O adeus
No oitavo dia
sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que
haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que
importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali
estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?
![]() |
"Cold, cold hearts". Jack Vettriano. |
Entretanto a
cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava
subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se
alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.
Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez;
experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais
forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos
quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua,
para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento
constante.
Eu sentia dentro
de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como
se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele
tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que
era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e
uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco
pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: "Meu Deus, seus
olhos estão esverdeando":
Nossas palavras
baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e
integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse
outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como
um lento bailado.
Mas naquela manhã
ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso
dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos
como quem faz algo de estranho; que horas seriam?
Quando cheguei à
rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos
olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus
sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele
movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive
uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.
Havia um grande
caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem
fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de
encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.
E levei dois, três
minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido,
para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela
abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o
recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender,
e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti
que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus
olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de
apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.
(Rubem Braga)
www.veredasdalingua.blogspot.com.br
Leia também:
"A mesa do café" - Antonio Maria
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) - Poemas
“Muito cedo para decidir” – Rubem Alves
Leia também:
"A mesa do café" - Antonio Maria
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) - Poemas
“Muito cedo para decidir” – Rubem Alves
"Olá! Negro" - Jorge de Lima
Conheça as apostilas de literatura do blog Veredas da Língua. Clique em uma das imagens abaixo e saiba como adquiri-las.
ATENÇÃO: Além das apostilas, o aluno recebe também, GRATUITAMENTE, o programa em Powerpoint: 500 TEMAS DE REDAÇÃO
![]() |
Nenhum comentário:
Postar um comentário