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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Texto: "Fim do mundo" - Carlos Drummond de Andrade

Fim do mundo

       Não se sabe ainda se o mundo acabou realmente no sábado, como fora anunciado. Pode ser que sim, e não seria a primeira vez que isso acontece. A falta de sinais estrondosos e visíveis não é prova bastante da continuação. Muitas vezes o mundo acaba em silêncio, ou fazendo um barulho leve de folha. Tempos depois é que se percebe, mas já então vivemos em outro mundo com sua estrutura e seus regulamentos próprios, e ninguém leva lenço aos olhos pelo falecido.
      O mundo primitivo dos répteis, o mundo neolítico, o egípcio, o persa, o grego, o romano, o maia... todos esses acabaram, e muitos outros ainda. A história é cemitério de mundos, notando-se que uns tantos acabaram de morte tão acabada que nem sequer figuram lá com uma tabuleta; não se sabe que fim levaram as cinzas.
       Pessoas que aí estão vivas assistiram à morte do mundo em 1.º de agosto de 1914, mas estavam lendo jornal e não compreenderam no momento. Era apenas mais uma guerra na Europa, mas acabou com a belle époque, a douceur de vivre, a respeitabilidade vitoriana, o franco, a supremacia da libra, os suspensórios, o rapé, os conceitos econômicos, políticos e éticos do século XIX – mundo que parecia eterno. Pedaços dele andam por aí, vagando, como o colonialismo, a pressão de grupos financeiros, a servidão civil da mulher, mas pertencem a um contexto liquidado, rabo de lagartixa vibrando depois que o corpo foi abatido. 
       É possível que a previsão dos astrólogos indianos não tivesse base, e que o mundo atual dure muitos anos. Acredito mesmo que é cedo para ele morrer, se apenas está nascendo, e nem sabe ao certo como é ou será. 
       Aos sete anos de idade imaginei que ia presenciar a morte do mundo, ou antes, que morreria com ele. Um cometa mal-humorado visitava o espaço. Em certo dia de 1910, sua cauda tocaria a Terra; não haveria mais aulas de aritmética, nem missa de domingo, nem obediência aos mais velhos. Essas perspectivas eram boas. Mas também não haveria mais geleia, Tico-Tico, a árvore de moedas que um padrinho surrealista preparava para o afilhado que ia visitá-lo. Ideias que aborreciam. Havia ainda a angústia da morte, o tranco final, com a cidade inteira (e a cidade, para o menino, era o mundo) se despedaçando – mas isso, afinal, seria um espetáculo. Preparei-me para morrer, com terror e curiosidade.

       O que aconteceu à noite foi maravilhoso. O cometa de Halley apareceu mais nítido, mais denso de luz e airosamente deslizou sobre nossas cabeças sem dar confiança de exterminar-nos. No ar frio, o véu dourado baixou ao vale, tornando irreal o contorno dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saíamos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte, que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo. O rabo dele media... Como posso referir em escala métrica as proporções de uma escultura de luz, esguia e estelar, que fosforeja sobre a infância inteira? No dia seguinte, todos se cumprimentavam satisfeitos, a passagem do cometa fizera a vida mais bonita. Havíamos armazenado uma lembrança para gerações vindouras que não teriam a felicidade de conhecer o Halley, pois ele se dá ao luxo de aparecer só uma vez a cada 76 anos. 
    Nem todas as concepções de fim material do mundo terão a magnificência desta que liga a desintegração da Terra ao choque com a cabeleira luminosa de um astro. Concepção antiquada, concordo. Admitia a liquidação do nosso planeta como uma tragédia cósmica que o homem não tinha poder de evitar. Hoje, o excitante é imaginar a possibilidade dessa destruição por obra e graça do homem. A Terra e os cometas devem ter medo de nós. 

(Carlos Drummond de Andrade)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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3 comentários:

  1. Não é sem merecimento que CARLOS DRUMMOND é chamamdo de o poeta maior!!! E de fato, o é! Estou radiante de, finalmente, haver encontrado o texto que há muito, quando ainda havia o Canal 100, ouvi numa voz eloquente, em Curitiba, o texto que marcou em mim a essência do belo, da arte, da escrita, da criatividade.... o "Fim do Mundo" do mestre Drummond de Andrade.
    Muitissimo obrigado a quem o escreveu, na imortalidade das letras,-Carlos Drummond A. e, também aqui no mundo virtual!
    Ademar DaPaz

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  2. Caro Ademar,

    Drummond é, sem dúvida, um dos grandes. Fico feliz por saber que você reencontrou o texto e se deleitou com ele.

    Grande abraço!

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  3. Estou com uma dúvida, qual sentimento expresso no trecho: "Não haveria mais aula de aritmética, nem missa de domingo, nem obediência aos mais velhos"... Era de:
    *Êxtase porque tudo iria mudar no futuro.
    *Curiosidade porque não se sabia claramente como seria o futuro.
    *Surpresa com as várias mudanças previstas para o futuro.
    *Alívio porque alguns deveres não existiriam no futuro.
    ???

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