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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Bastos Tigre – Poemas

Bastos Tigre

Envelhecer...

Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...

(Bastos Tigre)

"Sands of time". Scharjeel Sarfaraz

Envelhecer... (II)

Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo…

Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.

E ela assim me falou, em tom amigo:
– Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.

Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo…
Eu sou, amigo, a tua mocidade.

(Bastos Tigre)

Sintaxe Feminina


Leio: “Meu bem não passa-se um só dia
Que de você não lembre-me”… Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem as regras de sintaxe!

Continuo: “Em ti penso noite e dia…
Se como eu amo a ti, você me amasse!
“Não! É demais! Com bruta grosseria
A gramática insulta em plena face!

Respondo: “Sofres? Sofrerei contigo…
Por que razão te ralas e consomes?
Não vês em mim teu dedicado amigo?

Jamais, assim, por teu algoz me tomes!
Tu me colocas mal! Fazes comigo
O mesmo que fizeste com os pronomes!”…

(Bastos Tigre)

Eterna Incógnita

Não sei quem sou nem sei por que motivo
Vim ao mundo e o que nele vim fazer.
Sei que penso e, portanto, sei que vivo,
Neste anseio instintivo de viver.

Porque procedo do homem primitivo,
Há rugidos de fera no meu ser.
Bom e mau, triste e alegre, humilde e altivo,
Não me posso, a mim mesmo, compreender.

Pois se, de mim, não sei causa e destino,
Que dos outros, do mundo, saberei?
Que definir, se a mim não me defino?

E sigo, ao léu da vida, a ignota lei,
Descrendo das verdades que imagino
E acreditando em tudo o que não sei.

(Bastos Tigre)

Palmeira

Olho a nobre palmeira, em cujo cimo, a fronde
Se agita a farfalhar; e, ora canta e assobia,
Ora esbraveja, em fúria, ou solta, de onde em onde,
Gemidos de uma atroz, lancinante agonia…

Que alma contraditória em teu cerne se esconde
Que te faz rir, alegre, ou suspirar, sombria?
E a palmeira imperial, humilde, me responde:
– Não sou eu! Quem me agita a fronde é a ventania!

Olho, agora, aos meus pés, uma couve tronchuda
As folhas oscilando em leve movimento,
Para cá, para lá, conforme o vento muda.

– Esta, digo eu, não tem prazer nem sofrimento!
E ela, abrindo num riso a face repolhuda,
Impa de orgulho e diz: — Sou eu quem faz o vento!

(Bastos Tigre)

Saudade


Infeliz de quem vive sem saudade,
Do agridoce pungir alheio às penas,
Sem lembranças de amor e de amizade,
Hoje vivendo o dia de hoje, apenas.

Triste de ti, ancião, que te condenas
A mole insipidez da ancianidade,
E não revives na memória as cenas
De prazer e de dor da mocidade!

Ter saudade é viver passadas vidas,
Percorrendo paragens preferidas,
Ouvindo vozes que se têm de cor.

Sonha-se… E em sonho, como por encanto,
A dor que nos doeu já não dói tanto,
Gozo que foi é gozo inda maior.

(Bastos Tigre)

Definição

Amor é mal e é mal que não tem cura;
Mas, sendo mal, sofrê-lo nos faz bem. 
Chora o amante, se o amor lhe dá ventura
E ri da dor, se dele, a dor lhe vem.

O amor é vida e leva à sepultura;
É doce filtro, o amor, e fel contém;
É luz e faz viver em noite escura,
Tonto, a tatear, o alguém que ama outro alguém.

Apesar de cego o amor, vê o invisível;
Por firme que se mostre, é sempre vário;
É Deus e faz, de um santo, um pecador.

Inerme e fraco, é força irresistível;
Sendo, pois, a si mesmo tão contrário,
Quem é que pode definir o amor?...

(Bastos Tigre)

Poesia

Embora a turba iconoclasta, em fúria,
Pretenda depredar os teus altares,
Resistirás! Sobrepairando à injúria,
Farás honra aos teus numes tutelares.

Dos teus próprios fiéis fere-te a incúria;
Abandonam-te às chufas, aos esgares
Dos novos corifeus de língua espúria,
De idéias parvas e expressões alvares.

Mas viverás, Poesia soberana,
Pelo esplendor solar que te ilumina,
Dando-te a excelsa forma parnasiana.

Não tombará teu nobre culto em ruína,
Pois és, Poesia, o anseio da alma humana
De conseguir a perfeição divina.

(Bastos Tigre)

Vita Brevis

"A vida — dizes tu — tão curta é a vida!
Setenta anos... oitenta... e é a morte, é o nada!
Não vale a pena tão penosa lida
Para tão breve e rápida jornada"...

É que medes a vida mal medida,
Aos teus cinco sentidos limitada,
Entre um tálamo e um túmulo vivida,
Pela ambição e o egoísmo partilhada.

Mas vive além da tua natureza,
Foge à matéria e o espírito exercita
Em ações de Bondade e de Beleza;

Belo e útil faze quanto em ti palpita
E sentirás, com glória e com surpresa,
Como a vida é imortal, indefinida...

(Bastos Tigre)

Ouve o teu coração

Não esperes achar compensações na terra:
Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás.
Os que sobem contigo os aclives da serra
Não te virão valer, se ficares atrás.

Aconselha-te alguém? É aquele que mais erra;
Ensina-te a verdade? É o mais falso e mendaz.
E o que, violento e hostil, te excita e incita à guerra
É o mesmo que desfruta as delícias da paz.

Mas não culpes ninguém. É a vida. Aceita a vida...
Como sofres, também os outros sofrerão,
Que há na maior ventura uma dor escondida.

Teu cérebro consulta, ouve o teu coração,
E, em ti mesmo, acharás a energia perdida,
A censura, o aplauso, o castigo, o perdão.

(Bastos Tigre)

"Way to calvary". Juan de Valdes Leal

A cruz

Era o instrumento vil de suplício infamante, 
Condenava-se à cruz o assassino, o ladrão.
Mas ia ter Jesus o atro martírio, diante
Do crime de pregar do Templo a destruição.

Ele próprio a transporta ao Calvário distante
E à medida que vai, pelos calhaus do chão
Arrastando-a, a sangrar, — o madeiro aviltante
Faz-se leve, transluz, num eterno clarão.

E quando nele, enfim, abre os braços Jesus,
O corpo do Homem-Deus toma a forma da cruz
Desde a cabeça aos pés, e duma à outra mão.

Desse instante e, a seguir, pelo tempo infinito
O instrumento de morte, oprobrioso e maldito,
Com Jesus se confunde; e é Vida e é Redenção.

(Bastos Tigre)

Luta interior

Quem vive dentro em mim que ruge e clama
Ou murmura, em soluços, uma prece?
Que, ora, nas fráguas do prazer se inflama,
Ora torturas infernais padece?

E em mim, urdindo das paixões a trama,
Tece intrigas de amor e de ódio as tece.
Não sei se me quer mal, não sei se me ama;
Sei que a minha vontade lhe obedece.

É um ser somente? Serão dois? suponho
Ver e ouvir entre as brumas de um mau sonho.
Peleja singular, áspera e bruta.

E imagino, em presença desta cena,
Que sou a arena e nada mais que a arena
E que um anjo e um demônio estão em luta.

(Bastos Tigre)


Leia também:
"Nascer no Cairo, ser fêmea do cupim" - Rubem Braga
"Vou-me embora pra Pasárgada" - Manuel Bandeira
"Procura da poesia" - Carlos Drummond de Andrade

www.veredasdalingua.blogspot.com.br
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