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sábado, 31 de outubro de 2015

Prova de Língua e Literatura em Língua Portuguesa – Cásper Líbero – 2011

Prova de Língua e Literatura em Língua Portuguesa – Cásper Líbero – 2011



Leia o texto a seguir e responda às questões de 1 a 6:

            A Independência (que tem seu ponto de partida na transferência da corte portuguesa em 1808) assinala a estruturação do Estado Brasileiro, o que determina, com a configuração da nova individualidade nacional que o Brasil passava a apresentar, a grande e variada série de consequências que derivam da inclusão no próprio país e sobre a base exclusiva de nacionais, do seu centro político, administrativo e social. A inspiração, orientação e direção do conjunto da vida brasileira se farão daí por diante a partir de seu próprio interior onde se localizarão seus estímulos e impulsos, o que torna possível definir, propor e realizar as aspirações e interesses propriamente nacionais. Do ponto de vista estritamente econômico, destaquemos unicamente o que a estruturação do Estado nacional representaria como fator de ampliação das despesas públicas, com reflexo imediato nas particulares; e portanto de ativação de vida econômica e financeira, aumento da renda nacional e do consumo que isso representa. O efeito conjugado desses fatores resultará, em consequência da brusca transformação ocorrida, no profundo desequilíbrio financeiro e nas crises que caracterizam a vida do Império até meados do século. E constitui circunstância que influi poderosamente no sentido de estimular a integração nacional da economia brasileira. Isso será tanto mais sensível e de efeitos mais amplos, que acresce um fator de ordem político-administrativa a atuar no mesmo sentido. Até a Independência, as capitanias brasileiras, depois províncias e hoje Estados, se achavam dispersas e cada qual muito mais ligada à metrópole portuguesa que às demais. A administração sediada no Rio de Janeiro era de fato, no que respeita ao conjunto da colônia, puramente nominal, e sua jurisdição não ia realmente além da intitulada capital e sede do Vice-reinado e das capitanias meridionais. A transferência da corte torna o Rio de Janeiro efetivamente em centro e capital do país que se articulará assim num todo único. Essa situação se consolidará com a efetivação da Independência e a formação do Estado nacional brasileiro, que constituem assim a definitiva integração territorial do país antes disperso e interligado unicamente através e por via da metrópole.
            De maior proporção ainda, no que respeita à transformação da antiga colônia em coletividade nacional integrada e organizada, são estes primeiros passos decisivos da incorporação efetiva da massa trabalhadora à sociedade brasileira que consistem na supressão do tráfico africano (1850) e seus corolários naturais: o estímulo à imigração europeia de trabalhadores destinados a suprir a falta de mão-de-obra provocada pela supressão daquele tráfico, e a abolição da escravidão (1888). (Caio Prado Júnior. A revolução brasileira.)

1. Assinale a alternativa que identifica corretamente o assunto-tema do texto:

a. A ação do Estado na coordenação dos recursos econômicos do Brasil Império.
b. Os investimentos regionais na estrutura econômica nacional.
c. A formação política e econômica do Estado Brasileiro.
d. O papel do Estado no desenvolvimento do Brasil.
e. A Independência do Brasil e a unidade nacional.

2. Assinale a alternativa que apresenta corretamente o desenvolvimento das ideias expostas no texto, de forma consecutiva:

a. O papel da Independência na constituição do Estado e da Nação./Os desmandos financeiros de um Estado perdulário./ A centralização política e administrativa exercida pela capital do país./ A disparidade entre o trabalho escravo e o trabalho livre.
b. A importância da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro./A atuação econômica do Estado e o desequilíbrio financeiro./ O papel das capitanias hereditárias na formação da Nação./ O impacto do trabalho livre na formação da Nação.
c. O papel da individualidade na constituição do Estado e da Nação./O aumento da dívida púbica e suas consequências políticas./ A centralização política e administrativa exercida pela capital do País./ A importância da imigração.
d. A formação das aspirações e dos interesses nacionais./ A atuação econômica do Estado e seu indesejado desequilíbrio financeiro./ As dificuldades administrativas pelas quais passou a capital do país./ As consequências da supressão do tráfico de escravos.
e. O papel da Independência na constituição do Estado e da Nação./A ativação econômica do Estado e suas consequências./ A centralização política e administrativa exercida pela capital do país./ O papel do trabalho livre na formação da Nação.

3. “Isso será tanto mais sensível e de efeitos mais amplos, que acresce um fator de ordem político-administrativa a atuar no mesmo sentido.”
Assinale a alternativa que indica o valor semântico da conjunção assinalada:

a. Causa.     b. Consequência.     c. Condição.     d. Finalidade.     e. Concessão.

4. “... são estes primeiros passos decisivos da incorporação efetiva da massa trabalhadora à sociedade brasileira que consistem na supressão do tráfico africano (1850) e seus corolários naturais...”.
Assinale a alternativa correta quanto à classificação gramatical da forma “estes” e seu valor semântico:

a. Pronome demonstrativo empregado para indicar ao leitor o que se vai mencionar (o estímulo à imigração europeia de trabalhadores e a abolição da escravidão).
b. Pronome indefinido capaz de particularizar o ser expresso pelo substantivo (passos), distinguindo-os dos outros substantivos do texto, por seu acentuado valor intensivo.
c. Pronome demonstrativo empregado para indicar ao leitor o que já foi mencionado (a transformação da antiga colônia em coletividade nacional integrada e organizada).
d. Pronome indefinido que indica a totalidade das partes (a transformação da antiga colônia em coletividade nacional integrada e organizada, o estímulo à imigração europeia de trabalhadores e a abolição da escravidão).
e. Pronome relativo que assume um duplo papel no período por representar um determinado antecedente (a transformação da antiga colônia em coletividade nacional integrada e organizada) e servir de elo subordinante da oração que se inicia a partir dele (os primeiros passos que consistem...)

5. Assinale a alternativa que apresenta o significado da palavra “corolários”, conforme ela é empregada no texto:

a. Eventos.     b. Razões.     c. Causas.     d. Pétalas.     e. Consequências.

6. Relacionando as ideias apresentadas no texto à leitura de Memórias de um sargento de milícias, é correto afirmar que o romance de Manuel Antonio de Almeida:

a. Suprime as camadas básicas (os escravos), pois a narrativa está centrada em personagens que representam as camadas populares que anonimamente participaram da formação da identidade nacional.
b. Omite as camadas dirigentes (o vice-rei, a nobreza, os ministros...), criticando a corrupção econômica e moral em que elas se meteram desde sempre.
c. Explora o par ordem/desordem, no que diz respeito à formação econômica do Brasil Império, às voltas com o aumento da renda nacional e do desequilíbrio financeiro da população de modo geral.
d. Faz uso expressivo da ausência do elemento escravo na narrativa, procurando o autor retratar o mundo sui generis do trabalho no Brasil urbano da primeira metade do século XIX.
e. Retrata afetivamente a participação das classes dirigentes na formação da Nação, objetivando o autor retratar a ascensão da pequena burguesia nos primeiros anos do século XIX.

17. Sobre Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, é correto afirmar que:

a. A peça apresenta uma impagável visão satírica de fundo pagão, já que empreende um ataque violento às mazelas de todas as classes sociais, desde o homem do campo até o rei e o Papa.
b. A peça trata de forma figurada do dilema do homem entre as forças do bem e as solicitações sedutoras do mal, apresentando as misérias da vida, por meio de personagens que, às voltas com sua pequenez, estão presas às realidades terrenas.
c. Na peça, o autor associa o teatro religioso ao teatro de crítica social, reabilitando o próprio mistério medieval, sem deixar de explorar conteúdos alegóricos e romanescos.
d. A estrutura interna da peça é bastante complexa, exigindo um alto poder na descrição dos tipos e na sucessão dos quadros, à maneira das novelas de cavalaria ou, mais modernamente, do teatro de revista.
e. A galeria dos tipos humanos que desfilam na peça é riquíssima e o inventário de seus vícios, incontável. A trama ridiculariza, sobretudo, a imperícia dos médicos, as práticas da feitiçaria, a ostentação dos nobres e o relaxamento dos costumes do clero.

18. Sobre Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida, é correto afirmar que:

a. O realismo do autor não é do tipo documental, que resvalaria no folclórico ou no pitoresco. Antes, é um tipo de realismo por meio do qual ele intui certos princípios constitutivos da sociedade brasileira da época.
b. A obra é narrada em 3ª pessoa por um narrador-personagem que varia com desenvoltura o ponto de vista, trazendo-o de Leonardo Pai a Leonardo Filho, deste ao Compadre ou à Comadre, depois à Cigana e assim por diante, de maneira a estabelecer uma visão dinâmica da matéria narrada.
c. O vocabulário do romance é acentuadamente licencioso e de tal modo caricatural que o elemento irregular se desfaz em humor chulo, como no episódio do padre surpreendido em trajes menores no quarto da Cigana.
d. Os quadros, as figuras, os diálogos e o enredo do romance são tratados com os recursos típicos do Romantismo, denunciando um contraste flagrante com a realidade cotidiana vivida pela sociedade do Brasil colonial.
e. Trata-se de uma crônica do Rio de Janeiro, da segunda metade do século XIX. Uma crônica das ruas, dos costumes populares, das superstições e crendices, dos tipos e das festas de outrora, dos simpáticos vadios dos velhos tempos e dos mexericos do Brasil pré-republicano.


19. Sobre Os da minha rua, de Ondjaki, é correto afirmar que:

a. Trata-se de uma reunião de contos cuja temática está voltada aos bairros pobres de Luanda, vistos a partir da perspectiva da deliciosa fala de seus habitantes. A simplicidade é o atrativo suficiente nesses saborosos “causos” e seu esforço de recriação da linguagem oral.
b. Trata-se de uma reportagem autobiográfica por meio da qual o autor resolve contar suas experiências no continente africano. É um fluxo narrativo que mistura lembranças da infância, o registro do dia a dia em Angola e a descrição dos horrores da guerra de independência.
c. Trata-se de um romance construído a partir de um monólogo interior da personagem principal, alter ego do autor, durante sua vida em Luanda. É um testemunho inesquecível sobre a colonização portuguesa em Angola, no qual as reflexões sobre a infância se entrelaçam às lembranças da guerra.
d. Trata-se de uma reunião de pequenos ensaios que mostram um outro lado da literatura de expressão portuguesa. Não apenas as experiências de oralidade e africanização da língua, mas também uma visão cética e perspicaz que não poupa nada ou ninguém, que ri de tudo e de todos e, assim, lança um novo olhar sobre a realidade angolana.
e. Trata-se de uma reunião de crônicas, que oscilam entre os registros escrito e oral, por meio das quais o autor reconstrói o universo de sua infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos – matéria esta tecida pelos fios da memória, do afeto e da identidade.

35. Assinale a alternativa que caracteriza corretamente os versos do poema Os sapos, que integra a coletânea 50 poemas escolhidos pelo autor, de Manuel Bandeira, apresentados a seguir:

(...)
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas...”
(...)

a. A poesia de evasão, em Bandeira, nasce da fadiga do poeta diante das pressões da vida comum. A saída, então, é encontrar refúgio em um mundo de realidades bem diferentes das que são oferecidas pela vida cotidiana, deixando-se levar pelo embalo da fantasia.
b. Uma vez que não dominava perfeitamente a métrica – característica comum a todos os modernistas –, Bandeira optou por fazer do verso livre sua plataforma estética para, a partir daí, criticar a poesia tradicional, renegando as formas fixas.
c. A poesia satírica de Bandeira aponta para uma preocupação excessiva com os elementos alegóricos de fundo espiritual, que interferem no jogo do nonsense com o propósito de disfarçar o ataque à hipocrisia.
d. A poesia de Bandeira opta pelo caminho do humor com o intuito de tentar resgatar o universo de sua infância, criando, assim, uma espécie de obsessão por essa fase de sua vida.
e. Bem-humorado, o poeta parodia a “Profissão de fé” (de Olavo Bilac), hostiliza a eloquência oca e o desaparecimento da poesia, investindo contra o estado de penúria a que a haviam reduzido.

36. Assinale a alternativa que apresenta corretamente a análise crítica do poema Arte de amar, extraído da coletânea 50 poemas escolhidos pelo autor, de Manuel Bandeira, apresentado a seguir:

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

a. Atente-se, por exemplo, nesta lindíssima metáfora, atrevida metonímia em que o poeta, com um golpe de mestre, fundindo os dois termos de comparação, de modo a se interpenetrarem no absoluto, estabelece paradoxalmente uma relação nova, sutil, imprevista, absurda, de efeito a causa, de agente a paciente, entre o objeto e a sensação do objeto. (Onestaldo de Pennafort).
b. Trata-se de um melancólico que ama a solidão, o lamento, as confissões. Trata-se de um triste que, se acaso chega a ouvir a voz da alegria, é sempre como “uma voz de fora”, que vem até ele e acorda muitas notas adormecidas, mas que não o consegue empolgar e dominar muito tempo. (Octavio de Faria).
c. Em horas mais sombrias, entretanto, se não chega a traduzir o sentimento da vida declinamente e a resignação ao mau destino, que são sugeridos, de preferência, por analogias, representa claramente a própria transitoriedade e a fugacidade da existência. (Sérgio Buarque de Holanda).
d. Nesse poema se opera um corte, sem maiores cerimônias, separando matéria e espírito. A tônica insiste fortemente na ideia de amor como ato físico, relação em que a instintiva sabedoria do corpo dispensa interferências de outra ordem, pois estas servem apenas para atrapalhar um fato que tem tudo para ser agradável, desde que não procure justificativa transcendental, razões de ordem superior. (José Carlos Garbuglio).
e. Nesses versos já vibra o propósito do poeta de fugir às paragens etéreas e intemporais e firmar pé na realidade cotidiana, desvencilhar-se dos olhos livrescos que o impediam de mirar a verdade diária e, armado de olhos novos, e novos ouvidos, aprender a ver e a escutar. (Ledo Ivo).

37. Empregada desde a Antiguidade, a alegoria foi com frequência cultivada na Idade Média cavaleiro-cristã, a exemplo do Auto da barca do inferno, de Gil Vicente. Tomando por base essa peça, é correto afirmar que o emprego do discurso alegórico constitui:

a. O ato de pensar e de conferir nome às coisas, ao deflagrar a palavra que denomina o objeto ou o pensamento que organiza a sucessão de palavras.
b. Um discurso apresentado com um sentido próprio e que serve de comparação para tornar inteligível um outro sentido que não é expresso.
c. Uma manifestação evocativa, mágica ou mística que, por convenção arbitrária, representa ou designa uma realidade complexa.
d. Uma crítica das instituições ou pessoas por meio da qual se censuram os males da sociedade ou dos indivíduos.
e. Um confronto entre dois ou mais seres de naturezas diferentes, a fim de ressaltar um deles por elevado grau de abstração.

45. Sobre Laços de família, de Clarice Lispector, é correto afirmar que:

a. A ação básica da personagem do conto Amor é a de desprender-se da realidade e mergulhar em uma outra, com a subsequente e inevitável volta ao curso normal da trivialidade, mas já sob o estigma da mudança propiciada pela vivência paradoxal do melhor e do pior.
b. O exercício de linguagem proposto no conto Uma galinha serve de instrumento para atingir o segredo da personagem-título e revelá-lo. Assim, especulando sobre o pior e o melhor da condição humana, a autora trata verdadeiramente da agonia de um animal.
c. As personagens do conto Feliz aniversário entram no território do imaginário e defrontam-se com a fantasia e a invenção de si mesmas, do outro e do mundo, zona extraordinária em que experimentam a verdade sem sair da experiência do cotidiano.
d. A personagem do conto O búfalo tenta escapar dos laços institucionalizados que cerceiam a manifestação de uma identidade mais autêntica, desejando encontrar a felicidade na livre expressão do amor.
e. No conto A imitação da rosa, há um acentuado pendor para as elucubrações de ordem teológica, filosófica e metafísica, nascidas do tema e das personagens bíblicas, que a autora usa dissimuladamente.

46. Ainda sobre Laços de família, de Clarice Lispector, é correto afirmar que:

a. A protagonista do conto Devaneio e embriaguez de uma rapariga passa pela mesma experiência de êxtase sagrado vivida por Ana, do conto Amor, no Jardim Botânico.
b. A construção da identidade do adolescente que protagoniza o conto Começos de uma fortuna faz-se mediante uma transgressão dolorosa.
c. O conto A menor mulher do mundo trata do modo pelo qual a notícia da descoberta é recebida pelos outros seres da cidade e da intensa crueldade da narradora, que reage diante da matéria narrada, acrescentando pitadas sadicamente irônicas ao liricamente sublime.
d. No conto O crime do professor de Matemática, o protagonista quer extravasar seu ódio em relação à mulher que ama e que o rejeitou, atingindo o ponto pior de uma doença dentro de si.
e. No conto Mistério em São Cristóvão, a questão da identidade social da família desenha-se a partir da patética figura de um grupo de mascarados.

47. Tomando por base a seguinte afirmação de Antonio Candido: “O cunho especial [das Memórias de um sargento de milícias] consiste numa certa ausência de juízo moral e na aceitação risonha do homem como ele é”, é correto afirmar que o humor explorado por Manuel Antonio de Almeida é do tipo:

a. Absurdo, uma vez que o narrador do romance constantemente afirma o contrário daquilo em que está pensando ou que está sentindo.
b. Grotesco, já que os personagens são retratados pela ótica do desvario ou da loucura.
c. Satírico, uma vez que o narrador censura ou ridiculariza os costumes, as instituições e as ideias em estilo irônico e mordaz.
d. Burlesco, já que o narrador constantemente exagera no emprego de processos grosseiros, como as incongruências, os equívocos, os enganos e as situações ridículas.
e. Engenhoso, por conta do brilho intelectual e inventivo que o narrador emprega na aguda observação dos costumes.

48. Sobre Dois irmãos, de Milton Hatoum, é correto afirmar que:

a. A narrativa situa-se no centro mais importante do Norte do país, encravado no meio da floresta amazônica, explorando os estereótipos que dizem respeito, sobretudo, à cultura indígena, cuja aura de exotismo integra-se organicamente ao amplo painel traçado da cultura libanesa presente na região.
b. Há, no romance, a Manaus real e seu duplo, e a Manaus imaginária, dentro da qual se encontra a colônia libanesa. Desses territórios fecundos o autor extrai sua matéria, observando a convivência entre imigrantes, estrangeiros e nativos – que só conseguem estabelecer entre si relações de estranhamento.
c. O tema da narrativa é o da família de imigrantes que não consegue adaptar-se a uma outra cultura, estabelecendo com ela um jogo de dominação em que se alternam o lugar e o não-lugar da própria identidade.
d. O autor critica o romance como gênero, ao praticar um regionalismo às avessas, que consiste em misturar elementos nacionais, com outros advindos de matrizes narrativas de inspiração europeia e oriental, tudo filtrado por um olhar que contém horizontes perdidos num outro tempo.
e. A cidade de Manaus surge no romance como um espaço sociocultural formado por estratos humanos que se cruzam e misturam-se: o elemento indígena, o imigrante estrangeiro, o migrante de outras regiões do país. Cenário perfeito para ser fecundado pela fantasia narrativa do autor.

49. Sobre o foco narrativo do romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, é correto afirmar que:

a. O narrador não detém nenhum poder sobre a matéria narrada, esforçando-se por recuperar os dados da memória ou reconstruindo-a pela via da imaginação, para apontar, assim, os caminhos da fabulação romanesca.
b. O narrador em terceira pessoa garante uma visão objetivada e “aprovada” dos acontecimentos: não se trata de alucinações. Entretanto, a linguagem sóbria e ordenada usada por esse narrador submete o protagonista a uma atmosfera de alienação: ele mesmo desconhece sua origem.
c. O narrador do romance estiliza uma conduta própria às classes dominadas. Como é o filho ilegítimo de uma indígena com o filho do patrão, sua atuação é voluntariamente inoportuna e sem credibilidade.
d. A construção narrativa é sustentada por um eixo composto de dois elementos: o anúncio e o segredo. Assim, durante todo o relato, mantém-se a atenção do leitor por meio de indícios aqui e ali disseminados pelo narrador, cuja identidade a princípio se desconhece e que vai introduzindo novas chaves ou prenunciando um desenlace sempre adiado.
e. A evocação e a dramatização do que já aconteceu sustentam o eixo narrativo, cuja tônica é a interação entre o passado e o presente, com vista a transformar o futuro. Desse modo, por meio das intervenções nostálgicas do narrador, o passado está sempre fornecendo a chave para que o narrador-personagem possa transformar o que está por vir.

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