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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Texto: “A palavra escrita no muro” – Lêdo Ivo

A palavra escrita no muro


  Era quase um garrancho, mas o menino a leu, letra por letra.
  E disse:
  – Boa noite.
  A palavra respondeu:
  – Boa noite.
 Diante da delicadeza da resposta, o menino perguntou:
  – Quem é você?
  E ela, rindo com todas as letras do seu corpo, respondeu:
  – Sou uma palavra.
  O menino pensou que ela estivesse presa, já que não podia sair do lugar, e perguntou-lhe:
  – Mas quem pôs você de castigo aí no muro?
  A palavra retrucou:
  – Eu não estou de castigo. Estou livre. Todas as palavras que você lê nos muros da cidade são livres.
  Nenhuma delas está em cativeiro.
  – Mas você está presa.
  A palavra tornou a desmentir:
  – Eu não estou presa. Num muro uma palavra é livre como um pássaro. Menino, vou dizer-lhe uma coisa para você guardar a vida inteira. Nenhuma palavra vive em cativeiro.
  O menino lembrou-se, então, de que em sua casa havia um grande dicionário que tinha nome de gente.
  E ponderou:
  – Mas, num dicionário, as palavras estão presas.
  A palavra (seria uma palavra senhora ou senhorita?) riu, exibindo seus belos e brancos dentes feitos de sílabas, e explicou:
  – Mesmo num dicionário as palavras são livres. Um dicionário não é uma prisão. É uma praça onde a gente se reúne.
  – Pra quê? – interrogou o menino.
  – Para servir aos homens. Todos nós temos uma serventia. Estamos a serviço da vida, do amor. Uma palavra é como um sol. Esquenta as pessoas. Quem sabe palavra não sente frio!
  – Mas quem foi que pôs você aí no muro? – quis saber o menino.
  – Foi um homem. Foi a mão de um homem.
  – Foi de dia ou foi de noite? (O menino era curioso, queira saber tudo.)
  A palavra não precisou se lembrar da hora em que fora colocada no muro como se fosse uma criança que a mãe põe no colo. Sabia isso na ponta da língua, pois as palavras também têm uma língua, como gente:
  – Foi de noite. Estava muito escuro. Você sabe que a noite é nossa irmã? Muitas vezes, em certos lugares, só de noite é que a gente pode andar.
  – Mas as palavras andam?
  – Menino, as palavras andam sempre. São como os ciganos. Não podem ficar paradas em lugar nenhum, nem nos livros nem na boca dos homens. Já lhe disse que somos passarinhos. Nascemos para voar.
  – Então, como foi que você nasceu?
  – Eu não nasci. Eu estava voando. Então pousei na mão de um homem como se fosse um passarinho. Ele não precisou de gaiola para me agarrar. Era um homem que tinha vindo de um comício, o povo tinha gritado muito. Ele estava precisando de uma palavra para dizer o que queria, tudo aquilo que estava dentro do seu coração e não podia manifestar-se porque eu ainda não tinha aparecido. Então eu pousei na mão dele. Esta rua estava escura, quase ninguém passava. O homem olhou para um lado e para o outro, viu que nenhum soldado estava passando, não havia polícia por perto, e pôs-me aqui. Dia e noite as pessoas passam e, mesmo em silêncio, conversam comigo, e levam-me em suas lembranças e nos seus corações. É um pouco difícil de explicar, mas eu sou levada e no entanto fico aqui, sem sair do lugar. Você entende?
  – E como é o seu nome, palavra-passarinho? – quis saber o menino.
  – MEU NOME É LIBERDADE, MENINO.
  – A senhora tem um nome muito bonito!
  – Não me chame de senhora, chame-me de você. Eu sou você.

(Lêdo Ivo, in “O menino da noite”)

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Leia também:

"Vista cansada" - Otto Lara Resende
"O verbo no infinito" - Vinicius de Moraes
"O amor e outros males" - Rubem Braga

Cacaso – Poemas
Lêdo Ivo - Poemas


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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

TJ SP - Concurso Público: Escrevente Judiciário - 2006

Prova de Língua Portuguesa - TJ SP - Concurso Público: Escrevente Judiciário - 2006

Leia o texto para responder às questões de números 01 a 10.

Policiais paulistanos

    Sempre fui fã de romances policiais. Conheço pessoas para quem a leitura só pode ser séria, para quebrar a cabeça. Penso o contrário. Um bom livro também ajuda a relaxar. Até agora fãs de mistérios como eu eram obrigados a deglutir penhascos ingleses ou correrias por Los Angeles e Nova York. Há algum tempo surgiu uma safra de romances policiais cujo cenário é São Paulo, com seus bairros e tipos humanos. O último é Morte nos Búzios, de Reginaldo Prandi. Não nego. Conheço o Reginaldo há uns... puxa, trinta anos! (É nessas horas que vejo como o tempo passa.) Para mim, sempre foi o tipo acabado do intelectual. Professor titular de sociologia da USP, passou anos estudando as religiões afrobrasileiras. Fez teses. Há uns meses, encontrei-me com ele em um evento literário.
    – Vou lançar um policial! – contou-me.
    Estranhei. Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives. Quanto mais escrever! Assim que saiu, enviou para minha casa. Não nego, sou exigente. Adolescente, já era fã de Sherlock Holmes. Mas adorei Morte nos Búzios. Reginaldo misturou seus conhecimentos sobre as religiões afras com a imaginação. Os crimes acontecem a partir das previsões de uma mãe-de-santo da Freguesia do Ó. Aos poucos, o delegado Tiago Paixão começa a descobrir suspeitos entre os frequentadores do terreiro.

(Walcir Carrasco. Veja São Paulo, 20.09.2006)

01. Assinale a alternativa correta quanto à concordância verbal.

(A) Há algum tempo surgiu vários romances policiais cujo cenário é São Paulo.
(B) Já fazem uns trinta anos que conheço o Reginaldo!
(C) É nessas horas que vejo com que rapidez passa os dias.
(D) Até agora, obrigavam-se fãs de mistérios a deglutir penhascos ingleses.
(E) Conheço pessoas para quem a leitura têm de ser séria.

02. Quanto ao emprego de pronome, segundo a norma culta, a frase – ... encontrei-me com ele em um evento literário. – pode ser reescrita da seguinte forma:

(A) ...encontrei-no em um evento literário.
(B) ...encontrei ele em um evento literário.
(C) ...encontrei-o em um evento literário.
(D) ...encontrei-lhe em um evento literário.
(E) ...encontrei-lo em um evento literário.

03. Assinale a alternativa em que o termo em destaque tem a mesma função sintática que a expressão destacada na frase: – Vou lançar UM POLICIAL!

(A) Penso o contrário.
(B) ... contou-me.
(C) Sempre fui fã de romances policiais.
(D) ... surgiu uma safra de romances policiais.
(E) Um bom livro também ajuda a relaxar.

04. Articulando as duas orações do período – Não nego, sou exigente. – obtém-se, sem perda do significado:

(A) Não nego, mas sou exigente.
(B) Não nego que sou exigente.
(C) Não nego em que sou exigente.
(D) Não nego de que sou exigente.
(E) Não nego qual sou exigente.

05. Analise os períodos.

I. É nessas horas que vejo como o tempo passa.
II. Assim que saiu, enviou para minha casa.

A oração destacada em I exerce função sintática de ________; a destacada em II expressa circunstância de  _______. Os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, com

(A) sujeito ... conseqüência
(B) complemento nominal ... conformidade
(C) aposto ... causa
(D) predicativo ... condição
(E) objeto direto ... tempo

06. Analise as afirmações.

I. O substantivo fã tem o mesmo emprego que o substantivo vítima na forma masculina e na feminina.
II. Está correta, quanto à grafia, a frase: Um bom livro também ajuda a relaxar, mas se fosse um mal livro, isso não aconteceria.
III. O plural de mãe-de-santo é mães-de-santo. Está correto o que se afirma apenas em

(A) I.     (B) II.    (C) III.    (D) I e II.    (E) II e III.

07. Intelectuais em geral não confessam sequer que lêem histórias de detetives. Quanto mais escrever!
Assinale a alternativa em que a frase, reescrita numa linguagem formal, mantém os sentidos propostos no texto.

(A) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, tanto que não lhes escrevem.
(B) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, mas que não as escrevem.
(C) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, embora que não lhes escrevem.
(D) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, porque não as escrevem.
(E) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, muito menos que as escrevem.

08. ... passou anos estudando as religiões afro-brasileiras. Os termos que fazem o plural da mesma forma que religião (religiões) são

(A) capitão e mamão. (B) cirurgião e negação. (C) limão e pão. (D) mão e pão. (E) mamão e cidadão.

09. Assinale a frase correta quanto ao uso do sinal indicativo da crase.

(A) Reginaldo associou seus conhecimentos sobre as religiões afras à imaginação.
(B) Tão logo o livro foi publicado, chegou à mim.
(C) Pouco à pouco, o delegado Tiago Paixão descobriu suspeitos entre os freqüentadores do terreiro.
(D) Não acreditei que Reginaldo se dedicasse à um livro policial.
(E) À vida passa rápido, já conheço Reginaldo há uns trinta anos.

10. Assinale a alternativa correta quanto à regência verbal.

(A) Não sabia que Reginaldo aspirava por uma carreira de escritor de policiais.
(B) Ansiava a ler logo o policial de Reginaldo.
(C) Pensei que Reginaldo preferisse mais temas acadêmicos do que histórias de detetive.
(D) Não residimos a lugares do exterior para que os policiais os tenham como ambiente.
(E) Assistia ao delegado Tiago Paixão o direito de investigar os frequentadores suspeitos do terreiro.

Para responder às questões de números 11 a 13, leia a frase de Luciano Pavarotti, publicada na revista Veja, de 20.09.2006:

Não quero mais me ouvir. Se você me convidar para jantar e tocar uma de minhas gravações para me agradar, juro que vou embora. Se _______ que eu _______, coloque um disco de Placido Domingo.

11. Os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, com

(A) quizer … fico          (B) querer … fique
(C) quizer … ficarei      (D) quiser … fique       (E) quiser … fico

12. Analise as frases.

I. Se tu me convidares para jantar e tocares uma de minhas canções para me agradar, juro que vou embora.
II. Se Vossa Excelência me convidais para jantar e tocais uma de minhas canções para me agradares, juro que vou embora.
III. Se Sua Senhoria me convidardes para jantar e tocardes uma de minhas canções para me agradardes, juro que vou embora.

Quanto à forma de tratamento e a flexão verbal, está(ão) correta(s) apenas

(A) I.     (B) II.     (C) III.     (D) I e II.     (E) I e III.

13. As relações de sentido estabelecidas pelas conjunções Se e e são, respectivamente, de

(A) causa e adversidade.      (B) condição e adição.
(C) modo e adição.               (D) tempo e alternância.      (E) condição e consequência.

As questões de números 14 a 20 baseiam-se na história em quadrinhos de Hagar.

14. Considerando a regência do verbo e o emprego de pronomes, a frase Vou virar você pelo avesso! pode ser substituída por

(A) Vou lhe virar pelo avesso.    (B) Vou te virar pelo avesso.
(C) Vou virá-lo pelo avesso.       (D) Vou virar-no pelo avesso.     (E) Vou virar-lho pelo avesso.

15. A resposta que Hagar recebe do inglês contém formas verbais que a tornam menos rude e agressiva. De forma mais incisiva, o inglês diria:

(A) Será melhor que não o faz.     (B) Era melhor que não o fizesse.
(C) Foi melhor que não o fizesse. (D) É melhor que não o faça.    (E) Fosse melhor que não o fará.

16. No contexto, o feminino de cavalheiro é

(A) mulher.     (B) amazona.     (C) senhora.     (D) matrona.     (E) garota.

17. Sobre a vírgula que separa o termo cavalheiro, é correto afirmar que

(A) está bem empregada, pois separa, na oração, o vocativo.
(B) está mal empregada, pois separa o sujeito da oração do verbo.
(C) está bem empregada, pois, nesse caso, seu uso é facultativo.
(D) está mal empregada, pois não se separa o aposto do termo a que se refere.
(E) está bem empregada, pois separa o objeto direto do verbo.

18. A oração que completa o sentido de Seria melhor funciona sintaticamente como seu

(A) complemento nominal. (B) predicativo. (C) objeto direto. (D) sujeito. (E) aposto.

19. Na primeira pessoa do plural, a frase Prepare-se para morrer assume a seguinte forma:

(A) Preparem para morrermos!
(B) Preparemo-nos para morrer!
(C) Preparem-se para morrermos!
(D) Preparamos-nos para morrer!
(E) Preparemos-nos para morrermos!

20. A frase de Hagar, no segundo quadrinho, deve-se iniciar com

(A) Por quê sinto-me.    (B) Por quê o sinto.
(C) Porque me sinto.      (D) Porquê sinto.            (E) Por que me sinto.

Leia o trecho a seguir, para responder às questões de números 21 a 25.

    O retrato, às oito e meia da noite daquela segunda-feira fatídica, era desolador. São Paulo, quarta maior metrópole do mundo, 20 milhões de moradores, estava vazia. Traumatizada. Acuada sob um toque de recolher informal. Debaixo das ordens do chamado Primeiro Comando da Capital, o PCC, que controla os presídios e estende seu poder sobre o tráfico de drogas, de armas e o contrabando, nada menos que 36 policiais foram assassinados nas ruas da cidade durante o final de semana. Trinta ônibus arderam em chamas.

(Istoé Online, 24.05.2006)

21. Em – ... 36 policiais foram assassinados nas ruas da cidade durante o final de semana. – as expressões nas ruas da cidade e durante o final de semana indicam, respectivamente, circunstância de

(A) lugar e tempo. (B) modo e lugar. (C) lugar e lugar. (D) modo e causa. (E) lugar e condição.

Observe os dois trechos a seguir para responder às questões de números 22 e 23.

I. O retrato, às oito e meia da noite daquela segunda-feira fatídica, era desolador.
II. São Paulo, quarta maior metrópole do mundo, 20 milhões de moradores, estava vazia.

22. Os termos desolador e vazia, sintaticamente, exercem função de

(A) sujeito. (B) complemento nominal. (C) objeto direto. (D) vocativo. (E) predicativo do sujeito

23. Empregam-se vírgulas em I e II, respectivamente, para intercalar

(A) aposto e aposto.
(B) adjunto adverbial e aposto.
(C) adjunto adverbial e vocativo.
(D) adjunto adverbial e adjunto adverbial.
(E) aposto e adjunto adverbial.

24. Assinale a alternativa correta quanto à concordância nominal.

(A) As pessoas estavam acuada, sob toques de recolher informal.
(B) As ordens do PCC eram firme e os moradores de São Paulo ficaram alertas.
(C) O PCC agiu com violência em São Paulo, sem meias palavras.
(D) A cidade de São Paulo ficou meio desorientado após os ataques do PCC.
(E) Ruas e avenidas vazios eram o cenário de São Paulo após os ataques do PCC.

25. Assinale a frase correta quanto à pontuação.

(A) Trinta ônibus em São Paulo, arderam em chamas na segunda-feira.
(B) Trinta ônibus na segunda-feira, arderam em chamas em São Paulo.
(C) Na segunda-feira arderam em chamas, trinta ônibus em São Paulo.
(D) Em São Paulo, trinta ônibus, na segunda-feira, arderam em chamas.
(E) Arderam em chamas, trinta ônibus, na segunda-feira, em São Paulo.

26. Considere as frases:

I. Eu fiquei fora de si, quando vi os ataques do PCC em São Paulo.
II. Ele ficou fora de si, quando viu os ataques do PCC em São Paulo.
III. Nós ficamos fora de si, quando vimos os ataques do PCC em São Paulo.

O emprego de pronome está correto apenas em

(A) I.     (B) II.     (C) III.     (D) I e II.     (E) I e III.

27. Assinale a alternativa correta quanto à regência nominal.

(A) Os paulistanos sentiam medo por estarem sujeitos nos ataques ao PCC.
(B) Não foi nada agradável dos paulistanos viver os ataques do PCC.
(C) Os paulistanos estão conscientes de que é preciso mais segurança para todos.
(D) A vontade em sair daquele momento de horror era grande aos paulistanos.
(E) A crença a que estamos sempre seguros foi quebrada com os ataques do PCC.

28. Quem chegasse _____ São Paulo após os ataques do PCC, veria o povo intimidado, ______ e com medo. Segundo a norma culta, os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, com

(A) à … confuso (B) em … confuzo (C) à … confuzo (D) a … confuzo (E) a … confuso

Leia a charge para responder às questões de números 29 e 30.

29. Relacionando a charge com o texto anterior, entende-se que o diminutivo no nome do símbolo da cidade de São Paulo denota

(A) ironia. (B) afetividade. (C) pequenez. (D) alegria. (E) agressividade.

30. O substantivo símbolo possui uma forma derivada que se grafa com z: simbolizar. Assim como ela, está corretamente grafado com z o verbo

(A) parafrazear. (B) avizar. (C) paralizar. (D) amenizar. (E) aparafuzar.

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GABARITO

1 - D     2 - C      3 - A     4 - B     5 - E      6 - C     7 - E      8 - B     9 - A 10 - E
11 - D  12 - A   13 - B    14 - C   15 - D   16 - C   17 - A   18 - D   19 - B 20 - E
21 - A   22 - E   23 - B   24 - C    25 - D   26 - B   27 - C   28 - E   29 - A 30 - D

VEJA TAMBÉM:

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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Texto: “Vista cansada” – Otto Lara Resende

Vista cansada

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

(Otto Lara Resende)


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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

“O verbo no infinito” – Vinicius de Moraes

O verbo no infinito


Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...


(Vinícius de Moraes)


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“O Diamante” – Luis Fernando Verissimo 
Quadras de Fernando Pessoa

"Vista cansada" - Otto Lara Resende


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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Temas de redação da FUVEST – 2001 – 2004

Temas de redação da FUVEST de 2001 a 2004



FUVEST 2001

PROPOSTA DE REDAÇÃO

TEXTO 1

Um dia sim, outro também. Duas bombas, suásticas nazistas e muitas mensagens pregando a tolerância zero a negros, judeus, homossexuais e nordestinos marcaram a Semana da Pátria em São Paulo. O primeiro petardo foi direcionado na segunda-feira 4, para o coordenador da Anistia Internacional. Tratava-se de uma bomba caseira, postada numa agência dos Correios de Pinheiros com endereço certo: a casa do coordenador. Uma hora e meia depois, foi a vez de o secretário de Segurança e de os presidentes das comissões Municipal e Estadual de Direitos Humanos receberem cartas ameaçadoras. Assinando "Nós os skinheads" (cabeça raspada), os autores abusaram da linguagem chula, do ódio e da intolerância. "Vamos destruir todos os viados, pretos e nordestinos", prometeram. Eles asseguravam também já terem escolhido os representantes daqueles que não se enquadram no que chamam de "raça pura" para receberem "alguns presentinhos".
Como prometeram, era só o começo. No dia seguinte, terça-feira 5, o mesmo grupo mandou outra bomba, dessa vez para a associação da Parada do Orgulho Gay.

(Isto é, 08/09/2000)

TEXTO 2

Desde então [os anos 80], o poder racista alastrou-se por todo o mundo numa torrente de excessos sanguinolentos. Também na Alemanha, imigrantes e refugiados foram mortos friamente por maltas de radicais de direita em atentados incendiários. Até hoje, a esfera pública minimiza tais crimes como obra de uns poucos jovens desclassificados. Na verdade, porém, o poder racista à solta nas ruas é o prenúncio de uma reviravolta nas condições atmosféricas mundiais.

(Robert Kurz)

TEXTO 3

Um dos eventos realizados no final de abril deste ano no Chile foi uma conferência internacional secreta de militantes extremistas de direita e organizações neonazistas planejada e divulgada pela Internet. Foram convidados a participar do "Primeiro Encontro Ideológico Internacional de Nacionalismo e Socialismo" representantes do Brasil, Uruguai, Argentina, Venezuela e Estados Unidos.

(Isto é, 08/09/2000)

Demais textos:

(...) Nos últimos anos, grupos neonazistas têm se multiplicado. Tanto nos Estados Unidos e na Europa quanto aqui parece existir uma relação entre o desemprego estrutural do sistema capitalista e a ascensão desses grupos de inspiração neonazista.

(Página da Internet)

Toda proclamação contra o fascismo que se abstenha de tocar nas relações sociais de que ele resulta como uma necessidade natural, é desprovida de sinceridade.

(Bertolt Brecht)

Considerar alguém como culpado, porque pertence a uma coletividade à qual ele não "escolheu" pertencer, não é característica própria só do racismo. Todo nacionalismo mais intenso, e até mesmo qualquer bairrismo, consideram sempre os outros (certos outros) como culpados por serem o que são, por pertencerem a uma coletividade à qual não escolheram pertencer. (...)

(Cornelius Castoriadis)

"A violência é a base da educação de cada um."

(Resposta de um cidadão anônimo entrevistado pela TV sobre as razões da violência)

Estes textos (adaptados das fontes citadas) apresentam notícias sobre o crescimento do neonazismo e do neofascismo e, também, alguns pontos de vista sobre o sentido desse fenômeno. Com base nesses textos e em outras informações e reflexões que julgue adequadas, redija uma DISSERTAÇÃO EM PROSA, procurando argumentar de modo claro e consistente.

FUVEST 2002

PROPOSTA DE REDAÇÃO

Considerando aspectos abaixo sugeridos ou, ainda, escolhendo outros que você julgue mais importantes para tratar do tema, redija, com sinceridade e plena liberdade de opinião, uma DISSERTAÇÃO EM PROSA, em linguagem adequada à situação, procurando argumentar com pertinência e coerência.
Como você avalia os responsáveis por sua formação, ou seja, seus pais e familiares, professores, orientadores religiosos, líderes políticos, intelectuais, autoridades etc.?
Visando ao desenvolvimento do tema, você poderá, se quiser, refletir sobre as seguintes questões:

Quais foram os principais responsáveis por sua formação?
Quais são as características mais marcantes que apresentam?
Você julga que eles assumiram, de fato, sua função de formadores?
Em que aspectos a formação que lhe proporcionaram foi satisfatória ou insatisfatória?
Você poderá, ainda, identificar os valores que são realmente importantes para eles, opinando sobre esses valores. Poderá, também, considerar se eles são, em si mesmos, pessoas íntegras e felizes e se, assim, constituem bons modelos de vida.

FUVEST 2003

PROPOSTA DE REDAÇÃO

Leia atentamente os três textos abaixo

TEXTO 1

Está no dicionário Houaiss:

auto-estima s.f. qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, conseqüentemente, confiança em seus atos e julgamentos.
A definição do dicionário parece limitar-se ao âmbito do indivíduo, mas a palavra auto-estima já há algum tempo é associada a uma necessidade coletiva. Por exemplo: nós, brasileiros, precisamos fortalecer nossa auto-estima. Neste caso, a satisfação com nosso modo de ser, como povo, nos levaria à confiança em nossos atos e julgamentos. Mas talvez seja o caso de perguntar: não são os nossos atos e julgamentos que acabam por fortalecer ou enfraquecer nossa auto-estima, como indivíduos ou como povo?

TEXTO 2

Estão num poema de Drummond, da década de vinte, os versos:

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria. (...)
Aqui ao menos a gente sabe que é tudo uma canalha só.

TEXTO 3

Está num artigo do jornalista Zuenir Ventura, de dois anos atrás:

De um país em crise e cheio de mazelas, onde, segundo o IBGE, quase um quarto da população ganha R$ 4 por dia, o que se esperaria? Que fosse a morada de um povo infeliz, cético e pessimista, não?
Não. Por incrível que pareça, não. Os brasileiros não só consideram seu país um lugar bom e ótimo para viver, como estão otimistas em relação a seu futuro e acreditam que ele se transformará numa superpotência econômica em cinco anos. Pelo menos essa é a conclusão de um levantamento sobre a "utopia brasileira" realizado pelo Datafolha.

Com o apoio dos três textos apresentados, escreva uma dissertação em prosa, na qual você deverá discutir manifestações concretas de afirmação ou de negação da auto-estima entre os brasileiros.
Apresente argumentos que dêem sustentação ao ponto de vista que você adotou.


FUVEST 2004

PROPOSTA DE REDAÇÃO

Redija uma dissertação em prosa, na qual você apontará, sucintamente, as diferentes concepções do tempo, presentes nos três textos abaixo, e argumentará em favor da concepção do tempo com a qual você mais se identifica.

TEXTO 1

Mais do que nunca a história é atualmente revista ou inventada por gente que não deseja o passado real, mas somente um passado que sirva a seus objetivos. (...) Os negócios da humanidade são hoje conduzidos especialmente por tecnocratas, resolvedores de problemas, para quem a história é quase irrelevante; por isso, ela passou a ser mais importante para nosso entendimento do mundo do que anteriormente.

(Eric Hobsbawm, Tempos interessantes: uma vida no século XX)

TEXTO 2

O que existe é o dia-a-dia. Ninguém vai me dizer que o que aconteceu no passado tem alguma coisa a ver com o presente, muito menos com o futuro. Tudo é hoje, tudo é já. Quem não se liga na velocidade moderna, quem não acompanha as mudanças, as descobertas, as conquistas de cada dia, fica parado no tempo, não entende nada do que está acontecendo.

(Herberto Linhares, depoimento)

TEXTO 3

Não se afobe, não,
Que nada é pra já,
O amor não tem pressa,
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário,
Na posta-restante,
Milênios, milênios
No ar ...
E quem sabe, então,
O Rio será
Alguma cidade submersa.
Os escafandristas virão
Explorar sua casa,
Seu quarto, suas coisas,
Sua alma, desvãos ...
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras,
Fragmentos de cartas, poemas,
Mentiras, retratos,
Vestígios de estranha civilização.
Não se afobe, não,
Que nada é pra já,
Amores serão sempre amáveis.
Futuros amantes quiçá
Se amarão, sem saber,
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você.

(Chico Buarque, "Futuros amantes")



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