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quinta-feira, 31 de março de 2016

Texto: “Negócio de menino com menina” — Ivan Ângelo

Negócio de menino com menina

O menino, de uns dez, onze anos, pés no chão, vinha andando pela estrada de terra da fazenda com a gaiola na mão. Sol forte de uma hora da tarde. A menina, de uns nove anos, dez anos, ia de carro com o pai, novo dono da fazenda. Gente de São Paulo. Ela viu o passarinho na gaiola e disse ao pai: 
            ¾ Olha que lindo! Compra pra mim?
            ¾ O homem parou o carro e chamou:
            ¾ Ô menino.
O menino voltou, chegou perto, carinha boa. Parou ao lado da janela da menina. O homem:
            ¾ Esse passarinho é pra vender?
            ¾ Não, senhor.
O pai olhou para a filha com cara de deixa pra lá. A filha pediu suave como se o pai tudo pudesse:
            ¾ Fala pra ele vender.
            O pai, mais para atendê-la, apenas intermediário:
            ¾ Quanto você quer pelo passarinho?
            ¾ Não tou vendendo não senhor.
            A menina ficou decepcionada e segredou:
            ¾ Ah, pai, compra.
            Ela não considerava, ou não aprendera ainda, que negócio só se faz quando existe um vendedor e um comprador. No caso, faltava o vendedor. Mas o pai era um homem de negócios, águia da Bolsa de Valores, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a virar a cabeça dos mais recalcitrantes:
            ¾ Dou cinqüenta reais.
            ¾ Não senhor.
            ¾ Cem.
            ¾ Vendo não.
            O homem meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro, mostrou três notas, irritado.
            ¾ Cento e cinqüenta reais.
            ¾ Não estou vendendo, não, senhor.
            O homem resmungou “que menino chato” e falou para a filha:
            ¾ Ele não quer vender. Paciência.
            A filha, baixinho, indiferente às impossibilidades de transação:
            ¾ Mas eu queria. Olha que bonitinho.
            O homem olhou a menina, a gaiola, a roupa encardida do menino, com um rasgo na manga, o rosto vermelho de sol.
            ¾ Deixa comigo.
            Levantou-se, deu a volta, foi até lá. A menina procurava intimidade com o passarinho, dedinho nas gretas da gaiola. O homem, maneiro, estudando o adversário:
            ¾ Qual o nome deste passarinho?
            ¾ Ainda não botei nome nele, não. Peguei ele agora.
            O homem, quase impaciente:
            ¾ Não perguntei se ele é batizado ou não, menino. É pintassilgo, é sabiá, é o quê?
            ¾ Aaaah. É bico-de-lacre.
            A menina, pela primeira vez, falou com o menino:
            ¾ Ele vai crescer?
            O menino parou os olhos pretos nos olhos azuis.
            ¾ Cresce nada. Ele é assim mesmo, pequenininho.
            O homem:
            ¾ E canta?
            ¾ Canta nada. Só faz chiar assim.
            ¾ Passarinho besta, hein?
            ¾ É. Não presta pra nada, é só bonito.
            ¾ Você pegou ele dentro da fazenda?
            ¾ É. Aí no mato.
            ¾ Essa fazenda é minha. Tudo que tem nela é meu.
            O menino segurou com mais força a alça da gaiola, ajudou com a outra mão nas grades. O homem achou que estava na hora e falou já botando a mão na gaiola, dinheiro na outra mão:
            ¾ Dou duzentos reais, pronto. Toma aqui.
            ¾ Não senhor, muito obrigado.
            O homem veio mandão:
¾ Vende isso logo, menino. Não vendo que é pra menina?
            ¾ Não, não tou vendendo, não.
            ¾ Trezentos reais! Toma aqui!         ¾ e puxou a gaiola.
            Com trezentos reais se comprava um saco de feijão, ou dois pares de sapatos, ou uma bicicleta velha.
            O menino resistiu, segurando a gaiola, voz trêmula:
            ¾ Quero não senhor. Tou vendendo não.
            ¾ Não vende por quê, hein? Por quê?
            O menino acuado, tentando explicar:
            ¾ É que eu demorei a manhã todinha pra pegar ele e tou com fome e com sede, e queria ter ele mais um pouquinho. Mostrar pra mamãe.
            O homem voltou para o carro nervoso. Bateu a porta, culpando a filha pelo aborrecimento.
            ¾ Viu no que dá mexer com essa gente? É tudo ignorante, filha. Vam’bora.
            O menino chegou pertinho da menina e falou baixinho, para só ela ouvir:
            ¾ Amanhã eu dou ele pra você.
            Ela sorriu e compreendeu.

(Ivan Ângelo, in “Pode me beijar se quiser”)


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"Pênalti"— Moacyr Scliar 

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