Tema de Redação - UFG - 2008
A prova de redação
apresenta três propostas de construção textual. Para produzir o seu texto, você
deve escolher um dos gêneros indicados abaixo:
A – Conto fantástico
B – Carta de reclamação
C – Manifesto
O tema é único para os
três gêneros e deve ser desenvolvido segundo a proposta escolhida.
A fuga do tema anula a
redação. A leitura da coletânea é obrigatória. Ao utilizá-la, você não deve copiar
trechos ou frases sem que essa transcrição esteja a serviço do seu texto.
Independentemente do
gênero escolhido, o seu texto NÃO deve ser assinado.
Tema: A interferência do universo virtual na construção das relações
sociais
Coletânea
1. [...] a realidade não só pode ser estimulada, mas
também melhorada. Por que simulá-la se não fosse assim? Isso significa que
simular a realidade não é apenas uma questão de replicar sua estrutura básica,
mas também de fazer quaisquer arranjos necessários para sintonizá-la aos nossos
desejos.
O que é preferível, o mundo real ou o mundo virtual melhorado? Que
pílula você tomaria — a azul ou a vermelha? Diante dos avanços tecnológicos
apropriados, bem como de um programador competente e benevolente, o mundo
virtual parecerá tipicamente mais atraente do que o real. Muito mais. Essa
questão é muito bem ilustrada na cena em que Cypher abandona o grupo e vai
trabalhar com o ilimitável agente Smith. Saboreando um suculento bife e um bom
copo de vinho tinto, ele diz: “Eu sei que este bife não existe. Eu sei que
quando o coloco na boca a Matriz diz ao meu cérebro que o bife é suculento e
delicioso. Depois de nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é a felicidade”.
A Matriz tem bifes deliciosos; o mundo humano real tem comida insípida e sem
graça. A Matriz tem fantásticas boates; o mundo real não tem nenhuma. Mas a
questão é que a Matriz é um paraíso de prazeres sensuais, comparado ao mundo
real. E Cypher é um hedonista completo — o tipo que vai atrás do prazer e não
está disposto a tolerar sonhos nunca realizados e outras baboseiras idealistas.
Assim parece que o mundo virtual só é preferível para o hedonista superficial
que é indiferente ao pecado da autoenganação, enquanto o mundo real é
preferível para qualquer pessoa que ligue mais para coisas importantes como verdade, liberdade, autonomia e
autenticidade.
IRWIN, W. Matrix. Bem-vindo ao deserto do real. São Paulo:
Madras, 2003. p. 254. [Adaptado].
2. No começo fiquei assustado. Mas talvez não seja
especialmente horrível a ideia que li na Folha deste domingo, sobre a
mais nova profissão do mundo. Trata-se do “personal amigo”, e o nome, por si
só, já é um poema. Amigos, por definição, sempre serão pessoais; o “personal
amigo” inverte o sentido da expressão. Você paga uma taxa — que vai de R$ 50 a
R$ 300, imagino que de acordo com a qualidade do profissional — e fica com uma
pessoa para conversar, ir com você ao shopping ou tomar uma água de coco
durante sua caminhada. Seria fácil pôr as mãos na cabeça e ver nessa novidade
mais um sintoma da extrema mercantilização da vida cotidiana dentro dos quadros
do capitalismo avançado. Creio que não se trata disso. Ninguém confundirá “personal
amigo” com um amigo de verdade. Namoro, amizade, relacionamento? Acho bom que a
extrema variação das emoções humanas não fique limitada a duas ou três palavras.
Mandaram-me a notícia de que um site de livros eletrônicos entrega pelo correio
uma fita adesiva para grudar no computador. A fita tem cheiro de livro real.
Eis aí, quem sabe, o segredo do “personal-qualquer coisa”. Ficamos muito tempo
navegando no mundo virtual. Há o medo e a necessidade de entrar em contato
físico com a realidade. Contrata-se um “personal amigo”: pode ser um amigo
falso, mas é uma pessoa real. A solidão pode ser driblada nas conversas pela
internet. Mas não é apenas distração e conversa o que se procura: há, como nos
adesivos com cheiro de livro verdadeiro, necessidade de coisa mais profunda,
quem sabe até se religiosa; penso em termos como presença, calor, vida e
comunhão.
COELHO, Marcelo. Do virtual ao personal. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 29 ago. 2007, p. E9. [Adaptado].
Minha segunda vida
3. O trabalho de parto durou mais de uma hora. Foi o
tempo que passei na burocracia do site www.secondlife.com, no qual cadastrei o
meu e-mail, alguns dados pessoais e escolhi o tipo de conta (são duas: a
básica, grátis, e a premium, que prevê mensalidade de US$ 9 e dá direito
a uma mesada em linden dólares, a moeda local). Escolhi um nome e sobrenome
para o meu avatar — o personagem que me representa dentro da tela — e gravei um
software em meu computador. A partir do próximo parágrafo, o avatar é quem
escreve. O estilo dele é meio rebuscado, como o dos escritores de viagem de
antigamente. A seu modo, relata uma viagem a um mundo virtual, com seus códigos
próprios, alguns tão estranhos quanto os da Lilliput, do escritor irlandês
Jonathan Swift. No barulho difuso, no espetáculo de cores e formas estranhas,
na luz que aparece de súbito — tudo remete a um nascimento. Não houve choro,
mas alguns segundos de silêncio, como se a respiração não viesse fácil. Veio,
afinal. Estou na Orientation Island, a maternidade do Second Life. Como eu,
dezenas de pessoas se materializam neste lugar a cada instante. Estão nascendo
de novo. Escolheram um sexo, um nome e um sobrenome. Aqui são todos parecidos.
Como os bebês. Começam a andar e tropeçam.
Depois descobrem a fala e mexem no que está ao redor. Então, aprendem a
voar. O que torna a segunda vida interessante não é visitar lugares. Para ser
feliz em Second Life, é preciso ter respeito e poder. Poder e respeito. Todos querem
ser a próxima Anshe Chung, a avatar de origem chinesa que ganhou o primeiro
milhão de dólares reais vendendo terrenos irreais.
ÉPOCA, São Paulo, n. 461, 19 mar. 2007, p. 188-193. [Adaptado].
4. O que se entende por consciência? A capacidade
humana para conhecer, para saber o que sabe que conhece. A consciência é um
conhecimento (das coisas e de si) e um conhecimento do conhecimento (reflexão).
Do ponto de vista psicológico, a consciência é o sentimento de nossa própria
identidade: é o eu, um fluxo temporal de estados corporais e mentais,
que retém o passado na memória, percebe o presente pela atenção e espera o
futuro pela imaginação e pelo pensamento. O eu é o centro ou a unidade
de todos esses estados. Do ponto de vista ético e moral, a consciência é a espontaneidade
livre e racional, para escolher, deliberar e agir conforme à liberdade, aos
direitos alheios e ao dever. É a pessoa dotada de vontade livre e de
responsabilidade. Do ponto de vista político, a consciência é o cidadão,
isto é, tanto o indivíduo situado no tecido das relações sociais, como portador
de direitos e deveres, relacionando-se com a esfera pública do poder e das
leis, quanto o membro de uma classe social, definido por sua situação e posição
nessa classe, portador e defensor de interesses específicos de seu grupo. A
consciência moral (a pessoa) e a consciência política (o cidadão) formam-se
pelas relações entre as vivências do eu e os valores e as instituições
de sua sociedade ou de sua cultura. O EU é uma vivência e uma experiência que se
realiza por comportamentos; a pessoa e o cidadão são a
consciência como agente (moral e político).
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1999. p.
117-118.
5. No mundo da internet, nem tudo é livre como se
imagina. Apesar do popularíssimo YouTube — onde todos podem colocar o vídeo que
quiserem — e das comunidades MySpace e Facebook, lotadas de gente de qualquer
credo, raça, preferência sexual e status social, a pedida hoje é ser aceito em
clubes on-lines exclusivos. Pedida entre os bem-nascidos, diga-se. No dia 10 de
outubro, passa a funcionar o Diamond Lounge, um lugar reservado a quem tem
dinheiro, fama e beleza. Difícil? Sim, difícil mesmo. Para entrar no clube, não
é necessário que o candidato a membro seja milionário — Ufa! — mas, quem não
tiver um mínimo de sofisticação ou glamour não deve bater à porta. Os novos
integrantes são indicados por alguns dos figurões inclusos em uma seleta lista
de 1.500 convidados ou têm de submeter seus “currículos” à aprovação de um
comitê. O Diamond Lounge é uma espécie de Orkut dos Vips, mas também funcionará
off-line. Serão oferecidas festas e eventos de negócios para seus requintados
associados.
ISTOÉ, São Paulo, n. 1976, 12 set. 2007, p. 63. [Adaptado].
6. Eu sou uma hacker! Estudo de manhã, passo a tarde
inteira na faculdade e chego em casa por volta das 8 horas da noite, esgotada,
querendo cama e travesseiro. Ainda dou uma morgadinha antes da mutação. No
silêncio da madrugada quando toda minha família está capotada, eu me transformo
numa pirata da internet. Ao meu lado uma caneca de café forte e amargo não dá
chance para o sono. O único barulho que se ouve é o do teclado. Às vezes penso
por que faço isso. Poderia dormir mais tempo, evitar as olheiras, levar uma
vida mais saudável. Mas esse mea-culpa termina assim que ligo a máquina.
A trama, a estratégia, a organização, a execução. É tudo muito excitante. Sou
do bem. O hacker verdadeiro é do bem, uma pessoa curiosa. Eu me defino como uma
pichadora on-line — termo que a categoria rejeita com fúria. Mas num passado
recente, a adrenalina manchou minha ficha cadastral. Até já perdi a conta das
vezes que implorei perdão a Deus. Rezei à beça, juro! Na pele de um cracker, o
hacker do mal, cometi um roubo virtual, roubei um cartão de crédito. Sem pedir
licença, entrei no computador de um cara, fucei a vida dele e, por fim,
surrupiei o número de seu cartão para comprar uma coleção de CDs de música
clássica, no valor de 400 reais.
Crime virtual. Eu roubei um cartão de crédito. Disponível em:
<www.portalbrasil.net/reportagem_crime_virtual.htm>. Acesso em: 21 set.
2008. [Adaptado].
7. No ciberespaço o sujeito libera-se das coerções da
identidade, metamorfoseia-se, de forma provisória ou permanente, no que ele
quer, sem temer que o real o desminta. Sem rosto, não corre mais o risco sem
poder ser visto, está livre de toda responsabilidade, tendo agora apenas uma
identidade volátil. Não há mais o risco de ser traído ou reconhecido por seu
corpo. A rede favorece uma pluralidade de “eus”, o jogo libera-o de qualquer
responsabilidade e favorece a todo instante a possibilidade de desaparecer. A
identidade é uma sucessão de “eus” provisórios, um disco rígido que contém uma
série de arquivos que podem ser acessados ao sabor das circunstâncias. É uma
máscara formidável, isto é, um estímulo ao relaxamento de toda civilidade. Toda
responsabilidade desaparece. Um crime virtual não deixa vestígios. O ciberespaço
é instrumento da multiplicação de si, uma prótese da existência.
NOVAES, A. O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São
Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 130.
8. Os ponteiros dos quatro mil relógios elétricos das
quatro mil salas do Centro de Bloomsbury marcavam duas horas e vinte e sete
minutos. “Esta colmeia industriosa”, como gostava de chamar-lhe o diretor,
estava em pleno zumbido de trabalho. Todos esperavam ocupados, tudo se achava
em movimento ordenado. Sob os microscópios, com as longas caudas a agitar-se
furiosamente, os espermatozóides insinuavam-se de cabeça nos óvulos; e estes,
fecundados, dilatavam-se, segmentavam-se ou, se eram bokanoviskzados,
germinavam e fragmentavam-se em populações inteiras de embriões. Da sala de
Predestinação Social, as escadas rolantes desciam ruidosas ao subsolo e ali, na
penumbra vermelha, aquecendo-se em seu colchão de peritônio, saciados de pseudo-sangue
e de hormônios, os fetos cresciam, cresciam; ou, envenenados, estiolavam-se num
estado de Ípsilons. Com um pequeno zumbido, um ligeiro matraquear, os porta-
garrafas móveis percorriam, num movimento imperceptível, as semanas e
todas as idades recapituladas, até o lugar em que, na Sala de Decantação, os
bebês recém-saídos dos bocais soltavam seu primeiro vagido de horror e de
espanto.
[...] Acima deles, em dez andares sucessivos de dormitórios, os meninos
e meninas ainda bastante novos para precisarem de uma sesta, estavam, embora
não suspeitassem, tão ocupados quanto os outros, pois inconscientemente ouviam lições
hipnopédicas sobre higiene e sociabilidade, sobre a consciência de classe e a
vida amorosa dos pequeninos.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Globo, 2005. p.
179-180.
Propostas de redação
A– CONTO FANTÁSTICO
O conto fantástico é
um gênero que segue a mesma estrutura do gênero conto – apresentação, complicação,
clímax e desfecho. A narrativa do conto fantástico se estrutura de forma a
criar expectativa e suspense, suscitando no leitor um estranhamento provocado
pela oposição entre o natural e o sobrenatural, mediante acontecimentos
estranhos, bizarros e fora do comum.
Tendo em vista essas
explicações, escreva um conto fantástico no qual o protagonista seja um usuário
do Second Life (uma pessoa que assume uma outra identidade no mundo
virtual) e que resolve fazer uma viagem pelo espaço virtual. A história que
você vai criar deve apresentar o estranhamento da personagem (ou personagens)
nascendo diante de um novo mundo, que tem seus encantos e problemas. A trama deve ser construída por meio
de aventuras que girem em torno da construção da nova identidade e da
convivência com outros habitantes desse universo. Conte como as relações
sociais são estabelecidas nesse mundo virtual, considerando-se os papéis
assumidos pelas personagens. Elabore motivações convincentes para a situação
fantástica construída e para as ações das personagens, evidenciando suas
convicções, desejos e crenças.
B – CARTA DE RECLAMAÇÃO
A carta de
reclamação é um gênero do discurso persuasivo que apresenta a um
interlocutor competente um problema, exigindo uma solução. Esse gênero utiliza
como estratégia argumentativa a descrição do problema, suas causas e consequências,
a exposição de argumentos que comprovem que o remetente está com a razão e
apresenta sugestões de possíveis medidas para a solução do problema.
Suponha que você tenha
sido, durante um ano, membro do Diamond Lounge, uma “espécie de Orkut
dos Vips”. Durante esse tempo, você fez muitos amigos, participou de discussões
e decisões importantes não só para a sua vida pessoal e profissional, mas
também para a vida de outros integrantes do grupo. Sem maiores explicações, em
determinado momento, você é notificado de sua exclusão dessa comunidade. Diante
dessa notificação, você resolve escrever uma carta de reclamação
ao comitê de seleção do Diamond Lounge, questionando o descaso
com as relações sociais construídas na convivência virtual da comunidade. Sua
argumentação deve buscar convencer o comitê de seleção de que você merece
continuar no grupo. Para isso, relembre, ao comitê, momentos importantes de sua
trajetória, explicite os motivos de sua insatisfação e as vantagens de sua
permanência, procurando demonstrar que as relações sociais construídas nesse
ambiente virtual influenciam as ações que as pessoas empreendem na vida real.
Para escrever sua
carta, considere as características interlocutivas próprias desse gênero. O título,
por exemplo, não é necessário.
C – MANIFESTO
O manifesto é um
gênero utilizado para declarar publicamente razões que justifiquem certos atos
ou em que se fundamentem certos direitos. Com o objetivo de impactar a opinião
pública, esse gênero apresenta tanto características expositivo-argumentativas,
visando ao convencimento, quanto características persuasivas de apelo
emocional, acentuando uma polêmica já existente.
Imagine que você seja
representante de um grupo de estudantes universitários composto por vítimas de
ações de hackers que, atuando dentro da Universidade, acessaram dados pessoais,
acadêmicos, financeiros, familiares etc. de alguns alunos por meio da rede
virtual. Pense numa situação em que os alunos tenham sido prejudicados de
alguma forma (em sua imagem pública, desempenho escolar, relacionamentos
pessoais, vida financeira etc.) e, por causa disso, o grupo decide protestar contra
as ações dos hackers que violam os direitos do aluno, tornando-o vítima no
mundo real. Você ficou responsável pela redação de um manifesto de repúdio às
formas abusivas e criminosas de utilização do espaço virtual.
Escreva o manifesto
direcionado à comunidade universitária, expondo as razões desse repúdio, discutindo
as conseqüências negativas desencadeadas pelas ações dos invasores e as
transformações que tais práticas vêm impondo às relações entre os
universitários. Para persuadir os leitores a aderirem às idéias do grupo, além
de usar estratégias de apelo emocional, argumente contra as práticas de invasão
de privacidade e de crimes implementadas no meio virtual e sustente a ideia de
que a web é uma ferramenta capaz de promover as relações sociais entre seus
usuários tanto no mundo real quanto no virtual.
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