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quarta-feira, 30 de julho de 2014

UFG - 2003 - 1º Fase - Prova de Língua Portuguesa

Prova de Língua Portuguesa - UFG - 2003 - 1ºfase


As questões 01, 02 e 03 referem-se ao trecho que segue.

CIDADANIA E LEITURA - Leandro Konder

            Nossas cidades, com suas desigualdades sociais monstruosas, se transformaram em caldeirões que parecem prestes a explodir. No entanto, as denúncias escritas dessa situação parecem inócuas.
            Por um lado, a literatura tem poder de nos proporcionar uma maior compreensão da nossa condição de pessoas um tanto bizarras e confusas. Então, ela pode nos incitar a tomarmos atitudes de protesto contra a inumanidade e a mentira, de revolta contra a injustiça e a opressão. Por outro lado, porém, apesar do fascínio que a leitura dos textos inquietos exerce sobre os leitores, contribuindo decisivamente para a formação de consciências críticas e de um legítimo espírito de cidadania, a cidade — tal como está organizada — nos coloca na posição melancólica de observadores quase impotentes da dinâmica rudemente pragmática do mercado.
            Com a generalização da produção de mercadorias, o rosto expressivo do revolucionário serve de ilustração na T-shirt, os versos do poeta “engajado” são aproveitados em jingles publicitários, as fortes imagens eróticas do pintor combativo são adaptadas à linguagem da pornografia mercantilizada.
            Como lidar com esse quadro?
            Uma coisa é certa: não podemos deixar que um ceticismo exagerado nos desmobilize. Contra o desânimo, precisamos insistir na reanimação do espírito inconformista.

(Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 17 set. 2002. p. 8.)

QUESTÃO 01

O tema básico do texto, em torno do qual o autor organiza seus argumentos, pode ser expresso por algumas das seguintes proposições:

1-( ) As cidades modernas, com suas monstruosas desigualdades sociais, anulam os efeitos positivos de uma leitura crítica.
2-( ) O espírito de cidadania criadora, estimulado pelas leituras críticas, pode tornar-se inócuo diante da força exercida pelo mercado.
3-( ) A boa literatura que contribui para a construção da cidadania incita os leitores a tomarem atitudes de protesto contra o processo de desumanização das grandes cidades.
4-( ) Nas cidades modernas, a força generalizada do mercado pode anular o efeito mobilizador provocado pela leitura de textos críticos, transformando-os em mercadorias e colocando seus leitores na posição de observadores impotentes diante da perda da cidadania.

QUESTÃO 02

Com relação às estruturas formais e temáticas do texto, pode-se afirmar que


1-( ) o pronome possessivo, na expressão nossas cidades, tem o efeito lingüístico de marcar o ponto de vista do autor, incluindo-o no conjunto dos cidadãos, e ao mesmo tempo de situar na época atual os fatos analisados.
2-( ) o autor descreve e interpreta, nos três primeiros parágrafos, o quadro de desorganização e caos das grandes cidades brasileiras.
3-( ) os exemplos da mercantilização das produções artísticas, no quarto parágrafo, servem como argumentos que sustentam a tese defendida pelo autor.
4-( ) as expressões por um lado e por outro lado, que iniciam respectivamente o segundo e o terceiro parágrafos, evidenciam duas possibilidades opostas de argumentação que acentuam o tom de ceticismo presente na totalidade do texto.

QUESTÃO 03

O quarto parágrafo destaca-se pela sua singularidade lógico-formal. Tendo em vista essa configuração, pode-se afirmar que

1-( ) a articulação lógica que estrutura o parágrafo se baseia na relação de causa e conseqüência, o que é indicado pelo autor logo no início do segmento.
2-( ) o raciocínio do autor sustenta-se na relação causa-conseqüência-finalidade.
3-( ) a seqüência de exemplos apresentada obedece a um encadeamento sintático, estruturado em paralelismos.
4-( ) a justaposição de exemplos, sem uso de conectivos, mantém a unidade temática do parágrafo.

QUESTÃO 04

Um poema pode oferecer inúmeras possibilidades de leitura e interpretação. Considere o que segue:

OS MATERIAIS DA VIDA

Carlos Drummond de Andrade

Drls? Faço meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em clavilux
camabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx

(Antologia Poética. 48.ed. Rio de Janeiro: Record, 200l. p. 259.)

A respeito da seleção lexical que estrutura o poema, pode-se afirmar o seguinte:

1-( ) O poema foi elaborado com neologismos que lembram marcas de produtos, revelando a intenção do autor de ironizar a profusão dessas marcas (paviflex, poliéster, por exemplo) que integram as sociedades industrializadas.
2-( ) Processos de construção de palavras, como a prefixação e a sufixação, ocorrem em vidrotil e ondalit, indicando não só o dinamismo da língua mas também um processo de empréstimos linguísticos.
3-( ) Ao juntar letras em drls e plkx, o autor explora dois traços da poesia contemporânea: o gráfico e o visual, o que antecipa no poema experiências estilísticas de vanguarda.
4-( ) No poema, a forma de muitas palavras adquire maior relevância do que o seu conteúdo, revelando a intenção humorística do autor.

Para responder às questões 05 e 06, leia o trecho abaixo.

[...] O Bispo era tão grande, nos rôxos, na hora de se beijar o anel dava um medo. Quem ficava mais vezes de castigo era ele, Miguilim; mas quem apanhava mais era a Chica.
A Chica tinha malgênio — todos diziam. Ela aprontava birra, encapelava no chão, capeteava; mordia as pessoas, não tinha respeito nem do pai. Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore, na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria da estrangulação do medo? Do mato de cima do morro, vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação, querer amarrar um menino no escuro do mato? Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata, em distantes, porque não tinham de comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena, por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar. [...]

(ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim. 21.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967. p. 38.)

QUESTÃO 05

Analisando os elementos responsáveis pela coesão textual no fragmento acima, pode-se afirmar que

1-( ) o nome Miguilim, no segmento “Quem ficava mais vezes de castigo era ele, Miguilim”, poderia ser retirado sem prejuízo para a compreensão do texto.
2-( ) na oração “o pai e a mãe levaram eles dois”, considerando o uso da norma padrão da língua, os termos eles dois deveriam ser substituídos pelo pronome lhes.
3-( ) em “Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior”, o operador argumentativo mas introduz um enunciado que apresenta uma idéia oposta à do período anterior.
4-( ) as orações “Fizessem isso, ele morria da estrangulação do medo?” se ligam numa relação de condicionalidade.

QUESTÃO 06

No trecho selecionado, pode-se perceber uma heterogeneidade de vozes presentes na narrativa. A multiplicidade de vozes discursivas pode ser exemplificada pelo

1-( ) emprego do tempo verbal na frase “A Chica tinha malgênio — todos diziam”.
2-( ) apagamento do pronome ela na seqüência “ela aprontava birra, encapelava no chão, capeteava; mordia...”
3-( ) uso do discurso indireto livre mesclando a voz do narrador à da personagem Miguilim em “Como o pai podia imaginar judiação, querer amarrar um menino no escuro do mato?”
4-( ) recurso da intertextualidade que marca a relação da história de Miguilim com a história de João e Maria.

QUESTÃO 07

A charge remete ao conflito entre judeus e palestinos, no Oriente Médio.
Fonte: Angeli. Folha de S. Paulo. 9 abr. 2002. p. 2.

Tendo em vista os significados implícitos na charge, podem ser feitas as seguintes afirmações:

1-( ) Ao representar sobre o berço um móbile constituído de granadas, o cartunista sugere que, na Palestina, as crianças aprendem a conviver com armas durante a infância.
2-( ) A imagem pode ser considerada eloquente porque mostra um bebê tentando agarrar um artefato bélico; nesse sentido, a charge simboliza um estímulo à resistência dos palestinos.
3-( ) Por nascerem e crescerem no meio de um conflito armado, as crianças da Palestina tornam-se, na adolescência, os homens-bomba que se imolam em atentados na cidade de Telaviv.
4-( ) Ao referir-se ao mesmo tempo à infância e à guerra, o cartunista denuncia o seguinte fato: as crianças tornam-se imunes à violência que é praticada pelas ações militares.

QUESTÃO 08

MALDIÇÃO -  Zeca Baleiro

baudelaire macalé luiz melodia
quanta maldição
o meu coração não quer dinheiro
quer poesia
baudelaire macalé luiz melodia
rimbaud a missão
poeta e ladrão
escravo da paixão sem guia
edgar allan põe tua mão na pia
lava com sabão
tua solidão
tão infinita quanto o dia
vicentinho van gogh luiza erundina
voltem pro sertão
pra plantar feijão
tulipas para a burguesia
baudelaire macalé luiz melodia
waly salomão
itamar assumpção
o resto é perfumaria

(Vô Imbolá. MZA Music, 1999)

As personalidades citadas no texto de Zeca Baleiro têm em comum o fato de serem marginalizadas pela sua atuação artística ou política contrária aos valores dominantes de sua época. Levando em conta o texto do compositor, bem como as considerações acima, pode-se concluir que

1-( ) o conjunto de nomes citados no texto reitera o estigma de maldição, que o título anuncia.
2-( ) o refrão “baudelaire macalé luiz melodia” expressa um certo repúdio do compositor ao tipo de vida dos personagens mencionados.
3-( ) nos versos “pra plantar feijão” e “tulipas para a burguesia”, as palavras feijão e tulipas remetem à mesma classe social.
4-( ) os versos “tulipas para a burguesia” e “o resto é perfumaria” fazem alusão às pessoas e aos valores que difundem e mantêm a marginalização das personalidades citadas.

QUESTÃO 09

No livro Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo, o eixo principal da intriga é a relação Amâncio–Amélia que

1-( ) revela a mulher, ainda em conformidade com os princípios românticos, idealizando o sentimento de amor, contrariando, assim, os interesses daqueles que a rodeiam.
2-( ) permite a análise de uma coletividade que se coloca em torno de interesses exclusivamente materiais.
3-( ) desencadeia o destino trágico da personagem-protagonista, determinando o seu processo de degradação iminente.
4-( ) possibilita a descrição de suas personalidades, revelando suas fraquezas, taras e patologias, como é próprio da tendência naturalista.

QUESTÃO 10

Em Melhores Contos, de Lima Barreto, aparecem diversas personagens que revelam a visão de mundo do autor. Assim, pode-se afirmar que

1-( ) a mulher é retratada como um ser em ascensão, que rompe com preconceitos da época e se instala no mercado de trabalho.
2-( ) o funcionário público é caracterizado como um profissional competente, submisso, explorado, que se torna vítima das próprias condições de trabalho.
3-( ) o literato é considerado um burocrata, que manifesta uma preocupação exagerada com a rigidez gramatical.
4-( ) o político é tratado como um cínico que ambiciona o prestígio e o poder, utilizando, para tanto, a corrupção, o empreguismo e o protecionismo.

QUESTÃO 11

Leia o poema “Minha desgraça”, de Álvares de Azevedo, a seguir, e responda ao que se pede:

Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta,
Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem m’o dera!) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.

(AZEVEDO, Álvares de. Os melhores poemas de Álvares de Azevedo. Seleção de Antonio Candido. 4.ed. São Paulo: Global, 2001. p. 83. (Os melhores poemas, 13).)

Álvares de Azevedo, algumas vezes, distanciou-se da tendência ultra-romântica, contrariando o rótulo comumente atribuído à sua obra poética. Isso é possível perceber no poema acima, posto que nele se constata

1-( ) uma presença feminina, figura idealizada, responsável pela desgraça e pela frustração do eu poético.
2-( ) um tom de ironia e de sarcasmo, impresso nos versos, apresentando traços sintomáticos da modernidade.
3-( ) um estado de alma que revela uma atmosfera de sonho, de fantasia, de escapismo, de devaneio, testemunhando um eu poético arraigado ao subjetivismo.
4-( ) um teor prosaico, apresentando versos, cuja leveza e humor sutil apontam para uma poética que destoa de um fatalismo típico, presente em poemas como “Lembrança de morrer”.

QUESTÃO 12

A peça teatral A Capital Federal, de Artur Azevedo, é conhecida como uma comédia de costumes brasileiros. Tal afirmação apoia-se

1-( ) numa linguagem que oscila entre o registro coloquial-popular e o normativo-erudito, extraindo dessa ambiguidade muitos lances cômicos que facilitam a adesão do público espectador.
2-( ) na caracterização de personagens típicas, estabelecida pela ausência de profundidade psicológica e pela apresentação de cacoetes lingüísticos e de comportamentos estereotipados, revelando, muitas vezes, uma inadequação entre circunstância e atitude.
3-( ) na configuração de um espaço que serve para identificar e caracterizar as personagens, notadamente mediante uma ambientação afeita aos vícios dos tipos sociais em cena.
4-( ) numa mensagem final em que há um grande elogio aos costumes morais e religiosos de uma típica família do final do século XIX, revelando um explícito combate aos costumes libertinos do período.

QUESTÃO 13

Após a leitura do livro Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa, nota-se que há uma ressignificação de elementos definidores do regionalismo tradicional. Nesse sentido,

1-( ) o sertão é concebido tanto como um espaço sem limites geográficos rigorosos quanto como um território marginal à civilização moderna, distanciando-se, assim, do mundo histórico-referencial.
2-( ) a linguagem resulta de um minucioso inventário folclórico-popular, uma vez que o autor valoriza a palavra apenas como registro documental e ignora outras fontes culturais que poderiam revigorar o arsenal linguístico à sua disposição.
3-( ) a densidade psicológica do sertanejo deriva de um alheamento social e moral em relação ao meio do qual provém, uma vez que o matuto se encontra colado arbitrariamente ao universo rural.
4-( ) a questão da identidade nacional renasce como pano de fundo relevante, em que se vislumbra, na obra do escritor, a perpetuação de uma herança nativista ultrapassada.

QUESTÃO 14

Com relação ao espaço, tempo e personagem – elementos que, entre outros, estruturam o texto narrativo – em A Viagem das Chuvas e Outros Contos, de Jesus de Aquino Jaime, pode-se afirmar que

1-( ) todos os contos revelam um mesmo espaço: a fazenda do pai, numa demonstração exagerada da paisagem estritamente regional.
2-( ) todos os contos apresentam o pai com o mesmo comportamento: um homem introspectivo que não se entrega a uma relação afetuosa com o filho.
3-( ) os contos revelam uma imprecisão temporal, sugerida pela ausência de marcas que determinariam uma cronologia rigorosa dos fatos.
4-( ) os contos demonstram que há uma única personagem central atuando em todos os textos, a qual ora se apresenta na condição de criança, ora na condição de adulto.

QUESTÃO 15

Tradicionalmente, divide-se a obra poética de Carlos Drummond de Andrade em três fases principais: irônica, social e metafísica. Embora sua Antologia Poética obedeça a uma organização personalíssima, as marcas dessas fases não foram apagadas. Diante disso, pode-se afirmar que

1-( ) na fase irônica, a imagem de “um eu todo retorcido” é preponderante, demonstrando, por parte do eu poético, uma atitude de desconfiança e de insatisfação
perante o homem e o seu estar-no-mundo, o que revela um ceticismo indisfarçável.
2-( ) na fase social, a poesia drummondiana aparece como um instrumento de participação política, ao lhe ser atribuído um papel transformador, cuja ênfase está na preocupação com o outro ou com o “sentimento do mundo”.
3-( ) na fase metafísica, a poesia de Drummond é tomada de um confessionalismo despudorado, não raro chegando ao pieguismo e ao sentimentalismo de apelo fácil, impostos pelo peso da bagagem religiosa.
4-( ) em todas as fases da poesia de Drummond, os temas concernentes à família (“Os bens e o sangue”), à terra natal (“Confidência do itabirano”) e ao amor (“Amar-amaro”) surgem com um valor afetivo destacado, revelando um eu poético preocupado com o desvendamento de conflitos e mistérios, próprios desses temas.

QUESTÃO 16

O livro Pessach: a travessia, de Carlos Heitor Cony, é considerado um romance político identificado com os conflitos ideológicos da década de 1960. Por isso, o narradorprotagonista, o escritor Paulo Simões,

1-( ) valoriza e defende, com afinco, uma arte socialmente compromissada, afirmando, de modo reiterado, que o engajamento político do artista é, antes de tudo, um dever cívico.
2-( ) mostra-se, como literato, familiarizado com as estratégias populistas do período, ao defender uma arte política apoiada nas raízes populares da cultura brasileira.
3-( ) adere, incondicionalmente, ao propósito ideológico do movimento guerrilheiro em que milita, acreditando, sem hesitação, na viabilidade histórica do projeto.
4-( ) demonstra uma total e irrestrita indiferença pela efervescência ideológica do período, encaminhando-se para um posicionamento eqüidistante, sem opção política declarada.


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