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sexta-feira, 3 de junho de 2011

FERNANDA DE CASTRO

FERNANDA DE CASTRO

- Nasceu em Lisboa, em 1900, e faleceu também em Lisboa, em 1994.
- Escreveu poemas, romances, peças de teatro e livros infantis.
- Poesia carregada de fé, esperança e otimismo.
- Poetisa preocupada com as questões sociais de seu tempo.
- Poetisa perfeccionista e de natureza impulsiva.

A também escritora Rita Ferro, neta de Fernanda de Castro, diz sobre a avó:

 Experimentou todos os gêneros e tinha um talento natural para a literatura infantil. Mas foi essencialmente poeta, disso não restam dúvidas. As palavras escorriam-lhe alinhadas. Nasceu com o dom de sintetizar grandes ideias em versos simples, universais. E isso, nela, nem sequer era forçado ou excessivamente trabalhado. Seguia uma melodia coerente, para citar Morávia.

O renomado escritor português David Mourão-Ferreira assim se refere a Fernanda:

Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite

Fernanda de Castro
Os Anos são Degraus
Os anos são degraus, a Vida a escada. 
Longa ou curta, só Deus pode medi-la. 
E a Porta, a grande Porta desejada, 
só Deus pode fechá-la, 
pode abri-la. 

São vários os degraus; 
Alguns sombrios, 
outros ao sol, na plena luz dos astros, 
com asas de anjos, harpas celestiais. 
Alguns, quilhas e mastros 
nas mãos dos vendavais. 

Mas tudo são degraus; tudo é fugir 
à humana condição. 
Degrau após degrau, 
tudo é lenta ascensão. 

Senhor, como é possível a descrença, 
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada, 
se encontre após esta ansiedade imensa 
uma porta fechada 
e mais nada?”

(Fernanda de Castro, in "Asa do Espaço")

“Que verso incomparável, infinito, 
feito de sol, de misterioso brilho, 
poderia dizer o que, num grito, 
diz a mulher quando lhe nasce um filho? 

E quando sobre nós desce a tristeza, 
como desce a penumbra sobre o dia, 
uma lágrima triste e sem beleza 
diz mais do que a palavra nua e fria. 

Redondilha de amor... Para fazê-la, 
desse-me Deus a tinta do luar, 
a candeia suspensa de uma estrela 
e o tinteiro vastíssimo do mar."


(Fernanda de Castro)

O Segredo é Amar

O segredo é amar. Amar a Vida 
com tudo o que há de bom e mau em nós. 
Amar a hora breve e apetecida, 
ouvir os sons em cada voz 
e ver todos os céus em cada olhar. 

Amar por mil razões e sem razão. 
Amar, só por amar, 
com os nervos, o sangue, o coração. 
Viver em cada instante a eternidade 
e ver, na própria sombra, claridade. 

O segredo é amar, mas amar com prazer, 
sem limites, fronteiras, horizonte. 
Beber em cada fonte, 
florir em cada flor, 
nascer em cada ninho, 
sorver a terra inteira como o vinho. 

Amar o ramo em flor que há-de nascer, 
de cada obscura, tímida raiz. 
Amar em cada pedra, em cada ser, 
S. Francisco de Assis. 

Amar o tronco, a folha verde, 
amar cada alegria, cada mágoa, 
pois um beijo de amor jamais se perde 
e cedo refloresce em pão, em água! 

(Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"
)

Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta. 
Saudade não é dor nem amargura, 
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura, 
agora sei que a minha estrada é esta: 
difícil de subir, áspera e dura, 
mas branca a urze, de oiro puro a giesta. 

Assim meu canto fácil de entender, 
como chuva a cair, planta a nascer, 
como raiz na terra, água corrente. 

Tão fácil o difícil verso obscuro! 
Eu não canto, porém, atrás dum muro, 
eu canto ao sol e para toda a gente. 

(Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas")

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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