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sábado, 25 de agosto de 2012

Augusto Frederico Schmidt – Poemas

Augusto Frederico Schmidt - Poemas

"At the balcony". Pino Daeni.
Poema XXX

Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar
os brinquedos.
Encontraremos o amor depois que nos tivermos despedido
E caminharmos separados pelos caminhos.
Então ele passará por nós,
E terá a figura de um velho trôpego,
Ou mesmo de um cão abandonado,
O amor é uma iluminação, e está em nós, contido em nós,
E são sinais indiferentes e próximos que os acordam do
seu sono subitamente.

(Augusto Frederico Schmidt)

Poema

repousarei na tua memória
a minha imagem
quando chegar a noite
e o vento me arrastar para os largos espaços
repousarei na tua memória a minha imagem.
e estarei em ti pousado, como a cor na superfície dos mares;
e estarei em ti como a emoção nas lágrimas;
e estarei em ti como a saudade nos olhos imóveis.
irá da minha imagem
para a tua compreensão
o sentimento do meu mistério
o ignorado segredo dos movimentos do meu ser.
e ficarei em ti, iluminado e distante
e serei como a luz inútil, como a lanterna balançando
nas pequenas estações passadas
nessa longa viagem sem termo.

(Augusto Frederico Schmidt)

Vazio


A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

(Augusto Frederico Schmidt, in “Pássaro cego”)

Inventário


Há um berço vazio, onde ninguém veio dormir, 


Há uma viagem que jamais se realizou,
Paisagens que nunca foram vistas.
Há lembranças de sonhos partidos.
Uma casa construída pela imaginação
E cujas portas ninguém transpôs.
Há planos que foram abandonados
Para sempre.
Há algumas horas de paz e de silêncio,
Coroando sofrimentos e lágrimas invisíveis.
Há uma tristeza do que poderia ter sido,
De algumas palavras que pareciam
De compreensão e piedade,
E há o desgosto deste mundo.
Há algumas imagens da juventude
E a saudade de um fruto claro
Para sempre perdido.

(Augusto Frederico Schmidt)

Estrela morta


Morta a Estrela que um dia, solitária,
Nasceu em céu sem termo.
Morta a Estrela que floriu nos meus olhos.
Morta a Estrela que olhei na noite erma.
Morta a Estrela que dançou diante dos nossos olhos,
A Estrela que descendo acendeu este amor
Morta a Estrela que foi para o meu coração,
Como a neve para os ninhos
Como o pecado para os santos
Como a ausência de Deus para os condenados.

(Augusto Frederico Schmidt, in “Canto da Noite”)

A ausente


Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa. 
"Homem escrevendo". Oliver Ray.

Mais depressa que os pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...

(Augusto Frederico Schmidt, in “Pássaro Cego”)

Despedida


Os que seguem os trens onde viajam moças muito doentes com os
[olhos chorando
Os que se lembram da terra perdida, acordados pelos apitos dos
[navios
Os que encontram a infância distante numa criança que brinca
Estes entenderão o desespero da minha despedida.
Porque este amor que vai viajar para a última estação da
[memória
Foi a infância distante, foi a pátria perdida, e a moça que não
[volta.

(Augusto Frederico Schmidt)




"A ressurreição de Cristo" - 1635 - Rembrandt

Pequena igreja 

Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.

Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!

(Augusto Frederico Schmidt, in “Estrela solitária”)

Momento


Desejo de não ser nem herói e nem poeta
Desejo de não ser senão feliz e calmo.
Desejo das volúpias castas e sem sombra
Dos fins de jantar nas casas burguesas.

Desejo manso das moringas de água fresca
Das flores eternas nos vasos verdes.
Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes
Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.

Oh! não as tentaculares investidas para o alto
E o tédio das cidades sacrificadas.
Desejo de integração no cotidiano.

Desejo de passar em silêncio, sem brilho
E desaparecer em Deus – com pouco sofrimento
E com a ternura dos que a vida não maltratou.

(Augusto Frederico Schmidt)

Um comentário:

  1. Professor Maurício Fernandes da Cunha. Apreciei muito os poemas de Augusto Frederico Schmidt aqui publicados. Sou um devoto de AFS, de quem estou preparando a biografia. Ainda há muito a pesquisar. Fui secretário literário do poeta, nos sete últimos anos de sua vida. Nessa época, ele era muito amigo do Presidente Juscelino Kubitschek, escrevia discursos para ele, etc. Às vezes me pe perguntava: Está anotando isso para a minha biografia? Todos os manuscritos de sua lavra nesses anos de 1958 a 1965 (artigos para O Globo) ele me autorizava a guardar no meu arquivo pessoal. Tenho-os guardados, e alguns deles na vitrina dedicada ao poeta no Museu do Val de Literatura, que organizei e funciona na localidade de Andrade Costa, município de Vassouras, RJ. www.museudovaldeliteratura.com.br Waldir Ribeiro do Val

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