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quinta-feira, 30 de maio de 2013

João de Deus – Poemas

João de Deus – Poemas

Que não ... Que sim

– Elisa, se eu fora rico, 
Tão rico,
Que por essa linda mão,
Tão linda,
Te desse riqueza infinda,
Que dirias então?
– Que não.

– E se eu fosse um grande, um nobre,
Tão nobre,
Que por essa linda mão,
Tão linda,
Te desse nobreza infinda,
Que me dirias então?
– Que não.

– E se em vez de lira, espada,
Falada,
Eu trouxesse, e por tua mão
Tão linda,
Te desse uma glória infinda,
Que me dirias então?
– Que não.

Se rico, nobre e soldado,
C'roado,
Fosse rei e por tua mão
Tão linda,
Desse a c'roa e terra infinda,
Que me dirias então?
– Que não.

Ai ! qu'esperanças !... sendo eu pobre,
Tão pobre,
Só rico d'alma !... se enfim,
Tão linda,
Mão pedisse... inveja infinda,
Que me dirias a mim?
– Que sim.

(João de Deus)

Amo-te Muito, Muito!

Amo-te muito, muito!
Reluz-me o paraíso
Num teu olhar fortuito,
Num teu fugaz sorriso!

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De cor-de-rosa tinges,

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes que te assalta
Não sei que idem, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra?...

Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua;

Ou quando à luz que adoro
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e choro;

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe!

(João de Deus, in “Campo de Flores”)

A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve 
"Four violin´s strings". Edward Okun. 1914.
Que se desfaz como a neve 
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

(João de Deus, in “Rosa do mundo”)

Beatriz

Tu és o cheiro que exala
Ao ir-se abrindo uma flor!
Tu és o colo que embala
Suas primícias de amor!

Tu és um beijo materno!
Tu és um riso infantil,
Sol entre as nuvens do Inverno,
Rosa entre as flores de Abril.

Tu és a rosa de Maio! 
"Do not leave me". Albena Vatcheva
Tu és a flâmula azul
Que atam à flecha do raio
As tempestades do sul!

Tu és a nuvem de Agosto,
Meu alvo velo de lã!
Tu és a luz do sol-posto!
Tu és a luz da manhã!

Tu és a tímida corsa
Que mal se deixa avistar!
Tu és a trança que a força
Do vento leva no ar!

És a pérola que salta
Do níveo cálix da flor!
És o aljôfar que esmalta
Virgíneas rosas de amor!

És a roseira que a custo
Levanta as rosas do chão!
És a vergôntea do arbusto,
Anjo do meu coração!

Tu és a água das fontes!
Tu és a espuma do mar!
Tu és o lírio dos montes!
Tu és a hóstia do altar!...

És o pimpolho, és o gomo,
És um renovo de amor!
Tu és o vedado pomo!...
Tu és a minha Leonor!

Tu és a Laura que eu amo,
E a minha Tábua da Lei,
E a pomba que trouxe o ramo,
E a margarida que achei!

És o lírio, és a bonina
Dos vales do meu país!
És a minha Catarina!
És a minha Beatriz!

(João de Deus)

O céu

Pátria ditosa e linda, e onde o mal
Desaparece ao meigo olhar do Amor,
Que entre os seres do Além é sempre igual,
No mesmo anseio santo e superior!

Lá não se vê traição e cada qual
Urde ali sua auréola de esplendor,
Doce Mansão de Paz, imaterial,
Onde impera a bondade do Senhor!

Porto de Salvação para quem crê
Nessa Praia do Azul, que se antevê,
Pelo poder da Fé, na provação;

País dos Céus, aonde o pecador,
Depois de bem sofrer aí a dor,
Vai ali encontrar Consolação.

(João de Deus)

Morrer

Não mais a dor intensa e desmedida 
"Ressurreição". Rembrandt
No momento angustioso de morrer,
Nem o pranto pungente por se ver
Um ser amado em horas da partida!...

A morte é um sono doce; basta crer
Na Paz do Céu, na Terra apetecida,
Para se achar o Amor, a Luz e a Vida,
Onde há trégua à tristeza e ao padecer.

Venturosa região do espaço Além,
Onde brilha a Verdade e onde o Bem
É o fanal reluzente que conduz;

Mansão de claridade e pulcritude,
Onde os bons, que adoraram a Virtude,
Gozam do afeto extremo de Jesus.

(João de Deus)
Bondade

Vê-se a miséria desditosa
Perambulando numa praça;
Sob o seu manto de desgraça
Clama o infortúnio abrasador.

Eis que a Fortuna se lhe esconde;
E passa o gozo, muito ao largo;
E ela chora, ao gosto amargo,
O seu destino, a sua dor.

Mas eis que alguém a reconforta:
É a bondade. Abre-lhe a porta;
E a fada, à luz dessa manhã,

Diz-lhe, a sorrir: – Tens frio e fome‘?
Pouco te importe qual meu nome,
Chega-te a mim: sou tua irmã.

(João de Deus)

A Fortuna

Anda a Fortuna por uma praça,
Fala à Ventura com riso irmão,
E mais adiante topa a Desgraça,
E altiva e rude lhe esconde a mão.

Vaidosa e bela, dá preferência
Ao torpe egoísmo acomodatício,
E entre as virtudes, na existência,
Escolhe sempre flores do vício.

E assim prossegue na desmarcada
Carreira louca do vão prazer,
Como perdida, e já sepultada,
No esquecimento do próprio ser.

Depois, cansada e já comovida,
Quando só pede luz e amor,
Acorre a Morte por dar-lhe a Vida,
E vem a Vida por dar-lhe a Dor.

(João de Deus)

Além

Além da sepultura, a nova aurora
Luminosa e divina se levanta;
Lá palpita a beleza onde a alma canta,
À luz do amor que vibra e revigora.

Ó corações que a lágrima devora,
Prisioneiros da dor que fere e espanta,
Tende na vossa fé a bíblia santa,
E em vossa luta o bem de cada hora.

Além da morte, a vida tumultua,
O trabalho divino continua...
Vida e morte – exultai ao bendizê-las

Esperai nos tormentos mais profundos,
Que a este mundo sucedem-se outros mundos,
E às estrelas sucedem-se as estrelas!

(João de Deus)
"The deposition". Fra Bartolomeo
No templo da educação

Distribuía o Mestre os dons divinos
Da luz do seu Espírito sem jaça,
E exclama, enquanto a turba observa e passa:
– “Deixai virem a mim os pequeninos!...”

E que na alma sincera dos meninos
Há uma luz de ternura, amor e graça,
De que o Senhor da Paz quer que se faça
O sol da nova estrada dos destinos.

Vós, que tendes a fé que ama e consola,
Fazei do vosso lar a grande escola
De justiça, de amor e de humildade!

As conquistas morais são toda a glória
Que a alma busca na vida transitória,
Pelos caminhos da imortalidade.

(João de Deus)

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