jejum, as macerações, o arrependimento, a contrição e quejandas religiosidades?
            O que é a religião sem o aperfeiçoamento moral da consciência?
            O que vale a perturbação das funções gastronômicas do estômago sem consciência livre, ilustrada, honesta e virtuosa?
            Seja como for, o fato é que a quaresma toma as rédeas do governo social, e tudo entristece, e tudo esfria com o exercício de seus místicos preceitos de silêncio e meditação.
            De que é que vale a meditação por ofício, a meditação hipócrita e obrigada, que consiste unicamente na aparência?
            Pois o que é que constitui a virtude? É a forma ou é o fundo? É a intenção do ato, ou sua feição ostensiva?
            Neste sentido, aconselhamos aos bons leitores que comutem sem o menor escrúpulo os jejuns, as confissões e rezas em boas e santas ações, em esmolas aos pobres.

(Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis. Cabrião, 10.03.1867. Adaptado.)

* Iguaria constituída de brotos de abóbora guisados, geralmente servida como acompanhamento de assados.
Questão 11
Questão 11 - Pelo seu tema e desenvolvimento argumentativo, o texto pode ser classificado como

(A) crítico. (B) lírico. (C) narrativo. (D) histórico. (E) épico.

Questão 12 - A cambuquira e o bacalhau afidalgam-se no mercado.
Ao empregar o verbo “afidalgar-se” (tornar-se fidalgo, enobrecer; assumir ares de fidalgo, tornar-se distinto), os autores do texto sugerem, com bom humor, que a cambuquira e o bacalhau

(A) são muito pouco encontrados no comércio para compra.
(B) são alimentos venerados e honrados por sua reconhecida fidalguia.
(C) tornam-se no período produtos de grande procura e preços elevados.
(D) não podem ser consumidos pela população plebeia.
(E) são considerados iguarias que agradam ao imperador e à nobreza.
Questão 13
Questão 13 - [...] fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da população.
Na expressão dentes acatólicos, a palavra “dentes” é empregada em lugar de “pessoas”, segundo uma relação semântica de

(A) símbolo pela coisa significada.  (B) parte pelo todo.
(C) continente pelo conteúdo.          (D) causa pelo efeito.    (E) todo pela parte.
Questão 14
Questão 14 - Segundo os autores, os pecados declarados no confessionário

(A) representam uma autorização para voltar a pecar.
(B) não tornam a ser cometidos pelos crentes.
(C) deixam de ser pecados nas próximas vezes.
(D) não são tão graves que mereçam confissão.
(E) voltam a ser cometidos como sempre.

Questão 15 - Pois o que é que constitui a virtude? É a forma ou é o fundo? É a intenção do ato, ou sua feição ostensiva?
Marque a alternativa cuja passagem responde à questão levantada pelos autores no trecho em destaque.

(A) A carne [...] desce quase a zero na pauta dos preços.
(B) [...] tudo esfria com o exercício de seus místicos preceitos de silêncio e meditação.
(C) A população paulista azafama-se a preparar-se para a lavagem geral das consciências [...].
(D) É o caso de desejar-se mais obras e menos palavras.
(E) [...] a quaresma toma as rédeas do governo social [...].

As questões de números 16 a 20 abordam um poema de Raul de Leoni (1895-1926).

A alma das cousas somos nós...
Dentro do eterno giro universal
Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente,
Mas, se nesse vaivém tudo parece igual
Nada mais, na verdade,
05 Nunca mais se repete exatamente...
Sim, as cousas são sempre as mesmas na corrente
Que no-las leva e traz, num círculo fatal;
O que varia é o espírito que as sente
Que é imperceptivelmente desigual,
10 Que sempre as vive diferentemente,
E, assim, a vida é sempre inédita, afinal...
Estado de alma em fuga pelas horas,
Tons esquivos e trêmulos, nuanças
Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris
15 Da sensibilidade furta-cor...
E a nossa alma é a expressão fugitiva das cousas
E a vida somos nós, que sempre somos outros!...
Homem inquieto e vão que não repousas!
Para e escuta:
20 Se as cousas têm espírito, nós somos
Esse espírito efêmero das cousas,
Volúvel e diverso,
Variando, instante a instante, intimamente,
E eternamente,
25 Dentro da indiferença do Universo!...

(Luz mediterrânea, 1965.)

Questão 16 - Uma leitura atenta do poema permite concluir que seu título representa

(A) a negação dos argumentos defendidos pelo eu lírico.
(B) a confirmação do estado de alma disfórico do eu lírico.
(C) a síntese das ideias desenvolvidas pelo eu lírico.
(D) o reconhecimento da supremacia do homem no mundo.
(E) uma afirmação prévia da incapacidade do homem.
Questão 17
Questão 17 - Considerando o eixo temático do poema e o modo como é desenvolvido, verifica-se que nele se faz uma reflexão de fundo

(A) estético. (B) político. (C) religioso. (D) filosófico. (E) científico.
Questão 18
Questão 18 - Embora pareça constituído de versos livres modernistas, o poema em questão ainda segue a versificação medida, combinando versos de diferentes extensões, com predomínio dos de doze e dez sílabas métricas. Assinale a alternativa que indica, na primeira estrofe, pela ordem em que surgem, os versos de dez sílabas métricas, denominados decassílabos.

(A) 1 e 5. (B) 3 e 4. (C) 1, 2 e 3. (D) 2 e 3. (E) 1, 3 e 5.
Questão 19
Questão 19 - Indique o verso em que ocorre um adjetivo antes e outro depois de um substantivo:

(A) O que varia é o espírito que as sente
(B) Mas, se nesse vaivém tudo parece igual
(C) Tons esquivos e trêmulos, nuanças
(D) Homem inquieto e vão que não repousas!
(E) Dentro do eterno giro universal

Questão 20 - No último verso do poema, o eu lírico conclui que

(A) os espíritos mostram-se insensíveis ao volúvel Universo.
(B) o Universo acompanha de perto a alma ou espírito.
(C) o Universo é indiferente à relação entre o espírito e as coisas.
(D) a variação das coisas é indiferente ao espírito que as sente.
(E) as coisas têm espírito, mas o Universo não tem.

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domingo, 19 de junho de 2016

Texto: "Rita" — Rubem Braga

Rita

"A rosa amarela".
Alfredo Rodriguez.
            No meio  da  noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos. 
            Seus cabelos castanhos - a fita azul - o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...
            Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
            Rita ouvindo música; vendo campos,mares,montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas,mas pegando dele seu jeito de amar - sério, quieto, devagar.
            Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhantes de prazer, eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
            Minha filha Rita em meu sonho me sorria - com pena deste seu pai, que nunca teve.

(Rubem Braga)

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Fatec 2015 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa

Fatec – Prova de Língua Portuguesa - 2º Semestre – 2015

Leia o texto para responder às questões de números 50 a 53.

Nova geração - Ivan Angelo

            O rapaz chegou para a entrevista. O executivo de vendas on-line da grande empresa levantou-se para apertar sua mão (...) e aproveitou para dar uma geral no rapaz.
            Arrumado, mas nada formal, de sapato novo, jeans, camisa de manga comprida enrolada ate a metade do antebraço. O detalhe que o incomodou um pouco foi um brinquinho prateado de argola mínima na orelha esquerda. “Nisso dá-se um jeito depois, se valer a pena”, pensou o executivo.
            Ele sabia que não estava fácil atrair novos talentos e reter os melhores. Empresas aparelhavam-se para o crescimento projetado do país, contratavam jovens promissores, mesmo os muito jovens, como era o caso do rapaz a sua frente, 21 anos. (...)
            Havia mais de duas horas que o rapaz estava em avaliação na empresa. Passara pela entrevista inicial com o chefe do setor, resolvera os probleminhas técnicos de internet e programação visual que lhe apresentaram, com rapidez e certa superioridade irônica, lera os princípios, valores e perfil da empresa (...). Alguns itens, como “comprometimento”, foram apresentados como pré-requisitos. Afinal o encaminharam para o diretor da área de e-comerce, vendas pela internet.           O executivo tinha em mãos a avaliação do candidato: excelente.
            Descreveu o trabalho de que a empresa necessitava: desenvolvimento de um site interativo no qual o cliente internauta pudesse fazer simulações de medidas, cores, ajustes, acessórios, preços, formas de pagamento e programação de entrega de cerca de 200 produtos. Durante sua fala, o rapaz mexeu as pernas, levantou um pé, depois o outro, incomodado. O executivo perguntou se ele se sentia apto.
            — Dá para fazer — respondeu o rapaz, movendo a perna, como se buscasse alívio.
            — Posso te ajudar em alguma coisa?
            — Vou te falar a verdade. Eu comprei este sapato para vir aqui e ele está me apertando e incomodando. Eu só uso tênis.
            O executivo sorriu e pensou: “Esses meninos...”.
            — Quem falou para eu vir fazer esta entrevista, e vir de sapato, foi minha namorada. Porque eu não vinha. Ela falou para eu comprar sapato, e o sapato está me apertando aqui, me atrapalhando.
            Nos últimos anos, o executivo vinha percebendo que os desafios pessoais para a novíssima geração eram diferentes, e que havia limites para o que eles estavam dispostos a ceder antes de se comprometer com um trabalho formal.
            — Não tem problema. Pode vir de tênis. O emprego e seu.
            — Não, obrigado. Eu não quero emprego.
            O executivo parou estupefato. O menino continuou:
            — Todo mundo foi muito gentil, mas não vai dar. Esta camisa é do meu pai, eu tenho tatuagem, trabalho ouvindo música.
            — Então por que se candidatou, se não queria trabalhar?
            — Desculpe, eu não falei que não queria trabalhar.
            Novo espanto do executivo. Sentia nas falas dele e do rapaz uma dissintonia curiosa. Como ficou calado, esperando, o rapaz prosseguiu:
            — É muito arrumado aqui. E eu não quero ficar ouvindo falar de identidade corporativa, marco regulatório, desenvolvimento organizacional, demanda de mercado, sinergia, estratégia, parâmetros, metas, foco, valores... Desculpe, eu não sabia que era assim. Achava que era só fazer o trabalho direito e ver funcionar legal.
            O executivo ficou olhando a figura, contando até dez, olhos fixados naquele brinco. O garoto queria ter a liberdade dele, a camiseta colorida dele, o tênis furado dele, ouvir a música dele nos fones de ouvido, talvez trabalhar de madrugada e dormir de manhã. Não queria aquele mundo em que ele mesmo estava metido havia vinte anos. Conferiu de novo as qualificações do rapaz, aquele “excelente”. Ousou:
            — Trabalhar em casa você aceita?
            — Aceito.
            Queria o trabalho, não o emprego. Acertaram os detalhes. Assim caminha a humanidade.

<http://tinyurl.com/n66pnvs> Acesso em: 15.03.2015. Adaptado.

Questão 50 - Assinale a alternativa que traz uma afirmação correta sobre o texto.

(A) O rapaz foi orientado pelo executivo quanto ao traje adequado para a entrevista.
(B) O rapaz sentiu-se muito confortável com a roupa que vestia durante a entrevista.
(C) O rapaz ficou inseguro na entrevista, por estar mal trajado para o momento.
(D) O executivo aprovou o traje do rapaz, exceto o adereço que ele usava na orelha.
(E) O executivo disse para o gerente que depois daria um jeito no brinco usado pelo rapaz.

Questão 51 - Considerando o texto, podemos afirmar que o candidato, no primeiro momento, recusou o emprego naquela empresa porque

(A) ficou desapontado ao saber do salário, depois de passar por uma série de entrevistas e testes para o cargo.
(B) não se sentia seguro para desempenhar as tarefas inerentes ao cargo ao qual se candidatou.
(C) não desejava ficar preso a regras corporativas, que ditam estéticas e padrões de comportamento nas empresas.
(D) desejava contrariar as pressões da namorada que insistia que ele trabalhasse naquela grande corporação.
(E) desejava fazer pressão para poder negociar uma proposta salarial mais interessante do que a empresa lhe oferecia.

Questão 52 - Segundo o texto, a empresa estava recrutando um funcionário para desenvolver

(A) uma nova área de relacionamento pós-venda.
(B) uma nova imagem no mercado imobiliário.
(C) um novo modelo de venda presencial.
(D) um site de serviço de ouvidoria aos clientes.
(E) um site interativo para melhor atender os clientes.

Questão 53 - “E eu não quero ficar ouvindo falar de identidade corporativa, marco regulatório, desenvolvimento organizacional, demanda de mercado, sinergia, estratégia,
parâmetros, metas, foco, valores...”
A organização sintática, na construção desse período, foi possível porque as virgulas empregadas separam

(A) o vocativo, termo que chama, evoca o interlocutor.
(B) o aposto, termo que explica o termo anterior.
(C) os predicativos do sujeito presentes na frase.
(D) os adjuntos adnominais e os vocativos.
(E) os termos de mesmo valor sintático.

O fragmento a seguir pertence a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

            E vejam agora com que destreza; com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nos, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método.

<http://tinyurl.com/lnpaee9> Acesso em: 09.04.2015. Adaptado.

Questão 54 -Sobre esse escritor e correto afirmar que se trata de um autor

(A) realista, cuja estética valoriza a arte pela arte, incorporando aos enredos a ideologia árcade, voltada aos padrões greco-latinos.
(B) realista, cujos textos fazem criticas a sociedade e, por vezes, atribuem ao leitor o papel de interlocutor do narrador.
(C) realista, pois se serve da linguagem popular e de personagens do povo para ocultar a realidade do pais.
(D) simbolista, cujos romances se caracterizam pela presença do onírico, da musicalidade e da analise psicológica das personagens.
(E) simbolista, pois se expressa por meio de uma linguagem marcada, predominantemente, por sinestesias e metáforas.

GABARITO:
50 - D 51 - C 52 - E 53 - E 54 - B


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